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revista
de cultura # 47 |
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Pequenas cartas tocadas de ouvido Mário Montaut
1. CAYMMI
2. DIABOLIR O Diabo não é o pai do rock, e alegria dos homens em comunhão de Diabach, na Tocata em ré menor, só dá fuga para o abismo, onde ao vento Miss You e Gimme Shelter furacão, treme a 5ª Diabeethoven, não bem rock nem mal de sinfonia. Tudo um mesmo diabolir. E que se danem Otto Maria Carpeaux e Júlio Medaglia, esses bons homens de Deus. É natural, no jazzíssimo ancestral, no jazzíssimo ancestral, dar-te a flor do mal. Diabo odeia didjêis sem cabeça para diabolir algum jazz, punks são jóqueis frustrados, e papo de Mano Carioca e Funk Brown é baba morna que não ferve. Diabussy não leva jeito, mas Debussy ao piano, de tão quente soa gelado, como chope nos Alpes. Diabo adora cavalos brancos e napoleões a pé. O Diabo não é o pai do rock, e o Grande Poema Concreto do século XX é Ávida Dollars, o anagrama que Diabreton lançou num pentagrama, pautando aquelas letras em disposições musicais que Augusto, Haroldo de Campos e Décio Pignatari não querem acreditar; e Salvador Dalí morreu pensando nisso, é o que nos revela Léo Gilson Ribeiro, que esteve à cabeceira de sua morte. É natural, no jazzíssimo irreal, no jazzíssimo irreal, dar-te a flor do mal. Satãvivaldi, Diabeatles, Demozart, Diabuarque de Hollanda, Demostones. Diabo quer Ivone Lara. Democaymmi talvez; diabaeté conforme a lua e diabalorixá, se a bela Ivete Sangalo silente e de véu na boca. E Diabogil declarou na entrevista: “verto uma gota de catalisador para a instituição mpb”. Soy Loco Por Ti América e São Paulo 4 Atlético Paranaense 0 neste julho 14 de Lula e Gil na Bastilha em França, reivindicando a guilhotina que a Daslu merece. Diabo odeia o Brasil da CPI. Diabento nunca em Vaticano, já o canto gregoriano, por exemplo… Diabo adora o silêncio. Naquele tempo só era músico quem lia partitura, e de repente todas as turmas do Estácio, de Penny Lane e da Rua Paulo profanaram o Templo da Música Erudita e reviraram seus tesouros secularistas de todos os lados; Legião é o nome da turba, e eles sim, questionaram visceralmente a linguagem da música, não Webern, o suicida radical baleado por engano. O Diabo não é o pai do rock, e onde quer que vá você encontra uma rosa, dinheiro, lua, samba, júpiter e até mesmo um frevo mulher. Só não acha mesmo a realidade. É natural, no jazzíssimo infernal, no jazzíssimo infernal, dar-te a flor do mal.
3. JARDINS DE WEBERN Havia um Jardim Musical. As flores mais diversas, dispostas com maestria em arranjos rígidos, cantavam ininterruptamente na ordem das orquestras, ao aceno imperativo das batutas espalhadas por todo canto. Já estávamos todos cegos pelo brilho dos metais; surdos para os sons que vem de dentro; desafinados pelo excesso de regência. Foi quando por uma ironia de Indeus nasceu ali a flor Webern. E o tal jardim implodiu. Despetalou-se. Hoje estamos entre pétalas, em queda livre pelo abismo. Pétalas, pétalas, pétalas. As bachianas, as wagnerianas, as debussyanas pétalas se cruzam, se chocam, se evitam; ecoam no silêncio abissal longe de todo sol. Pétalas, pétalas, pétalas: os mortos nos saúdam. Alguns de nós jazem no fundo do buraco negro e pescam as despetaladas sem a menor esperança de vê-las restituídas numa sonora e meiga flor de jardim. Pétalas, pétalas, pétalas; Capricho de Morte: Isso é Anton Webern. E não me digam que suas notas são estrelas formando lentamente uma constelação no céu; lampejos num infinito espaço sereno, ou pior: Música de Invenção (essa não!!!). Conheço bem a História de Webern. E não me iludo.
