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Revista de Cultura nº 4/5
Fortaleza/ São Paulo, novembro de 2000
FRANÇOIS VILLON: Un homme de douleur et sont chemin d´épines. iosito aguiar
Iosito Aguiar
ag4villon1.JPG (56857 bytes)François Villon nasceu em 1431, falecendo depois de 1463. A História não registra a data exata da sua morte. Sua vida foi a mais estranha das simbioses. Era triste, mau, alegre, louco, magro e desprezível; um feixe de pele, ossos e fogo. Anguloso, inquieto e nervoso: "Seco e escuro como um cigano", segundo ele próprio. O lábio superior desfigurado por um golpe de adaga, olhos voltados em furtiva obliqüidade para o salto súbito de um possível gendarme escondido na sombra. Era o mais hábil e vil ladrão de Paris e o maior poeta da França a seu tempo.

Aos 20 anos já havia seduzido muitas mulheres; aos 24, assassinado um padre; aos 25, tornara-se um dos principais membros da Conquille (Cavalheiros do Punhal), malta demoníaca de trapaceiros, gatunos, bandoleiros, arrombadores, batedores de carteiras, salteadores de estradas, assassinos e rufiões que fizeram do século XV uma época de terror. Não obstante sabia cantar, mille diables, como sabia cantar! E o seu espírito era fino como uma agulha. Conhecia, também, textos latinos, pois era mestre não só das artes liberais como das do amor pecaminoso. Sua fé era profunda e sincera a sua devoção aos amigos.

Poucos homens foram culpados de crimes mais torpes. Poucos homens expressaram pensamentos mais puros. François Villon foi produto surpreendente de uma época surpreendente. Paris estava esgotada pela chamada guerra dos 100 anos. Estudantes esmolavam pelas esquinas. Roubos, tumultos e assassinatos estavam na ordem do dia. Epidemias grassavam sem fim. Num único ano, a peste bubônica fez 50 mil vítimas em Paris. Pelas ruas escutava-se dias e noites: Hélas, je meur de faim et de froid (Ai, eu morro de fome e de frio!).

Esse foi o ambiente em que François de Montcorbier veio ao mundo. Seus pais eram extremamente pobres. Criaram-no "a folhas de nabos e maldições". Freqüentemente teria passado fome se não tivesse aprendido a roubar os armazéns da vizinhança. Sua educação começou pelo furto. Leitura e escrita vieram depois.

Ficou órfão de pai muito cedo. Aos 12 anos sua mãe entregou-o à generosidade do padre Guilhaume de Villon, parente distante. O bom padre aceitou o fardo e deu a François seu próprio nome. Viu que este tinha raciocínio ágil mas era surdo à autoridade. Contudo, com a esperança de fazer dele um sacerdote, matriculou-o, em 1443, na Universidade de Paris.

Os professores procuraram por todos os meios transformar o malandro num cavalheiro. Em vão, porém. Os primeiros anos de vida ficaram indelevelmente gravados em seu espírito hipersensível. Conseguiu o título de bacharel e professor, saindo da Universidade como excelente aluno, poeta inspirado e campeão de velhacaria. Aos mestres que procuraram prepará-lo para a sociedade, Villon acrescentou dois professores particulares: Colin de Cayeulx e Regnier de Montigny, pássaros da mesma plumagem que se encarregaram do seu preparo para o mundo dos delinqüentes. Colin, filho de serralheiro, tornou-se um dos mais notórios arrombadores. Regnier era um canalha mais versátil, um velhaco, trapaceiro, bêbado, assassino, ladrão, assaltante de igrejas.

Com esses degenerados, Villon formou-se mestre do crime. Passava as tardes em trabalhos de criação literária, as noites em devassidão e roubos e, as manhãs, a dormir.

A 5 de junho de 1455, por ocasião de "La Feste-Dieu" (Corpus-Christi), quando pensava em regenerar-se, resolveu sair para uma folia final de despedida. Antes compôs um poema sacro. Naquele corpo de vontade débil pulsava um coração devoto. Entregara-se inteiramente àquele momento de compenetração interior e de paz. Era o último momento de tranqüilidade que Villon experimentaria no decorrer de longos anos.

Terminado o poema, saiu para a rua e, pela força do hábito, dirigiu os passos para uma taberna. Mas não entrou. Estava cansado daquela espécie de devassidão. Sentar-se-ia apenas alguns minutos no banco de pedra que havia do outro lado da rua, e depois voltaria para casa a fim de começar vida nova. Viera fazer-lhe companhia uma jovem e um padre – conhecimentos feitos em aventuras pela cidade. Conversaram sobre isto e aquilo, quando, de repente, surge uma discussão com respeito à mulher. Brigam, e o padre cai mortalmente ferido a golpes de punhal. O lábio superior de Villon fora cortado durante a contenda, desfigurando-o para toda a vida.

ag4villon2.JPG (38019 bytes)Felizmente para o pescoço de Villon, o padre agonizante o "perdoou e absolveu". Não se sentindo seguro, resolveu deixar Paris. Encontramo-lo a vagar pelo campo, como perfeito membro da Coquille. É ele o conselheiro, o poeta laureado, o ímpio confessor do grupo. "Mestre Villon é uma verdadeira ama para nós", dizem.

