revista de cultura # 50
fortaleza, são paulo - março/abril de 2006






 

Ana Blandiana: como numa paisagem esvoaçante de Chagall

Ana Marques Gastão

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Ana BlandianaQuando Chagall pinta, não se sabe se dorme nesse momento ou se está acordado. Ele deverá ter, em qualquer sítio da cabeça, um anjo”. A frase de Pablo Picasso sobre o artista russo poderia aplicar-se à escritora Ana Blandiana ao abordar-se o seu livro Projectos de Passado ou mesmo a sua obra poética. Esta selecção de contos acaba de ser publicada, em boa hora, entre nós, pela editora Cavalo de Ferro com uma bela tradução a partir do romeno de Tanty Ungureanu.

Como numa paisagem esvoaçante de Chagall, a escrita de Ana Blandiana embrenha-se num espaço intermédio entre palavras e imagens, entre a memória e os seus nostálgicos fantasmas: memória da tradição, memória-imaginação, memória histórico-política, centrada num lugar banhado pelo Danúbio. Como uma metáfora da condição humana, tão bela quanto terrível, surge, nestes contos, imponente, o rio, no seu curso milenário, “fascinante e alheado, misterioso e devorador, hostil, forte, vivo”.

Na aspiração de um espaço onírico - considerado por Gaston Bachelard uma “síntese muito próxima das coisas e de nós mesmos” -, a autora metamorfoseia o sonho-pesadelo da vida em sonho da arte, esta última habitada por uma tragicidade contida, uma subtil ironia e uma fulgurante plasticidade esboçadas entre a deformação e a harmonia. A escrita nasce, ainda, em alguns destes textos - relembre-se Sonhado - por vezes cifrada, alegórica, na confrontação com a ausência de liberdade, como quem caminha, apavorado, perante um espectáculo grotesco ao qual não falta “a grandeza do escárnio e da humilhação”.

Nessa espécie de “imagem pairante”, a que se referiu Kant, que atravessa estes contos, surge como fio condutor a figura do anjo, insurgindo-se a sua “aparição constante” contra a camisa de ferro da problemática racional, obrigando-a a dialogar com o fantástico. Desfilam nas páginas deste livro anjos terríveis como o de Rilke, necessários como o de Wallace Stevens, solares ou nocturnos, exterminadores, adejando “lenta e serenamente diante de arranha-céus”, “ávidos de olhar, de ver partos e mortes e amores e lutas”, ou brincalhões, “alados para consumo”, criaturas indefinidas alvoroçando-se em surdina, seres irreais.

Ao fazer nascer anjos do interior de ovos, Ana Blandiana move-se no território da irrealidade pura e, no entanto, não difere, no processo criativo que implica o seguimento de uma tradição, de Breughel, quando este transfigurava os provérbios flamengos. O leitor é então conduzido por uma fantasia, permitida pela justeza da palavra e pela sua torrencialidade límpida.

E se em Marc Chagall um estranho sincretismo cria a ambiência poética e a universalidade, a escrita de Ana Blandiana concentra-se, para além disso, numa eficaz união de opostos: o profundo enraizamento à vida, à “realidade que alarga as suas fronteiras”, e a transgressão por meio do mergulho no irreal.

O conto-ensaio A Igreja-Fantasma - que relata “o milagre da transformação duma igreja em navio” e da sua “flutuação por rios estreitos” - é exemplar nesse aspecto, na medida em que nos coloca perante a coexistência entre realidade e irrealidade, que correm paralelamente, independententemente e até indiferentemente uma à outra. Ana Blandiana é uma rêveuse de palavras, palavras escritas enquanto rêverie poética e cósmica, que ao partirem de um fenómeno de solidão, como o de todo o criador, permitem a evasão do tempo e o acesso a uma epistemologia do espírito.

São contos de uma grande visualidade, pictóricos, poéticos, por vezes alucinatórios, os de Ana Blandiana - no sentido do pensar da linguagem e de uma fragilidade e força éticas. Na ilusão de uma reconstrução de um passado, necessariamente imperfeito, a escrita vai-se tornando fábula ao relacionar-se com uma cultura, a romena, dela se deslocando a caminho de um universalismo.

