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revista
de cultura # 48 |
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A vertigem da cidade de Afonso Henriques Neto Floriano Martins
FM – Comecemos este nosso diálogo por teu livro novo, Cidade vertigem, livro que já em 1996 situavas como “um livro sobre a megalópole, poemas e textos imersos no puro delírio persecutório/labiríntico/atordoante de um meio ambiente cada vez mais adverso à vida humana e por extensão à poesia”. Qual o saldo desta aventura? De que maneira consideras satisfatória a aventura deste livro?
FM – Há uma passagem neste livro, onde recolhes depoimentos inúmeros e ali um deles é do Ferreira Gullar: “Uma cidade / é um amontoado de gente que não planta / e que come o que compra / e pra comprar se vende”. Contudo, o livro não se limita a uma visão pessimista do homem e sua condição urbana. Sob este prisma, qual a utopia do Afonso Henriques Neto? AHN – É isto mesmo: o livro Cidade vertigem busca uma visão bastante abrangente do assunto, não se limitando à óbvia crítica dos aspectos desumanos da megalópole. A grande cidade tem a nos oferecer também possibilidades luminosas. A minha utopia permanece na direção de um humanismo socialista: educação, saúde, habitação, trabalho, liberdade e lazer para todos. O cinismo contemporâneo pode até falar em ingenuidade dessa formulação colocada assim de maneira tosca (afinal, todos querem isso), mas, do meu ponto de vista, o trabalho poético quer sempre contribuir para o sonho de se tentar construir um homem melhor, que possa viver em sociedade mais tolerante, defensora da justiça e da paz (mesmo quando a poesia vem carregada de conflitos, de sangue, de guerra: reflexo da crua realidade que nos submete, ou ao longo dos séculos nos submeteu). Seja como for, sempre procurei pensar uma cidade mais democrática, socialmente mais equilibrada, mais humana: e se o nome disso é utopia, sigo com ela.
AHN – Vamos separar as coisas para que fique mais claro o meu pensamento sobre essa tal de cultura de massa. De um lado coloquemos a literatura de massa: são, por exemplo, os romances escritos para um amplo público, seguindo determinados padrões de estrutura e de estilo, com situações e personagens modelados pelo (ou colados ao) senso comum (falamos de um Sidney Sheldon ou de um Paulo Coelho). É óbvio que há que se ter ‘talento’ para bem trabalhar nesse registro, pois o sucesso não está garantido pela simples aplicação das fórmulas mais do que gastas. Do outro lado do estereótipo, se movimentam as estranhas atmosferas que trocam de sinal todo o tempo, um oceano que se move no registro da permanente invenção, o reino sem palavras que costumamos chamar de espaço mitopoético (e que só pode ser tocado, paradoxalmente, por meio da utilização dessas palavras há muito gastas). Roland Barthes vai dizer que a literatura é o logro consciente, o jogo inventado pelo escritor para fugir do lugar comum, esse monstro que está emboscado na curva de cada signo, de cada palavra. É por isso que a poesia ‘vende pouco’, nada tendo que ver com o universo da comunicação de massa: no poema circula uma linguagem rarefeita, uma língua sem traduções nítidas, delírio a dançar o infinito (mesmo que seja só jogo…). Portanto, penso que o poeta não deve se preocupar em excesso com a retórica imbecilizante de toda a comunicação de massa (ela estará sempre presente em todas as mídias, na sociedade do dinheiro/espetáculo, no discurso do mesmo, da redundância): o poeta precisa é afiar as suas armas e gastar a sua energia na produção de uma obra que valha a pena. Pois todo mundo sabe que a arte ajuda demais na construção do sentido/caminho para uma vida mais rica, mais plena.
AHN – O mundo literário, como tudo mais, não é simples. Disse uma vez em entrevista da minha impregnação literária, fruto principalmente da convivência com o meu pai poeta e com os livros da biblioteca dele. E falei também de certo ‘descaso’ dos poetas da minha geração com a linguagem e com a busca de uma sólida formação literária. Mas veja o exemplo do Cacaso, um dos bons nomes da geração: ele produzia muitos poemas com certo ar ‘largado’, trabalhando dentro do registro coloquial, com pitadas irônicas um pouco à moda dos modernistas de 1922, mas todo mundo sabia de sua excelente formação literária, sendo ele inclusive professor de literatura (o ar ‘largado’ era uma construção consciente). O mesmo aconteceu com a Ana Cristina César, com o Eudoro Augusto. O Francisco Alvim também produz obra bem construída e de grande força lírica, e nos seus poemas sempre ficaram nítidas as influências de vários mestres, como Drummond e Bandeira. O Chacal, que já pertence ao time dos que não lidam de forma contumaz com o passado literário, aposta mais no seu ‘faro’ poético, produzindo um trabalho de muita qualidade. E assim a coisa vai. A minha crítica ao ‘relaxo’ de alguns poetas pode ser aplicada em qualquer tempo. O problema é que como a tal ‘geração marginal’ trabalhou muito no campo do coloquial, ficou mais difícil separar o joio do trigo. Mas ainda prefiro a atitude visceral da geração de 1970 do que certa retórica beletrista, como você bem falou, que vem povoando os livros de hoje: não basta o domínio técnico, uma certa postura formalista, para se fazer um bom poeta. O melhor, talvez, seja juntar as duas coisas: visceralidade e consciência técnica. Mas uma coisa é certa: se você quiser mesmo saber o que é grande literatura, siga os passos do Ezra Pound e procure Homero, Safo, Propércio, Catulo, Dante, Shakespeare, Camões, Fernando Pessoa; no Brasil, Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Sousa e os modernos.
AHN – Sem dúvida alguma. Murilo Mendes e Jorge de Lima foram ‘esquecidos’ por longo tempo por serem católicos e desenvolverem suas imagens a partir da estranheza do universo surrealista. Até hoje ainda esbarramos com esses preconceitos, apesar deles se encontrarem mais diluídos. Acho que Murilo e Jorge são atualmente curtidos com mais liberdade, sem essa bobagem de ‘esquerda’ ou ‘direita’ no mundo da qualidade literária, e isso é muito bom. A verdade é que os melhores poetas apresentam sempre múltiplas faces no seu trabalho, pois a mente humana não é linear e sim exemplo bem acabado do que hoje se costuma chamar de campo da complexidade. |
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Floriano Martins (Fortaleza, 1957) é um dos editores da Agulha. Entrevista originalmente publicada no Rascunho # 66. Curitiba, outubro de 2005. Contato: floriano.agulha@gmail.com. Página ilustrada com obras do artista Luis Manuel Serrano (México). |
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