revista de cultura # 49
fortaleza, são paulo - janeiro de 2006






 

Recusa Global - manifesto

Paul-Émile Borduas

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Paul-Émile BorduasNa edição # 36 da Agulha (www.revista.agulha.nom.br/ag36lamarre.htm) encontramos uma entrevista com o crítico de arte canadense, André Lamarre, em que ele aborda, dentre outros assuntos, a importância de um grupo surrealista canadense tendo à frente a valiosa presença do artista Paul-Émile Borduas, e que ganhou projeção internacional a partir do manifesto Refus Global. Na entrevista, Lamarre observa: “É principalmente desde o ponto de vista intelectual, cultural e artístico que Refus Global tem um papel determinante. Reivindica uma liberdade de pensamento, uma liberdade de criação, uma abertura para as forças inconscientes e uma revolução estética sem precedentes no Canadá. É significativo que Refus Global tenha sido assinado por artistas de artes plásticas (pintores, escultores, fotógrafos), poetas, artistas do espetáculo (principalmente mulheres coreógrafas) e outras pessoas que se ilustrarão no campo do design, da televisão… e da psiquiatria. Esse conjunto de forças vivas significa a determinação de fundar, em toda sua diversidade, uma cultura que será chamada não mais canadense francesa, mas quebequense, aberta sobre a modernidade e sobre o mundo. Refus Global é, pois, um ato de nascimento.” Publicamos agora a íntegra deste manifesto fundacional, na tradução de Éclair Antonio Almeida Filho. [FM]


Rejeitemos modestas famílias canadenses francesas, operárias ou pequeno-burguesas, da chegada ao país até nossos dias e que permaneceram francesas e católicas por resistência ao vencedor, por ligação, arbitrária ou passada, por prazer e orgulho sentimental e outras necessidades.

Colônia precipitada, desde 1760, nos muros lisos do medo, refúgio habitual dos vencidos; lá, uma primeira vez abandonada. A elite retoma o mar ou se vende ao mais forte. Ela não deixará mais de fazê-lo cada vez que uma ocasião for boa.

Um pequeno povo comprimido bem juntinho nas batinas que permanecem as únicas depositárias da fé, do saber, da verdade e da riqueza nacional. Mantido à margem da evolução universal do pensamento pleno de riscos e perigos, educado sem má vontade, mas sem controle, no falso julgamento dos grandes fatos da história quando a ignorância completa é impraticável.

Pequeno povo oriundo de uma colônia jansenista, isolado, vencido, sem defesa contra a invasão, de todas as congregações da França e de Navarro, tendo como mal perpetuar nesses lugares benzidos pelo medo (é-o-começo-da-prudência!) o prestígio e os benefícios do catolicismo maltratado na Europa. Herdeiras da autoridade papal, mecânica, sem réplica, grandes mestres dos métodos obscurantistas, nossas instituições de ensino têm desde então os meios de organizar em monopólio o reino da memória exploradora, da razão imóvel, da intenção nefasta.

Pequeno povo que apesar de tudo se multiplica na generosidade da carne, ou pelo menos na do espírito, ao norte da imensa América com o corpo buliçoso da juventude de coração de ouro, mas com a moral simiesca, enfeitiçada pelo prestígio aniquilante da lembrança das obras-primas da Europa, desdenhosa das autênticas criações de suas classes oprimida.

Nosso destino parecerá duramente fixado.

Revoluções, guerras exteriores quebram, entretanto, a estanqueidade do encanto, a eficácia do bloco espiritual.

Pérolas incontroláveis destilam suor fora dos muros.

As lutas políticas tornam-se asperamente partidárias. O clero contra toda esperança comete imprudências.

Revoltas seguem, algumas execuções capitais sucedem. Apaixonadamente as primeiras rupturas se operam entre o clero e alguns fiéis.

Lentamente a brecha se alarga, se estreita, se alarga ainda.

Isabel MeyrellesAs viagens ao estrangeiro se multiplicam. Paris exerce toda a atração. Muito estendida no tempo e no espaço, muito móvel para nossas almas timoratas, é constantemente apenas a ocasião de uma vacância empregada a perfazer uma educação sexual retardatária e a adquirir, pelo fato de uma estada na França, a autoridade fácil em vista da exploração melhorada da multidão no retorno. Em pouquíssimas exceções, nossos médicos, por exemplo, (que eles tenham ou não viajado) adotam uma conduta escandalosa (é-necessário-né-pagar-esses-longos-anos-de-estudos!)