4. DALÍ Não existe o encontro, o beijo, o adeus; jamais haverá o nascimento, o êxtase, a cruz, a morte de um ser amado. Tais generalidades são aberrações religiosas, ou alucinações da arte. Você está só; e um tempero único limita sua culinária à própria mesa, onde o amor dadivoso pode quando muito tangenciar reflexos de suas intimidades gloriosas.
5. A OSTRA E O VENTO DAS CIDADES
Aquelas 5 notinhas subindo e descendo a escala. Num sopro.“Gotas de inspiração” (??): disseram os escribas anciãos da antiqüíssima Veja – ano de 1998, dezembro: “O que era um jorro, agora são gotas de inspiração” (??). Queriam retumbância épica num tempo em que já gotejavam as próprias Fontes Míticas das cidades, e não mais jorravam como antes os elixires que nos levavam aos arquetípicos lugares que desde sempre nos aguardam. Exigiam, parece, sambas de exaltação pelas cidades praticamente isentas de Sonho. Quando a mediocridade social interdita as parcerias do artista com os cidadãos, o que ele produz, no máximo, (mantendo-lhes os preciosos teores) são obras menores. A individualidade do artista democraticamente exilado ainda permite esses pequenos milagres. As misteriosas condições da Sagrada Inspiração! Mas como dizia, aquelas 5 notinhas descendo e subindo a escala, num sopro, vêm do “Prelúdio para a tarde de um fauno”. Sim, e Debussy também compôs em “La Mer”, um “Diálogo do vento com o mar”. E como a fascinante violência dos mares lhe paralisava os poderes de criação, ilhou-se, para tal, numa dessas cidades onde havia certamente um realejo; logo, as 5 notinhas introdutórias não têm dono. São domínio público. Um presente do vento, que maravilhosamente estrutura a canção em vento, e vento que vira páginas e páginas: da história, dos jornais, dos diários adolescentes e do Livro Mundo nestas cidades de música. Nelas tudo é sutil: doces e tenebrosas delicadezas, na terra, a bordo do avião de Iracema ou do homem-avião-corpo estranho sonhando as canções que justificam em beleza, o pesadelo globalizado. Ser homem vento música ao “poente na espinha das tuas montanhas”, em Mangueira, “na campina quando flora”, numa escada espiral, no alto da torre e no “varal onde balança ao léu minh’alma”, não é fácil. Ser essa contínua ventania nos versos, requebros, harmonias e melodias que não se arapucam em conceitinhos pós-modernosos, não é fácil. Disto sabem a ostra, o vento, os realejos de Claude Debussy, os amoladores de faca, os mares e rios do tempo, o “Espírito” que “sopra onde quer” e, claro, as cidades.
