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revista de cultura # 50 |
discos da agulha
Las atmósferas y los aromas de las cantinas de mala muerte recorren este disco de los 38 que no juega. 38 que no juega es eso: su nombre viene del juego de naipes que se llama 40, que es mundialmente conocido en Quito. 38 es el punto de quiebre entre ganar o perder, o quizá en saber cómo atravesar el fuego, y esta banda parece que descubrió ese misterio. Ellos son lo más cercano a la poética de Charles Bukowski. Siempre están al filo, en las márgenes de la ciudad compleja, vibrante, miserable, y alternativa de Quito. Suerte o muerte, ron o aguardiente puro, pareciera ser su lema de cabecera. En su segundo álbum, titulado: De Lujo, estos hiphoperos capitalinos, hacen una fuerte reverencia al licor y sus mundos. La bohemia se huele entre los tracks más urbanos, y entre los samplers que rayan los fragmentos de clásicas canciones rockoleras, boleros, pasillos, sanjuanes. Esta es música 100% ecuatoriana, de la mitad del mundo para las márgenes del mundo. La noche y sus excesos, en el baile, el breakdance, la ropa, el licor, la fiesta popular, todo eso cabe en De Lujo. Y basta ver a sus integrantes en escena para comprobar que se entregan con verdadera fe. El hip hop, el rapeo alternado con el flow, convierten en verdaderos divos de baile y sudor a los cinco integrantes de 38. Dos voces malvadas sobresalen en el disco, como si de dos poetas malditos se tratara: envuelven y engañan. Así es este disco noctámbulo, quizá no guste a todos, pero tiene la virtud de no dejar indiferente a nadie, porque se mueve entre las aguas de lo auténtico, y ahí está su partida ganada. [Aleyda Quevedo Rojas]
Anouar Brahem só precisou de uns dez anos e de um punhado de discos tão inovadores quanto atemporais, para se impor como um dos músicos mais atípicos e talentosos do prestigioso selo ECM. E preciso dizer que, autêntico mestre encantador do üd, esse alaúde tradicional oriental milenar que leva para toda parte na sua cabaça toda a herança musical do mundo árabe e islâmico, Anouar Brahem é um fenômeno, uma verdadeira concentração de paradoxos fecundos: um clássico supremamente subversivo; um solitário resolutamente aberto ao mundo; um atravessador de culturas tanto mais inclinado a se aventurar nos limites mais extremos de si mesmo, quanto ele não pretende jamais ceder um polegar que seja sobre exigências estéticas forjadas ao longo do tempo sobre um profundo respeito da tradição. E é sem dúvida porque ele soube reconhecer logo de cara esta complexidade que o funda como uma força, porque ele tem sempre buscado fazer deste formigamento de influências e paixões disparatadas a própria matéria de seu trabalho e de sua criação, que Anouar Brahem se afirma hoje como um dos raros compositores e improvisadores capazes de inventar uma música ao mesmo tempo totalmente ancorada numa cultura ancestral altamente sofisticada e eminentemente contemporânea em sua ambição universalista. Que ele faça assim ressoar a poesia enfeitiçante de seu üd nos contextos mais variados, do jazz em todos os seus estados (músicos tão prestigiosos como John Surman, Dave Holland ou Jan Garbarek sucumbiram aos encantos de suas melopéias) às diferentes tradições musicais orientais e mediterrâneas (de sua Tunísia natal aos horizontes longínquos da Índia ou do Irã), sua música delicada e rigorosa não pára de redefinir um universo poético e cultural eruditamente compósito, oscilando sem parar entre o pudor e a sensualidade, a nostalgia e o recolhimento. [Stéphane Ollivier]
Anouar Brahem nasceu em Halfaouine, na Medina de Tunis, em 20 de outubro de 1957. Após ter-se iniciado no ud no quadro do Conservatório Nacional de Música de Tunis, ele continua sua formação junto ao grande mestre Ali Sriti que faz dele seu discípulo e lhe ensina a música erudita árabe, o Maqam, e a arte da improvisação, o Taqsim. Anouar Brahem afirma já uma personalidade múltipla ao se dar como missão restaurar o ud como instrumento solista, emblemático da música árabe, rompendo com a tradição em seu trabalho de composição que integra elementos de jazz assim como outras tradições musicais orientais e mediterrâneas. Em 1981 ele se instala por quatro anos em Paris, período durante o qual colabora com Maurice Béjart e compõe inúmeras obras originais, especialmente para o cinema tunisiano. Entre 1985 e 1990, de retorno à Tunísia, continua seu trabalho de composição e, por meio de inúmeros concertos, adquire uma autêntica notoriedade pública. Em 1990 encontra Manfred Eicher que lhe propõe gravar seu primeiro disco para o prestigioso selo ECM. Barzakh marca o início de uma colaboração particularmente fecunda que, no espaço de quase doze anos, verá Anouar Brahem se cercar dos músicos mais talentosos de todos os gêneros e culturas misturados (Barbarose Erköse, Jan Garbarek, Dave Holland, John Surman…) e assinar nada menos que 8 álbuns, todos consagrados pelo público e pela crítica: Conte de L’ Incroyable Amour (1991), Madar (1994), Khomsa (1995), Thimar (1998), Astrakan Café (2000), Le Pas Du Chat Noir (2002), Vague (2003) e Le voyage de Sahar (2006). [trad. Eclair Antonio Almeida Filho]