Mas aquilo que determina se a obra de arte está centrada no racional ou no irracional passa, conforme sublinha Hermann Broch, pela ligação ao meio de expressão. Neste caso estamos no domínio do conto que Gogol, Poe, Tchekov, Nabokov, Borges, Virginia Woolf ou Katherine Mansfield cultivaram com mestria. A também poeta e ensaísta usa os trunfos da linguagem tradicional, a obscuridade de uma irrealidade imediata, o substracto vibrante da palavra e da sua sombra, fazendo-os dialogar, como organismos vivos, numa tensão, ora leve ora densa, semelhante à que se estabelece entre instrumentos musicais.

Ivald GranatoConterrânea de Cioran, Ionesco, Mircea Eliade ou Celan, este último nascido numa família judia na antiga Bucovina, Ana Blandiana escreve no “imenso benefício de uma totalidade”. E ao fazê-lo desvenda zonas de paisagem emocional, partindo de um ritual imagético, por vezes delirante. A eficácia da narrativa evidencia-se quando a escritora aborda temáticas como a impotência perante o mal - a repressão, os chamados “campos de trabalho”, a humilhação - ou “a paradoxal grandiosidade da vida” que teima, apesar de tudo, em continuar a existir.

Uma reflexão sobre a escrita, que filtra a realidade e a memória por “prismas sucessivos e tornados quase irreconhecíveis”, não fica ausente destes onze textos, nem a dicotomia vida-morte. No belo conto, Uma Ferida Esquemática, a autora, em veloz e nostálgico mergulho de golfinho, confronta o leitor com uma “verdade” que escapa, todavia, ao lugar-comum, revelando que apenas se reconhece o valor da vida e a sua possibilidade de ser intensamente luminosa no momento em que esta quase já não nos pertence. A alguns “eleitos”, é oferecida, então, “a descoberta da beatitude de não mais ser”.

 

A escrita dos anjos

[entrevista]

 

Ana Blandiana é nome literário de Otilia Valeria Rusan. Filha de um pastor ortodoxo, nasceu em Timisoara, em 1942. É formada em Filologia Românica pela Universidade de Cluj. A sua actividade cultural e cívica pode ser testemunhada pelos vários cargos que ocupa: Presidente da Fundação Academia Cívica, Directora Fundadora do Memorial das Vítimas do Comunismo e da Resistência, Presidente Honorária do P.E.N. Clube Romeno, membro da Academia de Poesia Stephane Mallarmé, da Academia de Poesia Europeia e da Academia Internacional de Poesia (UNESCO).

Tem perto de quarenta livros publicados, dos quais mais de vinte são de poesia. Os seus títulos mais recentes são: na poesia, A soot dirty archangel, 2004; no ensaio, Being or seeing, 2005; na prosa, The melted town and other fantastic stories (contos), 2004. Os seus livros estão traduzidos para dezanove línguas, sendo que a sua tradução para o português se estreou em 2005, com o livro de contos Projectos de Passado (editado pela Editora Cavalo de Ferro).

De entre os vários prémios que recebeu, destacam-se os mais recentes: o Prémio Internacional Camaiore e o Prémio de Poesia Acerbi (ambos em Itália, em 2005), bem como o Prémio Internacional de Villenica (Eslovénia, 2002). Tem participado em festivais de poesia um pouco por todo o mundo e nessa qualidade esteve duas vezes em Portugal, nos festivais internacionais de Faro e de Porto Santo. [AMG]

 

Ivald GranatoAMG Os seus contos são fantásticos, mas não deixam, por isso, de reflectir sobre a realidade?

AB O ser humano nunca vê senão o que já imaginou que pudesse ver. Uma sereia, corpo de mulher, rabo de peixe; uma esfinge, corpo de mulher, asas de pássaro. No fundo, o que fazemos é misturar fragmentos de realidade. Na capa da edição romena de Projectos de Passado, figurava a frase: “O fantástico não se opõe ao real, é apenas o seu lado mais significante.”

AMG A imaginação é uma dança da memória?

