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revista
de cultura # 47 |
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Palavras em movimento: jogos de palavras na obra poética de Jacques Prévert Eclair Antonio Almeida Filho
a) as repetições ditas inúteis, como a batologia, as reticências, os etc, epanástroles e epanadiploses; b) os processos anagramáticos; c) e o emprego de bilingüismos. Antes de analisarmos a presença e a função de cada um desses procedimentos em Prévert, devemos ver como a crítica compreende os jogos de linguagem nos poemas prévertianos. Segundo Régis Boyer, em seu artigo “Mots et jeux de mots chez Prévert, Queneau, Boris Vian et Ionesco”, os jogos de palavras, jamais gratuitos, implicam um sentido segundo, subjacente. Em suas palavras, En règle générale, il y a jeu de mots quand un sens second vient se superposer au premier, porte ouverte aux allusions perfides, à la satire, à l’ironie, à l’absurde ou tout simplement à la bonne humeur. En ce sens, un jeu de mots est rarement gratuit: il tient avant tout de l’ironie parce que, comme elle, il est chargé de faire entendre plus qu’il ne dit expressément (1968). De acordo com Jacques Bersani et alli, em seus poemas, Prévert realizaria a síntese de duas correntes que atravessam o Surrealismo: as correntes “dos jogos de linguagem” e “a libertária”. Para Bersani, Prévert é um poète qui joue des mots, qui sait, comme le recommandait Breton, leur laisser “faire l’amour” pour mieux engendrer la merveille, Prévert est aussi et en même temps celui qui se joue des mots pour mieux se jouer de la société d’exploiteurs et d’oppresseurs qu’il vitupère”. (1995) Vários pesquisadores dos jogos de linguagem na obra prévertiana apontam para a renovação e inovação que Prévert aplica em suas construções verbais. Para Andrée Bergens, em seu livro Prévert, a obra prévertiana surpreende pela inovação verbal, pelo detalhe inesperado e pela apresentação irreverente, renovando ininterruptamente a atenção e o interesse do leitor: En dépit de la variété des sujets qui s’offrent à lui, on est étonné du petit nombre de thèmes qu’il traite et fait constamment revenir dans ses poèmes. C’est par l’invention verbale, le détail inattendu qui surprend, la présentation irrévencieuse qu’il renouvelle sans cesse l’interêt du lecteur. (1969) Para Roger Bordier, em seu artigo “Esquisses pour le portrait d’un meneur”, as construções verbais de Prévert são sem equivalentes. Conforme Bordier, Prévert soube dar ao trocadilho (calembour) e aos jogos de palavras um tom que não existia até então: ces constructions verbales [qui] demeurent sans équivalent. Le calembour, qui n’est certes pas une nouveauté mais auquel il sut donner un ton et un sens qui n’existaient pas jusqu’alors. (1991) Por sua vez, Vittorio Sereni, em seu artigo “La vocation de la joie”, aponta os mecanismos que tornam as construções verbais prévertianas tão singulares. Citem-se entre eles: o emprego natural da gíria, jogos de palavras e duplos sentidos, os quais criam um efeito de desagregação e dissociação: Il est facile d’en vérifier les mécanismes: emploi tout à fait naturel de l’argot (mais l’argot a-t-il une vertu poétique?), phrases à tiroirs, jeux de mots et doubles sens. L’effet de désagrégation, de dissociation, implicitement polémique – au sens où la poésie est en soi une attitude critique – est incontestable. (1991) Acrescente-se que, neste efeito de desagregação e dissociação, Prévert opera uma nova associação de sons, idéias e palavras. Conforme Pierre Parlebas, em seu artigo “Synthème dans Paroles de Prévert”, Parlebas observa que Prévert inverte, revira termos e expressões figés, provoca os sons e as palavras de maneira a, inicialmente, deformá-los, desintegrá-los para depois reformá-los. De acordo com Parlebas, o ataque que Prévert empreende à tradição literária é tal que muitas vezes se hesita em nomear “poemas” os textos prévertianos: Les termes et les expressions sont retournés sur le gril. Prévert s’attaque aux mots et aux sons; il les provoque, les entrechoque, les déforme, les transforme, les reforme. Une telle refonte du langage dans un creuset souvent irrévérencieux ne va pas sans heurter quelque peu la tradition littéraire: on hésite souvent à nommer “poèmes” les textes prévertiens. (PARLEBAS, 1976) De acordo com Bersanni et alli, entre as várias formas pelas quais a poesia prévertiana transita, ela soube encontrar na canção seu melhor meio de expressão: poésie qui a su trouver dans la chanson, parmi une infinie variété de formes (contes, inventaires, charades, monologues, saynètes) son moyen d’expression – et de diffusion – privilégié. (1995) Para Andrée Bergens, o estilo de Prévert corresponde ao da canção, com suas retomadas de palavras, frases e refrões, sendo sua estrutura de repetição a melhor maneira de enfatizar algo que se tem a dizer: D’ailleurs, le style de Prévert correspond assez à celui de la chanson qui, avec ses redites de mots, de phrases, de refrains, est proche du parlé; et la répétition est un des procédés favoris de notre auteur qui, lorsqu’il a quelque chose à dire, n’hésite pas à le répéter haut et souvent. (1969) No entanto, Bergens considera apenas a relação interna que a canção mantém com os poemas prévertianos. Por