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revista
de cultura # 48 |
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A palavra poética de Carlos Nejar Álvaro Alves de Faria
CN - Alinhavo três motivos que acho suficientes, embora ocorram outros que não menciono: a) Sou servo Daquele que é a Revelação da Palavra, o Deus vivo - e não há honra mais alta ; b) A palavra é alma do universo e eu sirvo a alma do universo no meu texto; c) Mesmo eu sendo palavra menor, busco desvendar-me. AAF - Quando você escreve ficção diz que se trata da “memória do esquecimento”. Como é isso? CN - Os poemas nascem da imaginação da memória e a ficção nasce da memória da imaginação. Só escrevi ficção depois dos 45 anos, com domínio total dos meios, com advento dessa "memória do esquecimento" que traz à baila as terras devolutas da infância, da experiência vivida. É o que integra o inconsciente coletivo e entra na raiz dos velhos arcanos da espécie, um penetrar na caverna - não de Platão - mas dos nossos sonhos mais antigos. E o ato de criar é fidelidade aos sonhos. Se não acreditarmos neles, como acreditarão em nós? AAF - Já faz algum tempo você abandonou os grandes centros e foi viver distante, embora, me parece, a distância não existe mais. Mas você foi viver longe talvez em busca da paz. Foi para Guarapari, no Espírito Santo. Você deu o nome de “Paiol da Aurora” ao lugar onde mora hoje. O que é o “Paiol da Aurora”? CN - "Paiol da Aurora" é o depósito de pólvora do amanhecer. É onde moro diante do mar, com Elza, os bichos, plantas, livros. O nome da rua horrível -Prefeito Epaminondas Almeida - precisava ser poetizado. E todos passaram a chamar a minha casa de "Paiol da Aurora” e o tal de Epaminondas sumiu. Não é o mistério da criação? AAF - Eu sou levado a acreditar que é realmente assim. O mistério da criação. Agora mais um romance, um belo romance, “O Poço dos Milagres”. O que este romance significa na sua obra, envolvendo prosa e poesia? CN - “O Poço dos Milagres” tem um significado forte tanto na minha ficção, quanto na poesia. Escrevi em plena ditadura “O Poço do Calabouço” (hoje em 5a edição, esgotada), falando de um Brasil mergulhado nas sombras da opressão. Em “A Engenhosa Letícia do Pontal” ( Editora Objetiva, 2003), meu D. Quixote de saias, o personagem Dom Seráfico, prefeito iníquo, fundou O Poço do Bem e do Mal. E neste livro (percurso da ficção e da vida), o que era Poço do Bem e do Mal transforma-se num Poço dos Milagres, onde com a palavra tudo é possível, por haver saído majestosa da Morte. AAF - Saindo desse romance, vamos ao seu mais recente livro de poemas, “O Tratado de Bom Governo”. É uma obra que tem uma construção gráfica bastante rígida, do começo ao fim…
AAF - Muitas vezes eu acho que sim. Mas eu ouso perguntar se o poeta Carlos Nejar está se transformando num romancista? CN - Não. O poeta Nejar continua absolutamente poeta, com muitos inéditos. E continua romancista. Uma coisa não interfere noutra. Ao contrário, se somam. Não sou, é verdade, um poeta que escreveu romances, mas posso ser, com mais razão, um poeta do romance. Aliás, o romance contemporâneo está tão sofisticado e linear que precisa do tratamento de choque da poesia para acordar. Os nossos romancistas, em regra, não pensam, só fabulam. A realidade está a exigir uma criação que seja fonte de água pura, com a oralidade dos aedos gregos, voltando a Homero, o primeiro romancista, que foi poeta. Porque não trabalho um gênero, trabalho a linguagem. E se trabalho os personagens, são eles antes que me trabalham. O romance, a meu ver, não é razão, é o delírio da razão. AAF - Quero entrar agora num assunto que pertence unicamente à sua intimidade. Mas lhe pergunto sobre a presença de Deus em sua literatura. CN - Deus é o centro de minha vida e de minha literatura. Todas as coisas boas vieram Dele. Por que não reconhecer? Deus é a minha maior experiência, o Deus que fala. Somos cercados de sinais e nem nos damos conta. São os sinais que nos acendem Deus. "Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra, luz para o meu caminho" - dizia o salmista Davi. AAF - Neste novo romance você afirma que o autor deste livro é romancista porque é poeta, contrariando certo preconceito de que só o romancista é poeta. Existe mesmo esse preconceito?
