revista de cultura # 49
fortaleza, são paulo - janeiro de 2006






 

A literatura alemã de hoje: I - romance

Viviane de Santana Paulo

.

Viviane de Santana PauloCom exceção de alguns nomes pertencentes aos clássicos da literatura alemã, infelizmente são poucas as obras traduzidas para o português e maior ainda o desconhecimento da diversidade, quantidade e alvoroço no meio literário alemão. Os ganhadores do Prêmio Nobel, o alemão Günter Grass, em 1999, e a polêmica austríaca Elfriede Jelinek, em 2004, colaboraram para aumentar a curiosidade de leitores internacionais. No entanto, diante de um mercado editorial brasileiro cada vez mais restrito aos best-sellers, leitores que buscam uma formação intelectual e cultural mais diversificada e aprimorada acabam perdendo. Paradoxalmente, são as pequenas editoras que insistem em priorizar obras de qualidade, mesmo não sendo rentáveis. Assim algumas traduções são lançadas em editoras desconhecidas, em tiragem pequena e, depois de esgotadas, lamentavelmente desaparecem. Outro empecilho para a melhor divulgação da literatura estrangeira proveniente de certos países e determinados idiomas está relacionado com o trabalho mal remunerado e pouco reconhecido dos tradutores. Apesar disso, uma aproximação maior entre o mundo literário alemão com o brasileiro seria muito profícua, uma vez que esses países possuem, em suas relações, uma demanda de conhecimentos culturais maior do que se imagina. A curiosidade e a fascinação provêm de ambos os lados e a distância não é tão grande quanto aparenta - o oceano que os divide é apenas geográfico, não intelectual.

Este ensaio concentrar-se-á nos nomes de escritores alemães contemporâneos mais destacados depois da reunificação da Alemanha, ocorrida em 1989, acontecimento que repercutiu fortemente no âmbito literário. Embora haja nomes importantes que naturalmente continuam destacando-se até hoje, como Martin Walser, Christa Wolf, Sten Nadolny, Walter Jens, Alexander Kluge, Walter Kempowski, Siegfried Lenz, Peter Schneider, Jens Sparschuh, Karin Lange-Müller, Doris Dörrie, Felicitas Hoppe, Karin Duve, Julia Frank, Georg Klein, Martin Mosebach, Ulrike Draesner, entre outros. A verdade é que o fato histórico da queda do muro abalou as tendências vigentes e novos autores surgiram, como Ingo Schulze, Wolfgang Hilbig ou Thomas Brussig, consagrando o chamado Wenderoman (romance cuja temática aborda a reunificação). Para citar um aspecto dentro dessa reviravolta, quando antigamente os autores eram divididos em ocidentais e orientais, e sua linha de pensamento claramente distinta, obviamente essa classificação não existe mais hoje. Após a reunificação da Alemanha, a literatura da RDA (República Democrática Alemã), voltada para a doutrina do socialismo, foi extinta. A diferença no modo de apreensão da realidade, no entanto, ainda permanece. Muitos autores da antiga RDA ocupam-se com as conseqüências da reunificação e suas experiências vividas anteriormente, enquanto é comum descobrir nos autores ocidentais uma visão introspectiva de mundo ou fortemente voltada ao estilo capitalista de vida.

Inicio então com o autor Ingo Schulze (Dresden, 1962), considerado o melhor contista atual e um dos grandes representantes do Wenderoman. Schulze ficou internacionalmente conhecido com o livro Histórias simples da Alemanha Ocidental (Simple Storys, 1998, trad.Theresa Graupner e João Marschner), com tradução para vários idiomas e em vias de adaptação para o cinema. Os contos tratam de fragmentos biográficos de personagens vivendo em uma província, no leste da Turíngia, chamada Altenburg (onde Schulze trabalhou como diretor do teatro estadual cerca de três anos), são trechos do cotidiano de pessoas comuns debatendo-se com as mudanças radicais e rápidas de seu tempo, e lutando contra as humilhações sociais e políticas. Histórias simples, repletas de diálogos, como a de um professor saudável e animado que de repente sofre um ataque cardíaco; um diretor de escola que perde o emprego da noite para o dia e enlouquece; um motorista de táxi cubano é assassinado no meio da rua, em plena luz do dia; e assim por diante. Simples cidadãos que se encontram diante da nova realidade do país e não sabem ao certo como reagir, qual direção tomar, em busca de uma atitude, isto é, posição adequada diante da abundância de liberdade e produtos ou da violência gerada pela concorrência férrea do mundo capitalista.

