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A literatura alemã de hoje: I - romance
Viviane
de Santana Paulo
Com exceção de alguns
nomes pertencentes aos clássicos da literatura
alemã, infelizmente
são
poucas as obras traduzidas para o português e maior ainda o desconhecimento da diversidade,
quantidade e alvoroço no meio literário alemão. Os ganhadores do Prêmio
Nobel, o alemão Günter Grass,
em
1999, e a polêmica austríaca
Elfriede Jelinek, em 2004,
colaboraram para aumentar a curiosidade de leitores
internacionais. No
entanto,
diante de um
mercado editorial
brasileiro cada
vez mais
restrito aos best-sellers, leitores que
buscam uma formação
intelectual
e cultural mais diversificada e
aprimorada acabam perdendo. Paradoxalmente,
são as pequenas
editoras que
insistem em
priorizar
obras de
qualidade,
mesmo não
sendo rentáveis.
Assim
algumas traduções
são
lançadas em
editoras
desconhecidas, em
tiragem
pequena e, depois
de esgotadas, lamentavelmente desaparecem. Outro
empecilho para
a melhor
divulgação
da literatura
estrangeira
proveniente de certos países e determinados
idiomas está relacionado com o trabalho mal remunerado e pouco
reconhecido dos tradutores. Apesar
disso, uma aproximação
maior
entre o mundo
literário alemão
com o brasileiro
seria muito
profícua, uma vez
que
esses países
possuem, em
suas
relações, uma
demanda
de conhecimentos culturais maior do que se
imagina. A curiosidade e a fascinação provêm de ambos
os lados e a
distância
não é tão
grande quanto
aparenta - o oceano
que
os divide é apenas
geográfico,
não intelectual.
Este
ensaio concentrar-se-á nos nomes de escritores alemães
contemporâneos
mais
destacados depois
da reunificação da Alemanha, ocorrida em
1989, acontecimento
que
repercutiu fortemente no âmbito literário.
Embora haja nomes
importantes que
naturalmente continuam destacando-se até hoje, como
Martin Walser, Christa Wolf, Sten Nadolny, Walter Jens, Alexander Kluge,
Walter Kempowski, Siegfried Lenz, Peter Schneider, Jens Sparschuh, Karin
Lange-Müller, Doris Dörrie, Felicitas Hoppe, Karin Duve, Julia Frank, Georg
Klein, Martin Mosebach, Ulrike Draesner, entre
outros. A verdade
é que o fato
histórico da queda
do muro abalou as
tendências
vigentes e novos
autores
surgiram, como Ingo Schulze, Wolfgang
Hilbig ou Thomas Brussig, consagrando
o chamado Wenderoman (romance cuja temática aborda a reunificação). Para
citar um aspecto dentro dessa reviravolta, quando
antigamente os
autores
eram divididos em
ocidentais
e orientais, e
sua
linha de
pensamento
claramente
distinta, obviamente essa classificação
não existe
mais hoje.
Após a reunificação da Alemanha, a
literatura
da RDA (República
Democrática
Alemã), voltada para a
doutrina
do socialismo, foi
extinta. A diferença
no modo
de apreensão da
realidade, no entanto,
ainda
permanece. Muitos
autores
da antiga RDA ocupam-se com as conseqüências
da reunificação e suas experiências vividas
anteriormente,
enquanto é comum
descobrir nos
autores
ocidentais
uma visão
introspectiva
de mundo ou
fortemente voltada ao estilo capitalista
de vida.
Inicio então
com o autor
Ingo Schulze (Dresden, 1962), considerado o melhor
contista atual
e um dos
grandes
representantes do Wenderoman. Schulze ficou
internacionalmente conhecido com o
livro Histórias
simples da Alemanha
Ocidental
(Simple Storys, 1998, trad.Theresa Graupner e João Marschner),
com tradução para vários idiomas
e em vias
de adaptação para
o cinema. Os
contos
tratam de fragmentos biográficos de personagens vivendo em
uma província, no
leste
da Turíngia, chamada Altenburg (onde Schulze trabalhou como
diretor do teatro
estadual cerca de
três
anos), são
trechos do cotidiano
de pessoas
comuns
debatendo-se com as mudanças radicais e rápidas de seu
tempo, e lutando
contra
as humilhações
sociais
e políticas.
Histórias
simples, repletas de diálogos, como
a de um professor
saudável e
animado
que de repente
sofre um ataque
cardíaco; um
diretor de escola
que perde o
emprego
da noite para
o dia e enlouquece;
um
motorista de táxi
cubano é assassinado no meio da rua, em plena luz do dia; e assim por diante. Simples cidadãos
que se encontram
diante
da nova realidade
do país e não
sabem ao certo
como
reagir, qual
direção tomar, em busca de uma
atitude, isto
é, posição adequada
diante
da abundância de
liberdade
e produtos ou
da violência gerada
pela
concorrência
férrea
do mundo
capitalista.