6. AS VITRINES CONVIDAM E o que se abria então, não era apenas a novela “Sétimo Sentido”, de Janete Clair, com Regina Luana Duarte Camará, mas uma das maiores aventuras do espírito humano:
AS VITRINES
Eu te vejo sair por
aí
Os letreiros a te
colorir
Já te vejo
brincando, gostando de ser
Na galeria E até as pessoas mais simples do povo cantarolaram alguns versos dessa música. Quem, já na aguda clarividência da prima nota orquestral não ouve um segredo que nunca será revelado? Digo isso porque o labirinto é a ética e a estética da perdição, e aqui estamos pouco à frente dos espelhos e corredores de Borges. Por sábios e aterrorizantes que sejam, neles não habita o mais Terrível dos Anjos: o Anjo da Música, ancestral de Lúcifer, bem mais que luz, bem mais que vento, bem mais que verbo, bem mais que Deus. Só mesmo a Paixão para nos sugerir algumas das encarnações possíveis no universo das Vitrines. Mas a Paixão a que me refiro, não é suscetível de ser definida por nenhum dos cânones da estética de até então. As vísceras ecoam inteligentíssimas em meio aos labirínticos brilhos, altamente convidativos, onde chega a Inteligência, com reflexões tão viscerais que nos despertam os mais secretos humores do Sagrado Arrepio, o Definitivo, que nos eriça a epiderme de toda idéia, e todos os pensamentos ocultos entre os pêlos e poros do Ser Em Ereção, que anseia as entranhas da Eternidade. Decerto há de ter havido a Idéia, o pensamento musical, em graças de jorro e contenção. E paciência, pétalas de dúvidas floreando vulcões, vales, torrentes da natureza subjacente a quaisquer galerias por onde respirem e reflitam vitrines. E também cinemas, vitrais, grãos de pipoca, flertes, risos de nostálgicas traições e desapegados romances vividos. Tudo isso houve na desesperada perseguição à musa. Mas o que me comove é o milagre da Alquimia da Fábula em substância musical. Um delicadíssimo e inquebrantável fio condutor, de insuspeita matéria, foi levando o canto por meandros interditos ao cerebralismo, ao puro automatismo poético e melódico e aos ismos outros e tais. A fé, a insônia, as sólidas cadeias harmônicas onde brotam rosas melódicas, “A asteca do piano, quão sonha no center”, os fluxos e os refluxos da inspiração, os amores antigos, os cigarros, os luares, conspiraram pela formação de um quinto elemento, cujo vislumbre encantou o músico impelindo-o para além dos maravilhosos espelhos do reino, de onde com certeza ele nunca mais saiu. E se há tanto tempo pergunto como é que o Chico fez As Vitrines, e ninguém me dá uma réstia de ilusão, não tenho o direito de assim sonhá-las e de ali o manter? Já dizia o nosso saudoso Mário Quintana, que os estruturalistas muito se assemelham àquelas crianças, que na ânsia de descobrir de onde vem a musiquinha acabam por destroçar o boneco. Não, não é desses que nós, sonhadores e amantes da Música necessitamos. Precisamos mesmo é de gente que alimente o fogo do mistério, para que o sonho se propague até quem sabe perto do nascedouro das Vitrines. Felizmente, todos os artífices das hábeis explicações baratas não conseguiram senão estimular os ímpetos investigativos da nossa Paixão, que só quer pistas e mais pistas, porque sabe-se perpetuamente entre vitrines de um labirinto infinito, eterno, insolúvel. Compositores, poetas, sonhadores! À falta de literatura de sonho musical é preciso que vocês se manifestem e nos falem de uma canção. O que de vocês nela explodiu, o que esperou, o que calou. Se o verbo nunca há de revelar a essência de um milagre, seria justo que as suas palavras em conversas, ao menos fomentassem o encanto.
7. JOHN ONO LENNON
“Estou com medo de ficar louco. Desta vez foi por pouco. Você vacilou. Você se furtou. Você se calou. Você me deixou numa das horas mais sérias: Quando não sabia de mim. Quando não sabia de mim. Quando não sabia de mim. Cachorra! Vadia! Você não sabe que o amor enlouquece? Onde te escondes, quando me matas de alegria, quando de mim te livras? Um vão de amar sobra-te ainda em algum lugar. Então vêns pra fora, e o mundo é todo teu. Dá-me um silêncio só em pensar no que possuis. Fora de mim. Quando te rasgo, quando te queimo, quando te rego, quando te… amo? Estou só. Estou só. Estou com muito frio. Mas vou em frente, e até faço: amor. O amor que se pode fazer quando se nasce. Que coisa, hein! Numa guerra de amor você sempre descobre quem… Lembra, querida? Desculpe, foi mal.” Extraordinária, nossa Crua Paixão Descortinada? Teria a voz do poeta sustentado o peso da criança por amor a todos os amantes? Mas às vezes serenava tudo em arte, nas suavidades aterradoras, como esta: Woman, I know you understand, the little child, inside the man. D’onde a força para a épica doçura? O claustro luxuoso em que vocês brincavam de reis, é abismo de essências; trevoso e cintilante, onde se irmanam sóis, sangram constelações e lê-se o que está escrito nas estrelas. Imagine John sentado ao piano. A inédita canção soando, sobre as leis de outra gravidade, você há muito já conhece, e apenas a transpõe, nitidamente, para o instrumento possível, num estilo quase seu.
