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revista
de cultura # 47 |
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António Ramos Rosa: a transparência da terra Rosa Alice Branco e Rodrigo Petronio
RP – Sim. Mesmo sabendo que o autor não tem autoridade sobre o que escreve e não dá a última palavra ao sentido de sua obra, é muito interessante traçar um paralelo entre os trabalhos poético e o ensaístico de Ramos Rosa. Em ambos podemos notar uma unidade de pensamento no que diz respeito à dimensão que compartilham: a liberdade. Mais que isso: a liberdade pairando livre até de si mesma, como no verso de Rimbaud. Tanto sua poesia quanto seus ensaios se preocupam com a revolução, não entendida como engajamento em uma causa externa, mas sim no seu sentido etimológico: aquilo que se volta sobre si mesmo e retorna à sua origem. As palavras livres e revulsivas tomam seu próprio pulso e, como reino do possível, se proclamam como a mais densa das realidades prováveis. Contra o telos do fim, todas as teleologias e doutrinas salvíficas que engendraram concepções equivocadas de progresso, escamoteando suas intenções maliciosas, e não fazem nada mais que empobrecer as possibilidades humanas em uma época de "imperialismos ideológicos" e de "desumanização", como diz o poeta, temos o arco dobrado sobre a lira. Em sua dimensão autotélica, o poema é a maior revolução possível, porque espelha a concordância do pensamento consigo mesmo e, com isso, a mais profunda forma de engajamento. Os signos em rotação são a conseqüência lógica de um pensamento que se abre ao analisar suas próprias engrenagens: cisão com o modelo descritivo, representativo e positivo da linguagem, o poema não narra, descreve, diz ou veicula nada. O poema, nas palavras do crítico Eduardo Prado Coelho, "acontece". Esse acontecimento é desvelamento mas também é ação: retorno ao estado elementar do mundo e repúdio radical a toda tentativa de tentar transformar o homem e a palavra em instrumentos do que quer que seja. RAB – A transformação é, na verdade, outra. Na sua poesia a inserção do homem no seio do mundo é operada pela palavra: geradora, rito de passagem e circulação entre eles. A palavra é tanto mais cópula entre ser e mundo, quanto mais pobre, já que a pobreza, tal como a ignorância, são as qualidades requeridas para abrir o espaço do encontro, pois a palavra e objecto de sentido identificam-se na sua poesia que se quer pura presença, tentando escapar à dimensão representativa. Em O Incêndio dos Aspectos escreve: “Ó árvore ó palavra ó árvore” . E reencontramos essa indistinção originária de que falas, mas agora entre a palavra e o objecto evocado. Porque o objecto nunca é meramente evocado ou enunciado, mas invocado e convocado para esse incêndio de todos os aspectos que é a poesia de Ramos Rosa. A palavra gera, na medida em que cria o mundo dos possíveis e é operadora da transformação do possível em real. Se Leibniz nos dizia que o real não é da ordem do possível, mas do compossível, aqui todos os possíveis são a priori compossíveis. Por isso, na poética de Ramos Rosa cada coisa pode ser tudo e nada, o que nos leva à polissemia infinita da palavra. Em Ciclo do Cavalo, por exemplo, “cavalo” é, na verdade, um termo camaleónico. Mas nunca deixa de ser cavalo, mais cavalo ainda, ao receber todos os movimentos e todos os objectos na carne da sua palavra. Numa entrevista, Paula Cristina Costa nota que a arte poética de Ramos Rosa é uma metapoética, com o que este concorda inteiramente. Mas seria preciso aclarar em que consiste a especificidade desta metapoética, em que a interrogação sobre o poema acrescenta ao ser o não saber de si e o amor da busca para pertencer ao mundo, que é também o mundo das palavras. Neste belíssimo livro que acaba de sair agora – Génese seguido de Constelações – lemos: “Escrevo para ser contemporâneo das nuvens/para pertencer à nua e pobre pátria inerte”. Talvez por isso Ramos Rosa ache que a metapoética se correlaciona com a metafísica, na medida em que esta é a reflexão do poeta sobre a percepção do mundo. Mas, de facto, em Ramos Rosa, esta reflexão é apenas a luz que as coisas lhe devolvem em forma de palavras. RP – Creio que aqui você tocou em dois pontos centrais: a poesia como operação metalingüística e como metamorfose, completa reversibilidade, por meio da palavra, entre o possível e o provável. A metamorfose se dá mediante uma visão radical daquilo que você vem conceituando de maneira ímpar, a partir da obra de Lévy-Bruhl, como “participação”. Aliás, esse conceito pode ser uma verdadeira chave para a leitura da poesia moderna. Todas as coisas são o cavalo porque todas as coisas que o predicam participam indiscriminadamente em sua essência. Não há anterioridade da essência em detrimento do atributo, mas decalque, tatuagem, inscrição, espelho que produz e altera todo o rosto. Poder-se-ia dizer que Ramos Rosa, à maneira de um