Quando algum deles é enviado ao patíbulo, Villon manda-o alegremente para o inferno, com uma oração dirigida ao diabo e um réquiem de gargalhadas obscenas. Diversa e arriscada é a sua vida de Coquillard, a forçar fechaduras, vender jóias falsas, trapacear nas tabernas de aldeia, assaltar viajantes em bosques e estradas, catar às pressas pedaços de papel para escrever seus versos, cantar e desaparecer furtivamente de povoação em povoação, divertindo os camponeses e seduzindo suas mulheres, sempre a um passo do carrasco.

Finalmente, graças ao esforço do seu tutor, foi-lhe permitido voltar a Paris. De início, bem que ele tentou uma ocupação honesta, como preceptor de alguns jovens, cujos pais pareciam desconhecer-lhe o passado; mas depois voltou aos mestres e mestras dos velhos tempos de dissipação. Principalmente, por causa de uma tal Katherine de Vauselles, "minha dama de nariz torcido".

Por causa das humilhações que ela lhe infligira, tornou-se o assunto da canalha parisiense. O povo começou a rir-lhe pelas costas: "não se pode censurar com muita severidade a cadela pela maneira porque o trata. Vejam o seu corpo de espantalho e a sua cara de cão faminto". Nada mais lhe resta a não ser abandonar Paris. Primeiro legaria à cidade um adeus zombeteiro de versos sardônicos. Escreveu, então, um testamento burlesco, o Pequeno Testamento, deixando a fama para Guilhaume de Villon, alegria para os amigos, dor para os inimigos, e o seu "pobre e estiolado coração" para a amante que o levara àquela dolorosa situação – "e que Deus tenha piedade de sua alma".

Terminado seu Pequeno Testamento Villon reuniu suas coisas, visitou pela última vez os amigos, acenou-lhes um cordialíssimo "au revoir" – e subitamente mudou de plano.

Longa era a jornada que tinha agora a percorrer. Durante cinco anos, entrou e saiu sorrateiramente pela porta dos fundos de várias cidades e aldeias. Temendo os "botões de cobre" da gendarmeria, quase sempre dormia sobre montes de feno e celeiros desertos. Detinha-se, às vezes, para comer qualquer coisa nas tabernas rurais, divertindo os simplórios com seus versos obscenos e esvaziando-lhes os bolsos enquanto estavam boquiabertos de admiração pela sua pessoa. Olhava sempre furtivamente para trás, esperando sentir a qualquer momento uma pesada mão sobre o ombro. Seus punhos ágeis e seu temperamento descontrolado, levou-o a passar várias noites na prisão. Temia toda vez que era detido que o roubo do Colégio Navarra, perpetrado anos antes e que lhes rendera cerca de 15 mil dólares, viesse à baila, e o levasse à forca. Com o decorrer dos anos, todavia, começou afinal a ter esperanças de que pelo menos esse crime permaneceria no limbo dos mistérios não desvendados. Felizmente conseguiu escapar à corda, graças à intervenção do Padre Guilhaume e outros amigos.

Assim, arrastou-se pela poeira e pela lama num interminável esforço para escapar ao próprio destino, tentando fugir da sua infelicidade. Lamentável, revoltante, encantadora figura a desse bardo sátiro, que cantava os lupanares imundos e os céus estrelados – essa criatura licenciosa, blasfema, sonhadora, perigosa, alegre, trágica, descarnada como um esqueleto e feia como um sapo. Sua longa permanência na prisão e no temor da morte reduziram o seu corpo já macilento a um torturado feixe de nervos. Submetiam-no constantemente a interrogatórios e a torturas. A umidade do cárcere penetrara-lhe até a medula dos ossos. Seu corpo mal alimentado ficou inteiramente combalido, e ele agora não era mais que um tuberculoso. Era o símbolo trágico de uma existência reduzida ao seu mais baixo denominador – um pedaço imundo do solo humano composto de miséria, sofrimento e crime.

Mas a semente de gênio fora plantada nesse solo, que necessitava justamente dessa combinação de pobreza, sofrimento e crime para florescer no magistral poema de sua vida o Grande Testamento.

