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revista de cultura # 50 |
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O estado poético em Octavio Paz, Jung e Frei Cáppio José Carlos A. Brito
Chamamos matéria prima anímica a qualquer instrumento que possa mobilizar a psique (a relação do interior com suas imagens e com o mundo externo), na procura do algo desconhecido, mas ansiado por uma espécie de desejo, e para isso escolhemos um conceito de associação à energia específica, que estimula essa vontade. Nessa mobilização, em geral atribuída ao escritor em seu estado poético, ele embarca (em uma, digamos, viagem cósmica) em cápsula programada para navegar no desconhecido em movimento de buscas. A cápsula é o símbolo, e neste caso tal veículo não será programado, para a viagem, pelo ser humano historicamente presente, mas por uma função autônoma (que identifica o símbolo e o diferencia em relação ao signo). A função autônoma do símbolo encontra-se relacionada ao “Inconsciente Coletivo”, e este na verdade pode ser reconhecido em outros autores com nome diferente, como Id ou Instinto Primitivo (Freud), e nas religiões como uma espécie de Manifestação Divina. Seria algo diferenciado do arquétipo de herói onipotente, pai supremo, opressor ou protetor, como no caso da Bíblia, por tratar-se, neste caso de um mito definido, enquanto a Manifestação Divina é em parte mistério e desconhecido. O poeta recorrerá sempre a essa entidade de fundo, que para muitos foi ou ainda é a Inspiração; no passado foram as Musas, e sempre será algo associado a esse Outro que, para facilitar, definiremos como forças e energias anímicas. Portanto, os autores, aos quais nos referiremos neste ensaio, escreveram algo, mobilizados por essa força, sendo a lógica de seus textos subordinada à imagem-conceito referida. Nossa intenção é tomar a “cápsula animada” para embarcar, a partir da simbologia oferecida por eles, e fazer as nossas descobertas, que também podem ser novas experiências do estado poético. Sendo esse o sentido que exclui a norma, ou qualquer outro tipo de regulamentação dogmática. Há algum tempo atrás, um bispo brasileiro da igreja católica, ligado à Teologia da Libertação e bispo de Barra, interior da Bahia, resolveu fazer uma greve de fome em Cabrobó para impedir o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, que o governo federal pretendia (ou pretende) fazer, alegando irrigar uma região de seca nordestina, mas que o bispo, representante das populações ribeirinhas e pobres, da região do rio, assevera tratar-se de uma estratégia de cunho politiqueiro e também para enriquecer empreiteiras, lembrando soluções adequadas à irrigação que atenderiam aos mais pobres, sem provocar essa hecatombe ecológica. Imediatamente sua ação mobilizou os meios de comunicação formando-se um grande movimento de apoio e romaria por parte dos fieis, que pressionou o governo a negociar e abrir uma discussão mais ampla na sociedade. O bispo, Frei Luis Cáppio, imbuiu-se do espírito místico de São Francisco de Assis, e estabeleceu um clima de humildade poética, porém altamente mobilizadora, sensibilizando o país inteiro. E a isto, desde um enfoque lírico, poderíamos chamar de estado poético. Em determinado momento da greve, ao ser entrevistado por uma emissora de televisão, foi perguntado ao frei o que o movia. Antes de dar qualquer motivo político ou de racionalidade lógica, o que poderia ser “redutivo” no caso de sua ação, muito mais ampla e profunda, o bispo usou magistralmente uma figura simbólica de alta densidade, revelando: o que me move é uma loucura divina. A resposta não tinha condições de ser bem entendida sob qualquer ponto de vista lógico ou cientifico, ou mesmo de argumentação pragmática, porque o grevista estava misticamente imbuído do estado poético, e viajava na cápsula do símbolo Loucura Divina, para tentar transmitir mensagem muito mais profunda do que a simples discussão de um empreendimento “republicano”. Usamos o termo “republicano” para fazer analogia com a anterior incompreensão ao ato de Antonio Conselheiro, fundador do arraial de Canudos com seus seguidores “fanáticos”, para viver em estado de Reino Divino, que os repressores, a serviço das oligarquias conhecidas, denominaram criminosamente de tentativa de restaurar a monarquia, com que justificaram o massacre da cidade rebelde de pobres excluídos que apenas anunciavam, através de um forte símbolo religioso, a necessidade de um estado de justiça. E o poético manifestava-se nas mil formas de