nossa vez, entendemos que Prévert expande esta relação canção-poemas para toda a sua poética. Assim, como numa partitura, ecos sonoros, refrões, frases musicais, ritornelos podem perpassar vários poemas na obra prévertiana. A seguir, veremos como o poeta trabalha em seus poemas a repetição nas formas da batologia, etcs e reticências, de maneira a mostrar o que seria mesmo redundante. Tais recursos situam a repetição na poética prévertiana do movimento, porém implicando um retorno com renovação. Em seu livro Estudo analítico do poema, na parte em que estuda a rima, Antonio Candido observa que a redundância é um recurso muito usado na poesia moderna: Além da rima, há outras homofonias, como a repetição de palavras, de frases e de idéias que se chama Redundância - recurso muito usado na nossa poesia moderna. (2004) Em seu artigo “Poésie et redondance”, Jean Cohen estuda as relações entre redundância e discurso poético. Para ele, há na língua uma regra tácita conforme a qual, depois de se ter, por exemplo, escrito “Racine”, se é obrigado de escrever duas linhas depois em seu lugar “o autor de Fedra”, de tal modo que o escritor deve evitar repetições. (1976) Diz Cohen que a redundância é mais tolerada na poesia (em verso) que na prosa: Le vers (versus), est par sa essence un retour, “un discours répétant totalement ou partiellement la même figure phonique”. Cette récurrence systématique viole, on vient de le voir, une loi du langage au niveau du signifiant. Mais le phènomène a également un aspect positif, constituant le second temps de ce mécanisme à deux temps qu’est le processus de poétisation. Quel est cet aspect? Le fait est que l’homophonie soit proscrite par la prose, même lorsqu’elle vise au “bien écrire”, montre l’inanité de toute conception “esthétique” du vers, qui tendrait à faire de l’homophonie une “euphonie”. En fait, dans le langage, tout signifie. (1976) Para Cohen, a redundância é o próprio mecanismo da poesia. Em suas palavras: Mais la répétition proprement dite, malgré sa fréquence, reste un phénomène marginal. Ce que cette analyse cherche à démontrer, c’est que la redondance est la loi constitutive du discours poétique. Ce qui veut dire que la cohérence du poème est obtenue au niveau de la synonymie pathétique, ou équivalence des pathèmes de termes noétiquement différents. (1976) De acordo com o crítico, há 3 (três) tipos de redundância: do signo, do significante, do significado. (1976) A redundância do signo seria “la répétition proprement dite, qui peut aller du mot à la strophe”. Cohen dá como exemplo um verso de Verlaine em que a palavra “triste” é repetida 2 (duas vezes).
Ó triste, triste était
mon âme Haveria “tautologia” toda vez em que os “termes répétés sont le sujet et le prédicat d’une proposition”, ou seja A é A.
A redundância do significado também pode se apresentar de maneira total ou partial. A total é representada pela sinonímia, definida “comme l’identité des signifiés et la différence des signifiants”. (1976) A parcial apresenta-se na forma da figura conhecida como pleonasmo, que consiste em que “l’un des sèmes du mot est repris sous forme d’un autre mot”. Exemplo: subir para cima. Salienta Cohen que, embora proibido, não há nenhuma lei que explique porque não se usar o pleonasmo. La redondance n’informe pas mais elle exprime et c’est pourquoi tout langage émotionnel tend à prendre la forme répétitive, qu’il s’agisse de l’émotion poétique, ordinaire ou religieuse. (1976) Embora aponte observações pertinentes em relação à redundância na poesia, Cohen mostra ter uma percepção restrita ao opor “poesia” e “prosa”. Num poeta como Prévert que não distingue gêneros artísticos, tal separação não funciona. Em Prévert seria melhor dizer que há uma aparência de redundância. Muitas vezes em seus poemas, Prévert usa como recurso poético a repetição de uma palavra em diferentes sentidos. Ao analisar seu conceito de pun (trocadilho) em Prévert, Anne Hyde Greet, autora de Prévert’s word games, considera que na obra prévertiana há repetition of a single word in different senses, or even tighter yoking effected by a word that suggests another word entirely: that is the pun. (1968) Para tal, Prévert utiliza-se de relações sonoros como “rhyme and alliteration, assonances”. Concorrem para a realização de um pun, de acordo com Greet, em Prévert “Homonyms, homophones and paronomasia”, os quais “are based on accidental resemblances” a fim de produzir efeitos ou de seriedade ou de zombaria (1968). De acordo com Dante Tringali, em sua Introdução à Retórica, o trocadilho (ou calembur, do francês calembour), é “um jogo espirituoso de palavras para se fazer efeito” (1988), e se consegue por diferentes caminhos baseia-se em 3 (três) procedimentos retóricos, a saber: a paronomásia, a antanáclase (ou diáfora) e a reunião de sílabas. Para Roberto de Oliveira Brandão, 3 (três) figuras produzem efeito de sentido a partir da repetição de um mesmo vocábulo. São elas: a parelha (silepse, na classificação de Fontanier, ou seja, “utilização da mesma palavra em sentido próprio e em sentido figurado”), a antimétabole (“repetição de uma palavra ou de sinônimos, formando uma simetria”), a antanáclase (“repetição da mesma palavra, estabelecendo-se uma relação