Ingo
Schulze estudou filosofia clássica
na legendária
universidade
de Jena e hoje vive
em
Berlim, é autor da
coletânea
de contos, “33 Augenblicke des
Glücks” (33
instantes de
felicidade, 1995), e seu
último
livro, Neue Leben (Vidas novas, 2005) também
foi objeto de
críticas
entusiásticas. Justamente na era da internet,
das efêmeras e anti-estéticas mensagens
dos e-mails, Neue Leben é
baseado em
cartas. Assim
como o romance
de Monika Maron, Pawels Briefe, sobre o qual
mencionarei mais
adiante.
Curiosamente o chamado romance-cartas (Briefroman)
não
perdeu o seu
encanto
na literatura atual
de língua alemã,
apesar
dos e-mails
que
nem de longe
substitui uma carta! Neue Leben
consiste nas quase seiscentas páginas
que somam as
cartas
de Erico Heinrich para uma irmã, um amigo de infância e uma mulher
na Alemanha ocidental, escritas de madrugada,
durante seis
meses, no período de 6 de
Janeiro
de 1990 a 11 de julho de 1990. As cartas para a irmã
Vera não ocultam um certo sentimento
incestuoso; para
o amigo Johann, as
expressões
eróticas resvalam no homossexualismo; para a amiga
Nicoletta, que vem da parte ocidental
da Alemanha, ele
conta
toda sua
biografia. O enredo
funde-se à história do
próprio
autor, dados
biográficos e fictícios misturam-se
de forma intrínseca.
Schulze seduz o leitor através de uma linguagem
irônica,
sarcástica
e humorística.
Outra
autora que aborda a temática
da vida na
antiga
RDA é a berlinense Monika Maron
(Berlin, 1941). Seu primero
romance
Flugasche (Cinzas
Esvoaçantes, 1981), tece uma
crítica severa à política
de meio
ambiente
do regime socialista,
e foi boicotado pela Aufbau Verlag (a maior editora
da antiga RDA,
que
ainda continua no
seu
antigo endereço,
em uma região
turística no centro de Berlim). Nessa época a autora emigrou da RDA e foi viver
em Hamburgo. Monika Maron vai mais longe, em
Pawels Briefe (Cartas de Pawel, 1999),
em
que a jovem
Pawel procura
descobrir
as verdadeiras circunstâncias da morte de seu avô, vítima da destruição em massa causada pelo regime nacional-socialista.
O leitor é envolvido nos dilemas de três gerações
de uma família vivendo o
regime
nacional-socialista, suas dificuldades
são reveladas nas
cartas,
fotos, nos
documentos e
testemunhos
da própria
família
da autora. A obra aborda os acontecimentos que
permearam a II Guerra Mundial, o início da República
Federal Alemã, a
construção
e a queda do muro,
misturando-se com
sua
biografia. Em
Pawels Brief o comunismo
é questionado e criticado de forma mordaz. Ademais, outra obra de Monika Maron que
merece menção é
Animal Triste
(Animal
triste, 1995), em
que
narra as lembranças de uma anciã,
isolada em
sua
casa, revivendo na
memória
sua última
paixão. Trata-se de uma paleontóloga
trabalhando em
um
museu na antiga
Berlim oriental, que
conhece Franz, seu
colega
de trabalho, casado,
e tornam-se amantes. A paixão incondicional
transforma-se em
obsessão
e, sob um
linguajar poético, a autora
fala
do amor como
algo
indispensável
na vida. Monika Maron é filha de um
ex-funcionário
público da antiga
Alemanha oriental, estudou
dramaturgia
e história da arte,
trabalhou como
jornalista
e mora em
Berlim, onde vive a
maioria
dos escritores
alemães. É dona de uma
linguagem
clara, marcada
por
expressões
líricas, e suas
obras
são geralmente
caracterizadas pela valorização da identidade e a luta
para mantê-la.
Para
dar continuação
ao tema “experiências
na antiga RDA” e “a confrontação depois da queda do muro”, Wolfgang Hilbig (Meuselwitz, 1941), poeta e romancista, é
autor de Das Provisorium (Provisório,
2000), romance
em que
o personagem C. é
um
escritor que
deixa Leipzig com
um visto
provisório, nos
anos oitenta, e apaixona-se por uma alemã ocidental,
no entanto, as
diferentes
doutrinas de
ambos
esgotam o relacionamento. C. entrega-se ao
alcoolismo,
não consegue mais
escrever, e se sente cada
vez mais
perdido na Alemanha ocidental, porém, sempre
adia a data de
regresso.