curioso nominalista do século XX, não depreende o ser dos objetos de uma substância primeira, de sua ousía, não define o particular a partir do seu grau de adequação a um pressuposto universal, mas sim faz o universal participar e se imiscuir, enquanto haeccitas, indistintamente em todas as ocorrências sensíveis, particulares e acidentais, que são elevadas a uma dimensão transcendente sem perder sua especificidade empírica, sua radicação ôntica, concreta, ou seja, sua estidade. Essa operação se dá também em um belo livro como Pólen-Silêncio, onde os atributos vegetais são distribuídos e aplicados a uma gama enorme de fenômenos e objetos, alheios ao domínio específico deste reino. O jardim, neste livro, torna-se maior que o universo, ele próprio vira um universo-vegetal do qual nosso universo, tal e qual o conhecemos, seria uma só ramificação, assim como para alguns povos arcaicos, como bem observou o grande filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva, todo o mundo sublunar não passa de um ramo da árvore-deus Yggdrazil. Disso infiro que possamos ler a poesia de Ramos Rosa sob o signo de um conceito: a transparência. Desmanchando as zonas de opacidade que demarcam cada objeto e a despeito da causa formal que modela cada ente, Ramos Rosa filtra a percepção e a faz coincidir com a luz. Não a luz que ilumina o rosto, o lumen referido pelas doutrinas de pintura renascentistas, tampouco a luz tomista, a centelha de consciência que Deus instila no homem por meio da sindérese, mas sim aquela que circula nas veias do mundo e é o seu princípio mesmo de inteligibilidade. Transpondo todas as formalizações, na viagem que esta poesia empreende rumo àquela zona anterior e originária, à matéria indistinta dos deuses, bem poderia ter dito Konstantinos Kaváfis, pode-se muito bem dizer que as árvores “sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes”. E assim temos uma partitura de conceitos e imagens em permanente metamorfose. Há alguns eixos: amêndoa, verde, pobreza, luz, sombra, água, fogo, pólen, veludo, pedra, árvore, nudez, sol, ar, terra, sexo, corpo. Como agenciadores de sentido, criam núcleos magnéticos e captam os objetos em suas redes de imagens. São devires, no sentido que Deleuze dá à palavra, e assim articulam uma política de devires. São o devir animal, o devir planta, o devir pedra, o devir terra, entre outros, e, por extensão, a transposição de toda contingência e de todo condicionamento por meio da livre predicação: a voz que fala no poema é mulher, barco, praia, vegetal, folha, pedra, parede, criança, entranha, vento, bicho, e, mais que isso, um acorde composto de todos esses elementos. Essa realidade expandida se dá sempre em um âmbito metalingüístico, porque, de saída, já se supõe que a palavra cria o mundo, não que o mundo seja representado pela palavra e esta, o seu sintoma, como rezam os obsoletos argumentos da sociologia. O mesmo Deleuze diz que a política é anterior ao ser. Ramos Rosa poderia retificar a assertiva, e propor-nos que a palavra é anterior à política, entendida aqui como toda a zona de projeções e representações, como toda a objetivação do espírito e todo o campo fenomênico que se possa aduzir. No Brasil, onde ainda vigora uma concepção pobre de metalinguagem, que eu defino como um fetiche do significante, algo da ordem da sexualidade (e da política) recalcada, esta poesia pode ser preciosa e alterar todo um cenário cultural. Pois ela alude ao real, mas nos despista com uma falsa positividade; é um fato de linguagem, mas o tempo todo se propõe como encenação e minimiza a importância da técnica e do artifício, visto como algo secundário, irrelevante e, em último caso, pueril. Inscrição indicativa que obriga o leitor a recorrer os seus rastros e resíduos para percorrer o seu verdadeiro sentido, a poesia de Ramos Rosa, de fato, como você diz de maneira exemplar, aponta para uma metafísica, mas a concebe como fantasma e simulacro. Pura imanência do tecido verbal e articulação de imagens e pequenos mitos que produzem mundos, o único enigma que há é o fato de todas as coisas serem banhadas pela luz inexplicável da transparência. Se há mistério, ele nasce de não haver mistério nenhum, para lembrar Caeiro. Se há Deus, e ele é um círculo, o é na medida em que sua circunferência está em toda parte e seu centro, em parte alguma, invertendo-se os postulados. Por isso cada coisa que existe pode ser outra e outra e outra, ad infinitum, circulando na periferia infinita das infinitas circunferências que Ramos Rosa apõe ao real e mobiliza em sua criação. Eis o seu princípio de excentricidade, que é exemplar. Depois do longo processo de entificação do ser levado a cabo no Ocidente, processo este que praticamente se confunde com a sua história, finalmente os entes podem circular, na ubiqüidade da seiva que os modela e os funda, para além deles próprios e para além dos limites de todos os conceitos.