apresentar os desejos. Para frei Cáppio, a transposição do rio São Francisco, uma vez levada a cabo poderia ocasionar conseqüências desastrosas, argumento em defesa do seu protesto. Mas sua “Loucura Divina” era a única forma com que podia definir algo que encerra uma parte desconhecida, porém intuída; e mobiliza energia em busca de novas revelações na continuidade reflexiva, emocional. Os pobres das populações e comunidades ribeirinhas entendiam o símbolo por essa mesma forma empática, que uma cultura milenar estabeleceu nas psiques coletivas, como energia movimentada que os atingia e inundava de estado poético, provocando uma relação de troca. Se, desse estado poético, saíram posteriormente poemas ainda não sabemos, mas é bem provável que tenha havido alguma produção literária resultante. Por outro lado o valor de qualquer poema surgido ou a surgir, não corresponderá obrigatoriamente ao valor do estado poético mencionado. Este, provavelmente muito mais intenso e significativo. Mesmo ao lembrar qualquer outro caso, um determinado estado poético não fosse tão forte e evidente, como o de Cabrobó, poderia ter provocado um poema extraordinário e, no mundo, ter ficado o conhecimento do poema resultante, sem se saberem as circunstâncias emocionais para tal obra. Cabrobó foi um estado poético que não teve poema à altura, como há casos em que o poema eclipsa o estado poético e este extingue-se da memória. Por exemplo, quais teriam sido as circunstâncias que influenciaram a criação da “Divina Comédia” de Dante Alligieri, ou o famoso “Fausto” de Goethe? No caso de Dante, sabemos que havia a paixão do autor por uma menina de 12 anos, chamada Beatriz, personagem permanente da Divina Comédia. E no caso do Fausto, sabe-se que a obra tomou uns 60 anos do autor, para ser totalmente produzida. No início de seu livro, O Arco e a Lira, o escritor e poeta Octavio Paz, afirma que a poesia é, entre as demais coisas que ele enumera “…um método de libertação interior.” E ainda “…a poesia revela este mundo; cria outro…”. Portanto, sugere estarmos diante da revelação de outro mundo, isto é, do inconsciente ou imaginário, que é algo bem distinto a todos os demais conhecimentos que possuímos hoje da dita realidade. Se, por exemplo, o mundo de acontecimentos cronológicos, conscientes, é vinculado à história; a interpretação dos mesmos fatos e movimentos sociais à sociologia; certos comportamentos, sobretudo individuais, de caráter mental, à psicologia; a poesia, para o poeta Paz, transcende à interpretação de todos esses sistemas lógicos porque, como ele próprio afirma “… a poesia acontece como uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstancias, alheios à vontade criadora do poeta; estamos diante do poético”. Diríamos nós: o poético - que ainda não é propriamente a poesia - é o estado em que se darão as circunstâncias de vir a existir poesia. E sua inclusão no poema. Enquanto o estado poético pode permanecer na situação criada (e daí ampliar-se ou extinguir-se), a poesia seria esse movimento em direção à obra. Trata-se, sem dúvida, por parte de Paz, da descrição mais cabal de um estado diferente ao do mundo real, este identificado pela expressão da consciência; o alheio à vontade, o oculto. Seria um mundo de imaginações, de premunições, de intuições, de sensações, de sonhos, mas tudo isso no acontecer de uma série de imagens e movimentos de figuras, fora do histórico determinado. Trata-se da revelação que Jung nos faz, através de sua experiência com a psique de seres humanos, dizendo: “… O inconsciente coletivo contém, ou melhor, é uma imagem especular do mundo. De certo modo é um mundo, mas um mundo de imagens…” O próprio Octavio Paz refere-se, nessa sua definição do poético “…a poderes e circunstâncias alheios à vontade do poeta…”, entendo aqui, vontade, como impulso que liga o desejo inconsciente à consciência; o nascer é involuntário, mas a vontade é consciente. Ora, se o poeta é um ser humano como qualquer outro, no qual, normalmente as atividades se manifestam pelos fatos e ações objetivas, que acontecem na relação com seu entorno, fruto de sua vontade consciente, o poético seria um processo diferente situado num outro lado, nascido fora do consciente e constituído por fatores “… alheios à vontade do poeta…(Paz)” que seria o mesmo dizer, alheios à sua consciência. Quer dizer, com fonte energética originária do mundo das imagens, portanto com geração de uma outra vontade oriunda desse mais além. Mesmo provocado por ato ou objeto consciente, anterior.
