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revista
de cultura # 49 |
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artista convidada: isabel meyrelles |
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Isabel Meyrelles no labirinto de seu museu dinâmico de metamorfoses Perfecto E.-Cuadrado
Surrealismo e ficção científica (a segunda, às vezes tangente ao primeiro ou parcialmente incluída nele) são dois dos pontos de referência fundamentais quando se fala nas origens ou crescentes da criatividade de Isabel Meyrelles, mas nunca ao mesmo nível de lição e de cumplicidade, por transcender o Surrealismo (e nisso tambén se reconhece e reconhecemos Isabel Meyrelles) a dimensão da teoria estética ou da reflexão poética para atingir no seu projecto romântico de revolução total e coincidente de Vida e Arte o espaço das convicções morais e dos comportamentos éticos e políticos. Situados na esfera das prácticas artísticas, no caminho que vai da realidade real à realidade poética através do fltro da experiência pessoal, as estações em Isabel Meyrelles são várias, e, empregando a terminologia dos românticos do século XVIII, poderiamos dizer que nos levam em sentido ascendente da realidade real à memória, da memória à fantasia, da fantasía à imaginação criadora, e desta à realidade poética. E essa realidade poética, frequentemente, não é simples e imediata metamorfose da realidade real, mas sim metamorfose da metamorfose, algo assim como uma transmetamorfose ou transformação duma outra realidade poética – o mito, a lenda, e o imaginário que soube traduzi-los e representá-los ao longo da História – de maneira que o dragão é metamorfose da iconografia clássica do dragão oriental e o unicórnio transformação da sua representação clássica ocidental. Dragão, unicórnio ou gato (este também metamorfose do gato simbólico dos egipcios) configuram assim um bestiário fantástico e muito pessoal que pela magia da poesia passa a bestiário colectivo e doméstico sem perder nada do seu significado particular e simbólico. Já foi apontado pela crítica na sua obra o jogo de contrastes entre a força vulcânica da emoção e a serenidade clássica da sua tradução formal que essa emoção controla (ou a mascara e dissimula), entre o universo fantástico da fauna meyrelliana e a sua realização material com aparência de realismo convincente, entre a dureza dos materiais originais e a delicada transformação que faz do barro bronze ou mármore e da madeira alabastro ou marfim, o que provoca quase que sincronicamente a surpresa paralizante do estranho e distante e uma atração física (uma incitação à carícia, à apropriação carnal do objecto). Talvez se possa ver nesse jogo de contrastes o tal propósito deliberado e provocador de “dissonância” utilizado por Hugo Friedrich para caracterizar a lírica chamada “moderna”, dissonância que produz no leitor (no espectador, neste caso) um especial fascínio, uma perplexidade e uma fixação e uma vontade de afastamento e de entrega a que poderiamos chamar de “efeito-cobra” por paralelismo emocional. Carácter simbólico têm também na obra de Isabel Meyrelles determinados objectos ou fragmentos de humanidade ou profecias de vida como a mão, com a luva que multiplica os seus sentidos, ou o ovo, que chega a totem celebrado ritualmente num círculo que remite ao projecto do espaço duma praça actual mas que ultrapassa esse seu destino original para nos transportar ao lugar sagrado dos rituais da tribo, como o das pedras de Stonehenge.