AB Imaginar é recordar. Sócrates dizia que só aprendemos o que somos capazes de encontrar em nós. A imaginação é um jogo de espelhos, de reflexos. Escrevi um livro de ensaios que se chama Corredor de Espelhos. Toda a literatura vive disso, desse confronto.

AMG Fabrica-se a realidade por meio da linguagem?

AB Sim, sobretudo quando se é poeta. Os prosadores tratam da linguagem de uma forma diferente. E eu sou poeta não só porque a minha vida literária começou por aí, mas porque essa dir-se-ia a minha autêntica natureza. Passei, no entanto, a escrever ficção quando a realidade se tornou demasiado pesada e a poesia ficou incapaz de a suportar. A poesia é um pequeno barco de papel que o real ameaçava destruir.

AMG Prosa e poesia têm os meus objectivos?

AB Não as distingo nesse sentido, ou seja, não pretendo contar histórias, mas procuro, tanto na ficção como na poesia, exprimir o inexprimível. Quando era adolescente, li Almas Mortas, de Gogol. Trata-se de uma narrativa, com personagens no sentido clássico, e, no entanto, o escritor russo faz questão de a classificar como poética. Foi algo marcante para mim. Nesse instante, soube que gostaria de escrever assim.

AMG A literatura celebra, pensa a existência?

AB Poesia e prosa são uma meditação sobre o mundo. Ambas tentam agir pela reflexão.

AMG Escreve como uma pintora. Concorda que há nos seus contos algo de chagalliano?

AB Gosto imenso de Chagall... Não pensei nisso, mas agora que mo diz, sinto que existe algo de semelhante na passagem entre realidade e irrealidade. Os escritores têm sempre um órgão mais desenvolvido do que outro. Há quem escreva pelo som, outros pelo tacto; provavelmente, faço-o pelo olhar, pelo que vejo.

AMG Que lhe surge primeiro: o acto da escrita, imagens, histórias?

AB O conto que dá nome ao livro, Projectos de Passado, é completamente verídico. Foi um amigo que me contou a história da deportação. Perguntou-me se o que escrevi dir-se-ia realmente um facto que se passou no meio da planície de Baragan, onde havia campos de trabalho, ou não terá sido o resultado de uma refracção. Nesse sentido, é o fantástico que pertence à realidade; a realidade que se torna irreal de tão absurda. Terrível, o isolamento, como se alguém tivesse desembarcado numa ilha deserta! Só que aqui não se tratava de um Robinson Crusoé, rodeado de água por todos os lados. Em vez do mar, as pessoas estavam circundadas pelo medo e havia a interdição de ser contactado. O naufrágio era o da vida. Naquele período de tempo, aquela gente não só não foi procurada, como as pessoas não se davam ao trabalho de as descobrir.

AMG O conto A Igreja-Fantasma é, de algum modo, ensaístico na medida em que reflecte sobre a ligação entre real e irreal...

Ivald GranatoAB Concordo, mas não deixa de aliar fragmentos de realidade, mesmo quando passa para a irrealidade. Inspirei-me na figura de um camponês, construtor de igrejas, que liderou uma revolta de camponeses no século XVIII, e que foi executado por isso. Era uma espécie de Joana D’Arc. É fabuloso ler as actas do interrogatório que conduziu à condenação pela invulgaridade do seu comportamento e discurso. Uni, por outro lado, a personagem a uma extraordinária deslocação de uma igreja da aldeia da Subpiatra, na Transilvânia, para outra, na mesma época. Ao combinar estes factos, criei uma história sobre a vida, a liberdade e a morte. Fascinou-me nesta narrativa a incapacidade de delimitação absoluta dos factos.

AMG Que é o espaço onírico para si?

AB É difícil de definir. Sonho muito. O conto Imitação de Pesadelo foi completamente sonhado. Nele eu não tinha como saber desde quando estava livre, nem quanto tempo estivera presa . O homem de quem estivera cativa soltara-me. Quando acordei, comecei a falar disso ao meu marido que me disse: “Não quero ouvir, não me contes, escreve o que sonhaste!” Escrevi durante dez horas seguidas, recordo-me que foi num dia de Verão. No fundo, fiz uma história sobre a ligação entre vítima e carrasco. Há um momento, no terror e na repressão, em que a vítima não tem mais força para se opor e torna-se cúmplice.