Em Hilbig, tanto
a Alemanha oriental como
a ocidental
são
abomináveis, uma
pela
falta de
liberdade
e progresso, a
outra
pelo exagero do consumo, pela ganância, pelo desperdício e materalismo fútil.
A linguagem
relativamente
densa de Hilbig aproxima o leitor do estado
anímico de suas
personagens,
caracterizado
pela melancolia
e um certo
pessimismo.
Em
Am Kürzeren Ende der Sonnenallee (No menor
trecho da alameda
do sol, 1999), Thomas Brussig
(Berlim, 1965) conta
episódios
envolvendo os sonhos e os sentimentos de alguns
adolescentes vivendo na "sombra do muro",
em meados
dos anos 80.
Aqui
o muro ainda
não caiu e a
atmosfera
é de suspeita
em
cima de qualquer
movimento, trata-se do cidadão submisso
ao controle e à
ordem
institucional. Brussig descreve um sistema em que o desejo de
liberdade e ouvir
música alta
é considerado duvidoso, ilegal. Com muito humor, em Am Kürzeren Ende der Sonnenallee os
diálogos dos
jovens, repletos
de gírias, falam de
um
mundo diante
do absurdo causado
pelo
controle ilimitado do Estado na vida privada do indivíduo.
Brussig tende a seguir o
gênero
debochado, em Helden wie wir (Heróis como nós,
1995), ele desenvolve uma sátira grotesca
ao antigo
sistema
socialista, em
que o
protagonista
é uma caricatura:
um
homem complexado
por
ter um pênis pequeno e que fica muito feliz, quando este, de repente,
começa a crescer.
Autores
do lado ocidental,
evidentemente, possuem uma outra visão da
reunificação.
Aqui o enfoque
geralmente recai na
história, a vida
cotidiana
ou as
preocupações
particulares de
um
indivíduo são
colocadas em
segundo
plano. Como
em Um campo
vasto, (Ein weites Feld, 1995, trad. Lya Luft),
de Günter Grass, cuja
trama desenrola os
acontecimentos
de dois séculos
que antecedem a queda
do muro, em
1989. A
obra apresenta um
panorama da história
da Alemanha a começar
pela
revolução de
março,
em 1848, até
os dias da reunificação. Naturalmente, a fidelidade
à descrição da
história
não é uma
cartilha
obrigatória e
alguns
autores
ocidentais
fogem à regra abordando a
reunificação sob os aspectos
simples do cotidiano.
É o caso do
autor
multifacetado Peter Schneider (Lübeck, 1940), mais
conhecido pelos
seus diversos
ensaios publicados
nos
melhores jornais
e revistas do
país. Schneider foi um
jovem
ativista político,
um dos líderes
da revolta
estudantil
de 1968. Seu
primeiro
romance Paarungen (Procriação,
1992) expõe a história
de Eduard Hoffmann, em Berlim, no início dos anos
oitenta. O enredo trata
de relacionamentos eróticos a la
Goethe com a troca de pares,
descrevendo a atmosfera berlinense antes
da queda do muro.
Por outro
lado, em
O saltador do muro (Der
Mauerspringer, 1982, traduzido em Portugal), é um
conto-ensaístico que revela a incompatibilidade dos dois lados do muro, não narra apenas
uma história,
mas
as diferentes
ambições,
ilusões, sonhos
e frustrações dos saltadores. Nesse enredo o sarcasmo, o deboche, o ódio,
a desilusão e a falta de confiança movem os diálogos do narrador e seu
amigo que, apesar da visão pessimista,
possuem argumentos
muito
bem desenvolvidos envolvendo assim o leitor.
Em
Eduards Heimkehr (O regresso
de Eduard, 1999), o cientista
Eduard Hoffamnn, vivendo há muitos anos na Califórnia,
recebe a notícia de
que
herdou uma casa na
antiga
Berlim oriental. Ao voltar
para o país natal, depois
de muito
tempo,
encontra uma
cidade
completamente transformada pela queda do muro, pela
reunificação e pelo
capitalismo, e não a
reconhece mais.
Estes romances:
Paarungen, O Saltador do Muro e Eduards Heimkehr, constituem uma
trilogia, a
qual reflete a
situação
em Berlim antes,
durante e depois
da queda do muro.