Há também homenagens, seja a gentes amigas e pessoas da família, seja a alguma das afinidades electivas maiores como André Breton. E quase que poderiamos também falar em homenagem na “Mesa de café”, celebração e memória dum dos espaços vitales e artisticos que marcaram nos últimos séculos a história social e cultural desse nosso fragmento de mundo a que costuma adjectivar-se de “ocidental”, aqueles cafés lisboetas do convívio surrealista que com tanta emoção lembrava Cruzeiro Seixas no texto que escreveu para a recente exposição de Isabel Meyrelles na Galeria S. Mamede. Não faltam as referências à história mítica de Portugal e de Europa (a alusão, por sinédoque, a Ulisses, e, em certa maneira, o misterioso cavaleiro templário) ou a alguns dos mitos dessa história, lidos e assumidos desde os seus muitos sentidos incluidos aqueles mais transgressores ou menos convencionais, como no caso da Soror Mariana Alcoforado vista na sua dupla condição de freira rigorosa e apaixonada amante através do jogo dos vestidos (e da ausência deles) que encenam com humor a transformação da religiosa em alegre cortesã dizendo ao mundo o quanto ele lhe importa. E é que o humor é também referência necessária quando se fala na obra de Isabel Meyrelles, um humor “negro” ou “objectivo” (hoje podemos já dizer “surrealista”, ou falar simplesmente em “umor”, como queria Jacques Vaché) que se revela arma privilegiada de desarticulação e rearticulação da realidade com vistas à sua possível (ou impossível, na opinião de Mário Cesariny) “reabilitação”, um humor que podemos encontrar, por exemplo, no grupo de cabeças-ovo em movimento representativas de grupos ou colectivos sociais ou nacionais. Esse “umor” que sempre imgregna e que às vezes preside as prácticas artísticas de Isabel Meyrelles é também – e aquí, mais uma vez, a dimensão moral e ética e política do projecto revolucionário surrealista – uma maneira de ser e de estar, uma actitude, um modo diferente de ver e de viver (não só de dizer) a vida e de actuar sobre ela. Mas esse ver e viver e até o próprio dizer a vida conforme ao projecto surrealista resumido na trindade amor-poesia-liberdade é uma aventura perigosa que até pode ultrapassar as possibilidades do humor como arma ofensiva-defensiva e que frequentemente deriva numa descida aos infernos: nessa descida, Isabel Meyrelles soube ajudar-se sempre da literatura, remédio que por vezes acaba em húmus de uma nova doença, de novas dúvidas e novas interrogações e novos e mais duros desassossegos. Mas niguém disse que o caminho era fácil (até porque esse caminho não vem nos mapas que nos dão à partida e somos nós a procurar o seu perfil no nosso dia-a-dia) e ainda menos que fosse único e portanto obrigatório: os caminhos são muitos e muitos e muito diversos os seus acidentes e os horizontes a que apontam, e afinal é da nossa eleição viver ou ser vividos, ver passar o rio ou ser rio para ser mar um dia. Essa a proposta (modesta) do Surrealismo, essa a proposta e a lição de Isabel Meyrelles, corpo visível sempre na paisagem de sombras atravessada pelos relâmpagos das suas esculturas, e nesse corpo um rosto e nesse rosto o gesto de reflexão e dúvida na fronte e o na boca o riso sempre pronto, imenso e perturbante que ajuda a dissolver -se não ressolve- as nossas perplexidades e a angústia da nossa permanente tensão entre a realidade e o desejo. Entre os “caprichos” de Goya há aquele titulado “El sueño de la razón produce monstruos” que permite sem dúvida as mais diversas interpretações e entre elas uma que para mim resulta particularmente “moderna” e que fala da grandeza trágica do pintor espanhol “estrangeirado” (ou, como se dizia em Espanha, “afrancesado”): a desconfiança no sentido absolutamente positivo e universalmente abrangente da (na época, e ainda hoje…) todopoderosa deusa Razão que tinha vindo a substituir os velhos deuses como alicerce sustentador da cidadela que o homem precisou sempre para se defender daquele Medo essencial que, como no conhecido poema de Alexandre O’Neill, ameaçava e sempre ameaçou com “ter tudo”. Talvez o já romântico Francisco de Goya y Lucientes adivinhava (ou porventura sabia) que existiam outras razões que não as da razão, e é justamente a defesa da razão dessas razões e da sua necessidade urgente o que viria a constituir a preocupação maior daqueles artistas a que Rimbaud chamaria de “absolutamente modernos”, os “filhos da lama” de que falava Octavio Paz, os herdeiros da tradição fáustica que a dada altura do século XX decidiram adoptar o calificativo de “surrealistas” não para nos orientar para um além da realidade mas sim para nos mostrar que esse além existia na própria realidade e que só exigia de nós para se manifestar uma profunda mudança no nosso ser e nosso olhar, uma renascida inocência, um procurado encontro com o “olho selvagem” do miúdo, do louco, do forasteiro, do namorado, do poeta.