RP – Sim. Exatamente. Talvez por isso Eduardo Lourenço, em seu ensaio excelente intitulado O Excesso do Real, ao analisar a poesia de Ramos Rosa, tenha ressaltado esse aspecto de sua dialética interna, que oscilaria entre uma Ausência e uma Presença, esta tentando assimilar aquela em seu equilíbrio que não pressupõe nenhuma exclusão, porque não há nenhum antagonismo. Essa conciliação dos opostos em uma unidade imanente também se dá em um dos seus livros de prosa poética, Relâmpago de Nada. Como bem assinala a estudiosa Paula Costa no Posfácio, o próprio título do livro já é um quiasma, um paradoxo, uma antinomia. Nele estão implicados os dois princípios aparentemente antitéticos da sua poesia, a plenitude proposta pela luz fulminante (relâmpago) e o vazio que se lhe agrega como atributo: o nada. Esta vacuidade, por paradoxal que pareça, é um corolário não uma refutação. Porque se a expressão da palavra é sempre a “inauguração de um espaço de sentido que se abre”, ela mesma, em seu movimento, também produz a sua contrafacção: uma zona de sombra que expressa a palavra “não dita” e “exilada em seu silêncio”. Você mencionou alguns pontos fulcrais da poética de Ramos Rosa. Entre eles a idéia de silêncio. Esse silêncio ratifica tranqüilamente o sentido da origem, que a sua poesia busca, na medida em que se propõe como espaço inaugural, não só das palavras, mas da possibilidade mesma de dizer. O silêncio é visto como instância projetiva da linguagem. Dele ela nasce e a ele ela retorna transfigurada, porque ousou dizer e assim cair no estado de ser, na derelicção, como quem perde o paraíso por espontânea vontade e, mais que isso, faz desse gesto o objetivo maculado da afirmação da vida e de tudo o que ela acarreta, como privação, limite, finitude e impossibilidade. Nesse sentido, Ramos Rosa pode muito bem ser visto como alguém que desenvolve uma poética da impossibilidade, fundamental e fundadora, para usar o famoso conceito de Maurice Blanchot, ensaísta que ele tanto admira. Você não acha? RAB - Em primeiro lugar acho que desenvolveste um dos pontos ambíguos e cruciais, tanto da esfera do Ramos Rosa poeta como ensaísta. Tal como ele, numa certa perspectiva, estou completamente de acordo, mas não posso deixar de acrescentar a outra face da moeda. Em L’âge Secret de L’ignorance, escreve Robert Bréchon: “Se a transparência ‘vertical’ é a forma apolínea da ignorância reencontrada, a redescoberta da verdade do sopro (respiração?) é a sua forma dionisíaca”. Mais do que uma relação dialéctica, trata-se de uma relação dionisíaca com o mundo que, tal como em Nietzsche, não exclui Apolo, nem o dispensa. E contudo, também relação que, apesar de tudo, não pode deixar de se chamar “dialéctica”, e que sempre entendi como tu: como uma dialéctica sem exclusão. De forma quase inversa da perda, vejo-a como a criação de mot-valise, em que os termos aparentemente antitéticos entram em jogo de sedução mútua, para entrarem na desmedida de uma cópula excêntrica. É que Ramos Rosa é um poeta perspectivista, mas todas as perspectivas convergem para o acto inaugural que é, também ele, ponto de chegada. Mesmo quando escreve “sim do sim do não do não”, ou “a não verdade e a verdade”, eu sinto esse uníssono, essa polifonia convergente sem perda de diversidade, essa conspiração, concupiscência pura, num universo em que palavra e mundo coincidem. E a palavra que assim o diz tem em si, como diria Álvaro de Campos, todos os sonhos do mundo. Por isso, a impossibilidade é sempre jorro de possibilidade e a possibilidade é já fecundadora do real. Trata-se acima de tudo de uma poética da fecundação da palavra para chegar à palavra mais longínqua e, por isso, mais próxima de nós e da nascente. Esta ideia de fecundação e jorro coloca-me de imediato numa outra das características dominantes da poética de Ramos Rosa que é a eroticidade. E também aqui não estamos