revista de cultura # 49
fortaleza, são paulo - janeiro de 2006






 

César Romero: a escritura do Brasil

Jacob Klintowitz

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César RomeroJamais saberemos se voavam mais altas as pipas do menino. Mas eram famosas no interior ensolarado da Bahia as faixas de cor, o gosto feérico das combinações, a delicadeza do acabamento. No ar, amante do vento, obscurecida pelo sol intenso, já com vida própria, provocava orgulho e a oculta dor da separação. Memória rediviva do artista, emblema cromático a portar os signos e símbolos da vida baiana.

A característica mais notável no trabalho de César Romero é a sua capacidade de incorporar os símbolos da religiosidade e da criatividade popular, do fluxo inconsciente do povo brasileiro, e transformá-los numa partitura musical erudita, onde as formas adquirem uma estrutura de vasta informação, e a gama cromática surge lentamente, de maneira sutil, por transparências e pelo ritmo da pincelada.

A pintura de César Romero é extremamente organizada, clara e direta. Aparentemente, solar. Mas é um jogo labiríntico, cujo fio de Ariadne é a intuição. A rica iconografia do artista é feita de memória infantil, sólida pesquisa das formas populares e o repertório de símbolos afro-brasileiros. As peças que o artista movimenta são os símbolos gráficos de Oxum, Oxumaré, Búzio da Costa, Iemanjá, Xangô, Iansã, Exu, paisagens, estandartes, emblemas, pipas, árvores, casas e brinquedos.

César RomeroO pintor oferece ao público a emoção paradoxal de contemplar ancestrais símbolos religiosos registrados numa pintura de marcada atualidade. Essa aparente ambigüidade da arte de César Romero, o encontro do símbolo com o presente é, na verdade, a característica mais marcante do pensamento contemporâneo, a unificação dos conhecimentos. É o que aumenta o interesse cultural pela sua pintura. Trata-se de um refinado colorista, de um inventor de harmonias cromáticas e de um artista que construiu uma iconografia de absoluta individualidade. Em função deste interesse, o livro que eu escrevi sobre a complexidade desta pintura, “César Romero. A Escritura do Brasil” (2001, Ed. Autor, impressão Pancron), continua a ter repercussão.

César Romero nasceu em Feira de Santana, Bahia, no ano de 1950. Pintor, psiquiatra, empresário, critico de arte, Romero é um artista de uma atividade incessante com sucessivas exposições no circuito internacional, em Washington, Hannover, Paris, Colônia, Berlin, Barcelona, Madrid, Bilbao, Lisboa, Miami, Paris, Granada, Montevidéo, Cayenne, New York, Los Angeles, San Francisco, Honolulu, Porto, Lousã, Espinho, Coimbra e Punta Del Este. No Brasil, realizou dezenas de mostras individuais e participou de 200 exposições temáticas. Fez parte, também, dos principais Salões de Arte realizados no país. Possui trabalhos em trinta e dois museus brasileiros e pinturas suas foram integradas em projetos de decoração e cenário para vinte e duas novelas e alguns especiais da Rede Globo de televisão, Rede Manchete e Tv. Record.

César RomeroAs características iniciais marcantes da pintura de César Romero são a fluidez e a continuidade. As imagens ocupam integralmente o espaço e o tempo, são simultâneas, constantes, interpenetrantes. As imagens cobrem a tela e nascem uma das outras com naturalidade, num sistema associativo. Elas deslizam diante de nós e, nesse fluir, geram a si mesmo. Faixas Emblemáticas. Fluidez e continuidade.

A pintura de César Romero é estruturada a partir de um padrão geométrico e a sua expansão obedece a essa forma inicial, multiplicando-a, transformando a geometria estrutural num módulo para o desenvolvimento. Investigação das propriedades das linhas, superfícies e volumes. Geometria. Geômetra.

O desenho do padrão geométrico estabelece o ritmo da pintura, a sua modulação e o seu sistema de multiplicação. A simetria, a repetição, a multiplicação a partir da estrutura sensivelmente desenhada.

Neste sentido, o do padrão modular que se repete e é multiplicado até o infinito, o ritmo torna-se incessante e permanente. O processo de criação de César Romero é semelhante ao da criação popular que, no seu sistema de produção, repete as formas e as multiplica. Incessante e permanente. Mais do que aqueles que, de maneira direta e intencional, pretendem identificar o seu trabalho com as fontes populares de cultura, César Romero estabelece o diálogo com a essência dessa produção, o modo de operar e sentir o fazer. Pode ser dito que o pintor dialoga com o processo de criação da cultura popular e não com a sua aparência.

César RomeroEm César Romero, a arte é rigor e meditação, elaboração e visualidade. E, principalmente, está ausentes a adoração da divindade e a permissividade da desordem dionisíaca. Há, aqui, aproximações, estudos do tema, pesquisa dos movimentos e das relações geométricas e, certamente, o uso dos mesmos símbolos. Mas ele não se repete e nem se transforma em signo independente. Em César Romero, ele é elemento plástico carregado de simbolismo e de história, signos e símbolos ancestrais, arquétipos, criação coletiva do continente africano transportada e unida, no Brasil, num único panteon. Mas é, antes de tudo, signo plástico. Aqui estamos falando de pintura. E o artista apresenta-se como um pintor e se submete às regras da sintaxe que elegeu e ao olhar crítico externo, sem reivindicar uma especial posição pessoal de guru, profeta, ou sacerdote da negritude afro-brasileira, como tantos já o fizeram.

Penso que o artista superou a dualidade e a oposição, tão brasileira, entre o popular e o erudito. Na verdade, ao observarmos esse trabalho nos parece que o artista nunca teve dúvida disto. Ele é um pintor que se aprofunda na herança popular de seu país como de um manancial de vitalidade. Bebe na fonte primeva. Mas é um pintor, e não se quer mais ou menos do que isto. Tudo é popular e tudo é erudito. A totalidade é o Brasil. A anima nacional. A escritura do Brasil. Viver a dimensão divina sem ser adorador. Tratar do sagrado sem ser um devoto, mas um transformador, inventor de linguagem, um artista. É a proposta e o comportamento do pintor César Romero.

César RomeroA bela definição da função da arte do pintor Paul Klee tem sido repetida ao infinito: a arte torna visível. Entretanto, aqui, no caso do pintor brasileiro, temos a situação inversa, pois César Romero trabalha com símbolos extremamente visíveis, conhecidos, vitais, da cultura afro-brasileira, signos gráficos dos Orixás do Candomblé. Mas, na obra do artista, eles como que se desprendem de sua significação, perdem o viço da comunicação ancestral, se obscurecem em relação à sua origem, e passam a viver como material plástico, despido de sua aura religiosa. César Romero torna o visível, invisível.

Neste caso, visível são formas obsedantes, constantes, populares, múltiplas. Manifesto, aparente, perceptível. E, invisível, são as formas eternas, subjacentes, perenes, simbólicas.

Ao tornar o visível invisível, ao despi-lo da carga emocional e histórica para torná-lo manifesta visualidade artística, César Romero acrescenta alguma coisa ao verso de Murilo Mendes, o invisível não é o irreal, é o real que não é visto. 

Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. Prêmio Gonzaga Duque, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, pela atuação crítica no ano de 2001. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Tem sido Curador de dezenas de exposições no Brasil e no exterior. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista César Romero (Brasil).

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