Isabel MeyrellesIngo Schulze estudou filosofia clássica na legendária universidade de Jena e hoje vive em Berlim, é autor da coletânea de contos, “33 Augenblicke des Glücks” (33 instantes de felicidade, 1995), e seu último livro, Neue Leben (Vidas novas, 2005) também foi objeto de críticas entusiásticas. Justamente na era da internet, das efêmeras e anti-estéticas mensagens dos e-mails, Neue Leben é baseado em cartas. Assim como o romance de Monika Maron, Pawels Briefe, sobre o qual mencionarei mais adiante. Curiosamente o chamado romance-cartas (Briefroman) não perdeu o seu encanto na literatura atual de língua alemã, apesar dos e-mails que nem de longe substitui uma carta! Neue Leben consiste nas quase seiscentas páginas que somam as cartas de Erico Heinrich para uma irmã, um amigo de infância e uma mulher na Alemanha ocidental, escritas de madrugada, durante seis meses, no período de 6 de Janeiro de 1990 a 11 de julho de 1990. As cartas para a irmã Vera não ocultam um certo sentimento incestuoso; para o amigo Johann, as expressões eróticas resvalam no homossexualismo; para a amiga Nicoletta, que vem da parte ocidental da Alemanha, ele conta toda sua biografia. O enredo funde-se à história do próprio autor, dados biográficos e fictícios misturam-se de forma intrínseca. Schulze seduz o leitor através de uma linguagem irônica, sarcástica e humorística.

Outra autora que aborda a temática da vida na antiga RDA é a berlinense Monika Maron (Berlin, 1941). Seu primero romance Flugasche (Cinzas Esvoaçantes, 1981), tece uma crítica severa à política de meio ambiente do regime socialista, e foi boicotado pela Aufbau Verlag (a maior editora da antiga RDA, que ainda continua no seu antigo endereço, em uma região turística no centro de Berlim). Nessa época a autora emigrou da RDA e foi viver em Hamburgo. Monika Maron vai mais longe, em Pawels Briefe (Cartas de Pawel, 1999), em que a jovem Pawel procura descobrir as verdadeiras circunstâncias da morte de seu avô, vítima da destruição em massa causada pelo regime nacional-socialista. O leitor é envolvido nos dilemas de três gerações de uma família vivendo o regime nacional-socialista, suas dificuldades são reveladas nas cartas, fotos, nos documentos e testemunhos da própria família da autora. A obra aborda os acontecimentos que permearam a II Guerra Mundial, o início da República Federal Alemã, a construção e a queda do muro, misturando-se com sua biografia. Em Pawels Brief o comunismo é questionado e criticado de forma mordaz. Ademais, outra obra de Monika Maron que merece menção é Animal Triste (Animal triste, 1995), em que narra as lembranças de uma anciã, isolada em sua casa, revivendo na memória sua última paixão. Trata-se de uma paleontóloga trabalhando em um museu na antiga Berlim oriental, que conhece Franz, seu colega de trabalho, casado, e tornam-se amantes. A paixão incondicional transforma-se em obsessão e, sob um linguajar poético, a autora fala do amor como algo indispensável na vida. Monika Maron é filha de um ex-funcionário público da antiga Alemanha oriental, estudou dramaturgia e história da arte, trabalhou como jornalista e mora em Berlim, onde vive a maioria dos escritores alemães. É dona de uma linguagem clara, marcada por expressões líricas, e suas obras são geralmente caracterizadas pela valorização da identidade e a luta para mantê-la.