O Grande Testamento é para o Pequeno Testamento o que o sol é para a lua, um corpo de luz maior, mais quente, mais deslumbrante e doloroso. Ao escrever o Pequeno Testamento seu lema fora: "Je ris em pleurs" (Rio através de minhas lágrimas). O Grande Testamento é o reverso desse lema, pois nele chora através do riso. Nesse poema ele ainda graceja, mas há uma nobre tristeza nesse gracejo. Villon já estava inteiramente familiarizado com a estupidez e a sublimidade do homem. Aprendera no sofrimento. Sua provação chegara até o fundo da miséria, e lá ele encontrou o segredo da beleza. Seu espírito maduro descobriu o amargo sofrimento da vida e a patética amargura da morte. Malgrado suas freqüentes vulgaridades, este poema é um hino grandioso. Foi escrito em sua maior parte enquanto esperava sua execução no cárcere. É a confissão final de um dos mais desprezíveis canalhas que o mundo conhecera até então, cuja alma, não obstante, possuía a grande devoção e a dádiva da música.

ag4villon3.JPG (52229 bytes)Villon comeu o pão que o diabo amassou, mas julgava-se não inteiramente tolo, nem completamente sábio. Sua vida fora amarrada ao corcel do infortúnio, com a necessidade a segurar as rédeas. "A necessidade – escreveu – faz com que os homens se extraviem, e a fome incita o lobo a sair uivando da mata. Mas do que vale lamentar os infortúnios passados? Afinal de contas, não há vidas sem sofrimentos. Ricos, pobres, mendigos, ladrões, todos experimentamos a mesma dor. Cada aventura não é senão um caminho para a morte. Até mesmo Helena e Páris morreram; e não há morte sem dor… Quando a morte nos apanha pela garganta (aqui, o espírito de Villon estava muito ocupado com o seu destino em suspenso), o suor escorre pelos nossos membros. Que suor, meu Deus! Não há alguém que possa aliviar a nossa agonia! Nenhum filho, irmão ou irmã que possa apresentar-se para tomar nosso lugar… A morte nos faz tremer e empalidecer, transforma nosso nariz num gancho, contrai as nossas veias, entumece o nosso pescoço, torna flácida a carne, faz com que os membros e as juntas se distendam e se dilatem… O corpo da mulher, tão terno e suave, tão precioso e macio, deves acaso, tu também, ser sujeito a este terrível castigo?"

Essa idéia fez com que cantasse uma das mais tristes, mais doces canções que já brotaram do coração humano: Ballade des Dames du Temp Jadis (Balada das Damas Mortas):

"Où sont-ils, où, vierge souveraine?
Mais où sont les nieges d’antan?"

Villon é poeta de variada disposição de espírito. Após a nuvem, rompe novamente o sol. E o riso despreocupado enche seus poemas. Outra súbita mudança de ânimo e ele grita que o diabo está em todas as mulheres: "Elas são doces aos vossos olhos como o almíscar/, mas confiai nelas e adeus vossa paz./ Sejam claras ou morenas, altas ou baixas./ Felizes são aqueles que com elas não se metem".

Procurem e jamais encontrarão em todo o mundo um poemas mais terno ou mais apaixonadamente devoto do que a sua Balada à Nossa Senhora. Esse poema, como uma pepita de ouro enterrada na lama da sua gargalhada imoral, é uma prece à Virgem, posta na boca da sua velha mãe:

"Mãe de Deus, que sois rainha do céu,
Conduzi-me a mim, pobre pecadora,
Ao caminho que devo seguir ao lado dos eleitos.
Dizei a vosso próprio Filho
Que Ele tem o direito de perdoar
O meu quinhão de pecados,
Já que foi isso que ele fez, muitas vezes,
Com grandes e famosos pecadores (…) 
Fostes vós mesma que concebestes Jesús,
Que não tem fim nem morte (…)
Ele que tomou a nossa fraqueza
E entregou-se aos sofrimentos (…)
Em sua crença eu viverei sempre."

Em tais momentos o coração de Villon se aproxima ardentemente do coração da humanidade. Sua balada não é meramente uma prece individual; é a prece universal do homem: "Pertence a Deus aquele que canta o seu mágico cântico melancólico. E vive como lacaio na casa da dor".