8. LATO SENSO OU DOS ÓCULOS DE MAGRITTE Magritte morreu em agosto de 1967, e a viúva, Georgette, vendeu grande parte de seu ateliê, nos anos 80. Linda McCartney comprou muitas dessas coisas para dar de presente de Natal a Paul, que começara a pintar em 1983. Ele ficou eufórico: “Foi fabuloso. Eu uso o cavalete. Da primeira vez, fiquei muito intimidado, imensamente. Nem sabia o que colocar na tela, que ganhei com alguns pincéis, a paleta e uma mesinha de pintura com gaveta e prateleira. Tudo de Magritte. Mas aí pensei: ‘O que ele teria desejado? Que eu a usasse. Vá em frente, meu filho. Pinte!’ Também tenho os óculos de Magritte. Recentemente mandei consertá-los porque são tão fabulosos. Quer dizer, eles são ícones. E sabe o que mais? São ótimos quando não consigo ler as letras miúdas”. Esse é o velho Paul, chegando aos 64 e, parece, de um jeitinho bem diferente da canção (“When I’m sixty four”). Paul McCartney conheceu René Magritte em meio ao furacão cultural que devastava Londres, em 1965. No ano anterior, abrindo a exposição americana do pintor, disse André Breton: “Tudo quanto Magritte fez representa o culminar daquilo que Apolinnaire descreveu um dia como ‘o verdadeiro senso comum’- ou seja, o dos grandes poetas”. Viajamos por 64, 65, 66, 67, passando pela explosão beatle, pela morte de Breton, pelo nascimento de Sg. Pepper e pelo falecimento de Magritte. E nos anos 60 (honra ao número) é bom lembrar que o compositor russo Tchaikowsky, aos 5 aninhos, e quase um século antes escreveu, em francês, um poeminha surreal intitulado “A velhice de um homem que fala sonhando na idade de 60 anos”. Lembrar também que em 1965, John Lennon e Paul McCartney compuseram “Norwegian wood”, sobre a qual Paul comentou: “Entrei, e ele (John) já tinha este primeiro verso, que era brilhante: ‘I once had a girl, or should I say, she once had me’. Era tudo que ele tinha, não havia título, não havia nada. Eu disse: ‘Ah, bom, ah-ah-ah, pois é… ’ E a canção se compôs sozinha. Tão logo a gente tenha uma grande idéia, elas tendem a se compor sozinhas, desde que a gente saiba como compor canções”. Em total afinação com essas palavras de Paul, Ricardo Reis segredou a tal Pessoa, Fernando:
“…Que, quando é alto e régio o pensamento Confidências Eletivas! E já sou mui próximo d’1 suspiro de Goethe, quando ouço triste, compondo-se neste canto, rabiscos misteriosos de assinatura cruel, talvez única verdade, (pessoal?) distendendo-se, alongando-se, espalhando-se num balé de incógnitos signos a verterem todo o sangue que a alma anônima não tem.
