Isabel Meyrelles Isabel Meyrelles
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revista de cultura # 49
fortaleza, são paulo - janeiro de 200
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Isabel Meyrelles

editorial

Picasso, a cultura, a burocracia e a política cultural

Logo após o Natal, a 27 de dezembro, incendiou-se o prédio do INSS, a Previdência Social, em Brasília. Vários pavimentos foram destruídos. Perderam-se arquivos, inclusive processos de cobrança no valor de bilhões de reais.

Salvou-se, contudo, conforme noticiou a imprensa e mostrou a TV, um “quadro de Picasso”.

Transcrita de um site, a notícia mais detalhada: “Nas buscas após o incêndio que afetou parte do prédio do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) foram encontrados dois quadros. Segundo o ministro da Previdência, Nelson Machado, as duas obras podem ser valiosas. Um deles seria do artista espanhol Pablo Picasso. O outro quadro, de Augusto Rodrigues, foi encontrado na sala da presidência do Instituto. Os quadros faziam parte de um Museu da Previdência que está desativado. Machado explicou que obras de arte são normalmente usadas como pagamento de débitos ao INSS. ‘Não sei se é um Picasso. Há uma dúvida quanto a isso. Estamos recapturando esses quadros, trazendo para o ministério, e vamos dar uma destinação específica’, afirmou.”

O “quadro de Picasso” foi exibido em jornais e na TV. É uma obra conhecida: um retrato de mulher, ou antes de uma matrona, da fase ainda figurativa, anterior ao cubismo. A TV Globo mostrou em detalhe a assinatura, para sustentar que poderia ser autêntico.

Neste final de 2005 e começo de 2006 choveu muito, por dias seguidos, sobre o Sul-Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. A TV mostrou a imensa nuvem, captada por satélite. Resultado do aumento da temperatura terrestre e da umidade.

Mais espessa e sombria é a nuvem de ignorância que paira sobre Brasília.

O “Picasso” do INSS incendiado saiu de pauta. Ninguém voltou a tocar no assunto. Menos ainda alguém se deu ao trabalho de comentar o significado dessa descoberta.

De duas uma: ou o quadro é falso, ou é verdadeiro.

Apostaríamos que não passa de cópia ou reprodução do original, sem valor comercial. Alguém gostou da reprodução, achou-a bonita, e a pôs para decorar a sala do diretor. Passado algum tempo, ninguém mais sabia por que o quadro estava lá e de onde viera, posto que é ampla a memória da burocracia brasileira.

Se o “Picasso” for verdadeiro, pior ainda. Os que sequer conseguem administrar nossa Seguridade Social e instalar postos de atendimento minimamente civilizados, repentinamente se tornam especialistas em artes, os curadores de um “Museu da Previdência”.

Nas declarações do Ministro da Previdência não transpareceu a mais remota desconfiança de que esse quadro não é deles. Falso ou verdadeiro, recebido como pagamento de dívidas ou por outros caminhos, é patrimônio público. Tinha que ter sido avaliado. E, se verdadeiro, imediatamente transferido para o Ministério da Cultura e, deste, para algum museu de verdade, ao qual o público tivesse acesso. Por exemplo, o Museu Nacional.

O episódio expõe a lógica da burocracia. Mostra como são as relações entre burocracia e cultura; como agentes do Estado tratam a coisa pública, ou que deveria ser pública. É escandaloso, nem tanto porque o Ministro da Previdência e sua equipe se revelaram incapazes de explicar que quadro é esse e como foi parar lá; mas pela naturalidade com que exibiram sua incompetência.

O quadro de Picasso, achado por acaso entre os salvados de um incêndio em Brasília, verdadeiro ou falso, é um microcosmo, retrato de como se governa no Brasil.

* * *

As leituras de poesia nas quais se protestava contra o regime militar entre 1976 e 77 o comitê contra a censura formado por uma robusta bancada sindical-cultural em 1982 a presença de intelectuais e artistas na campanha pró-eleições diretas de 1984 o Congresso de Escritores da UBE de 1985 o seminário de legislação cultural na Assembléia Legislativa de São Paulo no mesmo ano os artistas e intelectuais na Constituinte em 1988 redigindo os capítulos sobre Cultura e Comunicações da nova Constituição a defesa de uma nova legislação cultural a partir de 1988 a reação de um comitê de entidades à supressão de órgãos culturais públicos e da lei de incentivos à cultura no governo Collor a partir de março de 1990 a discussão e apoio à pioneira lei municipal de incentivos para a cultura de São Paulo, resposta à supressão da Lei Sarney por Collor a interferência na aprovação da Lei Rouanet, tornando-a menos centralizadora e mais transparente, contrariando os propósitos da burocracia cultural federal a defesa do impeachment de Collor por artistas e intelectuais:

O que todos esses episódios tiveram em comum?

Duas coisas.

Uma, que de todos eles participou um dos editores de Agulha.