AAF - Caminhar por sua literatura para mim é mergulhar numa viagem do sonho ainda possível de sonhar. O que é que você aprendeu com Homero e com Cervantes? Faço a pergunta por que você costuma se referir a isso? CN - Com Homero aprendi que até os cavalos podem chorar e que "ninguém" é o nome do poeta - o que cega com seu gênio o Ciclope. Com Cervantes aprendi o poder dos aforismos e provérbios. E de como é possível recriar por eles a voz do povo no romance. Há um “Dicionário de Aforismos” encontrado nos meus romances que está no prelo da Bertrand, organizado pelo poeta Paulo Roberto do Carmo. E não se pode deixar de assinalar quanto é incrível a arte de rir de Cervantes, rir dos limites humanos. Só comparável com o francês Rabelais. AAF - Você também costuma dizer que às vezes duvida de ter nascido… CN - Porque o nascimento é algo tão grande que nos ultrapassa. Somos noite e nascer é estrela. AAF - Você inicia “O Poço do Calabouço” citando um provérbio chinês: “A inteligência caminha mais que o coração. Mas não vai longe”. É assim mesmo? CN - Sim. A inteligência é limitada. O coração sabe mais longe. Por ser a liberdade e os espaços infinitos da imaginação. O coração é a imaginação a pé. E a razão, a imaginação sentada. AAF - O romance transcorre quase como uma narrativa religiosa, num certo ritmo das palavras, das frases. Esta observação está correta? CN - Nem sempre o romance transcorre como narração religiosa. Porque, às vezes, se desritualiza. Sempre, porém, transcorre como uma descoberta. Também para o autor. Porque sou levado pela narrativa. Sei o começo, não o meio e o fim. O que se escreve é o que vai formando círculos de memória. Quando a palavra não quer mais falar, deixa-se falar a memória. E tudo está escrito para nós em língua desconhecida, basta que nela aprendamos a ler. E o leitor é o que inventa junto. AAF - Sendo você o poeta que é, tomo a coragem para lhe perguntar se ainda existe lugar para a poesia no mundo e no tempo em que vivemos, onde quase tudo é destruição e caos, ruas sem saída, paisagens na escuridão… CN - Sim. Nem que tenha que se entranhar nas catacumbas como grão, há de vir à tona da terra como planta. A poesia está onde estiver a liberdade e o sopro do Espírito. Onde estiver a palavra que se faça humana. E se não crer na palavra, como ela crerá em mim? Eu creio na palavra porque sou palavra. Tu és palavra. E se nos unirmos, seremos eternos. AAF - Mas, afinal, a poesia serve para quê? CN - Estamos mais acostumamos no mundo do TER, do que do SER, mais no mundo da quantidade, do que no de valor. A poesia não é útil, ou desútil. A poesia existe e pronto. Como um gato ou uma pedra que se acende. Assim como não compramos o vento ou o relâmpago, não compramos o mistério da criação.
CN - Já respondeste por mim, boa parte. Eu tenho mais do que reservas. Se há grandes poetas desconhecidos criando nas províncias deste País, necessariamente não está onde certa mídia festeja. Há muita empulhação de grupos na dita tomada do poder em revistas e jornais Com a banalização da poesia. A verdadeira poesia não é monótona ou hermética; monótonos e herméticos são os que não sabem lê-la. Diz Camões: “Na medida do amor que tiverdes, tereis o entendimento dos meus versos”. Essa “empatia” está escasseando entre nós. Também por incapacidade de muitos que se metem no que não percebem. Há uma certa militância literária ( com honrosas exceções) que vem do jornalismo despreparado. Ousam falar sobre textos que ultrapassam “a sua vã filosofia”. Alguns saídos dos “cueiros” tentam falar sobre a difícil arte do violino, quando nem conhecem a arte da gaita de boca. Ouviram o galo cantar e não sabem onde. São os que pertencem à sociedade doa analfabetos anônimos. Esse vírus de burrice é pior que a gripe das aves. Não respeitam sequer um longo e sério caminho de escritor. AAF - Mas é com isso que não dá mais para conviver. Trata-se de uma verdadeira violência à inteligência dos que ainda conseguem pensar. O que se vê de engodo é de se lastimar. É a empulhação a que você se refere… CN - No meu caso, por exemplo, tenho 45 anos de fidelidade à palavra, numa Nação que não tem hierarquia de valores. E que tem a desfaçatez de fazer Chico Buarque - excelente músico - mas medíocre na ficção - o maior escritor brasileiro… Ora, vão crescer primeiro, aprender a viver! E o pior que certas redações de jornais dão guarida a esse tipo de “crítica”, impossibilitando, às vezes, até a defesa, ou a avaliação de outro crítico que seja sério. Ainda dizem: ”Vou pensar no seu direito de resposta!” Mas a resposta à injustiça não se pensa, não é favor ou benesse. É direito. Sendo os tais, donos da comunicação, alguns, prepotentemente (podiam estar bem numa marcenaria, num açougue, jamais em função de interesse público), acham-se fazedores da fama alheia. Ainda bem que não são. AAF - É verdade: de repente o compositor Chico Buarque de Holanda se transforma no “grande” romancista brasileiro. E a tal mídia transforma outros compositores em “poetas”. Um deles é até chamado de “poeta de uma geração”. Como é que dá para conviver com isso? É muita pobreza, é muita leviandade… CN - O tempo os enterra e traz de volta os verdadeiros valores. Os grandes críticos, com exceção de Wilson Martins, ou alguns poucos que ficaram na universidade, penduraram a fala no salgueiro e nem ganham espaço nos suplementos. Deixam lugar, infelizmente - com dignas exceções, é verdade - aos oportunistas e medíocres. E o silêncio neste tempo - seja o literário, seja o político - diante de tanta corrupção e desmando, é no mínimo cúmplice. Ficar em cima do muro tem valido a alguns preciosos empregos… E quem pensa que a nossa luta terminou diante de tanta penúria, é bom que saibam que apenas começou. Porque a “palavra é martelo que fende a penha”. E essa trincheira não se rende. AAF - Infelizmente é isso mesmo que ocorre. Chega a ser desfaçatez. Trata-se de uma agressão à inteligência. As inversões de valores chegam ao escândalo. Mas este é o país. Este é o Brasil, corroído em quase tudo. Quase todos os segmentos manchados por uma mediocridade. Eu lhe pergunto: Os poetas são levados a sérios no Brasil?