Isabel MeyrellesPara dar continuação ao temaexperiências na antiga RDA” e “a confrontação depois da queda do muro”, Wolfgang Hilbig (Meuselwitz, 1941), poeta e romancista, é autor de Das Provisorium (Provisório, 2000), romance em que o personagem C. é um escritor que deixa Leipzig com um visto provisório, nos anos oitenta, e apaixona-se por uma alemã ocidental, no entanto, as diferentes doutrinas de ambos esgotam o relacionamento. C. entrega-se ao alcoolismo, não consegue mais escrever, e se sente cada vez mais perdido na Alemanha ocidental, porém, sempre adia a data de regresso. Em Hilbig, tanto a Alemanha oriental como a ocidental são abomináveis, uma pela falta de liberdade e progresso, a outra pelo exagero do consumo, pela ganância, pelo desperdício e materalismo fútil. A linguagem relativamente densa de Hilbig aproxima o leitor do estado anímico de suas personagens, caracterizado pela melancolia e um certo pessimismo.

Em Am Kürzeren Ende der Sonnenallee (No menor trecho da alameda do sol, 1999), Thomas Brussig (Berlim, 1965) conta episódios envolvendo os sonhos e os sentimentos de alguns adolescentes vivendo na "sombra do muro", em meados dos anos 80. Aqui o muro ainda não caiu e a atmosfera é de suspeita em cima de qualquer movimento, trata-se do cidadão submisso ao controle e à ordem institucional. Brussig descreve um sistema em que o desejo de liberdade e ouvir música alta é considerado duvidoso, ilegal. Com muito humor, em Am Kürzeren Ende der Sonnenallee os diálogos dos jovens, repletos de gírias, falam de um mundo diante do absurdo causado pelo controle ilimitado do Estado na vida privada do indivíduo. Brussig tende a seguir o gênero debochado, em Helden wie wir (Heróis como nós, 1995), ele desenvolve uma sátira grotesca ao antigo sistema socialista, em que o protagonista é uma caricatura: um homem complexado por ter um pênis pequeno e que fica muito feliz, quando este, de repente, começa a crescer.

Autores do lado ocidental, evidentemente, possuem uma outra visão da reunificação. Aqui o enfoque geralmente recai na história, a vida cotidiana ou as preocupações particulares de um indivíduo são colocadas em segundo plano. Como em Um campo vasto, (Ein weites Feld, 1995, trad. Lya Luft), de Günter Grass, cuja trama desenrola os acontecimentos de dois séculos que antecedem a queda do muro, em 1989. A obra apresenta um panorama da história da Alemanha a começar pela revolução de março, em 1848, até os dias da reunificação. Naturalmente, a fidelidade à descrição da história não é uma cartilha obrigatória e alguns autores ocidentais fogem à regra abordando a reunificação sob os aspectos simples do cotidiano. É o caso do autor multifacetado Peter Schneider (Lübeck, 1940), mais conhecido pelos seus diversos ensaios publicados nos melhores jornais e revistas do país. Schneider foi um jovem ativista político, um dos líderes da revolta estudantil de 1968. Seu primeiro romance Paarungen (Procriação, 1992) expõe a história de Eduard Hoffmann, em Berlim, no início dos anos oitenta. O enredo trata de relacionamentos eróticos a la Goethe com a troca de pares, descrevendo a atmosfera berlinense antes da queda do muro. Por outro lado, em O saltador do muro (Der Mauerspringer, 1982, traduzido em Portugal), é um conto-ensaístico que revela a incompatibilidade dos dois lados do muro, não narra apenas uma história, mas as diferentes ambições, ilusões, sonhos e frustrações dos saltadores. Nesse enredo o sarcasmo, o deboche, o ódio, a desilusão e a falta de confiança movem os diálogos do narrador e seu amigo que, apesar da visão pessimista, possuem argumentos muito bem desenvolvidos envolvendo assim o leitor. Em Eduards Heimkehr (O regresso de Eduard, 1999), o cientista Eduard Hoffamnn, vivendo há muitos anos na Califórnia, recebe a notícia de que herdou uma casa na antiga Berlim oriental. Ao voltar para o país natal, depois de muito tempo, encontra uma cidade completamente transformada pela queda do muro, pela reunificação e pelo capitalismo, e não a reconhece mais. Estes romances: Paarungen, O Saltador do Muro e Eduards Heimkehr, constituem uma trilogia, a qual reflete a situação em Berlim antes, durante e depois da queda do muro.

