revista de cultura # 50
fortaleza, são paulo - março/abril de 2006






 

Segurança só na Rocinha

Alberto Beutenmüller

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Alberto BeutenmüllerO roubo de quatro telas de mestres do século XX: Pablo Picasso, A Dança; Henry Matisse, Jardim de Luxemburgo; Salvador Dalí, Dois Balcões; e Marine, de Claude Monet não causou surpresa ao autor dessas mal informatizadas linhas. Aliás, o francês Michel Cohen, suspeito de ter planejado o roubo, deve ter se sentido seduzido pelo nome dos acidentes geográficos: Morro dos Prazeres e Museu da Chácara do Céu. Pensou: é o paraíso da falta de segurança. Nunca foi tão fácil. Nem mesmo Santa Tereza, a padroeira do bairro carioca, conseguiu salvar as obras-primas compradas por Raimundo de Castro Maya para o Museu da Chácara do Céu, uma casa de 1876 que Castro Maya herdou em 1936. 

Mas o que se pode esperar de um país que deixou de estar à beira do abismo para tornar-se o próprio abismo? Dias depois do roubo das telas famosas, eis que um bando adentra um quartel e rouba fuzis. O Exército sente-se ofendido na sua honra e faz uma companhia subir o morro atrás das armas, que foram tiradas de dentro de sua própria casa.

Ivald GranatoLembro-me que os generais diziam, anos atrás, que não é função do exército patrulhar o Rio de Janeiro nem de correr atrás de bandidos. Entretanto, é o que anda fazendo há dias; exatamente aquilo para o qual o soldado brasileiro não obteve treinamento. O exército pode fazer o que está fazendo? É um ato legítimo e constitucional? Invadir casas, morros, está certo?

O pior ainda estava para suceder: o general-comandante do exército, general Francisco Roberto de Albuquerque parar um avião, fazê-lo arremeter o vôo programado, e retornar para pegá-lo, junto com a esposa. Além disso, a Cia. aérea teve de oferecer a um casal civil que descesse para subir o casal militar. Não soube disso nem na época da ditadura…

A pergunta que não quer calar: se o general Albuquerque não fosse general, ele teria feito o que fez? E a Cia. Aérea teria mandado a aeronave voltar? Triste país que ainda vive sob o regime do sabe com quem está falando?

Enquanto isso, políticos corruptos safam-se da comissão de ética com votos nada honrosos de seus colegas, graças a acordos espúrios do PT e do PFL.

A estratégia do exército não é digna: ocupa o morro para atrapalhar o tráfico de drogas e, assim, fazer com que os chefões do tráfico mandem as armas de volta. É para isso que os soldados brasileiros estão sendo treinados.

Quanto aos museus do país, estão todos falidos e são roubados e vezes há em que o desfalque é escondido pelas próprias diretorias.

Ivald Granato

O patrimônio público brasileiro perde suas principais peças, graças à falta de política cultural de defesa dos nossos bens, bens que pertencem à sociedade, embora os presidentes das fundações brasileiras pensem que o acervo dos museus lhes pertence.

 

A solução

A diretora do Museu da Chácara do Céu deveria assinar um convênio com os traficantes de Santa Tereza para que tomassem conta de obras tão importantes como as que foram roubadas, já que o Museu da Chácara do Céu não tem competência para fazê-lo. Quem não tem competência, não se estabelece – diz um ditado popular. É triste constatar, mas o crime organizado é a única coisa organizada no Brasil. Quem sabe na mão dos únicos mentores que oferecem segurança real aos cariocas a segurança dos museus retorne. Sim, porque o tráfico é a única entidade a dar segurança a todos os moradores de favelas do Rio – fato que nem a prefeitura do César Maia nem o governo de Rosinha Garotinho conseguiram oferecer até hoje aos seus eleitores e concidadãos.  

Ivald Granato

Se a diretora Vera Alencar quiser segurança total ao museu que dirige, procure os líderes do tráfico na Rocinha (quase Rosinha), eles saberão impor o toque de recolher e não deixarão que balas perdidas perfurem as telas do Museu da Chácara do Céu.

Ivald Granato

Em tempo: a tela o Jardim de Luxemburgo, de Matisse, chegou a ser ofertada em leilão bielo-russo, nas páginas da Internet. Trata-se, segundo a polícia carioca, de quadrilha internacional de roubo de obra de arte. Não me diga! É mesmo! Apesar disso, a polícia não tem uma equipe de experts para combater roubos e falsificações de obras de arte. Estava para terminar estas notas, quando outro museu foi assaltado em 10 peças de ouro: o Museu da Cidade. Parece haver uma “epidemia” de roubos de museus no Rio de Janeiro. O Museu da Cidade pertence à Prefeitura, agora é com o César Maia. Lembre-se, prefeito, a segurança com os traficantes do Comando Vermelho é total. Nem o exército se mete com eles, se não leva bala! 

Alberto Beuttenmüller (Brasil, 1935). Poeta, crítico de arte e ensaísta. Autor de livros como Katatruz (poesia), Volpi, Ianelli e AldirTrês coloristas e Viagem pela Arte Brasileira. Atualmente, é editor do Jornal da ABCA, Associação Brasileira de Críticos de Arte. Contato: fredmuller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ivald Granato (Brasil).

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