Peter Schneider também
é autor do
livro
Vati (Pai, 2001), baseado na biografia
de Josef Mengele, onde desenrola a história do filho
que viaja para
a América Latina,
mais
precisamente Belém,
para
encontrar seu
pai pela
primeira vez.
O pai foi
médico
em Aussschwitz e realizou experimentos monstruosos, matando
milhões
de pessoas. Acusado de crime de guerra,
ele foge para
a Europa. O filho
quer
confrontar o pai
com o passado
e convencê-lo a se entregar.
Em
2004, baseado no livro,
foi lançado o filme "Pai-Rua Alguém 5555", dirigido
pelo
italiano Egidio Eronico, em uma
co-produção italiana-brasileira-húgara.
O
existencialismo, a introspecção do
indivíduo, o eu
perdido na busca de
si
mesmo são
temas abordados
nos
romances de Arnold Stadler (Meßkirch, 1957), conhecido
por revelar o
conflito interior
de personagens encarcerados em um buraco vazio da
existência. Stadler é ganhador do Georg-Büchner-Preis,
prêmio de mais
prestígio para
autores de língua
alemã. Em Sehnsucht. Versuch über das erste
Mal (Saudade.
Ensaio
sobre a
primeira vez,
2002), o autor narra a história de um homem que casualmente reencontra
seu primeiro amor em um hotel e
revive antigas ilusões, fantasias e desejos.
Sehnsucht. Versuch über das erste Mal
reflete a eterna e
inesgotável
busca do homem
àquilo que
lhe permanecerá
inacessível.
Algo análogo
nós encontramos
em
Michael Lentz (Düren, 1964), quanto
à observação filosófica da existência. Em
Liebeserklärung (Uma declaração de amor,
2003), a viagem de
trem
pelo país de um passageiro, que deixa a esposa para encontrar-se com a amante e
acaba retornando para
junto
da esposa, é transformada em uma profunda
reflexão,
principalmente
sobre o amor
e a poesia,
isto
é, a paixão
pela
literatura. Vencedor do prêmio
Ingeborg-Bachmann, Lentz possui uma linguagem
esteticamente trabalhada e a obra faz alusão aos clássicos
alemães como
Kleist e Hoffmannsthal.
O ensaísta, poeta e romancista, Daniel Kehlmann (Munique, 1975), professor convidado
na universidade de Mainz, onde leciona Poetik (estudo
da teoria
e técnica da
análise
de textos poéticos e líricos, o denominado estudo
de poetologia), é um dos escritores
mais bem
sucedidos. No enredo de Ich und
Kaminski (Eu e Kaminski, 2003), a
história
é a de um
jornalista
convicto e ambicioso, especializado em arte, o qual tenciona escrever a biografia do pintor
outrora famoso,
Manuel Kaminski, agora esquecido,
envelhecido e solitário. Assim ele espera alcançar a
fama
e o dinheiro, mas
a realidade o embrenha em
outros caminhos.
O autor faz
uso
da crítica,
sátira
e ironia para
tratar da desilusão, do
fracasso, da perspicácia
em
descobrir as intenções
subjacentes e
oportunistas
no meio cultural. O
resultado
é uma leitura
substancial,
apesar de leve.
Seu último romance Die Vermessung der Welt (A
medida do mundo,
2005), é o segundo
mais
vendido na Alemanha, depois de Harry
Potter, a trama baseia-se na biografia de dois cientistas, misturando dados
históricos e
fictícios: o matemático e astrônomo,
Carl Friedrich Gauß (1777-1855) e o biólogo
Alexander von Humboldt (1769-1859), em que ambos
tentam descobrir a medida
certa do mundo.
Um deles sentado
em
sua escrivaninha,
com a cabeça
cheia de idéias
e cálculos matemáticos; o outro viajando pelo continente sul-americano
e asiático, pesquisando
fauna,
flora, clima,
idiomas, etc. Por
essas e outras, Kehlmann é admirado, principalmente,
pelo seu laconismo filosófico e leveza
na linguagem.
Judith Hermann (Berlim, 1970), é uma autora que conseguiu logo
de cara entusiasmar o crítico mais
temido e popular da Alemanha, Marcel
Reich-Ranicki. A coletânea
Somerhaus, Später (Casa de verão, mais tarde, 1998) foi um
best-seller. Os
contos
são fragmentos
e descrição de
personagens
solitários,
vítimas
da incomunicação gerada pelos tempos modernos: quando
tudo parece
perfeito,
quando a
felicidade
é certa, de
repente
- o vazio. A
tão esperada segunda
publicação Nichts als Gespenster (Nada além de fantasmas, 2003), não
alcançou o mesmo
sucesso:
falta de
experiência
de vida dos
personagens, ingenuidade e frivolidade
enfraquecem seus traços psicológicos.