AMG Sente-se, ao ler os seus contos, que há uma confrontação entre o que escreve e a ausência de liberdade que viveu no seu país. Fá-lo de uma forma críptica, cifrada...

AB Os meus livros são mais fantásticos para vós do que para os leitores romenos. Curiosamente, a censura criou no meu país um novo tipo de leitor. O autor sugeria e o leitor trazia a sua experiência para dentro da obra, lia nas entrelinhas. Enquanto escritora ganhei com o facto de ter de escrever nessas condições.

AMG Em Portugal verificou-se o mesmo na ditadura, havia censura e apreendiam-se livros. Foi também proibida de publicar na Roménia?

AB Várias vezes. Os livros não podiam ser publicados e chegaram a retirá-los das bibliotecas. A primeira vez que isso aconteceu eu tinha 16 anos. Fui considerada uma “inimiga do povo”, porque o meu pai era preso político. A interdição durou quatro anos. Em 1985, surgiram quatro poemas meus numa revista, que levaram a nova proibição. Um deles era uma sucessão de substantivos, espécie de mosaico que dava uma imagem da sociedade e provocou um enorme escândalo. Toda a gente na empresa foi despedida por isso. O texto não só foi difundido e traduzido em todo o mundo, como começou a ser passado à mão. Um escritor romeno conta nas suas memórias que os leitores juntaram-lhe palavras, como se se tratasse de um mecanismo do folclore que se vai transmitindo oralmente. Deixou de ser meu e tornou-se numa obra colectiva que circulava anonimamente.

AMG Mas a sua literatura não é engagée num sentido estrito...

AB Fico contente com isso. Havia sempre em mim anti-corpos. Mesmo quando queria dizer coisas muito simples, elas transfiguravam-se, ainda que contra a minha vontade. Os livros permanecem quando a realidade desaparece.

AMG A subjectividade é ou não o único modo de acesso à realidade e depois à escrita?

AB Não acredito na objectividade em nenhuma arte. A objectividade é uma subjectividade que não reconhece que é subjectiva.

AMG A infância marcou a sua obra?

AB Claro que sim, cresci na época estaliniana, vendo a mala do meu pai pronta na entrada para quando o viessem buscar. Tinha as roupas de Inverno dentro. Foi preso vários vezes por razões políticas. Aconteceu o mesmo em muitas famílias. Ceausescu era mais suave do que Estaline, mas também mais louco. O desejo de Poder não tinha medida, sobretudo o da sua mulher, mas foi ele quem abriu as prisões. Em 1965, eu tinha 23 anos. O meu pai era sacerdote ortodoxo. Descobri a última sentença que o condenava e um dos argumentos jurídicos relacionava-se com o facto de ele pregar, segundo eles, contra o materialismo dialéctico. Mas se ele era padre, como podia dizer que Deus não existia? Nada mais fez de mal.

AMG Não reconhece aspectos positivos no regime comunista, nomeadamente no campo dos direitos económicos e sociais?

AB Digamos que havia igualdade na miséria, excepto para a elite do Partido. Éramos iguais na miséria. Funcionava um mercado negro entre os países de Leste. E um dia, perguntei a uma mulher polaca que vinha ela fazer à Roménia se não havia nada para comprar. E ela respondeu-me: “A senhora não sabe o que é nada.” Nunca mais me esqueci dessa frase.

Ivald GranatoAMG Vê mais benefícios no capitalismo?

AB Vejo que há mais liberdade, mas existem enormes desigualdades. Não há sociedades perfeitas, claro, mesmo a liberdade não é perfeita. Também é a liberdade das drogas. Concordo, no entanto, com Churchill quando ele dizia: “A democracia é o pior dos regimes, exceptuando todos os outros”.

AMG Qual é a diferença entre socialismo real e ideal?

AB O problema é que não houve ponto de contacto entre eles. Tentou-se sempre impor pela força o comunismo. Na Roménia houve dois milhões de presos políticos entre 1945 e 1965 e cem mil mortos na prisão. Mesmo eu estive, de algum modo, presa na minha casa com um carro da polícia secreta sempre à minha portra, o que era intimidador. O telefone e o correio estavam controlados. Quando dizia ao meu marido: “Amo-te!”, sentia, porque estava vigiada, que estava a afirmar uma coisa indecente. As pessoas deixaram de vir a minha casa porque tinham medo. Fiquei muito isolada.