Ao referirmo-nos à forma mais comum de poesia - a escrita - muitas vezes essa arte não condiz com os padrões culturais, determinados socialmente por períodos históricos; daí ser a poesia uma forma original que antecipa momentos culturais. E ao tratar-se de poesia mais profunda, só será compreendida, quase sempre, em momentos bem posteriores. June Singer, psicóloga e escritora, em análise do poema de Willian Blake, O Matrimônio do Céu e do Inferno - no seu livro Blake, Jung e o Inconsciente Coletivo - cita o seguinte verso do poeta: “…Uma vez vi um Demônio em uma chama de fogo; ele ascendeu até um Anjo que estava sentado em uma nuvem e o Demônio disse estas palavras:”? E June pergunta-se se isso é um artifício literário ou o poeta estaria escrevendo “…sobre algo que lhe veio à consciência através de seu ouvido interno, daquele mundo interno do inconsciente? As palavras não estavam na consciência antes de Blake tê-las “ouvido”. Do nada, nada vem. Se não estavam lá, onde estavam? Onde toda a idéia, todo o potencial, toda a capacidade inata, mas não percebida, antes de estar presente e funcionando - além dos limites da consciência..(June Singer).” Octavio Paz, ao final do capítulo Poesia e Poema, confirma essa possibilidade de toda pessoa possuir, em potencial, a faculdade de expressar as imagens vindas de dentro, e Paz estende as características do poetar a qualquer ser humano, citando na confirmação o próprio leitor de poesia: “…cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético…(O.Paz)” A seguir, Paz define esse processo em que o poético se transforma em poesia. Não se trataria simplesmente em observar os acontecimentos objetivos, abstraindo-os, e transformá-los na obra histórica; nem seus comportamentos de relações econômicas, jurídicas e humanas e transformá-los na obra sociológica, e tampouco os comportamentos originados da psique que viram normas de tratamento ou interpretação psicológica, não, a poesia é uma síntese, abstraída a partir dos mundos ocultos da vida interior, e na relação deles com o objeto externo. Sem dúvida que tudo passará pelo filtro das situações presentes e da expressão de seus imaginários na vida cotidiana palpável e visível. Por vezes, misturam-se os elementos, inclusive para conseguir formatos compreensíveis ao mundo consciente dos leitores, ou ganchos para “seduzir” e provocar o desejo de penetração no oculto, quer dizer certas imagens - de origem obscura e estranha - serão captadas por um ser sensível, revelando-se numa expressão consciente e especial (ou estética) que se chamará poesia. Daí para a composição do poema, ou da sinfonia, ou da pintura, é um passo. Otavio Paz descreve tal situação com as seguintes palavras: “… quando - passivo ou ativo, acordado ou sonâmbulo - o poeta é o fio condutor e transformador da corrente poética, estamos na presença de algo radicalmente distinto: uma obra. Um poema é uma obra. A poesia se polariza, se consagra e se isola num produto humano: quadro, canção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, a poesia se ergue.”. Portanto, o “se ergue” significa um estado emocional de fusão que movimenta as energias da libido, em direção a um resultado (poema) de sentimentos mobilizados que, além do prazer simples e específico da obra criada, podem levar a novos estados criativos. Ao falar da vida que ocorre no inconsciente, é bom lembrar tanto daquela que emana de um estado de figurações da experiência individual, como da brilhante constatação dessas imagens da memória do Inconsciente Coletivo em forma de imaginário dos arquétipos ancestrais, consolidados no presente em novas figuras do convívio cotidiano. Diz-se que determinadas pessoas já nasceram com certos dotes artísticos; o que existe é o aflorar da sensibilidade ancestral acumulada, que em alguns indivíduos se dá com maior facilidade por maior sensibilidade natural. Basta que haja disposição psíquica, do entorno, ou própria, para isso. E os estados de loucura ajudam a desbloquear as barreiras. É interessante repisar que nesta abordagem, em absoluto, não se trata de uma interpretação psicológica da poesia, tomada pelo lado convencional, mas a constatação da existência de uma expressão do imaginário existente no inconsciente - confundindo-se com ele - que toma formas artísticas na consciência, através de um caminho ou um instrumento de complexidade criativa, isto é, um ser humano artista. E, diga-se de passagem, a diferença entre um ato de real loucura (que também pode ser uma manifestação desse complexo) e uma obra de arte, é que a arte leva à comunicação criativa dos inconscientes (fantasias), que geram os sentimentos em sínteses culturais novas, de formato consciente, enquanto a loucura real não atinge essa última expressão, na relação entre artista e obra. Na verdade o conhecimento desse inconsciente, ou a vida das imagens, foi aprofundado inicialmente por vários médicos psicólogos, a partir de Freud e Jung, mas foi revelado por vários poetas antes, e poderia sê-lo por qualquer outro ser sensível, como o próprio Octavio Paz, quando se refere à revelação da poesia, falando desse estado da consciência artística, manifestado. E lembramos que a eclosão final, na obra acabada, distingue-se do clima poético - em que as figuras borbulham em busca de forma - para termos os elementos de elucidação do que vem a ser o poeta. Nas