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revista
de cultura # 49 |
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Aquém da ficção e além da vida: a teoria da percepção segundo Rosa Alice Branco Rodrigo Petronio
Logo em seguida o estudo passa às condições da visão e da experiência, entendidas como corpo-a-corpo que significa as imagens retinianas. O horizonte de expectativas seria preenchido pelo sentido objetual que se impregna no modo sinestésico de nosso corpo, de nosso agregado sensível, e é assim que a imagem se oferece e é retida nessa rede. Trata-se a partir de então do paralelo entre o percurso e o discurso: o olhar, não sendo meramente discursivo, não capta a imagem como conceito ou como representação mental, mas sim refaz, em sua operação, o modo experiencial que diz essa mesma imagem no corpo e compõe com ela um platô, um território, para falar com Deleuze. Se não fosse a força motriz do corpo e seus agenciamentos físicos, especialmente o tato, a própria visão, por mais que se queira contemplativa, não reteria o que retém nem veria o que vê. Esse é outro enigma quase insolúvel, mais adiante desenvolvido brilhantemente com referências ao problema de Molyneaux. Essas indagações têm importância seminal para a compreensão da arte. Apenas a título de exemplo, tal cisão é que vai possibilitar a busca de uma percepção pura, que radicaria no caráter heterogêneo entre tato e visão. E é nesse campo de pesquisas que podemos entender o trabalho dos pintores impressionistas. Ao romper essa vinculação, como Rosa Alice Branco demonstra, vão propor uma redução fenomenológica rumo à cor pura e à experiência pura da cor, desvinculadas do aspecto motriz que filtra luz e cor, ou seja, vão tentar desvincular a experiência mundana de sua pura significação plástica. O ápice dessa busca está em Cézanne e nos seus desdobramentos posteriores, dos mais conseqüentes e importantes da arte do século XX. A obra critica muito bem a dimensão interpretativa, dir-se-ia hermenêutica, do olhar, mostrando como ela está atrelada a uma visão da arte como ilusão e como conjectura, diferente da evidência da imagem das coisas cotidianas e, temo dizer, reais. Nesse sentido, a partir daqui o livro já passa a desmanchar as concepções positivas de arte, que cindem real e representação, tomando o quadro como elemento discursivo autônomo e desenraizado dos modos de apresentação ordinários que nos fundam. Se ver não é interpretar, para onde escoaria a essência da visão? Em que terreno original ela se realizaria em sua perfeição? Aqui entra o problema da consciência, da distinção entre a ação ativa e reflexiva, que o livro desenvolve a partir das teorias de Berkeley e Hume. Também a partir daqui adentramos um dos campos mais fascinantes da teoria da arte. Ele diz respeito à dimensão anterior à simbolização, à sua instância projetiva, diríamos em linguagem fenomenológica, que seria, deste modo, o seu horizonte de irradiação. Tal questão se liga intimamente ao estudo da causalidade, que a autora já havia estudado em sua obra A Percepção Visual em Berkeley Como Operação Interpretativa e que foi verticalizada no amplo escopo de sua tese de doutorado, que expandiu o tema a vários domínios do conhecimento, da filosofia às ciências e até à matemática. Porque se conceber a totalidade é sempre um exercício de coadunar as séries e as seqüências em um fluxo unitivo de experiência, o cerne de um estudo sobre a percepção deve deitar suas raízes fundas no princípio da causalidade. É isso que este livro faz, mas com a perícia adicional de conseguir tematizar esse problema sem recorrer diretamente às implicações mais conhecidas de duração e discrição, mas indo sim buscar em autores como Alfred Whitehead, René Thom e James Gibson, entre outros, uma série de matizes que as generalizações contidas nos conceitos de devir e fixidez contêm, mas não explicitam.
