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revista
de cultura # 49 |
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A rebelião para o alto: impressões sobre a poesia de Roberto Piva Ricardo Rizzo
Do texto de Pécora, fiquei com o “sistema de oposições manifestamente esquemático” que marcaria a poesia explosiva do jovem Piva. Um parti pris bastante nítido organizaria a imagética tão profusa quanto organizada desses primeiros livros. O quanto a tomada de posição é firme, mede-se pela disciplina léxica que traça a grande linha semântica de confronto entre o universo burguês, cartesiano e cristão, e sua crítica de matriz romântica, surrealista, dionisíaca (basta ver o divertido manifesto A catedral da desordem). A força com que Piva se bate pelo segundo campo é, para Pécora, condição de uma “escrita libertina, no sentido forte do termo: aquele no qual está em jogo assinalar os interditos e investir decididamente contra eles, num gesto cujo valor fundamental é o da transgressão, e nenhum outro”. Daí o valor do “esquematismo” de Piva, ao colocar as oposições de forma absoluta, sem possibilidade de concessão, numa cruzada sem descanso contra a megera cartesiana de que falava Rosa.
Há mais no texto de Pécora: o surrealismo de Piva, para ele, não deve ser considerado como ausência de sentido, mas suspensão de um sentido corrente, usual, como meio de acesso a uma outra forma de inteligibilidade. Se bem que o surrealismo nunca tenha apregoado o puro cancelamento do sentido, mas a instauração de um regime de suspensão dos aparelhos de controle do sujeito, um estado de exceção “às avessas” da consciência, que permitisse, ao contrário, o livre trânsito de um sentido não domesticado. Daí a figuratividade, o liame do discurso que nunca deixa de permear a “escrita automática”. Em linhas muito gerais, Pécora concorda com Willer. Para o último, Piva faz de sua filiação à linhagem maldita que arregimenta desde Catulo até Sade, de Rimbaud a Lautréamont, um ato definidor de sua poética. Tanto que podemos antever na abundância das referências literárias o “leitor insaciável” de que fala Willer, e também é muito evidente a forma como os autores convertem-se em “argumentos” na batalha contra as irradiações mundo burguês - o lugar da própria literatura como resistência está definitivamente assinalado. Além de munição, no entanto, a literatura fornece matéria de mais literatura, há “veterinários” que lêem Dom Casmurro, há escritores como Lorca no escritório dentário, ou seja, uma presença não meramente erudita das referências eruditas, mas um aproveitamento argumentativo e o registro de uma relação pessoal com o universo literário. Willer detecta o Piva “precursor de si mesmo” na Ode a Fernando Pessoa, identifica a assimilação da escrita beat, sobretudo de Guinsberg, em Paranóia, verifica a emergência de uma “escala de valores literários” nos manifestos d’Os que viram a carcaça, em que vê também um traço de “carnavalização” no uso irreverente da sátira e da paródia, na “dessacralização” das imagens pela via da subversão de hierarquias convencionais (“Abaixo as Faculdades e que triunfem os maconheiros”).
O curioso, nesse sentido, é que os pressupostos críticos coincidem com os pressupostos enunciados, explícitos, da própria atitude poética que se converte ela mesma em tema. Ao comentar o livro Paranóia, Willer aponta-lhe a ausência de qualquer “restrição lógica ou vocabular”, e também a ocorrência de um “acerto de contas com a própria linguagem”, como etapa preliminar do enfrentamento da ordem estabelecida. No entanto, os poemas exibem regularidades próprias, imagens que se repetem e se desdobram, que, por assim dizer, “evoluem” com uma dinâmica específica. A constatação de que não estão dados limites vocabulares ou lógicos não ilumina a compreensão das regularidades, encadeamentos, repetições ou mesmo de certas obsessões. A profusão de “adolescentes”, “meninos”, “anjos”, indica, além de um pendor para contornos clássicos, para a figuração abstrata e quiçá moralmente apolínea da liberdade juvenil, uma disciplina nada frouxa na composição imagética; quem sabe as repetições não são o índice de um logos muito coerente com seus pressupostos críticos, colocado para funcionar em torno de alguns núcleos fundamentais de sentido.