Peter Schneider também é autor do livro Vati (Pai, 2001), baseado na biografia de Josef Mengele, onde desenrola a história do filho que viaja para a América Latina, mais precisamente Belém, para encontrar seu pai pela primeira vez. O pai foi médico em Aussschwitz e realizou experimentos monstruosos, matando milhões de pessoas. Acusado de crime de guerra, ele foge para a Europa. O filho quer confrontar o pai com o passado e convencê-lo a se entregar. Em 2004, baseado no livro, foi lançado o filme "Pai-Rua Alguém 5555", dirigido pelo italiano Egidio Eronico, em uma co-produção italiana-brasileira-húgara.

Isabel MeyrellesO existencialismo, a introspecção do indivíduo, o eu perdido na busca de si mesmo são temas abordados nos romances de Arnold Stadler (Meßkirch, 1957), conhecido por revelar o conflito interior de personagens encarcerados em um buraco vazio da existência. Stadler é ganhador do Georg-Büchner-Preis, prêmio de mais prestígio para autores de língua alemã. Em Sehnsucht. Versuch über das erste Mal (Saudade. Ensaio sobre a primeira vez, 2002), o autor narra a história de um homem que casualmente reencontra seu primeiro amor em um hotel e revive antigas ilusões, fantasias e desejos. Sehnsucht. Versuch über das erste Mal reflete a eterna e inesgotável busca do homem àquilo que lhe permanecerá inacessível. Algo análogo nós encontramos em Michael Lentz (Düren, 1964), quanto à observação filosófica da existência. Em Liebeserklärung (Uma declaração de amor, 2003), a viagem de trem pelo país de um passageiro, que deixa a esposa para encontrar-se com a amante e acaba retornando para junto da esposa, é transformada em uma profunda reflexão, principalmente sobre o amor e a poesia, isto é, a paixão pela literatura. Vencedor do prêmio Ingeborg-Bachmann, Lentz possui uma linguagem esteticamente trabalhada e a obra faz alusão aos clássicos alemães como Kleist e Hoffmannsthal.

O ensaísta, poeta e romancista, Daniel Kehlmann (Munique, 1975), professor convidado na universidade de Mainz, onde leciona Poetik (estudo da teoria e técnica da análise de textos poéticos e líricos, o denominado estudo de poetologia), é um dos escritores mais bem sucedidos. No enredo de Ich und Kaminski (Eu e Kaminski, 2003), a história é a de um jornalista convicto e ambicioso, especializado em arte, o qual tenciona escrever a biografia do pintor outrora famoso, Manuel Kaminski, agora esquecido, envelhecido e solitário. Assim ele espera alcançar a fama e o dinheiro, mas a realidade o embrenha em outros caminhos. O autor faz uso da crítica, sátira e ironia para tratar da desilusão, do fracasso, da perspicácia em descobrir as intenções subjacentes e oportunistas no meio cultural. O resultado é uma leitura substancial, apesar de leve. Seu último romance Die Vermessung der Welt (A medida do mundo, 2005), é o segundo mais vendido na Alemanha, depois de Harry Potter, a trama baseia-se na biografia de dois cientistas, misturando dados históricos e fictícios: o matemático e astrônomo, Carl Friedrich Gauß (1777-1855) e o biólogo Alexander von Humboldt (1769-1859), em que ambos tentam descobrir a medida certa do mundo. Um deles sentado em sua escrivaninha, com a cabeça cheia de idéias e cálculos matemáticos; o outro viajando pelo continente sul-americano e asiático, pesquisando fauna, flora, clima, idiomas, etc. Por essas e outras, Kehlmann é admirado, principalmente, pelo seu laconismo filosófico e leveza na linguagem.

Judith Hermann (Berlim, 1970), é uma autora que conseguiu logo de cara entusiasmar o crítico mais temido e popular da Alemanha, Marcel Reich-Ranicki. A coletânea Somerhaus, Später (Casa de verão, mais tarde, 1998) foi um best-seller. Os contos são fragmentos e descrição de personagens solitários, vítimas da incomunicação gerada pelos tempos modernos: quando tudo parece perfeito, quando a felicidade é certa, de repente - o vazio. A tão esperada segunda publicação Nichts als Gespenster (Nada além de fantasmas, 2003), não alcançou o mesmo sucesso: falta de experiência de vida dos personagens, ingenuidade e frivolidade enfraquecem seus traços psicológicos.