9. CARTA AO FRANCIS Meu caro amigo, me perdoe, por favor, mas: o Rio precisa de uma Sinfonia? No dia a dia de suas mazelas, e de sua beleza infinita, o Rio se afina com uma Sinfonia? Ouvi a “Sinfonia Do Rio De Janeiro De São Sebastião” uma única vez, pela tv, impressionado com o entusiasmo da performance coral, orquestral, porém, nada que me despertasse o desejo de segunda audição. E daquelas primeiras impressões, palpito: “Corcovado”, “Wave”, “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”, “Estação Derradeira”, “Sabiá”, “Garota De Ipanema”, “Lygia”, “Samba Do Avião”, é que traduzem a Cidade Maravilhosa; e tenho pelas graças citadas o mesmo fascínio e devoção que sinto por Bach, Debussy, Tchaikowsky, Chopin, Webern, Stravinsky e muitos outros da “Grande Música”. Sou meio romântico, sabe? Acredito nas musas, e acho que elas nos visitam com maior freqüência, quando acumulamos grandes riquezas espirituais numa ampla cultura viva, o que não vejo por aí. Depois, Francis, “fazer” uma Sinfonia não é façanha nenhuma para um músico do seu tamanho. O Tom também fez Sinfonias. E daí? Duvido que todas juntas valham uma de suas primorosas canções. Outro dia, estava o Arrigo Barnabé na TV Cultura de São Paulo, dizendo que não troca um quarteto de Villa-Lobos por toda a música feita no Brasil a partir da década de 60, inclusive a dele. Essas falas me deixam desconcertado, apoplético; eu que não troco mesmo uma das boas do velho Pixinga por tudo o que do Villa ouvi. O próprio Heitor, num rasgo de sinceridade, afirmou ser “Carinhoso” a música mais linda do mundo. Sei que estas mínimas da minha vasta ignorância, não resistem a análises mais sérias, mas esta cartinha, Francis, não é tão séria, e cheia de erros, bobagens. Adoro escrever levando em conta o percentual de bobagens que habitam o meu pensamento, botando fé em que a liberdade para dizer uma idiotia é quase premissa de real sabedoria. Penso agora na Tijuca, Baixada Fluminense, Ipanema, Rocinha, Urca, São Conrado, Leblon, e tremo num êxtase cívico que só o Rio me dá. Sinfonia, se é que o gênero ainda vale a pena, rima melhor com Alta Cidadania, o que ainda não temos no Brasil, mas… me perdoe, me perdoe, por favor: o Rio precisa de uma Sinfonia?
10. OUI DEBUSSY Oui Debussy… e quão aflitivas ênfases! bastam 3 notas… e um sentido de mundo se impõe na órbita da rosa voadora… que segredos de jardinagem, a sugerir o esquecimento, pois estes arpejos nada lembram, mas decretam aromas de um presente incondicional, e a mão secreta de um dos lados do piano sabe, num de nossos ouvidos, o sombrio, de sermos alegres no contraponto de outros dedos e teclas, na correspondência de notas e estrelas, a espontaneidade de um sorriso brando à mais serena das luminosidades… (que nem sempre está no céu), que bem pode estar no reflexo de um olho, quando nu, contemplando sim, a fixa estrela e a cadência de tantas luzes no extremo jardim. Oui Debussy… escapuli, doido varri, chaminé ri, já me esqueci, uma nota só, inaugura um silêncio de morte, morte grávida de explosões, e um universo jaz em pó nas pétalas, gramados de um outro mundo, as peças do disco se sucedem, e é sempre a mesma música, a Grande Música de quem provou volúpia dos gelos, volúpia dos trópicos, volúpias do amor num roseiral. Tente seguir Debussy! sem esquecer a jovem nua, que na meiga solidão de seu quarto, apalpa profundezas, no Espelho. Oui Debussy… bem te vi, deja vu, já ouvi, c’est la vie, música enamorada da mais nova juventude do mundo, cuja publicidade coloca em portentosos outdoors de São Paulo, as moças mais graciosas e luxuosas de todos os tempos, portais da luminosidade faminta de meus olhares na noite, e um banco já se autonomina “Van Gogh”, nas claras evidências publicitárias do futuro mundo ser um socialismo rico, tal um pagode de Debussy; e orientes ressuscitam, ocidentes se amortalham, na doce naturalidade de se chupar uma manga no pomar de um velho império; e na incessante lida, se orientalam os nervos em paz de trabalho. Oui Debussy… e não apenas porque tenha jogado os dados com Mallarmé, habitado a casa de Usher, versado aos largos assuntos de Pound e antevisto, na pura música, alguns Ouros de Breton…