Outra, mais importante, que, em todas essas ocasiões, houve inserção da cultura em crises e processos de transformação. A participação de intelectuais e artistas e de suas representações associativas na mobilização pró-Diretas, na Constituinte, no repúdio a Collor, etc., resultou em atenção de governantes e políticos em geral a temas culturais.

O refluxo desse tipo de intervenção nos últimos dez anos tem relação, paradoxalmente, com a normalização do país. A democracia representativa é menos empolgante que as grandes mobilizações, a exemplo da campanha Diretas Já. Revoltas, revoluções, rebeliões, grandes manifestações despertam paixões. Superam a via eleitoral no plano estético.

Este início de 2006 é marcado por mais uma crise política, originada pelas denúncias de corrupção no governo Lula. O tema já foi examinado aqui (A crise brasileira, a política, os intelectuais, os mundos paralelos e os países imaginários de Jorge Luis Borges, por Claudio Willer, em www.revista.agulha.nom.br/ag47willer.htm).

Mas, desta vez, a crise passa ao largo dos temas de política cultural. Quando muito, como parte do processo do governo Lula, há discussão da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura.

Fora do debate político, a cultura perde espaço na administração pública. Ausentes como interlocutores e agentes em processos de mudança, intelectuais e artistas são relegados a um segundo plano. Há um silêncio que não ocorreria até dez anos atrás, diante da redução de verbas em todos os escalões e esferas de administração cultural pública, federal, estadual e municipal.

A registrar, as iniciativas setoriais, nem por isso desprovidas de interesse: os movimentos em favor de lei estaduais possibilitando subvenções para a cultura; e até uma mobilização especificamente literária, Fome da leitura, originária de São Paulo, mas de alcance nacional.

É urgente, porém, uma agenda mais ampla, somando interesses e propostas culturais. Resta saber se é possível um movimento autônomo, não apenas suprapartidário, mas eqüidistante com relação a acusadores e acusados neste momento. Ou se haverá participação e a conseqüente inclusão de temas culturais em iniciativas como aquela que começa a ser apresentada pela OAB, esboçando um “Fora Lula”, assim procurando reeditar o desempenho que essa entidade teve durante o processo de impeachment Collor.

Talvez as duas alternativas – a mobilização neutra, preocupada apenas com temas de política cultural, e outra associada a algum movimento pela destituição de Lula – venham a realizar-se. Não seriam excludentes, porém complementares.

Afinal, não se trata apenas de atender a interesses setoriais – porém legítimos – de escritores e editores, cineastas, profissionais de teatro, artistas em geral, mas de entender que avanços éticos, institucionais, econômicos, para virem a se realizar, têm que incluir um projeto em defesa da cultura. Em caso contrário, o Brasil não sairá de onde está – ou, crise após crise, mobilização após mobilização, retornará sempre ao mesmo lugar.

Os editores

Isabel Meyrelles

sumário

1 a literatura alemã de hoje: I - romance. viviane de santana paulo
2 a rebelião para o alto: impressões sobre a poesia de roberto piva. ricardo rizzo
3 al-mutawakel taha
: un poeta palestino en ármala [entrevista]. eduardo mosches
4
aquém da ficção e além da vida: a teoria da percepção segundo rosa alice branco. rodrigo petronio
5
auguste rodin: las sombras moduladas. jorge leal labrín
6
césar romero: a escritura do brasil. jacob klintowitz
7 cintio vitier
y la reinvención de orígenes. vicente jiménez
8
dioniso crucificado [sobre vicente ferreira da silva]. per johns
9
kcho: un trozo de algo [entrevista]. franklin fernández 
10 la muerte viva: entrevista con felipe ehremberg. josé ángel leyva
11 leon hirszman
de volta às origens. ana lúcia vasconcelos
12
los horizontes estéticos de miquel basceló. miguel ángel muñoz
13 osip mandelshtam
: la pedrada en la historia. víctor toledo
14
recusa global - manifesto. paul-émile borduas
15
relembrando os anos 60. margaret randall

artista convidado isabel meyrelles (esculturas)
resenhas livros da agulha afonso henriques neto [por bruno zeni]
armando rodríguez ballesteros [por rodolfo häsler] carmen verde ernesto alvarez [por juan manuel rivera] fernando alves dos santos [por perfecto e.-cuadrado] joão carlos taveira [por ronaldo costa fernandes] juan calzadilla [por claudio willer] pedro garcia [por claudio willer] rafael courtoisie [por rosario peyrou] ronaldo costa fernandes [por salomão souza] suehiro maruo [por claudio willer] valdir rocha [por marola omartem]
música
discos da agulha ana fridman
dorina duo folia francisco casaverde gilson peranzzetta marcel powell [por tárik de souza] mario lucio moacir santos [por erico baymma] nadinho da ilha salgado maranhão sérgio natureza sérvulo augusto [por beto feitosa]
cumplicidade galeria de revistas  

Isabel Meyrelles

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floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
jo
sé ángel leyva (méxico)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidada (esculturas)
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