Isabel MeyrellesAlém dos nomes e das tendências citados acima, há os autores mais voltados para a estética, poesia e metalinguagem, como Brigitte Kronauer, Wilhelm Genazino, Inka Parei e Theresia Mora, para citar alguns. A mais conhecida é Brigitte Kronauer (Essen, 1940), recém agraciada com o Georg-Büchner-Preis, é autora de vários romances, possui um estilo inconfundível, preciso, baseado na intertextualização. Em seu romance mais recente, Verlangen nach Musik und Gebirge (Desejo de música e montanha, 2004), cujo título é inspirado em um trecho de "Aurora", de Friedrich Nietzsches, o enredo conta a história de um pequeno grupo de viajantes, num hotel, na praia belga chamada Ostende. Ali as relações entrelaçam-se, movidas por paixão, desejo, intrigas e ciúmes, enquanto os verdadeiros sentimentos permanecem ocultos, sendo revelados apenas na imaginação da narradora. Em Verlangen nach Musik und Gebirge não o corpo pode ser erótico, mas a própria apreensão da realidade é sensual. A autora esboça um mundo que é sustentável através do pensamento em uma paixão, da idealização do amor que cada um cria para si. Desde seus primeiros romances, Brigitte Kronauer vem sendo elogiada pela crítica, sobretudo pela intertextualização muito bem elaborada.

E por fim, deixemos então as experiências na antiga RDA, a confrontação depois da queda do muro, as preocupações de indivíduos vivendo em uma sociedade abastada e o abismo do existencialismo intrínseco, e adentramos na realidade sinistra do holocausto. Esse continua sendo um tema extremamente delicado, cujo tratamento não tolera a simplicidade ou superficialidade. Os famosos diários do falecido Viktor Klemperer deixaram um testemunho humano, profundo e abrangedor sobre os atos cruentos e iníquos cometidos no holocausto. Não é o caso de Bernhard Schlink, criticado por apresentar em O leitor (Der Vorleser, 1995, trad. Pedro Süssekind), uma visão simplista das atrocidades cometidas no regime nacional-socialista. Trata-se da história de duas personagens unidas por um passado: o jovem Michael, estudante de direito, assistindo a um julgamento, reencontra, sentada na cadeira do réu, uma mulher por quem esteve apaixonado quando tinha 15 anos e ela 36. A mulher está sendo julgada por crimes de guerra. O relacionamento baseado no prazer sexual transforma-se em amor, e a abrupta separação cria remorsos no jovem, pois se sente culpado por não ter assumido o namoro. Enquanto estavam juntos, ela possuía o estranho costume de, depois do amor e do banho, pedir-lhe para ler trechos de obras consagradas em voz alta. Hanna é condenada à prisão perpétua. Durante o processo, ele descobre que ela é analfabeta, escolhia os prisioneiros, os quais passavam alguns dias, semanas ou meses com ela, lendo obras literárias em voz alta, antes de serem encaminhados para a câmara de gás. O enfoque não é propriamente o sistema nacional-socialista, mas a paixão pela leitura. Apesar da crítica, o livro ganhou vários prêmios, foi o primeiro de um autor alemão a fazer parte dos best-sellers na lista da revista New-York Times, e traduzido para mais de 25 idiomas. Além de O leitor, Bernhard Schlink, professor de direito na universidade de Berlim, é na realidade mais conhecido pelos seus romances policiais.

Em suma, poderíamos simplificar as mais fortes tendências literárias alemãs da atualidade da seguinte forma: a que leva à reunificação da Alemanha (o Wenderoman), a que segue a direção do existencialismo, da metalinguagem ou da política atual, e por fim os livros de entretenimento de boa qualidade. Procurei apenas fazer uma abordagem ampla, sucinta e generalizada do panorama literário alemão, com o intuito de colocar os amantes brasileiros de literatura um pouco a par de algumas tendências, títulos e nomes atuais mais comentados. Enfim, uma ligeira introdução à literatura alemã contemporânea, cujas traduções de determinadas obras para o português talvez estejam apenas dependendo do tempo para serem realizadas.

Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta e ensaísta, residente na Alemanha. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002). Contato: vsantanapaulo@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras da artista Isabel Meyrelles (Portugal).

RETORNO À CAPA ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA

procurar textos