Oui Debussy
11. PESSOA Encontrei, numa dessas livrarias do Sonho, a obra de todos os seus heterônimos ocultos, disfarçada em volumoso livro de exuberante encadernação; verde toda vida. O terrível choque do indelével. Deusindeus talvez saiba o que senti. E na veloz alquimia das horas sonhadas já tal livro é um Jardim. Perplexo, e em nostálgica reverência, contemplo as heterônimas florações verdejando no tão sem fim. Que música ousará romper o silencioso mistério? Súbito eu olho a cachorra mimosa mordendo uma das folhas mais tenras, alegre, saboreando algo que nunca provei…
12. HITLER & WAGNER
13. TCHAIKOVSKY O coração tem razões que a própria razão desconhece, dizia Vinícius, citando Pascal. Curioso Tchaikovsky, o mais intenso coração musical, para tantos virar, sinônimo de música fácil, de música piegas, de música velha. Pierre Boulez, numa entrevista recente, descartou Tchaikovsky de vez: “O velho ainda tolero. Tchaikovsky é patético, velho demais”. E a gente, se ilude, dizendo, já não há mais coração. Foi o que ouvi Alceu Valença e Jackson do Pandeiro lhe responderem. O coração é mesmo velho, complexo, e de sua natureza é criar enormes confusões. Tchaikovsky é exemplo eloqüente. Concertos, sinfonias, balés, em forma péssima, mas com que clarões de beleza! Algumas das mais indeléveis melodias que a Música conhece, infelizmente, não são para essas delicadezas que não suportam a crueza emocional, a nervosa mãe de toda arte, e que, impotentes diante da Beleza (“Terrível”, diria Rilke), se apressam em detonar a forma de certas composições, insustentáveis pela própria densidade e excessivo brilho de seus elementos. Tchaikovsky não cabe mesmo em si, mas com muito prazer o mundo o acolhe. Pessoas simples continuarão ensinando Tchaikovsky a Otto Maria Carpeaux, pela eternidade, já quando Boulez e companhia não existirem há muito, muito tempo. E eis que bem-vindos chegam a esta conversa, os versos de Eliot: “A tremenda ousadia de um momento de entrega… Que um século de prudência jamais revogará”.
14. TOM LA PLUS QUE LENTE Jobim abriu a janela; a onda mais que lenta, quase amarela. Do arrebol, do arco-íris, Corcovado e Arpoador. Em tudo iam lendas de luz, equacionando geografias de um Rio de tarde ensolarado na fímbria mais legítima do encantamento d’água. O piano branco de neve contrastava invernos de França, às costas do maestro encabulado com tanta beleza solar; garotas de Ipanema, um baião e a bossa nova. Atrás dele, as gélidas partituras na penumbra em quase nevada o envolviam num calor de lembranças; fantasmantes de toda órbita num jubileu de todas as valsas de amor dançadas, um coro de todas as canções de amor cantadas, na vastidão do apartamento que o esquecia à janela, contemplando os milagres de Eros no Rio De Janeiro às quase cinco da tarde. O piano, exercia um feitiço apaixonado, e polo atrator de todas as estações, ainda silente, prenunciava a futura conciliação de duas eras; nevascas e ardentias, Leblon e Notre Dame, giros passarinheiros no Bosque da Tijuca e o ovo de uma águia, girinos de Atlântida e estratégias tupinambás na hora da caça à netinha de um beija-flor, sabiás pousando no silêncio do arquipélago encoberto, névoas e relâmpagos de toda ordem - “o tempo urge um arquimatrimônio, neste exato instante” - começara a refletir o maestro; e errante, escancarou os viveiros do quintal de seu avô, sem compreender a natureza destas razões, imagens, delicadezas sonhando o mar. Acordes rouxinóis brincavam de Strauss no piano já cúmplice dos dedos maestros, e La Plus Que Lente já a soar; não que Tom, num plágio de anjo, esquecesse Debussy; apenas anotava rapidamente a chuva no cenário dos compassos a serem muito perseguidos pela polícia da música brasileira, detetives que jamais saberão o que é estar, nos sentidos musicais das parcerias inevitáveis, Chovendo Na Roseira; sim, e a chuva fina caía, em plenas graças do sol, pois é assim, é sempre assim, quando chovia um Tom Jobim, naquela onda, sobre uma rosa, e que se cante, La Plus Que Lente.