Obras revolucionárias, quando por acaso elas caem na mão parecem os frutos amargos de um grupo de excêntricos. A atividade acadêmica tem um outro prestígio em nossa falta de julgamento.

Essas viagens são, também em número, a excepcional ocasião de um despertar. O invejável se infiltra em toda parte. As leituras proibidas se espalham. Elas trazem um pouco de bálsamo e de esperança.

Consciências se iluminam ao contato vivificante dos poetas malditos: esses homens que, sem ser monstros, ousam exprimir em alto e bom som que os mais infelizes entre nós sufocam bem baixinho na vergonha de si e no terror de serem engolidos vivos. Um pouco de luz se faz ao exemplo desses homens que são os primeiros a aceitar as inquietudes presentes, tão dolorosas, tão filhas perdidas. As respostas que eles trazem têm um outro valor de discórdia, de precisão, de frescor que as sempiternas banalidades propostas ao país de Quebec e em todos os seminários do globo.

As fronteiras de nossos sonhos não são mais as mesmas.

Vertigens nos tomam na queda dos ouropéis de horizontes nem um pouco sobrecarregados. A vergonha da servidão sem esperança dá lugar ao orgulho de uma liberdade possível de conquistar com alta luta.

Aos diabos o aspersório e o boné de lã! Mil vezes eles extorquiram o que outrora deram.

Muito além do cristianismo nós tocamos a ardente fraternidade humana do qual ele se tornou a porta fechada.

O reino do medo multiforme terminou.

Na louca esperança de apagar suas lembranças eu enumero:

medo dos pré-conceitos - medo da opinião pública - das perseguições - da reprovação geral

medo de ficar só sem Deus e a sociedade que isola muito infalivelmente

medo de si - de seu irmão - da pobreza medo da ordem estabelecida - da ridícula justiça

medo das relações novas

medo do surracional

medo das necessidades

medos das eclusas escancaradas sobre a fé no homem - na sociedade futura

medo de todas as formas susceptíveis de desencadear um amor transformador

medo azul - medo vermelho - medo branco: elo de nossa corrente.

Do reino do medo subtrativo passamos ao da angústia.

Teria sido preciso ser insensível para permanecer indiferente à dor dos partis-pris de alegria fingida, dos reflexos psicológicos das mais cruéis extravagâncias: elo de celofane do pungente desespero presente (como não gritar à leitura da notícia dessa horrível coleção de abajures feitos de tatuagens retiradas antes sobre infelizes cativos ao pedido de uma mulher elegante; não gemer ao enunciado interminável dos suplícios dos campos de concentração; não ter frio nos ossos à descrição dos calabouços espanhóis, das represálias injustificáveis, das vinganças a sangue frio). Como não bramir diante da cruel lucidez da ciência.

A esse reino da angústia toda potência sucede o reino da náusea.

Temos sido enfadados diante da aparente inaptidão do homem a corrigir os males. Diante da inutilidade de nossos esforços, diante da futilidade de nossas esperanças passadas.

Há séculos os generosos objetos da atividade poética estão destinados ao fracasso fatal sobre o plano social, rejeitados violentamente dos quadros da sociedade com tentativa em seguida de utilização na deformação irrevogável da integração, da falsa assimilação.

Há séculos as esplêndidas revoluções de seios extravasando de seiva são esmagadas até à morte após um curto momento de esperança delirante, no deslizamento apenas interrompido da irremediável descida:

as revoluções francesas

a revolução russa

a revolução espanhola

abortada numa mistura internacional apesar dos desejos impotentes de tantas almas simples do mundo.

Lá ainda, a fatalidade foi mais forte que a generosidade.

Não ter náusea diante das recompensas concedidas às grosseiras crueldades, aos mentirosos, aos falsários, aos fabricantes de objetos natimortos, aos refinadores, aos interessados superficiais, aos calculadores, aos guias da humanidade, aos envenenadores das fontes vivas.

Não ter náusea diante de nossa própria covardia, de nossa impotência, de nossa fragilidade, de nossa incompreensão.

Isabel MeyrellesDiante do desastre de nosso amor...