paradoxal”). (1989). No poema “Midi certitude butée”, dedicada a Jean-Claude Lévy, Prévert emprega os homófonos “cerf” (cervo), que o Senhor caça, e “serfs” (servos), que o Senhor comanda, para não deixar dúvidas de que Lévy está sempre do lado deles. É como se tanto “cerf” como “serf” fossem caçados e comandados pelo Senhor: La voix radieuse du soleil ne s’accorde pas avec les voix impénétrables du Seigneur, et quand le Seigneur chasse à courre, Jean Claude Lévy est toujours du côté du cerf, du côté des serfs, du côté de la vie. (PRÉVERT, OC II, 1996) No poema “Suivez le guide”, de Fatras, para que ninguém siga o guia, o mestre, Prévert promove um quiproquó com as formas homófonas e homógrafas de “suis”, que em francês tanto pode ser a primeira pessoa do singular do presente dos verbos “être” e “suivre”: LE GUIDE Suivez le guide! UN TOURISTE Je suis le guide. SON CHIEN Je suis mon maître. UNE JOLIE FEMME Je suis le guide. Donc je ne suis pas une femme, puisque je suis un homme. LE TOURISTE Je suis cette jolie femme. SON CHIEN Et moi aussi, je suis cette femme, puisque je suis mon maître. LE GUIDE Suivez le guide. Moi, je ne suis pas le guide, puisque je suis le guide. LE TOURISTE Je voudrais bien savoir qui est cette jolie femme que je suis. SON CHIEN Je ne suis pas mon maître, puisque je suis mon maître et que cela m’ennuie. LA JOLIE FEMME Je suis le guide, je suis la foule, je suis un régime, je suis la mode, je ne suis plus un enfant. Oh!J’en ai assez! Je ne suis plus personne. Elle disparaît. LE GUIDE Oh! J’en ai assez! Je démissione. Il disparaît. LE TOURISTE Oh! Je ne suis plus le guide, je ne suis plus un homme, je ne suis plus une femme, je ne suis plus rien. Il disparaît. LE CHIEN Enfin! Je ne suis plus mon maître, donc je suis mon maître et je ne visiterai pas les châteaux de la Loire! Para Prévert, não seguir o guia implica não repetir o que ele diz e não fazer o que ele manda. Quanto às transformações que Prévert opera no uso de figuras de linguagem, é interessante citar o artigo de Michel Collot, “Le vers dans Paroles”. Nele, Collot aponta para as transformações que Prévert imprime em certas figuras de repetição, tais como anadiploses, anáforas, paralelismos. Para Collot, o que chama atenção é a maneira como Prévert emprega tais figuras, de maneira a que não haja repetição, mas sim transformação: Encore faut-il préciser que, chez Prévert, la reprise n’est jamais une pure et simple redite; elle s’accompagne d’un déplacement formel ou sémantique. (2004) Pode-se citar como exemplo o seguinte diálogo do poema Diurnes, de Fatras: URBI Sans doute, je suis celui qui peut être. TORBI Peut-être, je suis celui qui s’en doute. Nesse diálogo, utilizando a epanástrofe (repetiçãona frase seguinte as mesmas palavras da frase anterior mas em ordem inversa) com os significantes “/sâ/ /dut/ e / /pøtetr”, Prévert faz-nos passar da certeza à dúvida. Enqaunto, na fala de Urbi, esses dois significantes remetem a “sem dúvida” e “pode ser”, na de Torbi remetem a “talvez” e “se duvida disso”. Prévert renova os sentidos repetindo os sons, mas não as classes gramaticais, escapando assim a uma simples repetição. Já na primeira página de Paroles, pode-se encontrar um jogo de palavras baseado na repetição do verbo “croire” de maneira que ele possa ter ao mesmo tempo seus sentidos de certeza e de dúvida: Ceux qui croient croire. Em “Théologales”, de Spectacle, Prévert faz acompanhar de um comentário este mesmo jogo diafórico. Para fazê-lo, Prévert o põe na boca de um ábade, um representante da fé, o qual não pode(ria) ter dúvida: L’abbé, entre ses dents Tss. . .Tss. . (hochant la tête) Je crois en Dieu. . .Je crois qu’il va pleuvoir. . C’est agaçant. . .Tss. . Tss. . . le même mot pour affirmer la certitude et le doute. Em “Performances”, de Imaginaires, Prévert relaciona a extensão do tempo marcado por uma ampulheta (sablier) com a extensão de um areal de praia (sablier) contra o qual se corre. Tal relação se realiza por contaminação semântica. No primeiro verso: “Sur une plage déserte un homme court contre le sablier, mais la plage n’en finit pas”, criamos em nossa mente a imagem de um homem que corre contra o areal de uma praia interminável. No entanto, ao lermos o segundo verso “L’homme a tout le temps devant lui, mais tout le temps c’est si loin. (PRÉVERT, OC II, 1996)”, ao notarmos que o poeta fala do tempo que está diante dele, percebemos que o areal (sablier) torna-se ampulheta (sablier) por contaminação semântica. Para o poeta, o tempo é algo que só conseguimos ver ao longe, sendo inalcançável. Ao analisar o poema “L’amiral”, de Paroles, Michael Collot considera que Préver joga com as homofonias da língua francesa à sa manière. De acordo com o estudioso: alors que la rime a traditionnellement pour fonction de marquer les frontières du vers et/ou de la strophe, de fixer la signification en la retrempant dans la répétition des sonorités, le jeu prévertien sur les homophones efface les limites du mot, du syntagme ou du vers, au profit de l’équivoque ou de l’inversion du sens. (2004) Em geral, Prévert ora usa a batologia para evidenciar o discurso repetitivo e morto da Igreja, do Estado, da Sociedade, ora usa as reticências ou os etc. para dizer que já se conhece o que se irá dizer mesmo antes de ele ser dito. De acordo com o Dicionário Eletrônico Aurélio, a batologia é a “repetição inútil de uma palavra, frase ou pensamento”. Parece que a “repetição inútil” é necessária para afirmar ou a identidade ou o poder de uma autoridade constituída. Citem-se como exemplos as diversas aparições de “vieux vieillards”, provavelmente militares: Le temps des vieux vieillard est fini. […]