A viagem (fuga, exílio) a Paris coincidiu com um momento de agitação e de renovação no devenir da aventura surrealista iniciado por André Breton ao seu regresso das américas, e no calor dessa fogueira mais uma vez acessa apareceram novos amigos como Tristan Tzara, Philippe Soupault ou Henri Michaux. De facto, Isabel Meyrelles tinha passado dum a outro país sem deixar nunca de habitar o país de que sempre se reconheceu cidadã natural, o Surrealismo: “Considero-me surrealista, quer dizer, aprecio o surrealismo como um país libertador. É uma coisa tão grande que é um país. É uma espécie de buraco no espaço em que se passa para outro espaço e acontecem outras coisas. É isso o surrealismo – a possibilidade de fazer outra coisa, de abrir portas à imaginação. Sem peias” (entrevista de Susana Moreira Marques para o “Mil Folhas” do Público, 29 de Maio de 2004). E, se mudou de geografia sem mudar de país essencial, mudou também de língua sem mudar o destino maior de qualquer língua: a poesia, ou seja, a língua na sua genesíaca função de inventar realidade (“no círculo da sua acção, todo o verbo cria o que afirma”, lembrava Cesariny). Na entrevista acima referida, Isabel Meyrelles (sempre ferozmente auto-crítica) parece colocar a poesia num lugar muito abaixo dos seus trabalhos escultóricos: “Mas os meus poemas são de circunstância. A escultora não é nada de circunstância. A poeta é. Aparece a determinadas épocas, por um determinado tempo, mas depois desaparece outra vez, durante muitos anos”. Ora bem, a intermitência (real, se reparamos nas datas de publicação dos seus livros) não necessariamente deve implicar menor significado nem o autoconfessado carácter “circunstancial” pode ser confundido com desprezo ou pouca consideração quanto a importância e a altura da própria obra poética. De facto, alguma vez a autora tem falado da sua poesia como eficaz remédio para os momentos mais disfóricos ou claramente depressivos, como uma necessidade sentida, pois, como diz Maria Fernanda Pinto, “nela a necessidade de escrever é um acto doloroso, corresponde aos momentos de crise, e constitui uma espécie de contraveneno contra a depressão”, caracterizando depois essa poesia nos seguintes termos: “Isabel Meyrelles escreve uma poesia sensível, um pouco cáustica onde o amor e a irrisão estão sempre presentes. Poemas curtos, talvez de influência oriental, num estilo que ela classifica de irónico e por vezes feroz” (Encontro, 15 de Maio de 2004, p.14). Num exemplar de Le Livre du Tigre que Mário Cesariny me ofereceu “em segunda via”, o poeta de Pena Capital tinha escrito o seguinte envio para o seu primeiro destinatário: “Atenção a esta “jovem”! Vive em Paris desde os anos 50, é também escultora com várias exposições e aquí os surreal-cronistas, aliás poucos e nenhuns, não lhe ligam nenhuma. Melhor para ela – e tristes de nós!”. E Alfredo Margarido, num texto para a exposição de escultura de Isabel Meyrelles na Caixa Geral de Depósitos (Paris, 1988), afirmava: “Toute la création d’Isabel Meyrelles cherche avant tout subvertir les modéles, grâce à un double défi: celui de l’élargissement constant du champ des mots, rendu possible par le travail poétique, et le bouleversement des formes plastiques, en arrachant à l’argile la souplesse qui est la sienne, ce qui permet à la céramique de repeupler le monde avec des hybrides de toute nature”. Enfvim, e tentando resumir há tempos o percurso poético de Isabel Meyrelles, dizia eu: “Su obra poética, comenzada en portugués y rematada en francés, bebe en las fuentes de la aventura surrealista, y, como sus esculturas y objetos, oscila entre el doble estremecimiento de la experiencia del amour fou y de la sorpresa producida por la transmutación de la realidad cotidiana en realidad maravillosa o poética en virtud de un estado de espíritu inocente, desnudo y expectante que por serlo no le permite tampoco ignorar la trágica crueldad de la vida abandonada a la refinada brutalidad de aquellos a quienes a veces gratuita o abusivamente llamamos nuestros semejantes”.