palavras de Jung, se substituímos, na frase que segue, o “gênio” por “poeta”, teremos também essa definição: “…gênio é precisamente aquele que consegue transmudar uma visão primitiva e natural, numa idéia abstrata, que pertence ao patrimônio geral da consciência.” Para Paz, o poema seria uma forma - como forma é a estátua do escultor; a sinfonia, sonata e balada do músico; um filme, uma pintura, entre outros. E a forma do poema é a convenção estética, na qual pode habitar a poesia, que é o resultado artístico da relação entre ser humano e estado poético. Essa relação é o lugar de encontro entre o poeta e o estado poético, para dela emanar poesia. Nós acrescentaríamos a isso, o seguinte: a poesia expressada, escrita (poema), não seria precisamente a poesia-em-si, pois ela já existiu na fusão emocional, antes de adquirir a forma. Na verdade, seria mais apropriado pensar, ao tratar-se do poema escrito, como uma memória da imagem poética, isto é, do acontecido, que ao ficar gravado, em letras no papel, pode reavivar novos climas poéticos nos leitores, podendo estes vir a ser poetas se conseguirem gravar artisticamente as emoções resultantes. Para Octavio Paz, todas as atividades verbais “…são susceptíveis de mudar de signo e se transformar em poemas…”; isso não significa que possam vir a conter poesia, mas entendemos sua afirmação da forma em que todas as coisas do mundo e da vida possuem características comuns ao poema, isto é, podem adquirir e incorporar poesia, ou mesmo, muitas delas já contém poesia (ao contato do filtro subjetivo do ser humano), mas para ser poemas precisam do ser humano poeta. E nesse caso poderemos igualmente afirmar existirem poemas que, ao não conter poesia, não são poesia, mesmo que mantenham uma forma. Assim, um louco poderia “pronunciar” poesia (através da pintura ou da fala) sem ser poeta e sem usar a forma convencionada do poema, e mesmo qualquer outra forma familiar ao habitat da poesia; simplesmente pelo fato de que as formas manifestadas (diretamente) do seu inconsciente, através da loucura, serem as mesmas formas - de mundo oculto - onde essas figurações aparecem para o poeta. A diferença entre um poeta e o louco está em ser a visão do louco “…um valor impessoal surgido naturalmente…não soube, por falta de capacidade própria…apropriar-se da idéia, transformando-a…em poesia.” (Jung) E esse processo de criação poética continuaria, a partir do louco, se as emanações de sua linguagem pudessem ser captadas por um “leitor” poeta e este fizesse o que Octavio Paz atribui ao acontecer da poesia “…cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético.” Mas, de que maneira a forma - poema - adquire a substância poesia? Quando a forma do poema alcança ser preenchida por uma substância de poesia realiza-se a unidade desses dois fatores em que, unicamente nesse caso, poderá afirmar-se que o poema contém poesia, e vice-versa a poesia está no poema, entendendo assim a afirmação de Paz “…forma e substância são a mesma coisa…”, o que também equivaleria dizer que um poema, ao não conter poesia, ele próprio não poderá ser considerado poesia. Mas acrescentamos nossa pergunta à indagação do autor: de que forma apoderar-se da definição de poesia, se cada poema se mostra como algo “diferente e irredutível”? E aí entendemos por diferente a ação da individualidade (realizadora do si-mesmo, isto é, da totalidade entre o ser consciente e seu mundo inconsciente) de cada poeta. Para Jung, o individualismo (que difere da individuação, pois, no individualismo acontece a predominância inflacionada do ego e não o equilíbrio do si-mesmo) dá ênfase às peculiaridades do individuo, frente às obrigações coletivas, no entanto a individuação, para ele, significa melhor a realização completa das qualidades coletivas do ser humano: “… a singularidade de um individuo, não deve ser compreendida como uma estranheza de sua substância ou de seus componentes, mas sim como uma combinação única, ou como uma diferenciação gradual de funções e faculdades que em si mesmas são universais.” (Jung)
A esta afirmação de Paz “…por si mesma, cada criação poética é uma unidade auto-suficiente. A parte é o todo…” corresponderia o pensamento de Jung “…a individuação (cada criação poética), no entanto, significa precisamente a realização melhor e mais completa (unidade auto-suficiente) das qualidades coletivas (a parte é o todo).” Tendo em vista ter Octavio Paz afirmado antes que “…a poesia não é a soma de todos os poemas…” poderíamos acrescentar, como Jung, que só através do trabalho individual da expressão - a parte - pode ser concebida toda a poesia: a totalidade. Diz Jung: “… assim, o individuo é a coisa singular, que numa proporção maior ou menor, detém aquelas qualidades sobre as quais se baseia o conceito de “coletividade”; quanto mais individual ele for, tanto mais ele desenvolverá as qualidades que estão à base do conceito coletivo do ser-humano.”