Em face da constante preferência concedida às caras ilusões contra os mistérios objetivos.

Onde está o segredo dessa eficácia de desgraça imposta ao homem e pelo homem só, a não ser em nossa animosidade em defender a civilização que preside os destinos das nações dominantes.

Os Estados Unidos, a Rússia, a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália e a Espanha: herdeiras com o dente pontudo de um único decálogo, de um mesmo evangelho.

A religião do Cristo tem dominado o universo. Vocês vêem o que se tem feito dele: fés irmãs passaram a explorações maninhas.

Suprimam as forças precisas da concorrência das matérias-primas, do prestígio, da autoridade e elas serão perfeitamente de acordo. Dêem a supremacia a quem lhes aprouver, e vocês terão os mesmos resultados abalizados, pelo menos com os mesmos arranjos dos detalhes.

Todas estão ao termo da civilização cristã.

A próxima guerra mundial verá sua derrocada na supressão das possibilidades de concorrência internacional.

Seu estado cadavérico afligirá os olhos ainda fechados.

A decomposição iniciada no século XIV provocará náusea nos menos sensíveis.

Sua execrável exploração, mantida tantos séculos na eficácia ao preço das qualidades mais preciosas da vida, se revelará enfim à multidão de suas vítimas: dóceis escravos tanto mais incitados a defendê-la quanto eles eram mais miseráveis.

O esquartejamento terá um fim.

A decadência cristã terá levado em sua queda todos os povos, todas as classes que ela tiver tocado, na ordem da primeira à última, de cima em baixo.

Ela atingirá na vergonha a equivalência revirada dos cumes do século XIII.

No século XIII, os limites permitidos à evolução da formação moral. Das relações totalizantes do começo atingidas, a intuição cede o primeiro lugar à razão. Gradualmente o ato de fé dá lugar ao ato calculado. A exploração começa no seio da religião pela utilização interessada dos sentimentos existentes imobilizados; pelo estudo racional dos textos gloriosos ao proveito da manutenção da supremacia obtida espontaneamente.

A exploração racional se estende lentamente a todas as atividades sociais: um rendimento máximo é exigido.

A fé se refugia no cerne da multidão, torna-se a derradeira esperança de uma revanche, a derradeira compensação. Mas aí também, as esperanças se enfraquecem.

Em alta posição, as matemáticas sucedem às especulações metafísicas tornadas vãs.

O espírito de observação sucede ao de transfiguração.

O método introduz os progressos iminentes no limitado. A decadência se faz amável e necessária: ela favorece o nascimento de nossas flexíveis máquinas de deslocamento vertiginoso, permite passar a camisa-de-força em nossos rios tumultuosos esperando a desintegração à vontade do planeta. Nossos instrumentos científicos nos dão extraordinários meios de investigação, de controle dos muito pequenos, muito rápidos, muito vibrantes, muito lentos ou muito grandes para nós. Nossa razão permite a invasão do mundo, mas onde perdemos nossa unidade.

O esquartejamento entre as potências psíquicas e as potências raciocinantes está perto do paroxismo.

Os progressos materiais, reservados às classes dominantes, metodicamente freados, têm permitido a evolução política com a ajuda dos poderes religiosos (sem eles em seguida), mas sem renovar os fundamentos de nossa sensibilidade, de nosso subconsciente, sem permitir a plena evolução emotiva da multidão que sozinha poderia nos ter tirados do profundo trilho cristão.

A sociedade nascida na fé perecerá pela arma da razão: a INTENÇÃO.

A regressão fatal da potência moral coletiva em potência estritamente individual e sentimental teceu o forro do écran já prestigioso do saber abstrato sob a qual a sociedade se dissimula para devorar bem à vontade os frutos de suas perversidades.

As duas últimas guerras foram necessárias para a realização desse estado absurdo. O temor da terceira será decisivo. A hora H do sacrifício total nos roça a pele.

De pronto os ratos europeus tentam um ponto de fuga perdida no Atlântico. Tal como ondas, os acontecimentos quebrarão sobre os vorazes, os saciados, os luxuosos, os calmos, os cegos, os surdos.

Eles serão arremessados sem piedade.

Uma nova esperança coletiva nascerá.