Villon conclui o Grande Testamento, uma das mais surpreendentes misturas de sublimidade e lama, com um epitáfio ao seu próprio túmulo: "Este bastardo inútil e desmiolado devolveu o seu corpo à Terra, nossa mãe comum. Os vermes não encontrarão muito o que comer nele, pois a fome já o roeu até quase os ossos… Não conheceu o descanso até que a morte chegou e deu-lhe um pontapé para fora do mundo. Deus misericordioso, tende piedade da sua alma e concedei-lhe paz eterna".

ag4villon4.JPG (58018 bytes)Pauvre François, enquanto esperava a forca imaginava o seu corpo "a oscilar e a debater-se na extremidade de uma corda… e a maneira pela qual durante meia hora, estaria morrendo". Depois daquilo, a sua carne apodreceria no ar, os pássaros bicariam seus olhos, e os jovens canalhas da sarjeta trariam as suas meretrizes para dançar debaixo da forca, e apontariam com gestos indecentes em direção ao seu esqueleto, oscilando ao luar. Cobriu o rosto com as mãos para afastar o pesadelo. Despertou… num triste amanhecer. A sentença de morte fora comutada, graças, mais uma vez, à interferência de seu tutor, para um exílio de 10 anos. Concederam-lhe três dias de preparo para a jornada. Assim, numa manhã fria e ventosa de janeiro do ano de 1463, Villon arrastou sua figura esquálida e solitária para fora das portas de Saint-Jacques e caminhou penosamente contra a neve que caía. E penetrou nas brumas invernais do esquecimento. Nunca mais se ouviu falar nele.

Torna-se quase impossível compreender como foi possível se reunir numa só pessoa aspectos tão opostos. Recorramos à Romain Rolland: "Que me adianta saber que Aquele que está no alto governa os mares do destino? Meu primeiro dever, como timoneiro, é salvar os que estão se afogando nesses mares ou então perecer com eles".

Ninguém como Villon viveu essa verdade, a ponto de poder afirmar: "Mon Dieu, les miserables est imprimé dans ma chair". Ele não conseguia assistir impassível ao prevalecimento da opressão. Assim, tocava fogo à sua volta e sentava-se em cima para arder com dignidade. Villon, mais que ninguém, podia afirmar e honrar o lema do poeta romano Terêncio: "Homo sum: humani nihil a me alienum puto". (Sou homem: nada do que é humano reputo alheio a mim).

Villon não foi um carreirista nem um simples amante do prazer. Como Michelangelo, Rembrandt, Beethoven etc., foi obrigado, a exemplo do próprio Cristo, a ser um HOMME DE DOULEUR. Trata-se, em verdade, de um pré-requisito da genialidade. Tem o gênio, antes de mais nada, de enfrentar a prova da miséria, da solidão, da dúvida e da incompreensão generalizada. Trata-se da única prova capaz de diferenciar o verdadeiro artista do charlatão, pois, segundo Tolstoi, o verdadeiro artista tem de "sacrifier à leur foi, à leur art, leur bonheur terrestre". (sacrificar, à sua fé, à sua arte, sua felicidade terrena). Se um Ser como Villon não colhesse na violência da própria vida e no íntimo do seu gênio criador o leit-motif para continuar vivendo, não conseguiria respirar; morreria asfixiado. De alguma forma, tem de criar para si o ar que respira. Aí, uma vez mais, exige-se heroísmo – um coração de leão – e que terrível heroísmo foi o de Villon.

A dor em determinadas doses transmuda-se em exaltação quando coroada com a contraparte natural da arte. Os quartetos de Beethoven, os suspiros de Anfortas no Parsifal de Wagner, estão todos repassados dessa mesma angústia mortal da alma crucificada. Sai-se dessas provações qual aço temperado pelo fogo. Para tanto é preciso muita energia. Sem energia não pode haver nada grandioso; com energia nada é tacanho. Ni vice, ni vertu, disse Roland. E que energia encontramos na vida de Villon! Ele viveu até as últimas conseqüências o seu tulkuístico papel. Mas ninguém viu a sua morte ou soube dela. Ele simplesmente desapareceu. Desapareceu? 

Entre "le diable et Dieu" viveu Villon, como um perfeito predestinado. Aos espantados leitores, lembramos o episódio ocorrido no Tibé, no templo negro da deusa porca sob a direção de B. Babú e, também, a destruição de um importante templo, juntamente com um Buda feito à imagem de um Manasaputra (filho do espírito segundo Ramakrishna ou Vaso de Eleição, segundo JHS ou, simplesmente, "Senhor do Mental"). E mais os painéis com a história dos Grandes Senhores e as obras agartinas escritas pelos 7 Mahatmas etc.

Não vamos repetir aqui a queda dos Bhantes-Jauls, que na verdade pretendiam fugir do humano convívio, mas chamamos a atenção para o fato de que aquele mesmo grupo, que tantos desatinos cometeu no Tibé e cujo procedimento foi o pior na história da obra, é o mesmo que tornou possível as realizações do Manú Integral no presente ciclo. Como se pode observar, é mais que estreita a relação entre os adeptos da deusa porca daquela época e os Munindras desta. François Villon nunca procurou fugir do convívio com a miséria humana. Ao contrário, sorveu sua amarga taça junto à humanidade até a última gota.

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