Nous
étouffons dans le brouillard […]
Sur la Place
de la Muette Le vieux vieillard de la chanson traverse la place en faisant des moulinets avec sa canne. Em Prévert, apenas a repetição “inútil” daria aos atos dos representantes da Igreja, do Poder ou do Exército algum sentido, o qual se tornaria ao mesmo tempo desnecessário pela redundância. Assim, por exemplo, o papa deve fazer um gesto com sua mão de papa: Le pape fait avec sa main de pape un geste. No poema “Les anneaux de Saturnes”, de Imaginaires, um rei, figura autoritária e vitalícia, fica feliz como um rei: En raison des services rendus, Saturne permit à Janus de convoler avec lui-même en justes noces sans être contraint de se demander sa main et le roi fut heureux comme un roi mais sans plus et même beaucoup moins que les témoins amoureux qui, à eux deux, ne faisaient qu’un. Annales de la complexité Chapitre II, “Le voici l’anneau si doux”. Para também marcar as repetições ditas “inúteis”, Prévert se utiliza de recursos como as reticências e os etc. No Dicionário eletrônico Aurélio, “reticências”, além de significar os 3 (três) ou mais pontos que indicam interrrupção do pensamento, podem ser uma omissão intencional de coisa que se devia ou podia dizer, mas apenas se sugere, ou que, em certos casos, indica insinuação, segunda intenção, emoção. Ex.: & [Sin.: pontos de reticência, pontos de suspensão e (fam.) pontinhos, três-pontinhos. Cf. reticencias, do v. reticenciar.] De acordo com Dante Tringali, as reticências e os etc, além de interromper o que se dizia, deixam para o leitor a tarefa de imaginar o resto: RETICÊNCIA – interrompe-se repentinamente o que se dizia, para que o leitor imagine o resto. É, pois, uma frase inacabada de propósito, uma parte fica elíptica. (1988) Na língua francesa, as reticências tomam o nome de “points de suspensions” (pontos de suspensão). Conforme o Petit Larousse, o ponto de suspensão pode indicar uma interrupção por conveniência, emoção ou reticência: Points de suspension : signe de ponctuation (.) indiquant que l'énoncé est interrompu pour une raison quelconque (convenance, émotion, réticence, etc.).
. . . . . et le verbe s’est fait cher, et il a quêté parmi nous. É o final, porém em prosa, do poema “Avant la lettre”:
Avant la lettre O trecho que Prévert atribui a um “Napoléon bon apôtre”: . . ..du peuple français que j’ai tant aimé bem poderia fazer parte das “primeiras e últimas palavras de um grande homem”, de Spectacle:
Pipi. . .
caca. . . maman. . . papa. . . tombé sur la tête. . .
Napoléon
bobo. . . Geralmente, em Prévert, as reticências vêm acompanhadas de etc. Em “Les paris stupides”, poema de Paroles, as reticências e os etc. servem para dizer quais são as apostas estúpidas de Blaise Pascal:
Un
certain Blaise Pascal Para Pierre Parlebas, os pontos de suspensão (. . .) criam uma relação entre Prévert e seus leitores, levando-os a contribuir para completar o enunciado ou mesmo preencher aquele “vazio”: Les points de suspension sont révélateurs: il est inutile d’ajouter ce qui est évident; ce serait pure redondance. [. . .] Le lecteur est donc sollicité; il n’est pas que récepteur passif: l’auteur le met à contribution en lui suggérant de compléter son énoncé. Il se crée une sorte de connivence entre Prévert et le lecteur, connivence qui s’articule autour d’une communauté de culture. (1976) Vê-se, pois, que os pontos de suspensão, ao invés de suspender um discurso, o continuam. Para estudarmos os processos anagramáticos [1] em Prévert, baseamo-nos em 2 (dois) importantes trabalhos sobre o anagrama e os processos anagramáticos. São eles: a tese “Processos anagramáticos em Jacques Prévert. Uma poética da recri(e)ação”, de Maria Thereza Redig de Campos Barrocas, defendida em 1990, na UFRJ, e o artigo “Postérité littéraire des Anagrammes”, de Jan Baetens, publicado na Revista “Poétique” n. 66. Ambos os trabalhos partem dos estudos sobre anagramas empreendidos por Ferdinand de Saussure. Em sua tese, Thereza Barrocas percebe que o procedimento anagramático poderia se estender, além do nível da palavra, para os níveis do sintagma e do discurso. No entanto, nota a estudiosa que ela não poderia aplicar o termo “anagrama” aos processos de decomposição-recomposição utilizados por Prévert, uma vez que, conforme o conselho de vários linguistas, o termo “anagrama” tem “um sentido bem preciso que designa um tipo de desconstrução/reconstrução ao nível da palavra” (1990). Assim, Barrocas optou por criar o termo “processos anagramáticos” Depois de inúmeras consultas e pesquisas chegamos à conclusão de que não havia um termo lingüístico para designar, em todos os níveis, esses processos” (1990). Para Barrocas, o nível do sintagma é o mais utilizado (1990), sendo baseado na homonímia (1990). Por nossa vez, também consideramos pertinente o uso do termo “processos anagramáticos” para