A arte é a única perspectiva sincera porque se oferece como perspectiva (pág. 24). Esse princípio de aparente neutralização da arte cria uma dupla verdade, quase à maneira daquela a partir da qual os averroístas distinguiram conhecimento e fé. Se por um lado não podemos nos fiar em um credo fictício criado por uma ficção, não podemos menosprezar o poder de sua verdade, como contrafacção de um mundo (real) no qual, junto com ela, estamos imersos e sem saídas que não sejam provisórias e contingentes. Dentro desse regime previamente aporético, temos duas maneiras possíveis de conceber a percepção. Por um lado, para que se cumpra a contento a constituição semântica do objeto, a dimensão de espaço e tempo do sujeito é suspensa. Isso fornece ao objeto a sua identidade, fora da duração em que ele é apreendido em seu fluxo. Tal atopia circunstancial da verdade e da arte nos conduz à teoria da evaporação de Gibson. Em outro extremo, teríamos uma teoria da percepção que nos remete ao seu aspecto essencialmente mundano. Em outras palavras, que a contrapelo da perspectiva fixa de um olho transcendente que pudesse contemplar o objeto de um ponto absoluto, toda nossa percepção é vivencial e dêitica: consiste no conjunto de preensões que temos de um mesmo objeto que, a despeito do devir irreversível que molda esse conhecimento e esse processo, fornece-nos uma totalidade desse mesmo objeto, pelo simples fato de poder captá-lo alternadamente de inúmeras perspectivas. Essa operação nos daria a sua imanência absoluta, sem, no entanto, furtá-lo à experiência, mas sim, pelo contrário, mergulhando-o e a nós mesmos no horizonte experiencial. E aqui, nessa dimensão onde a espacialização e o tempo se cruzam, creio que se inicie a parte mais fascinante do livro. E ela diz respeito ao conceito de pregnância e saliência, e a todas as suas belíssimas implicações. Rosa Alice Branco dialoga com idéias de René Thom e depois as entrelaça a importantes conceitos de Whitehead e de Gibson. Mas o que seriam exatamente reentrância e saliência? De maneira reduzida, podemos definir as reentrâncias como agentes promotores da identificação do objeto, em outras palavras, seus princípios de individuação, se fôssemos referir nos termos da metafísica. São operadores de identidade que fazem com que o objeto se nos ofereça não como um conjunto desconexo de séries nem como uma unidade estática, mas sim em sua unidade conformativa dinâmica. As saliências seriam as fissuras capazes de dar a ver essa identidade fenomenal que se realiza como pregnância. Porém, a identidade não é apenas da ordem dos fenômenos, porque se enraíza em uma teoria da physis. Se um dos dados centrais da pregnância é a busca de orientação, ou seja, eixos provisórios e seletivos que guiam a experiência para que ela se ultime, no nível temporal a pregnância desfaz o conceito cristalizado de um instante puro e nos remete a uma transitividade entre passado imediato, presente inapreensível e futuro conjectural. Abre-nos àquilo que, como o estudo bem sinaliza, Whitehead define como um instante que não é apenas uma parcela do tempo fracionado, mas sim uma implicação temporal complexa, que contém em si diversos modos do tempo. É o caráter pregnante da experiência que transforma toda a discrição em descrição positiva, válida apenas em termos didáticos, mas sem nenhuma verdade ôntica e nem mesmo física. Da mesma forma, se a sucessão pretende subdividir o espaço, a transitividade, como Rosa Alice Branco enfatiza, recorrendo a Hume, é superada pela transmissividade: um instante do tempo se propaga e continua indefinidamente no seguinte, o antecedente vibra e se prolonga no conseqüente e assim temos um espaço continuado porque retido em um tempo contínuo. Se o tempo se fratura pelos seus modos de apresentação à percepção, é necessário que haja uma unidade da experiência que nos mostre tratar-se de um mesmo objeto, sem retirá-lo de seu devir. Nesse sentido, o fator identitário consiste sempre na proporção das relações estabelecidas entre as séries sucedidas e, portanto, suprimidas enquanto série sob a ação da pregnância e do princípio de conformação temporal criado por Whitehead e desenvolvido magistralmente pela autora.