perante o eros em sentido habitual, ainda que também participe desse sentido. O eros habita tudo o que existe, desde a pedra à mulher, numa modalidade simultaneamente amorosa e animal. Todo o universo é volúpia e a poesia oferece-se generosamente a todos os sentidos. Nascente Submersa é talvez o livro em que o erotismo mais se enuncia em avalanche, da terra à mulher, ao animal e, de novo, à terra. Todo o universo se esbanja em formas plenas, um magma torrencial é o fluxo da palavra no poema. É certo que o amor/eros não existe sem o eterno feminino, como nos versos deste livro que citei: “Uma água subtil flui entre os seus tornozelos./Quem poderá dizer a lisa imobilidade do seu ventre/e o hímen da perfeição com suas árvores violentas?/A vulva tanto pode ser uma cripta ou um vulcão”. Quanto a mim, Ramos Rosa refaz em cada poema o acasalamento que origina o mundo como livro a vir (para retomar Blanchot), como celebração do jacto da palavra a penetrar a terra numa alegria animal e pura.
RAB – Acho que chegaste a um dos pontos chave da poética de Ramos Rosa. Essa voz original que se desprende da terra e une toda a cadeia dos entes é objecto de Siris, o último livro de Berkeley. Constitui-se como uma deliciosa cosmologia banhada pela mesma luz da poética de Ramos Rosa. Na continuação do que dizes, a Siris é exactamente a cadeia que pressupõe o contínuo fluído como possibilidade do descontínuo e aquele infiltra-se em todos os corpos, provocando nestes efeitos figurativos. A Siris une todos os seres, cujo primeiro e último elemento são incorpóreos e todos os elos intermediários são corpóreos, porque são capazes de gravidade, movimento e outras qualidades dos corpos. Esta cadeia unificadora deve ser percorrida até à aurora do espírito, o que significa recriar o espírito ampliando a celebração da vida através de um “olhar” que dê conta da magnífica exuberância do mundo em toda a sua variedade. Mas, segundo Berkeley, se ficarmos estritamente pelo que a ciência nos oferece renunciaremos a habitar a profusão das coisas. É a força “equívoca” da cadeia unificadora que lançará “um clarão nesta paisagem sombria” e este clarão, este Relâmpago de Nada (lembrando o título de um dos livros de Ramos Rosa) é exactamente a própria aurora do espírito. Estamos novamente no momento inaugural, incorporando em si todo o tempo e todos os entes, mas com um novo dado que é, também, central na poesia de Ramos Rosa: a ideia de que é necessário ultrapassar o conhecimento para chegar à ignorância como pos scriptum do ritual de iniciação à vida. De facto, O Livro da Ignorância, que sagraria Ramos Rosa com o Prémio Fernando Pessoa, mais nos faz adentrar na ideia de corte na cadeia das mediações, essa cadeia que não é unificadora, mas redutora. Segundo Pascal Fleury, “esta passagem entre as palavras, entre ignorância e ignorância, é o próprio caminho da descoberta”. Na verdade, é des-coberta, é pôr a nu os elos como anéis de interioridade imediata, é chegar ao proto-olhar que possui o dom de tocar e ser tocado, é desenvolver o instinto da palavra guiada pelas palavras que já foram escritas e são agora inscritas na pele do mundo, na sua simplicidade de ser apenas, sem atributos. Em L’Espace Littéraire, afirma Blanchot que “a obra literária não é nem acabada nem inacabada: ela é”. Mas como escrever “é dar-se ao interminável, o escritor que aceita manter-lhe a essência perde o poder de dizer ‘eu’”. A ignorância é correlata desde trabalho de despojamento do eu no trabalho infinito dos dias das palavras. Assim, o olhar a que Robert Bréchon apelida de metonímico, já que vem da pupila, encontra o mundo pré-significativo, o mundo do significante flutuante de Lévi-Strauss. E não é por acaso que a pupila é o lugar do olhar, já que a pupila é rigorosamente um centro vazio, um buraco negro. Este lugar vazado e por isso permissor da entrada do mundo em nós, é também