De pronto ela exige o ardor das lucidezes excepcionais, a união anônima na fé reencontrada no futuro, na coletividade futura.

O mágico espólio magicamente conquistado ao desconhecido espera em posição de obra. Foi reunido por todos os verdadeiros poetas. Seu poder transformador equivale em medida à violência exercida contra ele, à sua resistência em seguida às tentativas de utilizações (após mais de dois séculos, Sade permanece indisponível em livraria; Isidore Ducasse, morto há mais de um século, de revoluções, de carnificina, apesar do hábito da cloaca atual, permanece muito viril para as fracas consciências contemporâneas).

Isabel MeyrellesTodos os objetos do tesouro se revelam invioláveis por nossa sociedade. Eles permanecem como uma incorruptível reserva sensível de amanhãs. Eles foram ordenados espontaneamente fora da e contra a civilização. Eles esperam para tornarem-se ativos (sobre o plano social) o resgate das necessidades atuais.

Daqui até lá nosso dever é simples.

Romper definitivamente com todos os hábitos da sociedade, se dessolidarizar de seu espírito utilitário. Recusa de estar cientemente abaixo de nossas possibilidades psíquicas. Recusa de fechar os olhos sobre os vícios, as trapaças perpetradas sob a capa do saber, do serviço devolvido, do reconhecimento devido. Recusa de um acantonamento, a única aldeia plástica, lugar fortificado, porém frágil de proteção. Recusa de se calar - façam de nós o que lhes aprouver, mas vocês devem nos ouvir - recusa da glória, das honras (o primeiro consentido): estigmas da nocividade, da inconsciência, do servilismo. Recusa de servir, de ser utilizáveis para tais e tais fins. Recusa de toda INTENÇÃO, arma nefasta da RAZÃO. Abaixo todas as duas, para a segunda fila!

Lugar para a magia! Lugar para os mistérios objetivos!

Lugar para o amor!

Lugar para as necessidades!

À recusa global nós opomos a responsabilidade inteira.

A ação interessada permanece ligada ao seu autor, ela é natimorta.

Os atos passionais nos escapam de razão de seu próprio dinamismo.

Tomamos alegremente a inteira responsabilidade do amanhã. O esforço racional, uma vez posto de revés, consegue extrair o presente dos limbos do passado.

Nossas paixões modelam espontaneamente, imprevisivelmente, necessariamente o futuro.

O passado teve que ser aceito com o nascimento, ele não poderia ser sagrado. Estamos sempre quites para com ele.

É ingênuo e indecente considerar os homens e as coisas da história no ângulo amplificador do renome que lhes empresta qualidades inaccessíveis ao homem presente. Claro, essas qualidades são fora de alcance às hábeis macaquices acadêmicas, mas elas o são automaticamente cada vez que um homem obedece às necessidades profundas de seu ser; cada vez que um homem consente ser um homem novo num tempo novo. Definição de todo homem, de todo tempo.

Terminado o assassinato massivo do presente e do futuro com golpe redobrado do passado.

Basta extrair de ontem as necessidades de hoje. Para a melhor, amanhã será apenas a conseqüência imprevisível do presente.

Não temos que nos preocupar com isso, não antes que aconteça.

 

ACERTO FINAL DAS CONTAS

 

As forças organizadas da sociedade nos rechaçam nosso ardor pela produção, o transbordamento de nossas inquietudes, nossos excessos como um insulto à sua fraqueza, à sua quietude, ao seu bom gosto pelo que é da vida (generosa, plena de esperança e de amor, por hábito perdida).

Os amigos do regime suspeitam que nós favorecemos a “Revolução”, os amigos da “Revolução”, que somos apenas revoltados”... protestamos contra o que é, mas no único desejo de transformá-lo, não de mudá-lo.”

Tão delicadamente dito que isto seja, nós cremos compreender.

Trata-se de classe.

Emprestam-nos a ingênua intenção de querer “transformar” a sociedade substituindo os homens no poder por outros semelhantes. Então, por quê não eles, evidentemente!

Mas acontece que eles não são da mesma classe! Como se mudança de classe implicasse mudança de civilização, mudança de desejos, mudanças de esperança!