. Também poderíamos dizer que em um único poema poderia encontrar-se toda a poesia de tal ou qual autor, e que na soma restante de seus poemas não se encontraria a poesia do mesmo. Estaríamos nos aproximando da substância da poesia, quando a coisa singular consegue mobilizar as coisas singulares de outros seres para cada criação singular. Mas não seria possível uma coisa-coletiva-singular em forma de poesia, e nesse caso estaríamos em direção a uma relação de absolutismo tirânico (de uma consciência copiadora) que, quando existe manifesta-se em formas de subordinação das energias presas, transferindo essa criatividade represada para um ser superior, alheio à substância singular, que unifica as cópias. Provavelmente o fanatismo religioso é um dos lugares onde aparece nitidamente tal fenômeno. Para Paz, não há entre um poema e outro, relação de parentesco. E conclui: “…em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é poesia.” O autor do Arco e a Lira, nesse seu primeiro capítulo, ao referir-se às interpretações “lógicas” da poesia, confirma esse buscar em outro mundo o sentido poético, vejamos: “…a retórica, a estilística, a sociologia, a psicologia e o resto das disciplinas literárias são imprescindíveis se queremos estudar uma obra, porém nada podem dizer de sua natureza íntima.” Isso também se aplica quando se trata do psicologismo em contraposição à psicologia profunda. A psicologia profunda (ou arquetípica, ou ainda psicologia do imaginário) utiliza seus inúmeros conceitos de interpretação das atitudes do ser humano a partir das atuações da psique, que explicam a vida não pelo conceito maniqueísta do bem e do mal, mas pela tensão dos contrários numa relação que incide em criatividade. Por outro lado, o psicologismo trabalha com certos complexos da mente para tratamento de comportamentos inadequados ao convívio social. Mas isso, geralmente, parte dos critérios de uma cultura dominante, quando uma verdade é dogmaticamente instituída e regida por códigos de poder - ou do senso comum sob influência desse poder - que considera as novidades como heresia. E as inovações “heréticas” de maior impacto, acabam sendo tratadas como inadequação, de fundo psicológico que poderá ser “curada” pelo psicologismo de obsessão adaptativa. O perigo encontra-se em reprimir o impulso da alma, que acaba incentivando o ego inflado a aumentar sua impulsão para destruir o entorno (da natureza e de si próprio) na suposta satisfação que pressupõe vitória sobre o outro, ou a morte na impossibilidade de vencer. Por esse processo, os princípios da criatividade e da rebeldia serão num primeiro momento incompreendidos e a psicologismo a serviço dessa cultura tentará explicações do porquê das “anomalias”, para orientar a “cura” em direção à adaptação, inclusive tratando a neurose como mal a ser “curado” sem entender as razões da alma. Justamente essas razões produzem a dor, as nostalgias, as angústias, em enunciados poéticos do comunicar a essência vital, em formas energéticas de mobilização da libido. Esse psicologismo, do mesmo modo, poderia recorrer à mania de interpretar a literatura com uso de tais procedimentos de tratamento de “pacientes” - que falam discursos - para servir de material ao “psicólogo”. Por outro lado, diríamos que a psicologia profunda, arquétipa, da vida imaginária, como parte da vida real, não tem em Jung, nem em Freud, os únicos em aprofundar-se no mundo do inconsciente (tanto coletivo como individual), considerando esse estado um universo próprio e autônomo que se manifesta por imagens de enunciado complexo. Mesmo que, no caso desses autores, é natural reconhecer terem sido eles, notoriamente, pioneiros em usar a dor da histeria e das neuroses como formas de comunicação da alma. No entanto foi preciso o argumento da medicina, para que o preconceituoso “racionalismo” do século XIX aceitasse algo de científico nessas hipóteses da psicologia profunda. E como é fartamente sabido, antes dessa mudança acontecer, e das conseqüentes descobertas, indagamos: Quanto de magia havia sido desprezado e reprimido a ferro e fogo? Quanto de bruxaria havia sido queimado em vidas humanas? Quanto de poetas sucumbiram - e ainda hão de sucumbir - no desprezo, esquecimento e miséria? Tudo isso enquanto o mundo esvai-se rapidamente pelo ralo, em destruição supérflua, na forma do excesso de produtos que transformam as energias da natureza em lixo. E a isso se costuma chamar racionalidade, a mesma que pressupõe a poesia como inútil e irracional. A psicologia profunda leva em conta esse outro mundo das imagens e símbolos, criadas pelo inconsciente, sobretudo em relação aos processos de sensações recentes da mente, estes mais influenciados pela cultura objetiva do cotidiano consciente e da história visível. Muitas vezes em poesia também podemos constatar os dois elementos presentes na obra, ora mesclados de alguma forma, ora separados entre os componentes de conteúdo e os da forma. Mas, se o inconsciente em Freud e Jung - neste, compreende o coletivo nas imagens primordiais que Freud, mesmo não o tendo nomeado assim, também o reconhecia com outros termos - assemelha-se à situação poética (o antes da poesia, ou estado poético) descrita por Octavio Paz; diríamos que Jung, além de Freud e outros, usaram uma “forma” - seu campo de conhecimento em psicologia - como o artista usaria a forma do poema, para nela colocar a sua criação poética. O próprio Jung, ao tentar entender essa poesia da alma seria obrigado, como Octávio Paz, a condenar o reducionismo de análise que certa psicologia tende a fazer em relação à manifestação especial do inconsciente. Mas é justamente esse mundo de imagens e fantasias que, ao adquirir determinadas condições e formas artísticas de exposição, significam poesia num formato original.