AMG É uma poeta da geração de 60. A morte está desde logo presente na sua escrita...

AB O meu pai saiu em liberdade em 1965, quando Ceausescu abriu as portas da prisão. Morreu com 49 anos. Nunca mais o deixaram ser sacerdote, só a minha mãe trabalhava. Usou sempre barba comprida e, quando regressou, vinha com a cabeça rapada e sem barba. Parecia tão novo… Nunca mais teve um lugar na sociedade. Um dia, quando estava a diluir cera, incendiou-se o recipiente. E ele ardeu. Morte horrível! A minha evolução ficou marcada pela seu de-saparecimento. Fiquei completamente só com todas as questões do mundo.

AMG O amor é desejo de absoluto na sua obra?

AB Sim, como no mito da androgenia, que dir-se-ia a reconstituição de algo perdido, o reencontro de duas antigas metades. Sou casada desde os 17 anos com o mesmo homem.

AMG Quando fala de absoluto, refere-se a um conceito de eternidade?

AB A poesia e o amor estão ligadas, para mim, ao misticismo, ao absoluto, a uma crença em algo de eterno, de transcendente. Tenho receio da eternidade que se confunde com a posteridade. A eternidade é muito mais do que a durabilidade do instante, em qualidade também. Com a idade, aprendi que não há fronteiras entre esta vida e a outra. Existe apenas a dor da passagem.

AMG Os anjos estão por toda a parte na sua obra, solares e nocturnos, brincalhões e exterminadores. Quem são, para si?

AB Sou muito distraída, então acho sempre que há algo que me protege. Tenha a sensação de que lá do outro lado, alguém diz: “Esta mulher não é capaz de se arranjar sozinha, há que ajudá-la.”[risos] Mas não sou muito religiosa, o que escrevo nesse campo até pode ser considerado herético. Tenho em relação aos anjos o mesmo sentimento que cultivo pelas plantas e outros seres vivos. São almas da realidade.

AMG Incorpora na sua obra o tesouro lendário dos contos, da memória popular...

AB Sinto-me ligada aos valores tradicionais, que não impedem a modernidade. Em geral, o progresso é o esforço para fazer passar os valores de uma etapa a outra etapa, muitas vezes subvertendo-os. Não há que destruir o passado. A minha escrita não esquece também a história, a mística, a filosofia, a reflexão. Não sou um tipo de autora indiferente à realidade, confinando-se apenas à exploração da linguagem.

AMG Qual deve ser, a seu ver, o papel dos intelectuais na sociedade de hoje?

AB Para já devem ser solidários, até entre si, o que é coisa rara. Seria a maior revelação do mundo se os intelectuais conseguissem conquistar a televisão. Há uma guerra de Poder entre a TV, que lava cérebros e não ajuda à compreensão do mundo, e a cultura. Trata-se de um instrumento extraordinário usado no mau sentido.

AMG Cioran é o céptico de um mundo em extinção. Como se combate, a seu ver, o “mal de ser”?

AB Cioran e eu não estamos do mesmo lado, política e moralmente. Creio no poder do bem: “A sorte do bem é que quem luta por ele é masoquista.” O amor, o belo, a poesia podem, num certo sentido, salvar o mundo.

AMG Escreve para quê, para não cegar?

AB Dei uma vez uma conferência em Estocolmo intitulada Olho por Olho, e em breve toda a gente se tornará cega. A arte autêntica não pode ser senão amor. O ódio cega. 

Ana Marques Gastão (Portugal, 1962). Poeta, jornalista e crítica literária. Autora de livros como Nocturnos (2002), A definição da noite (2003) e Nós/Nudos (2004). Matéria originalmente publicada no Diário de Notícias (Lisboa, 03/03/2006). Fotografia de AB por Augusto Brázio. Contato: amgastao@dn.pt. Página ilustrada com obras do artista plástico Ivald Granato (Brasil).

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