Além
dos nomes
e das tendências citados acima, há os autores
mais voltados para
a estética,
poesia
e metalinguagem,
como
Brigitte Kronauer, Wilhelm Genazino, Inka Parei e Theresia
Mora,
para citar alguns. A mais conhecida é Brigitte Kronauer (Essen, 1940), recém
agraciada com o
Georg-Büchner-Preis, é autora de vários
romances, possui
um
estilo
inconfundível,
preciso, baseado
na intertextualização. Em seu romance mais recente,
Verlangen nach Musik und Gebirge (Desejo de música
e montanha, 2004),
cujo
título é inspirado
em
um trecho de "Aurora",
de Friedrich Nietzsches, o enredo
conta
a história de
um
pequeno grupo
de viajantes, num
hotel, na praia belga
chamada
Ostende. Ali as relações
entrelaçam-se, movidas
por paixão,
desejo, intrigas
e ciúmes,
enquanto
os verdadeiros sentimentos permanecem
ocultos, sendo revelados apenas na imaginação da narradora. Em
Verlangen nach Musik und Gebirge não só o corpo pode ser erótico, mas a própria apreensão
da realidade é sensual.
A autora esboça
um
mundo que
só é sustentável
através do
pensamento
em uma paixão,
da idealização do amor que cada um cria para si. Desde seus primeiros romances,
Brigitte Kronauer vem sendo elogiada pela
crítica, sobretudo
pela intertextualização muito bem elaborada.
E
por fim, deixemos então
as
experiências
na antiga RDA, a confrontação
depois
da queda do muro,
as preocupações de
indivíduos
vivendo em uma
sociedade
abastada e o
abismo
do existencialismo
intrínseco, e adentramos na realidade
sinistra
do holocausto.
Esse
continua sendo um
tema
extremamente
delicado,
cujo tratamento
não tolera a
simplicidade
ou
superficialidade. Os famosos
diários
do falecido Viktor Klemperer deixaram um
testemunho humano,
profundo e abrangedor sobre os atos cruentos e iníquos
cometidos no holocausto. Não é o caso de
Bernhard Schlink, criticado por
apresentar
em O leitor (Der Vorleser, 1995, trad. Pedro
Süssekind), uma visão simplista das atrocidades
cometidas no regime
nacional-socialista. Trata-se da
história de duas personagens unidas por
um passado:
o jovem Michael,
estudante
de direito, assistindo a um julgamento, reencontra, sentada na cadeira
do réu, uma
mulher
por quem
esteve apaixonado quando tinha 15 anos e
ela 36. A mulher
está sendo julgada por crimes de guerra.
O relacionamento baseado no
prazer
sexual transforma-se em amor, e a abrupta separação
cria remorsos
no jovem, pois
se sente culpado por não ter assumido o namoro. Enquanto
estavam juntos,
ela
possuía o estranho
costume
de, depois do
amor
e do banho, pedir-lhe
para
ler trechos
de obras consagradas em voz alta. Hanna é condenada à prisão
perpétua. Durante
o processo, ele
descobre que
ela
é analfabeta, escolhia os prisioneiros, os quais
passavam alguns
dias,
semanas ou
meses com ela, lendo obras literárias em voz alta, antes de
serem encaminhados para a
câmara
de gás. O
enfoque
não é propriamente o sistema nacional-socialista,
mas a paixão
pela leitura.
Apesar da crítica,
o livro ganhou
vários
prêmios, foi o primeiro
de um autor
alemão a fazer parte dos best-sellers
na lista da revista
New-York Times, e traduzido para mais de 25 idiomas. Além
de O leitor, Bernhard Schlink, professor de direito
na universidade de Berlim, é na realidade mais conhecido pelos
seus romances
policiais.
Em
suma, poderíamos simplificar as
mais
fortes tendências
literárias alemãs da atualidade da seguinte forma: a que leva à
reunificação da Alemanha (o Wenderoman), a que segue a direção do existencialismo, da
metalinguagem
ou da política
atual, e por
fim os livros
de entretenimento de boa
qualidade.
Procurei
apenas fazer
uma abordagem
ampla,
sucinta e generalizada do
panorama
literário alemão,
com o intuito
de colocar os amantes
brasileiros de
literatura
um pouco
a par de algumas
tendências,
títulos e nomes
atuais mais
comentados. Enfim, uma ligeira introdução
à literatura alemã
contemporânea, cujas traduções
de determinadas obras para o
português
talvez estejam
apenas
dependendo do tempo
para
serem realizadas. |