Trata-se de um processo que também cura, desde que o poeta (ou leitor de poesia) aprenda a transformar as imagens do conflito interno em “espíritos” controlados por sua consciência artística, pois, o descontrole corresponde à impossibilidade de dominar esses elementos na consciência, ao constatar-se que esta os ordena, em emoções, para uma continuidade produtiva. Ela guia os impulsos dentro de uma ordem de desejos que a psique estabelece para prazer. Para isso pode servir a arte na música, na pintura, na escultura, na dança, no cinema, nos poemas, na oralidade, na reflexão, no amor, na amizade, etc. Provavelmente o louco é dominado por outra ordem, alheia, que geralmente lhe impede essa fonte de prazer. Se o místico consciente pode viver o sentimento do Outro em sublimações dentro de si, para recriar-se, diríamos que o místico alienado, sem domínio consciente de seu processo, transfere-se totalmente para o Outro imaginário, que acaba sendo um reflexo da consciência fora de si. Mestre Eckart (1200) assinala essa diferença em “quando a alma está em Deus” significa alienação, usurpação, mas quando o “Deus esta na alma” corresponde à autonomia do ser, que contém o objeto em vez de entregar-se a ele. O interessante é que o desespero causador da loucura, a frustração levada ao suicídio ou a uma vida sem sentido transformada em morte lenta, ou mesmo uma doença grave, são problemas que podem ter um antídoto na arte. As constantes produções de poesia, por intermédio do ser humano poeta, ou a leitura, seriam recursos encontrados pela alma, para suportar o mundo real e, inclusive, reconstruir-se a si própria, nessa troca anímica (o fazer alma). E ao realizar a obra, o poeta, desperta em outros a forma de ser poeta, escrevendo, lendo, ou adotando atividades equivalentes. Seria o mesmo que entender esse processo por intermédio de um indispensável diálogo da alma, onde os elementos são a intuição, as emoções, a sensibilidade aparentemente irracional, enfim, os sentimentos que estabelecem prazeres, e que são refletidos em símbolos completos, na busca da satisfação, isto é, a atitude de eliminar resíduos daquela ansiedade que normalmente leva a consumir o outro (ser ou objeto), sem troca de valor anímico na relação. O consumir infla, e sem troca é auto-explosivo. Para distinguir quando a relação é uma coisa da alma (e seus prazeres), poderia existir uma medida a observar-se na reação do fluxo libidial do outro. No momento em que sob nosso estímulo, o outro produz energia libidinal, que também nos estimula, dá-se a relação da alma, que se constrói, provavelmente em ambos casos; enquanto na forma contrária teremos desequilíbrio, insatisfação, ciúme, inveja e conseqüente ansiedade. A obra de arte produzida pode gerar esses sentimentos, tanto de satisfação como de frustração, dependendo das forças que desencadeia. Sem esquecer que uma força pode não ser prejudicial, mas gerar desequilíbrio e frustração apenas por ser incompreendida. Lembrando que a frustração também pode ser um sinal importantíssimo (talvez o único) para acender a chama da alma. Mas, como proceder para não cometer muitos equívocos? Diríamos, uma dica é aguçar a intuição e manter a atenção a qualquer detalhe que nos prenda ao mistério, mesmo sem compreender motivos, que poderão ficar eternamente desconhecidos. Além disso, os sonhos produzem imagens como pistas para elaborar a compreensão, mesmo que esse diálogo permaneça por muito tempo em patamares do obscuro. Somente da obscuridade profunda acontece o emergir, onde uma pérola pode revelar seu brilho na concha aberta. Portanto, a poesia, não serve para quase mais nada. Não serve para alimentar-se, ganhar dinheiro, amar e ser amado, mas apenas para continuar vivendo poesia, em comunicação com as almas individuais ou a alma do mundo. Com relação ao próprio Jung, Freud e outros, que tentaram servir-se dos mundos do inconsciente com o objetivo de “salvar” alguns pacientes - ajudando a elucidar delírios nos processos de neurose e loucura, utilizando caminhos da expressão - não poderíamos asseverar que tenham obtido muito êxito nessa utilização, pois, o “poeta” já estava lá, ou não estava, considerando também, tratar-se de uma questão de os “pacientes” terem ou não “matéria prima” suficiente para o empreendimento da cura, como vontade ou energia libidinal transformadora. Ao dizer isso, implicitamente, afirmamos que ser poeta, de uma maneira geral pode significar uma tentativa, consciente ou inconsciente, de salvar-se. Por motivo do poeta, ser aquele, que ao ter uma mente mais forte do que um débil mental poderia tomar a visão das estrelas como uma imagem salvadora. A perda de equilíbrio, segundo Jung, é importante para substituir uma consciência falha (o que dizíamos em relação à frustração); e assim o será tanto para um louco como para um poeta, no entanto o poeta salva-se, e o louco poderia chegar a isso se alcançasse o equilíbrio, quer dizer: “…sempre que a consciência for capaz de assimilar os conteúdos produzidos pelo inconsciente, isto é, quando puder compreende-los e digeri-los…(Jung)” O processo da psique (alma) em análise (psico-analítico) não leva a fabricar um poeta, da mesma forma que o psicologismo não pode interpretar sua obra, mas ser poeta implica em compreender, mesmo inconscientemente, as manifestações da psique e sua trajetória (o caminho do infante). Não será através de uma lógica de conhecimento dos processos