os casos em que Prévert decompõe para recompor sintagmas, palavras e discursos, porém não de um modo tão abrangente quanto o que propõe a pesquisadora. Em nosso enfoque, os processos anagramáticos constituem uma modalidade de procedimento a serviço de sua poética do movimento. De certo modo, Barrocas ajuda a traçar uma relação de analogia entre os processos anagramáticos e a escritura prévertiana de movimento. Em sua análise, a estudiosa distingue em Prévert poemas “a favor” e poemas “contra”. Os primeiros tratam da natureza, do amor, das crianças e da liberdade, ao passo que os segundos atacam a guerra, a submissão pela religião, o ódio, o capital, conforme se lê: “De um lado, estariam os poemas da Liberdade e da Natureza: do amor, dos animais, dos clochards, da ruas de Paris, de tudo o que foge à regra. [...] Em oposição, estão os poemas contra o sistema, a Cultura – se são contra o campo de cima estão a favor do campo de baixo. O campo é o mesmo, mas a posição é outra: a primeira é de defesa, a segunda é de ataque. Ataque contra o exército, a guerra, a polícia, a Igreja, a Escola, a Crítica e j’en passe”. (1990) Nota a estudiosa que os processos anagramáticos aparecem com maior freqüência nos poemas “contra”, nos quais eles têm como função desconstruir, descongelar. Conforme Barrocas: “Ora a anagramatização supõe uma desmitificação desses ‘mitos’ burgueses, através da quebra de associações previsíveis e estereotipadas, de clichês, de lugares-comuns supostamente eternos e naturais. E essa recriação se faz por meio de um jogo que desmonta, modifica (insere na história) e, por ser jogo, contraria, por sua gratuidade e desperdício, a ideologia burguesa da seriedade, da troca e do lucro.” (1990) Em seu artigo, Jan Baetens chama a atenção para a fragilidade teórica da noção de “palavra-tema” (mot-thème) empregada por Ferdinand de Saussurre. Segundo Baetens, uma questão que preocupava Saussure (e que o levou a abandonar seus estudos sobre o anagrama) era a do limite da palavra-tema: seria o anagrama uma propriedade textual ou uma quimera do leitor? (BAETENS, 1985). Para Baetens, o problema estaria em que num texto longo é possível encontrar qualquer combinação de palavras, uma vez que numa língua formam-se palavras com um pequeno número de letras e fonemas. Assim, o estatuto do anagrama seria indecidível. Esta dispersão de elementos fônicos de uma palavra-tema ficaria restrito a textos pequenos. Em relação aos limites espaciais da palavra-tema, afirma Barrocas que: “no caso do anagrama, o espaço limitado torna menos possível o efeito do acaso. Mas, com o paragrama, logo que se ultrapassam dez linhas, o cálculo das probabilidades nos diz que, numa tal massa fônica, e tendo em vista o número restrito de fonemas de uma língua, torna-se cada vez mais fácil encontrar qualquer hipograma. [. . .] Para Saussure, o importante era provar que a presença da palavra-tema era intencional por parte do autor.” (1990) Pode-se citar como exemplo de palavra-tema em Prévert um seqüência do poema “Fastueuses épaves. . .”, de La pluie et le beau temps. Neste poema, todo um verso se constrói a partir da palavra-tema “sommeille”. Desta palavra, extrai-se a seqüência “sommeille sous l’oeil seul du soleil” (PRÉVERT, OC I, 1992). De “sommeille” chega-se a “soleil” , passando-se por “l’oeil seul”, que se forma da decomposição sonora e silábica de “soleil”. O mesmo jogo entre “soleil” e “seul oeil” retorna num poema que Prévert dedica ao fotógrafo Robert Doisneau:
La vie vue à l’oeil nu De acordo com Thereza Barrocas, diferentemente da noção tradicional de anagrama como transformação gráfica de uma palavra e/ou de uma frase em outros palavras ou frases ao longo de um texto, para Saussure, pode-se fazer a distinção entre “anagrama” (ou anagrama perfeito), como a recombinação de todos os elementos de uma palavra ou de uma frase, e a “anafonia”, em que a transformação se dá no nível sonoro. Saussure empregava a palavra anagrama para “designar a forma combinatória perfeita, em que todos os elementos do hipograma são reutilizados; enquanto que Anafonia designa não – como parece – um anagrama oral, e sim uma forma imperfeita em que os fonemas encontrados não são exatamente os da palavra-tema, só mantendo com eles uma relação de semelhança fônica imperfeita, e não de identidade.” (BARROCAS, 1990) Assim como a homonímia e a paronomásia, deve-se acrescentar como procedimentos de anafonia a metátese e a contrepèterie, ambos baseados em deslocamentos de letras ou sílabas. Como exemplo de anagrama perfeito em Prévert, podemos citar 2 (dois), a saber: o poema “LA SAGESSE OU LES POUX DANS LA TÊTE”, e “Économie Militaire”, de Choses et autres. O primeiro poema é formado de 2 (dois) versos com uma palavra cada. No primeiro verso lê-se “Minerve” (a deusa da Guerra), no segundo lê-se Vermine (verme). Na leitura anagramática, passa-se da Guerra aos vermes nos corpos dos mortos:
Minerve Note-se que, para criar um anagrama perfeito, Prévert manteve as mesmas letras de Minerve em Vermine, alterando a formação das sílabas que compõem Minerve, mantendo apenas a sílaba mi. Assim, o r de ner de Miverne passa para a sílaba ver de Vermine. Já em “Économie Militaire”: Couteaux généreux supprimant les généraux coûteux.