metonímia do eu esvaziado, receptáculo amoroso das coisas prontas a serem tocadas pelas palavras num êxtase sensitivo e de ascese que só é possível pela conquista da ignorância. Esta postura é pouco corrente naquilo a que se costuma chamar “Ocidente”. Mesmo os filósofos têm negligenciado, sistematicamente, o papel do imediatismo. Mas, por exemplo, o filósofo oriental Nargajuna mostra que cada um dos opostos de uma dicotomia é vazio, pois que a sua existência só se pode entender na relatividade de um a outro. O poeta encarnando a acção – o que acontece num elevado grau de crescimento – anula a polaridade e age como se não agisse, escreve como se não escrevesse. Francisco Varela observa que uma tal acção “graças à extensão ou aplicação apropriadas, tornou-se comportamento encarnado, no seguimento de uma longa aprendizagem”. É neste sentido que podemos falar em ignorância: como fruto e não como semente, como prolongamento de uma cadeia que desemboca nos sentires, porque estes estão já tão aprimorados que são o guia imediato para a acção. Fluindo pelos elos da Siris, Ramos Rosa percorre o caminho da unificação até à aurora do espírito incorporado, podendo dizer como Rilke que está no seu “trabalho como o caroço no fruto”.
RP – Sim. E só uma poesia de alta densidade de linguagem pode cumprir todas estas etapas do sentido. Sinalizar o silêncio e nascer dele, indicar a criação como sombra mas não se refugiar nela. Habitar espaços abertos e promover a circulação de todos os elementos sob o devir corporal. Propor a liberdade mais radical sob a violação de normas, e fazê-lo com uma ductilidade quase infantil. Ser fluída e interrogar a matéria até sua exaustão, colocando-a em constante aporia. Por todos esses motivos, como lembra Gastão Cruz, é desconcertante saber que os meios de comunicação e a crítica continuem fazendo a apologia de uma hipotética poesia do cotidiano, que sabemos, na maioria das vezes, refém de suas próprias limitações conceituais. Creio que a poesia de António Ramos Rosa possa alterar significativamente o cenário poético brasileiro, ainda muito dominado por questionamentos equívocos. Seja ao ver a linguagem como objeto autônomo, e criar, assim, o império do signo desenraizado da experiência e até mesmo do conceito, da forma mental, da cosa mentale que o engendra, seja ao apelar para a informalidade, que ignora premissas básicas da arte poética e dos seus artifícios, à custa da adesão aos argumentos sociológicos os mais demagógicos e impertinentes, em linhas gerais a matriz do pensamento poético brasileiro ainda deve muito ao positivismo cândido que o fundou. Poeta da liberdade que paira sobre si mesma, do claro enigma da língua absolvida do mistério mas que traz em si candente a sua inscrição residual, talvez a poesia de Ramos Rosa possa dar ensejo a novos caminhos. Mais do que navegar e criar, é preciso viver estas dimensões como tangíveis. Só assim a travessia é possível. E o universo deixa de ser uma ilusão impossível de ser corrigida e passa a ser a matéria mesma de uma poesia que nos abre para tudo o que pode ser criado no momento mesmo em que nos cria. Um reino da reversibilidade, talvez. Onde o mundo possível só o é na medida em que adere ao real, se entranha nele de tal modo que acaba se transformando na interioridade pura de seu movimento. |
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Este diálogo foi montado como prólogo de Animal Olhar (2005), antologia poética de António Ramos Rosa, preparada pelos poetas Rosa Alice Branco e Rodrigo Petronio, para a coleção Ponte Velha, da Escrituras Editora. A poeta portuguesa publicou no Brasil Soletrar o dia (2004). O poeta brasileiro publicou em Portugal Assinatura do sol (2005). Contatos: r.a.branco@mail.telepac.pt e pseudopetronio@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil). |
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