15. E MÁRIO MONTÔ EM PICASSO: TOURADAS DE 10 DE MARÇO Picasso não tem nenhum compromisso com a Beleza.Às vezes ela acontece. Picasso só lembra Picasso. E isso é bom. E isso é ruim.(como no caso Niemeyer). Chagall. Ernst. Dalí. Miró. Magritte. Eles pareciam todos comprometidos com a Beleza. Picasso não tem nenhum compromisso com a Beleza. Às vezes ela acontece. Toureiro é pedra. Mulher é pau. E cor tudo o que abrange o interior da vista sem saída; da alma plena de faísca negra, rubra, roxa, azul. Picasso é Baile D’Alma Trancada Por Um Portal De Si Mesma; e o Baile nem sempre alegra. Vi as Mulheres de Picasso entre adulta gente, espelhos e crianças seres sempre à parte, em aulas: Banhistas sem tempero alegre e Mulheres de todo o sangue vertido no mundo. Se a alma é plena há de ser fonte de carne em pressões líquidas que mais e mais a exaltam, aproximando-a de todo o resto do Universo de sós, o humano é só um mais sozinho. Cresça, jorre, alma de carne, em preciosismos do horrendo visto por crianças que não entendem o porquê estar ali. Com suas professoras. Ali em “Thereza Costurando”, “Mulher Deitada Lendo Um Livro” ou na “Banhista”. Tanto faz ser criança em qualquer tela dessas. Porque: “O Múltiplo é que é face de a mais nos vermos… “O Múltiplo é que é olho de foice a mais nos sangrem… “O Múltiplo é o horrendo estado de ser real em sombras, em estilhaços de carne que ainda têm filhos… Mas Picasso é Singularíssimo e ri pelo espelho de quem ali o procura só nas telas. Caramba, quanta mestra bonita! E aos evidentes sinais de cumplicidade, já logo me sentava na roda dos pimpas: para uma aula de professorinha trêmula em discretos risos. Aula mesmo é tudo o que diz uma criança atrapalhando o silêncio que a professorinha pedia enquanto ainda a namoro. Porque: “A Queda da Beleza nos provoca outros fascínios… “A Queda da ternura nos provoca outros afetos… “A Queda da Inteireza nos provoca outro caráter… “A Queda do Ilusório transparece outros reais… Mestres: não há que se explicar Pablo Da Queda, o homem. “Picasso”, talvez. Mas, “Eis o homem fora das letras… “Eis o homem fora da música… “Eis o homem sem artifícios… “Eis o homem luto real… “Eis o homem sempre faminto… “Eis o homem sem suspensórios… Talvez por que: “Picasso é a assimetria do amor quando se faz ordem… Talvez por que: “O amor é monstruoso enigma, de quem a Mulher é a Flor Mais Que Perfeita… e duro o solo d’ond’ela brota e hasteia para as pétalas de seu terror mugirem no vento de uma tourada eterna. Picasso: Que medo! Cadê meus violinos? E mário montô em Picasso: Touradas de 10 de março. |
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Mário Montaut é compositor e intérprete, autor dos CDs Bela Humana Raça (1999) e Samba de Alvrakélia (2005). Contato: mario_montaut@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil). |
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