Como exemplo de anafonia, cite-se o poema “Sceaux d’hommes égaux morts”, de La pluie et le beau temps. Neste poema, embora o poeta não escreva as palavras Sodome e Gommorre, pode-se ouvi-las nos seguimentos “Sceaux d’hommes égaux morts” e “Seaux d’eau mégots morts”. No poema, o título “Sceaux d’hommes égaux morts” reaparece como “Seaux d’eau mégots morts”, como se se tentasse escapar a uma censura:
Seaux d’eau Nos 2 (dois) versos finais do poema, os corpos de 2 (dois) fuzilados (deux corps) sob os escombros (sous les décombres) passam a fazer parte anagramaticamente da sombra do cenário (l’ombre du décor)
Deux corps sous les décombres Com um mínimo de recursos (palavras) o poeta obtém um máximo de efeito. Neste poema, Prévert, por meio do anagrama poético, transpõe 2 (duas) regras fundamentais da palavra humana: a do laço codificado entre o significante e o significado, e a do linearidade dos significantes. Ao termo “palavra-tema” Baetens prefere “Infratexto” (infratexte), criado por Jean-Pierre Vidal. O infratexto, que engloba “anagramas, plágios, estereótipos e procedimentos à la Raymond Roussel” seria um segundo texto, um outro texto: autre texte (occulte et occulté) sous le texte, lieux communs ou formules (au sens algébrique ou chimique) le “chiffrant”, l’accompagnant, le relançant, le désignant. Sous le texte, mais non hors le texte, transcrit en le texte par des équivalents, travaillant selon le mode de sa disparition. (1985) Para Baetens, a pertinência do anagrama como funcionamento textual é “le fruit d’une construction lectorale, d’une lecture qui récrit le texte (1985). No poema “OÙ CELA NOUS MÈNE ou OÙ CELA NOUMÈNE”, as várias possibilidades de se ler o infratexto já se apresentam desde o título. Prévert joga com 2 (duas) seqüências homófonas, porém com sentidos diferentes. Para o poeta, importa saber onde o númeno (a coisa-em-si kantiana) nos leva. O poema também apresenta 2 (duas) possibilidades de leitura, uma gráfica e outra gráfico-sonora. Na possibilidade gráfica, lê-se:
Cette cravate est un objet en soie mais Por sua vez, na possibilidade gráfico-sonora, pode-se ler:
Cette cravate est un objet en soi mais Este jogo com “soie/soi” também aparece em “Opéra Tonique”, dedicado a Isidore Ducasse, numa reescritura sonora do verso “Ó Poulpe, au regard de soie”, do primeiro canto de Maldoror, porém com “soi” no lugar de “soie”:
Poulpe au
regard de soi, l'homme-pieuvre dans la glace A escrita anagramática é dotada de um poder de evocação considerável. No seu artigo “Sete proposições sobre o sétimo anjo”, sobre Jean-Pierre Brisset, Foucault afirma que sob as palavras da língua francesa há frases, fragmentos de discursos, que ecoariam num murmúrio infinito: “As palavras são fragmentos de discursos traçados por elas mesmas, modalidades de enunciados imobilizados e reduzidos ao neutro. Antes das palavras, havia as frases: antes do vocabulário, havia os enunciados; antes das sílabas e da organização elementar dos sons, havia o infinito murmúrio de tudo o que se dizia. [. . .] De forma que sob as palavras de nossa língua atual frases se fazem ouvir – pronunciadas com essas mesmas ou quase – por homens que ainda não existiam e que falavam do seu futuro nascimento.” (2001) Nos versos finais do poema “Romancero Miró”, do livro Miró, a partir dos sons das sílibas “é-lé-men-taire” da expressão figé “C’est élémentaire” (é elementar), Prévert ouve a frase “Elle l’aime en terre”. O significante “terre” “puxa” os outros 3 (três) elementos da natureza: “air” (ar), “feu” (fogo) e “eau” (água”:
Miró aime la vie No poema “ET QUE FAITES-VOUS, ROSETTE, LE DIMANCHE MATIN?”, de La pluie et le beau temps, percebe-se o mesmo poder de evocação da escrita anagramática. A partir da decomposição silábica da palavra “Concupiscence”, proferida no poema por um pregador (sermonneur), Prévert se reporta a outras 5 (cinco) palavras:
Concupiscence
le mot conque [. . .] No mesmo poema, o poeta transforma a sílaba-palavra con em palavra-tema dos últimos 8 (oito) versos: Con-cu-pis-cence
Il parla aussi d’autre chose de maneira que estas palavras fiquem contaminadas pelo sentido de con. Em relação ainda a con, vê-se, em Prévert, que esta palavra está ligada à “conscience”, ou melhor à “conscience tranquille”. Prévert transforma em seus poemas “conscience” em “science des cons:
La conscience d’aujourd’hui c’est la science des cons instruits. Quando vous citez un texte con, si c’est indispensable, n’oubliez pas le contexte. Para Herbert Marcuse, a arte, a verdadeira arte, seria uma “contraconsciência: a negação do pensamento realístico-conformista” (1981). Vê-se, em Prévert, o mesmo processo desconstrutor-reconstrutor com con na expressão “Société de consommation” (sociedade de consumo). No poema “TROPHÉES ET PERTES”, de Choses et autres, Prévert a transforma em “société de cons et de sommations”:
Saciété des
notions Num jogo anagramático, Prévert gosta de aproximar rêve (e) de vrai (e), a fim de o sonho seja verdadeiro. Para fazer esta aproximação, se Prévert parte da palavra vrai (e), ele divide vrai (e) em 2 (duas) sílabas: o seguimento rai(e), que soa como /ré/, passa a ser grafado “rê”, enquanto o “v” transforma-se em “ve”, que soa como /v’/. Temos assim “rêve”. Mas se ele parte de rêve, ele inverte as sílabas “rê” e “ve”, mantendo o som /v’/ de “ve”, e transforma graficamente o “rê” em “rai (e)”. Temos assim “vrai(e)”. A seguir citaremos 4 (quatro) poemas em que Prévert torna o sonho verdadeiro. No poema “1917”, do livro Miró, Prévert afirma que a liberdade dos sonhos (rêves) de Miró era verdadeira (vraie)
et la liberté de ses rêves (de Miró) No poema “La fleur”, de Choses et autres, Prévert diz que uma flor “ancienne toute neuve” é verdadeira como sonho:
La fleur
ancienne No poema “Smig-smag”, Prévert declara que apenas “ils” (aqueles que oprimem, como os “Ceux” com maiúsculas do “Dîner de têtes”) não podem (não são capazes de) sonhar verdadeiramente:
Ils n’ont pas de quoi rêver vraiment. Por meio de um jogo anagramático, pode-se saber, por exemplo, a que palavra Prévert se referiria. Em “L’amour”, de Choses et autres, Prévert apresenta o “amour” como “éternité étreinte” (eternidade abraçada fortemente). Note-se que “étreinte” é um anagrama perfeito de “éternité”.
L’amour O jogo anagramático é tão perceptível que Prévert atribui tal poema justamente a “Anna Gram”. Ao se ler o verso “Furtive étreinte de l’éternité” (PRÉVERT, OC II, 1996), do poema “La cinquième saison”, de Fatras, pode-se inferir que o poeta vai se referir ao amor:
Furtive étreinte de l’éternité
Vê-se, pois, que Prévert não se limita a utilizar um jogo anagramático apenas num poema, preferindo, por sua vez, inseri-lo numa rede autotextual, em que se pode ler um poema juntamente com outro. Um belo exemplo da força de movimento que os processos anagramáticos representam é o poema “RENCART DES MOMIES”, de Le jour des temps. Por meio de uma epanástrofe à la Prévert (ou seja, com modificação gráfica, sonora e semântica), o “rencart des momies” (encontro das múmias) transforma-se em “mot mis au rencard” (palavras postas em inatividade).
Rencart des momies Note-se que Prévert emprega aleatoriamente as 2 (duas) grafias de rencard, ou seria rancard ou rencart?. Entre as palavras postas em inatividade por Prévert, citem-se
Le mot coeur moqueur Vê-se que Prévert joga paronomásticamente com as palavras. O “mot coeur” (a palavra coração), ao se repetir, transforma-se em seu homófono “moqueur” (zombeteiro). A combinação sintagmática “mot nu mental” soa como “monumental”; lembre-se aqui o mesmo jogo em
Le monde mental Em “mot-mot révolté”, de acordo com uma nota da Pléiade, Prévert ter-se-ia referido à revolta dos Mau-Mau (que em francês soa como “mot-mot”) do Quênia contra os colonos ingleses entre 1952 e 1956 (PRÉVERT, OC II, 1996). À medida que se vai lendo as palavras “mises au rencard”, pode-se perceber que Prévert as vai liberando de um sentido mumificado. No poema, a palavra “viscéral”, que, conforme o Petit Robert, pode significar, além de relativo às vísceras, - Profond, intime, inconscient (opposé à réfléchi). « Ces profondeurs viscérales de l'être humain » (Aymé). Une haine viscérale, irraisonnée. Avoir une peur viscérale des araignées - é enfim liberada:
Le mot viscéral As palavras vão além da moral, da santidade. Os versos
Plus bas que la ceinture remetem ao poema “Les images des Milles et une nuits”, de Imaginaires, em que Prévert cita um texto de Alfred Jarry em que o criador do termo “patafísica” explica o domínio das “morais da história”. De acordo com Jarry: “et peut-être même n’y a-t-il de morales que les histoires qui traitent des choses situées au-dessous de la ceinture” (PRÉVERT, OC II, 1996.
Nos versos finais, Prévert se refere à “Femme” (mulher) palavra nua verdadeira (mot vrai) que se opõe a palavra “nu mental”; e à “Fleur” (flor), a palavra movida alegre ou “lírio-do-vale” (muguet).