AAF - Compreendo bem sua resposta amarga. Não dá para fugir disso. Esse é o quadro. Que participação o poeta tem ou pode ter na vida das pessoas, na construção de um mundo melhor, na busca de solidariedade… Ou a poesia não tem nada disso? CN - A poesia tem tudo isso, buscando, no entanto, em primeiro lugar, o aperfeiçoamento da ”língua da tribo”. Completando-se na consciência de que estamos vivos e de que não estamos sós e que, pela palavra (somos palavra) é possível mudar as coisas. O poeta não pertence apenas ao acontecer, mas também a uma épica do porvir, o que chamo de “infância do futuro”. AAF - O que é ser poeta no Brasil? E mais: vale a pena ser poeta no Brasil ou em qualquer parte do mundo? CN – “Tudo vale a penas se a alma não é pequena” - dizia Fernando Pessoa. Mas neste tempo de “alma pequena” no Brasil, se é como um cacto num ambiente hostil. Vive-se apesar da falta de água. Além de contarmos com uma língua bela e limitada. Tanto na lusofonia que pouco funciona, como na América Latina, menos ainda. É de pasmar. Fui fazer outro dia uma conferência na Casa da América Latina, em Paris e ali não vi nas paredes nenhum escritor brasileiro. Conhecemos mais a obra de nossos vizinhos, do que eles nos conhecem. Se fôssemos poetas nos Estados Unidos, ou na Europa, é certo que seríamos bem mais valorizados. E no meu caso, estranhamente, sou mais reconhecido no Exterior, que no meu País. E por que é que temos que ser primeiro aceitos lá fora, para nos aceitar-nos, aqui? AAF - Vindo essas palavras de um poeta como você a gente percebe a angústia disso tudo. E nisso, a meu ver, está o país ao fundo. Não o país, mas o que “fazem” este país de gente esperta. A ordem parece ser mesmo sair. É duro dizer isto. Mas voltemos à poesia que é o que talvez ainda valha. Como é que a poesia tem de ser? CN - Apenas poesia, isto é, a arte de fazer as palavras levitarem. Aliás, esta é a diferença entre os verdadeiros poetas e os não-poetas. Esses, coitados, fazem grande esforço e não conseguem sair do solo. Porque as palavras não os amam. A poesia é a arte de ver mais longe, porque são as palavras que vêem. AAF - O que é necessário para ser um poeta? CN - Sobreviver e sobremorrer de palavra. AAF - O que significa pertencer à Academia Brasileira de Letras? É que de repente isso ganhou uma força incrível no Brasil. Quase todo mundo quer ir para a Academia… CN - Entrei na Academia, mas nunca deixei que ela penetrasse na minha criação. Fui Presidente por acidente de percurso. Era secretário-geral e o então presidente queria renunciar, já que se dizia acometido de cegueira. Fui generoso. Se quisesse o poder, teria exigido nova eleição. Preferi modestamente ser presidente em exercício. Todo o projeto de construção da nova Biblioteca, recentemente inaugurada, foi trabalho meu. E valeu como exercício de conhecimento da alma humana. Completado um ano, voltei ao meu Paiol, a este território mágico que não troco por nada. Daqui só para a Eternidade. |
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Álvaro Alves de Faria (Brasil, 1942). Poeta, jornalista e escritor. Publicou Trajetória Poética - Poesia Reunida (2003) e Sete anos de pastor (2005). Contato: poetalves1@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Luis Manuel Serrano (México). |
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