cientificamente objetivos (incluindo os avanços técnicos e de novidades psicológicas do mundo moderno) que acontecerá a poesia, porque um poeta terá esse conhecimento pela estrada da própria poesia. E, a propósito, sugerimos uma vista ao poema de Fernando Pessoa, Eros e Psique, onde a imagem usada nos diz exatamente isso. Nosso poeta, Octavio Paz, acrescenta que a única característica comum a todos os poemas está em serem produtos humanos, como uma cadeira de carpinteiro e a pintura de um quadro. E nós acrescentaríamos a isso, ser também produto comum dos seres humanos o jorrar de todas as experiências sensitivas, sendo a vida interior esse elemento intrínseco a todos, que se manifesta na escrita, ou na oralidade, singular de cada um. Para Paz, a técnica vale “…na medida em que é um processo susceptível de aplicação repetida; seu valor dura até que surja um novo processo… cada poema é um objeto único, criado por uma “técnica” que morre no instante mesmo da criação…(O.Paz)”
As atitudes da vida inconsciente e imaginária, não explicitadas, acumulam-se em formas reprimidas e coletivamente represadas, que num determinado momento podem explodir em nova cultura. Provavelmente a surpreendente eclosão da primeira grande guerra mundial, a de 1914, em que a violência extremamente bárbara tomou conta dos espíritos que antes coabitavam em aparente harmonia, teria sido a saída trágica para o acúmulo de repressões dominantes no século XIX, atribuídas às classes detentoras do poder sobre a guerra. Esses sintomas de comportamento chauvinista evidenciavam o desastre, pela sistemática repressão à liberdade da psique (veja-se o aparecimento da histeria, e dela a fundação da psicanálise). Por outro lado, o citado conflito também transformou o âmbito poético incompreendido no momento anterior à guerra, em um desabrochar radical de mudanças culturais, pese a extrema violência dilacerante, que teve continuidade na outra segunda grande guerra. Uma forma de escamotear a poesia é tentar confundi-la com a sua transformação em produtos literários aparentemente poéticos, mas de cunho apenas utilitário, e correspondentes a um momento cultural viciado e repetitivo. O mal não é a produção utilitária, como a de qualquer produto destinado às necessidades humanas, mas sim usar os utensílios como forma enganosa de substituir o poético. Exemplo: uma letra de música, em variados casos, pode atender ao objetivo de criar poesia com a melodia (estando a poesia apenas nesta última), mas nunca poderá substituir a poesia. Diz o autor do Arco e a Lira: “…quando um poeta adquire um estilo, uma maneira, deixa de ser um poeta e se converte num construtor de artefatos literários.”(O.Paz) A diferença entre uma obra de arte e um utensílio é um dos elementos distintivos da poesia. Para Paz, a poesia é a essência que diferencia uma estátua (produto da arte) de uma escada (utensílio artesanal), mesmo sendo ambos extraídos do mármore. Mas, se poesia é a essência de qualquer arte (música, escultura, pintura, etc.) qual seria a essência da poesia? Octavio Paz afirma que a matéria essencial não se dá pela utilização de determinadas técnicas, e nem das formas culturais de conhecimento, predominantes em cada época histórica. E mais, ele vê limitada a análise histórica que utiliza o estilo para qualificar uma obra. Acredita, portanto, existir algo mais, além de história, sociologia ou psicologia que revela as diferentes essências de uma obra poética. Afirma, “… a matéria vencida e deformada no utensílio recupera seu esplendor na obra de arte. A operação poética é de signo contrário à manipulação técnica.” Nós entendemos que a objetividade repetitiva do utensílio já é apenas reprodução de uma coisa sabida, mas que pode ter sido em outra ocasião uma figura criativa de arte que naquele momento não tinha objetivo de utensílio. Como obra de arte, foi algo resgatado ao sonho, do interior obscuro e figurativo. Posteriormente passou para o entendimento da lógica e incorpora-se à cultura tecnológica. Transforma-se em cultura absorvida pelo cotidiano do ser humano e vira objeto de seu uso, isto é, utensílio. Em outras palavras, a arte que imita os utensílios não é bem arte, pois nasce da cultura de quem, conscientemente fabrica o próprio utensílio. Octavio Paz completa que a poesia converte a pedra, a cor, a palavra e o som em imagens. Acrescentamos a isso que também as imagens, já existentes, utilizam-se das formas, ou elementos conhecidos, como é o caso dos objetos. O estranho poder das obras de arte, de suscitarem no ouvinte, no espectador ou no leitor, constelações de imagens, transforma em poesia todas as obras de arte. Por outro lado, o objeto continua sendo objeto - e não obra de arte - quando não revestido desse mágico poder poético: a expressão (subjetiva) da alma. Portanto, arte - que é poesia - repetindo, não possui utilidade prática e só serve para viver emoções, oferecendo ao ser humano a possibilidade entre optar pela emoção do produto comercial ou emoção de sentir revelada sua criatividade amorosa. Neste último caso as imagens existentes na memória de vida interior precisam materializar-se em formas, e esse é seu único valor: o encontro do ser humano com as imagens do “seu outro” mundo vivo, como partes de sua necessidade vital a completar o “si-mesmo”. Tal estado de espírito em forma de “estado poético” serve para acrescentar uma certa vida, produzida, mas não ainda