Femme le mot nu vrai A palavra “muguet” ou “mû gai” simboliza não só os jogos de palavras em Prévert como também sua poética. A seguir, analisaremos o fenômeno do bilingüismo em Prévert como uma maneira de cruzar as barreiras lingüísticas. Há na língua francesa há três níveis possíveis, a saber: os níveis semântico, sintático e fonológico. Tudo aquilo que violar um ou outro ou o conjunto destes 3 (três) componentes é, em princípio, agramatical. Em Prévert, pode-se perceber que o poeta tende a misturar, em alguns de seus poemas, palavras de língua inglesa e francesa, de modo que elas, mesmo numa tradução, se remetam sem cessar. Em "MESSE MÉDIA", de Imaginaires, as palavras francesas do título se travestem sonoramente nas palavras inglesas que designam a mídia de massa: “mass media”. Eis o poema Mass for the massacre of Mass. Nesta aproximação, o poeta condensa no significante (mess) os sentidos de “missa” em francês e inglês e de “massa” em inglês. Com os sentidos de “mass” como “missa” e “massa”, a sua leitura torna-se indecidível. A simples troca de um sentido por outro altera bruscamente a significação no poema prevertiano. Vê-se que, além da ambiguidade semântica e fonológica bilíngue de “mass”, o poeta aproveita-se da ambiguidade da preposição inglesa “for”, que pode significar “para” e “a favor”, “pró”. A seguir, apresentamos as 8 (oito) possibilidades de leitura deste poema:
Missa pelo (a favor do) massacre da massa. No poema “La grasse matinée”, de Paroles, a passagem da expressão francesa “café-crème” para a expressão inglesa “café-cream”, que em francês soa como café-crime, precede justamente o anúncio de um crime:
L’homme titube De acordo com Marina Yaguello, é justamente “a violação as regras da sintaxe e da semântica que dá origem à poesia, isto é, a um desvio em relação à normalidade cultural e social. A competência tanto comporta o respeito pelas regras como a aptidão para as violar” (1997). Romper com a gramática é questionar a função de comunicação baseada sobre a norma, o consenso social que funda a língua. O biligüismo chama a atenção para a realidade lingüística. O que nos faz aceitar ou rejeitar uma seqüência como sendo uma mistura de línguas? O maior poema (em extensão) bilíngue de Prévert é “Chant Song”, de Spectacle, escrito em forma enumerativa com palavras francesas e inglesas. Nele, Prévert exige de seu leitor um conhecimento tanto da língua francesa quanto da inglesa. Eis o poema na íntegra:
A princípio, pode-se notar desde o título que o poeta joga na combinação franco-inglesa “Chant song” com a sonoridade da palavra francesa chanson. Veja-se que o sintagma bilíngue enfatiza a presença do som (son) no canto (chant). De uma tradução do francês para o inglês, Prévert retorna para a língua francesa. Na primeira estrofe do poema alternam-se irregularmente palavras francesas com palavras inglesas e vice-versa. Nem sempre ao termo francês corresponde uma tradução para o inglês, de maneira que o poeta quebra a expectativa numa constante remissão da língua francesa para a língua inglesa. Cite-se por exemplo
Garden rêveur Garden (jardim) não significa em francês rêveur (sonhador). Em “Petite house” e “little maison”, o poeta chama a atenção para um cruzamento das línguas, que se pode visualizar no poema. Em “Chant song”, as palavras,embora tenham sentidos diferentes, podem se aproximar ora pelo sentido, ora pela sonoridade, como nos exemplos a seguir. Prévert aproxima pela sonoridade “Blood” de “bleu” (azul) (sangue). “Blood” se traduz em francês por “sang”, que é homófono de “song” em inglês, o qual por sua vez remete pelo sentido a “chant”. Vale lembrar que, em outros 2 (dois) outros poemas, Prévert havia feito a aproximação entre “son” “song” “sang”: no título de um poema de Paroles “Chanson dans le sang” (PRÉVERT, OC I, 1992), e nos seguintes versos do poema “Chanson pour Labisse”:
La chanson de Samson A combinação bilíngue “mer sea” pode remeter à expressão inglesa “thank you”. Note-se que o poeta não escreve o cumprimento francês “merci”, homófono de “mer sea”, mas o sugere fonicamente. Ao dizer “sim eu te amo”, o poeta mistura o “yes” (sim) com a expressão francesa “je t’aime”. Na repetição da expressão, mas com a inserção do advérbio “tant” (tanto), homófono em francês de “temps” (tempo), pode-se observar que tanto o sintagma “t’aime” pode remeter à pronúncia da palavra inglesa “time” [taime], quanto o advérbio “tant” pode remeter a “temps”, e por sua vez a “time”, originando assim a seguinte seqüência:
oh yes je t’aime Em “Quand Sir Jack l’Éventreur”, de Charmes de Londres¸ao se referir a inúmeras edições do jornal inglês “Times” (tempos), Prévert emprega o sintagma “tant”: “Tant de Times” (PRÉVERT, OC I, 1992). Por essa aproximação, o leitor pode ouvir uma remissão à palavra que significa “tempo” em inglês e em francês. Assim, o poeta remete sem cessar seu leitor de uma língua à outra, criando uma rede de sentidos e sonoridades bilíngues, cruzando “linguistic barriers” (GREET, 1968). Assim, mesmo ao traduzir, tentando repetir uma palavra de uma língua em outra, Prévert opera uma transformação de significado. Para terminar este artigo sobre as palavras em movimento, citaremos a seguir o poema “Silence de vie” para mostrar que o movimento continua mesmo no silêncio do poema e da vida:
Je ne
veux rien apprendre
NOTA 1. Termo criado por Maria Thereza Barrocas em sua tese de Doutorado “Processos anagramáticos em Jacques Prévert. Uma poética da recri(e)ação”, defendida na UFRJ em 1990. |
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Eclair Antonio Almeida Filho (Brasil, 1974). Ensaísta e notável pesquisador da obra de Jacques Prévert. Contato: eclairfilho@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil). |
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