A apropriação desses lugares, desse espaço proscrito, dá-se por meio de sua elevação em outra escala de valores, por meio da ascese romântica que os mitologiza. Não por acaso, “há uma epopéia nas roupas penduradas contra / o céu cinza”. E não é qualquer baixeza que se habilita à elevação - o vulgar em Piva não é completamente vulgar. Possui de antemão um salvo-conduto que o permite transitar do escatológico para o místico: “onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas”, “bacharéis praticam sexo com liquidificadores como os pederastas cuja santidade confunde os zombeteiros”, “beija-flores aquáticos com penas canibais & ânus de pérola avançam ao mesmo tempo em que minhas tristes palpitações”. As hemorróidas, os bacharéis, os pederastas, os mictórios, as latrinas, os cus sangrentos, e mesmo os lugares específicos, as ruas e praças nomeadas, funcionam como veios imagéticos cuja abstração não os deixa tombar pra valer no chão do vulgar. A epopéia desses grandes elementos, orquestrada por uma imaginação veloz, é um espetáculo de grandeza, quase sublime. O humor, a ironia crítica, são subprodutos de um jogo de associações entre elementos líricos, eruditos, clássicos e signos de uma queda que, embora anunciada com agressividade declamatória, e em parte por isso mesmo, no fundo é ascensão. Os efeitos de humor se devem às associações que incorporam emanações mais singelas ou subjetivas, não vulgares, mas apenas estranhas à altissonante entonação mais geral: “psicanalistas espetando meu pobre / esqueleto em férias”.
Nesse sentido, a freqüência com que as referências a escritores comparecem pode ser vista como parte desse movimento geral de ascensão da expressão. Afinal, o confronto político, o ataque aos valores basilares da civilização burguesa, não nomeia atores sociais e situações concretas de opressão, mas categorias de profissionais liberais, de funcionários, tipos urbanos, ou seja, figuras abstratas que dançam como fantasmas sem expressão facial num balé de imagens extravagantes e vigorosas. A presença de nomes de escritores denota o “estado de arte” da leitura, dá pistas dos modelos empregados, metabolizados, digeridos, e, acima de tudo, mostra a escolha política, demarca o campo de atuação e confronto. Raramente uma imagem alude a situações sociais mais concretas. Um bom exemplo está no Poema Lacrado: “ó delírio das negras à saída das / prisões!”. No mais das vezes, é através da literatura, de seu repertório culto, que se estabelecem os termos do conflito (cf. Piazza I, entre outros). Isso provavelmente é uma característica da epistemologia mais geral que Willer identifica como sendo o cerne do conceito de “analogia”, tal como o estabelece Octavio Paz. A rebelião contra “os labirintos e nervuras do penico estreito da Lógica” se dá numa camada mais abstrata, em que as coisas podem se aproximar e se repelir mutuamente sem muito atrito, compondo as imagens no choque de elementos o mais distantes possível. Daí certo exagero de Willer em defender que “diante da fúria iconoclasta de Piva, o que Mário de Andrade escreveu é tímido e recatado”. Para Willer, “Piva moderniza o nosso modernismo”, ao acrescentar-lhe a “dimensão da rebelião”. São esferas diferentes. Mário não respira o ar rarefeito em que Piva rege suas epopéias alucinadas. Se nisso há uma perda, deve haver algum ganho. O limite do conflito político, da “rebelião” em Mário, é tanto o da invenção formal, da experimentação do verso, quanto o da nomeação dos “de baixo”, do mapeamento da geografia humana que aparece com traços bastante definidos como no andar pouco marcial do Cabo Machado. Essa é a perda do movimento ascensional de Piva. Sua rebelião não registra o pequeno, o singular, não nomeia o concreto. Resolve-se ela também nos próprios termos em que se anuncia e se celebra. Como se vê, nada fora do esquematismo obstinado que é exatamente de onde ela, segundo Pécora, retira a força que lhe é própria. Ao leitor cabe avaliar o quanto essa promessa de rebelião efetivamente se cumpre. Para além dela, esse primeiro volume das obras reunidas de Piva põe em relevo uma poesia de vibração singular, de intensidade que apenas a relação autêntica e visceral com a literatura produz. Boa demonstração dessa intensidade é o lirismo extremamente musical que algumas das imagens mais vigorosas de Piva comporta, como em Uma aurora latente: “teu olhar / navegando o cristal das pequenas unhas / no túnel do meu coração perdido para sempre”. |
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Ricardo Rizzo (Brasil, 1981). Poeta e ensaísta. Autor de Cavalo Marinho e outros poemas (2002). É editor da revista de literatura Jandira. O presente ensaio foi publicado originalmente na revista Germina, em sua edição de outubro de 2005, em dossiê dedicado ao poeta Roberto Piva por ocasião de publicação do primeiro volume de suas Obras Completas. Contato: rrizzo@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Isabel Meyrelles (Portugal). |
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