captada. E, nesse estágio, o ser humano sente “falta de algo” até o momento em que seu lado alienado (ou reprimido) lhe aparecer, se revelar, eclodir. Os sonhos são alguns indícios que sinalizam essas necessidades, e os vislumbres de emoção diante de sentimentos inexplicáveis são também caminhos para ir ao encontro do poético. Dessa forma é possível compreender que muitas coisas possam vir a ter poesia, inclusive muitos poemas. O estado poético é um dos objetivos humanos mais cobiçados. Entretanto, no complexo criativo existe um processo de incorporação desse estado à poesia expressada em formas, e esse é o que poderíamos chamar de aprendizado do poeta, ou processo em que o poeta se constrói como tal, e se torna um ser especial, como instrumento condutor do fogo. Ao concluir, é importante dizer o seguinte: assim como a poesia não tem utilidade objetiva os verdadeiros poetas não vivem materialmente de sua poesia. E quando, raras vezes, isso acontece é preciso examinar se sua criação deixou de ser arte e virou artesanato com valor de troca, isto é, mercadoria. Isso não quer dizer que será sempre assim. No futuro é possível dar-se importância aos contatos com a alma, e a sociedade poderá reservar meios materiais para a sobrevivência autônoma de mulheres e homens poetas. Mas hoje - como quase sempre tem ocorrido - os poetas costumam ter uma profissão para ganhar a vida e sustentar-se. Dessa vida cotidiana, e de seus ofícios profissionais, extraem imagens para plasmar em seus mundos poéticos. E até, dessa forma poderão ser mais entendidos pelos leitores, que sabem ler melhor através das imagens filtradas pelo artista por intermédio do cotidiano de suas vidas comuns. A absoluta alienação da realidade pode transformar um bom poeta em gênio incompreendido. E mesmo por tal via o poeta arrisca-se ao naufrágio em neurose incontrolável (ou loucura) por não achar os meios adequados de reconhecimento de sua expressão artística (a alma não consegue diálogo). Mas é preciso também distinguir os impostores, aqueles que, por vários motivos, não conseguiram desvencilhar-se de máscaras, nas quais uma “persona” repleta de insinceridade é construída com intuito de encobrir seu vazio de imagens. Entendemos “persona” como o esforço para corresponder aos comportamentos exigidos pelos formalismos da sociedade e da mídia. Mesmo assim é sempre possível um processo de recuperação sabendo captar as necessidades explosivas do espírito, atendendo-as, e encarar a poesia como eterno aprendizado do mundo interior. E nesse sentido poderíamos afirmar que somente um tipo de máscara corresponde à arte, é a da representação artística nas várias formas criadas para o conteúdo poético. Neste caso, tirar e pôr a máscara da arte teatral corresponde a um processo de representar e ser. Octavio Paz assumiu vários ofícios em sua vida; como diplomata na Índia, e escrevendo ensaios, artigos ou dando palestras, conferências, entre outras coisas, para sobreviver. Extraiu também, dessas atividades humanas, riqueza material para sua poesia. Jung pode ser considerado um poeta, tanto quanto Paz, e escolheu, por várias circunstâncias o ofício de psicólogo, firmando-se em escritor e analista, isto é, sobreviveu de seu trabalho clínico, tratando pacientes e fazendo suas pesquisas. Da mesma forma escreveu e formulou orientações criativas, que servem para a formação de outros psicólogos. Mas, dos milhares de psicólogos que existem só alguns são poetas e nenhum, acredito, deve sê-lo por esse motivo. Jung, como outros na história da humanidade, ao revelar, a seu jeito, as formas do inconsciente e sua vida de imagens autônomas - que ao juntar-se à consciência levam à construção do si-mesmo, por intermédio do fazer alma, em contraposição ao domínio excessivo do ego, vinculado à persona - estaria sendo, de certa forma, o poeta e não apenas o psicólogo analista. Mesmo que tenha descrito isso em forma de prosa. E o próprio Octavio Paz, implicitamente, nos sugere ver por essa ótica, quando afirma ser possível encontrar poesia em todas as coisas, e nem sendo automático ela estar em todos os poemas. O conteúdo poético de certas pessoas significa descobrir criativamente a existência dos sentimentos, imagens, fantasias desse outro mundo interior que se manifesta, mas só se transforma em poesia na sensibilidade de um determinado ser humano. Lucrécio, poeta romano, escreveu um longo poema chamado Da Natureza, que descreve uma existência e movimento dos átomos num mundo desconhecido, sendo esse poema também a exposição de revelações do filosofo grego Epicuro. Temos em Lucrécio um poeta, em sua obra um poema, e dentro dela a poesia. Quando a ciência transformou tal conteúdo em conhecimento - na física - não estava fazendo poesia, mas ciência. Da mesma forma, Jung fez poesia com o inconsciente, o que num outro momento poderá advir ciência. Mas, o que era poesia continuará sempre sendo poesia. E, nem por isso, em qualquer dos casos, essa ciência tem origem naquela poesia, mesmo que circulem inspirações de uma para a outra. Isso dá o grau de autonomia da poesia; ela não se completa com qualquer outra ciência, nem pode ser avaliada por esta, pelo fato de retratar um mundo completo, que possui início, meio e fim, próprios. |
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José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ivald Granato (Brasil). |
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