Eles se dedicam com salário fixo, mais um acréscimo de vida cara, à organização do proletariado; eles têm mil vezes razão. O problema é que, uma vez a vitória bem assentada, além dos pequenos salários atuais, eles exigirão sobre as costas do mesmo proletariado, sempre, e sempre da mesma maneira, um acerto dos custos suplementares e uma renovação de longo prazo, sem discussão possível.

Reconhecemos assim mesmo que eles estão na linha histórica. A salvação só poderá vir após o maior excesso da exploração.

Isabel MeyrellesEles serão este excesso.

Eles o serão em toda fatalidade sem que haja necessidade de quem quer que seja em particular. O rega-bofe será farto. De antemão recusamos sua partilha.

Eis nossa “abstenção culpada”.

Para vocês a carniça racionalmente ordenada (como tudo o que está no seio afetuoso da decadência); para nós a imprevisível paixão; para nós o risco total na recusa global.

(Está fora de vontade que as classes sociais se tenham sucedido ao governo dos povos sem poder outra coisa que perseguir a irrevogável decadência. Fora de vontade que nosso conhecimento histórico nos assegura que apenas um completo desabrochar de nossas faculdades de início, e, em seguida, uma perfeita renovação das fontes emotivas possam nos tirar do impasse e nos pôr na rota de uma civilização impaciente para nascer).

Todos, pessoas em seu lugar, aspirantes em seu lugar, querem bem nos estragar, se somente consentíssemos a administrar suas possibilidades de deformação por uma dose prudente de nossas atividades.

A fortuna vem para nós se nós abaixamos nossas viseiras, tampamos nossas orelhas, recolocamos nossas botas e ousadamente trilhamos o mesmo caminho, à esquerda à direita.

Preferimos ser cínicos espontaneamente, sem malícia.

Pessoas amáveis sorriem ao pouco de sucesso monetário de nossas exposições coletivas, eles têm assim a encantadora impressão de ser os primeiros a descobrir o pequeno valor mercantil que elas têm.

Se nós organizamos exposição após exposição, não é na ingênua esperança de fazer fortuna. Nós sabemos daqueles que possuem às antípodas de onde estamos. Eles não saberiam impunemente arriscar esses contatos incendiários.

No passado, mal-entendidos involuntários permitiram sozinhos tais vendas.

Cremos nesse texto de natureza a dissipar todos os do porvir.

Se nossas atividades se fazem prementes, é que sentimos violentamente a urgente necessidade da união.

Lá, o sucesso resplende!

Ontem, estávamos sozinhos e indecisos.

Hoje um grupo existe nas ramificações profundas e corajosas, que já transpõem as fronteiras.

Um magnífico dever nos incumbe também: conservar o precioso tesouro que nos cabe. Ele está também na linha da história.

Objetos tangíveis, eles requerem uma relação constantemente renovada, confrontada, reposta em questão. Relação impalpável, exigente que pede as forças vivas da ação.

Esse tesouro é a reserva poética, a renovação emotiva em que beberão os séculos por vir. Ele só pode ser transmitido se TRANSFORMADO, sem o que é a deformação.

Que aqueles tentados pela aventura se juntem a nós.

No prazo imaginável, nós entrevemos o homem liberado de suas correntes inúteis, realizando na ordem imprevista, necessária da espontaneidade, na anarquia resplandecente, a plenitude de seus dons individuais.

Daqui até lá, sem repouso nem trégua, em comunidade de sentimento com os sedentos de um melhor-estar, sem temor dos longos vencimentos, no encorajamento ou na perseguição, nós perseguiremos na alegria nossa selvagem necessidade de libertação.  

Paul-Émile Borduas (Canadá, 1905-1960). Artista Plástico. Um dos nomes fundamentais das vanguardas artísticas no Canadá. O presente manifesto, que data originalmente de 1948, encontra-se assinado pelos seguintes nomes: Magdeleine Arbour, Marcel Barbeau, Bruno Cormier, Claude Gauvreau, Pierre Gauvreau, Muriel Guilbault, Marcelle Ferron-Hamelin, Fernand Leduc, Thérèse Leduc, Jean-Paul Mousseau, Maurice Perron, Louis Renaud, Françoise Riopelle, Jean-Paul Riopelle, Françoise Sullivan. Para maiores informações, sugerimos contato com André Lamarre: lamarre.andre@sympatico.ca. Página ilustrada com obras da artista Isabel Meyrelles (Portugal).

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