Essa operação faz com que a identidade não seja desligada da seqüência na qual o objeto constitui o termo atual. O que temos é uma maravilhosa reconquista da continuidade, remodelada a partir do percurso da experiência que esculpe o conceito e legitima a imagem vista, na medida em que lhe fornece uma legibilidade táctil e um vetor, que sempre corresponde a uma afecção e segue um princípio pregnante de orientação. Assim a livra da dimensão representacional na qual naufragam ainda hoje todas as filosofias que não conseguiram se cumprir enquanto tal. Retomando Gibson, Rosa Alice Branco propõe a percepção como ato contínuo. Como foresight (previsão) a percepção elege previamente seu rumo, sua atuação. Como affordance (recurso) dispõe de meios para concretizar essa sua perfecção. O que é interessante é que a pregnância, como princípio e base física, funciona como um esquema causal que organiza toda a representação. É como se ela fosse a instância projetiva e a base onde se objetiva a representação. Para o próprio René Thom, como nos lembra a autora, é um fluido que se propaga nas fissuras do real e é acolhido nas suas saliências. É nessa série de transferências que se realiza a conveniência entre ambas as instâncias. A propagação da pregnância conduz o eu ao mundo, o sujeito ao objeto, a partir do caráter diretivo que a sua orientação afetiva agencia. Mas o movimento inverso também se dá: o conteúdo semântico do objeto também se oferece ao sujeito do enunciado de maneira a limitar a sua legibilidade e confirmá-la. Toda a pregnância é um atrativo, um vetor direcionado pela base afetiva da percepção, entendida em seu impulso à orientação. É baseado nesse movimento que a unidade do mundo assimila a sua aparente seriação. E é de acordo com esse processo que os objetos do mundo, como o estudo demonstra, podem ser vistos em sua totalidade. Por isso, o mundo está aquém do quadro, porque lhe falta o teor específico da representação para se conceber enquanto tal, mas também ao quadro falta mundanidade. Falta-lhe a dimensão estrita que caracteriza o aqui e agora afetivo dêitico que nos faz mais reais que a pintura e menos fictícios que a realidade. Depois se espraiam algumas distinções importantes, traçadas por Rosa Alice Branco a partir de Hume, entre crença e paixão (sentimento), ficção e imaginação. A partir delas a autora equaciona a experiência afetiva e retoma o conceito de inferência, por ele desenvolvido, para retificá-lo. Porque se a inferência de Hume, como esclarece a estudiosa, cinde passado, presente e futuro em entidades discretas, sob a força de conceber a percepção como operação transitiva, tal cisão será criticada e resolvida por Whitehead, ao definir o instante não como um recorte do tempo, mas sim como aquela dimensão em que todo o tempo está inscrito. A imagem é bela e de amplas conseqüências teóricas. Guardadas as diferenças enormes, tanto históricas quanto conceituais, é como se Whitehead seguisse e propusesse, em nova chave, as concepções de Santo Agostinho, nos livros X e XI das Confissões, nos quais o filósofo define o tempo, em termos gerais, como um passado que é extinto, um presente inapreensível e um futuro que nos é vedado, insistindo no fato de que vivemos, de certa maneira, um presente absoluto, para o qual estas duas dimensões temporais escoariam. A recorrência a Agostinho aqui não é gratuita. A partir da aproximação de dois filósofos tão distintos e tão distantes no tempo, pode mostrar como a causalidade, mesmo agindo por saltos quantitativos, compreende no tempo pleno de sua enunciação pontos diversos de uma série e os ilumina em seu presente absoluto. O fluxo qualitativo do pensamento que sente e percorre os dois termos (os dois nomes) une-os na imanência do discurso. Dá-lhes um vetor e uma orientação porque os impregna e é por eles impregnado. Felizmente não há aqui, como se deve supor, nem rastros de exterioridade representativa. É justamente por essa operação conceitual que Rosa Alice Branco consegue propor uma saída para a discrição, em benefício do fluxo. E apontar admiravelmente como:
A crença, entendida no sentido de Hume como uma atenção aos dados do mundo que nos são fornecidos, só pode se cumprir em seu percurso perceptivo se suspensas as categorias sucessivas do tempo como um conjunto de instantes em série. Isso só será possível se imergirmos em uma relação com o mundo onde o eu e o mundo estejam ambos unidos, mais que ontologicamente, física e perceptivelmente, pela pregnância, que fornece as bases para a nossa orientação. Ela é o componente prévio de toda a experiência e de toda a percepção. Sendo vetorial, ela também é seletiva: mesmo o animal age a partir de tendências que orientam sua ação de acordo com graus de perigo e êxito. Portanto, por modos que selecionam os objetos a partir de dados imanentes à percepção que o ente, imerso no mundo e prenhe das pregnâncias que se lhe oferecem, rebatidas e conformadas em saliências sensíveis. Esse processo reveste os sentidos de um valor sinestésico, motriz, vestibular que ultrapassa a mera imagem retiniana, bem como a mera representação mental e seus componentes lingüísticos e sígnicos. E aqui entramos no importante conceito de conformação, desenvolvido por Whitehead. É ele que une termos antecedentes e conseqüentes no tempo e, desse modo, unifica a percepção e o espaço sob o fluxo de sua ação. Todo o livro vem impregnado de obras de Magritte, Delvaux, Escher, De Chirico, Ingres, Resende, Cézanne, onde essa rede complexa de conceitos é atualizada e vivida pelo olhar. Em meio a todo esse desenvolvimento admirável, podemos ressaltar como um dos maiores méritos desta obra, entre tantos, o fato dela não vedar alternativamente os dois principais modos de percepção, o da eficácia causal e o da apresentação sensível, como Rosa Alice Branco demonstra admiravelmente. Fá-lo porque a ação conjunta de ambos é que nos faz passar do significante ao significado, ou seja, do nível latente ao simbólico. Essa passagem nos desvenda mais uma faceta excelente deste trabalho: a minimização do dado simbólico no processo perceptivo e o mergulho vertical e conseqüente nas suas origens e em sua physis. Como fenômeno vetorial, o tempo tende a se tornar espaço. Da mesma maneira, a expansão conformativa de que o estudo trata, resolve a aporia de um tempo cumulativo, tal como foi descrito por Hume, e, simultaneamente, promove a passagem das impressões discretas à permanência do objeto, solucionando também, por seu turno, a aporia que ocupou boa parte das reflexões do grande filósofo.
Por um compromisso ético e intelectual, Rosa Alice Branco não cede às facilidades do vale-tudo liberal e pós qualquer coisa onde reina o cinismo ilusionista, alheio às mais claras evidências das coisas. Para tanto, sabe manter muito bem as diferenças formais e específicas entre mundo e representação, arte e vida, infensa à diluição de discursos política, ideológica e economicamente comprometida em voga. Portanto, a reversibilidade possível entre mundo e quadro não é total, posto que ainda vivamos a aporia descrita por Foucault, entre o dizível e o visível e as heranças de um pensamento que se polariza incansavelmente entre o empírico e o transcendental. Por outro lado, lembremos que o mesmo filósofo entrevê uma nova luz, que radicaria em um mergulho na experiência originária do tempo. O trabalho de Rosa Alice Branco perpetra um golpe conseqüente em toda polarização, em todo pensamento representativo e em toda positividade. Com isso nos dá um dos melhores atestados desse tempo original, de pura imantação. Em outras palavras, ao remeter-nos à arte e à percepção, apenas escamoteia, de maneira inteligente, o cerne de seu propósito, que no fundo é o de propor um novo sentido e uma nova ação para vida. |
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Rodrigo Petronio (Brasil, 1975). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Transversal do Tempo (2002), Assinatura do Sol e Pedra de Luz (ambos em 2005). Contato: rodrigopetronio@uol.com.br. Página ilustrada com obras da artista Isabel Meyrelles (Portugal). |
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