As duas primeiras obras poéticas publicadas por Isabel Meyrelles (Em Voz Baixa e Palavras Nocturnas, respectivamente de 1951 e 1954 e as duas em português), têm características comuns como são o tema do amor (mais diurno no primeiro livro, mais nocturno e já quase elegíaco no segundo), a brevidade dos poemas (por vezes, simples fragmentos, rápidas rajadas de emoção, marcas na pele duma impressão que se destaca), ou o tom de tímida confissão, de segredo “em voz baixa”, às vezes de monólogo sussurrado à mesa do café ou no leito subitamente despovoado. Com O Rosto Deserto (1966) a poeta passa a usar o francês como língua poética e com ele começa também, segundo a própria autora uma fase duma maior “madurez” superadora dos primeiros poemas “juvenis”, uma fase onde ela confessa reconhecer-se melhor e onde junto ao tema central do amor e ao tom confidencial que parecem prolongar os seus primeiros livros, aparecem poemas de reflexão sobre o ofício da escritura e o estatuto do poeta ou o angustioso problema do poder e dos limites da palavra (sem chegar nunca a uma poesia nitidamente metapoética) e poemas de carácter mais narrativo ou descriptivo, com personagens tirados do fundo da mitologia clássica (que remitem ao território das suas esculturas) como o Unicórnio ou o Minotauro, ou personagens singulares e de ampla tradição literária como a do Marinheiro protagonista duma história de amor em seis instantâneas líricas em que a voz poética vai-se implicando progressivamente. Já em Le Livre du Tigre (1977) podemos encontrar de maneira evidente e reiterada aquela variante cáustica de que falava Maria Fernando Pinto (com alvos definidos como Lisboa ou os irmãos poetas) ao lado do que seriam as constantes maiores da sua poesia quanto ao tom (de confissão ou confidência com ou sem distinatário) e aos temas (o amor sempre presente), incorporando ao seu bestiário pessoal a figura soberba do Tigre (“ágil”, “esbelto”, “sinuoso”, “sedutor”, “secretamente satânico”, “solitário senhor de sombria beleza”), e usando formalmente com frequência do paralelismo (da anáfora ou o simples uso do refrão até à recuperação da estrutura completa do cantiga de amigo medieval). Os mesmos temas, o tom cada vez mais elegíaco, a quase ausência do registo sarcástico, junto com as homenagens e as lembranças (Borges, Robert Desnos, Victor Hugo, Madame Yvonne Paoli, Inês Guerreiro, a irmã, o irmão João), encontramos no seu último livro (inédito, com poemas datados entre 1982 e 1998) de título bem significativo – Le Messager des Rêves – quanto à identificação da sua poesia e do sentido dado ao trabalho do poeta e que liga bem com o título desta aproximação cordial que agora acaba para deixar ao leitor na melhor companhia, a dos sonhos e as palavras de Isabel Meyrelles, lembrando a frase de homenagem e de invitação è leitura do amigo comum Artur do Cruzeiro Seixas: “Sei que o tesouro que as pessoas procuram está quase sempre ao seu lado”.
Isabel Meyrelles
(Portugal, 1929)
1949
– Exposição na Livraria Ática, Lisboa. |
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Perfecto Cuadrado Fernández (Espanha, 1949). Crítico de arte e ensaísta. Coordenador do Centro de Estudos do Surrealismo, da Fundação Cupertino de Miranda (Portugal). Curador de exposições como "Surrealismo em Portugal 1934-1952" (2001), "Risques Pereira: o regresso do gato que partiu à aventura" (2003), “O surrealismo abrangente. Colecção de Cruzeiro Seixas” (2004), “Isabel Meyrelles: museu dinâmico de metamorfoses” (2004), e Gonçalo Duarte: obra plástica (2005), dentre outras. Ha editado la poesía completa de Henrique Risques Pereira, Isabel Meyrelles y Fernando Alves dos Santos. Es autor también de diversos libros de ensayo y antologías como La literatura portuguesa de los siglos XVI y XVII, You are welcome to Elsinore. Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa (reed. revisada y ampliada: A Única Real Tradição Viva), además de textos de catálogos de diversas muestras plásticas. Contato: p.cuadrado@uib.es. Página ilustrada com obras da artista Isabel Meyrelles (Portugal). |
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