Arnaldinho Silva é figura de proa na nova geração de chorões paulistanos. Dominando plenamente a linguagem do choro, ele circula com desenvoltura entre muitos instrumentos, mostrando competência no bandolim, no violão de sete cordas, no violão de seis e até nos teclados - isso sem falar no cavaquinho, seu principal instrumento, do qual é mestre indiscutível, grande entre os grandes. Há algum tempo, Paulinho da Viola falou-me da verdadeira transfiguração por que passam os bons músicos quando executam seus instrumentos. Como exemplo, Paulinho citou Jacob Bittencourt, homem sério, introspectivo, por vezes até sisudo e mal-humorado - mas que, quando empunhava seu bandolim, transformava-se repentinamente num moleque risonho e travesso, pura expressão de alegria. Isso certamente explica porque o inglês to play e o francês jouer são verbos que significam, ao mesmo tempo, tanto "tocar" como "brincar". A música remeteria, assim, à felicidade da criança (talvez a mais verdadeira que existe), sendo capaz de revelar o menino residente em cada um de nós. Arnaldinho já é uma espécie de menino grande, desses que cabe no coração de qualquer um. Mas, quando toca, ele fica ainda mais menino, exibindo aquele ar moleque que encontramos em certas figuras de anjos barrocos que empunham instrumentos musicais. Neste CD, ao lado de outros meninos como Izias e Israel Bueno de Almeida, João Macambira, Odair Felício, Carlinhos, Luizinho Sete Cordas, Helinho, André Araújo, José Pires, Assis de Lima, Paulo Fazanaro, Marco Bailão e o impagável Guta, Arnaldinho nos convida para uma grande travessura sonora, na chama do melhor choro brasileiro. Choro de meninos, arte de anjos-chorões que tocam/brincam para animar céus e terras com aquilo que temos de melhor: o talento musical do Brasil.
La impecable y eléctrica banda ecuatoriana (quiteños) Cruks en Karnak dio a luz su más reciente trabajo discográfico, bajo el título: Antrología. Este es su séptimo CD, y ha sido presentado con varios conciertos y giras en diversas ciudades del Ecuador. 15 años intensos y apasionados encuentran su mejor premio con el afecto del público y sus fans con el que han recibido Antrología. En menos de 3 meses de estar en el mercado, el público de Quito, Guayaquil, Cuenca, Machala, Ambato, Loja, Manta, y otras ciudades casi han agotado la edición. La energía creadora de los hermanos Sergio y Andrés Sacoto (voz y bajo), Pablo Santacruz (teclado) y Pablo Estrella (guitarra), han emocionado a sus miles de fans a lo largo y ancho del Ecuador, ahora el reto está afuera. Y claro, con este disco los Cruks están más que listos y preparados para lanzarse a conquistar los mercados del Continente. Antrología incluye 16 temas, aunque solo cuatro son nuevos, el disco en su totalidad suena muy bien. Lúdico, electrizante, con cortes muy emocionantes, letras que rayan en la poesía cotidiana y de la experiencia. Entre los clásicos temas de la banda quiteña constan Al borde, Cómo camina, El Aguajal, Ándate a Cancún, La Caperuza, entre otras. El pana, Vanidad, Como tú me quieres y Que te me vas son las canciones nuevas. La última tiene un video y suena en las emisoras locales, con las respectivas emociones para sus seguidoras. Antrología se grabó en Guayaquil, pero fue mezclado y masterizado en Buenos Aires, Argentina. La música que hacen los Cruks podría definirse como un rock latino de altos kilates que juega con el pop, algo de jazz y muchas buenas vibras. [Aleyda Quevedo Rojas]
O grupo Galo Preto comemora três décadas de sucesso com o novo cd “Galo Preto 30 anos”. Desde 1975, a cada lançamento, apresentam inovações musicais que surpreendem a crítica e o público. O atual Galo, formado por Afonso Machado (bandolim e arranjos), Bartholomeu Wiese (violão), Alexandre de la Pena (violão de 7 cordas), José Maria Braga (flauta), Alexandre Paiva (cavaquinho) e João Alfredo Schleder (percussão), presenteia os fãs com 13 faixas inéditas. O disco tem arranjos camerísticos, modernos e originais, com suingues dançantes e suaves melodias. Temas especiais foram compostos por Luiz Moura, Laércio de Freitas, Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro, Nelson Sargento, Marcus Ferrer e Rildo Hora.
Lina Nyberg nasceu na Suécia, em 1970, e se formou pela Academia Real de Música de Estocolmo, é também arranjadora, compositora e já gravou oito CDs, entre os quais “Brasilien”, que é fortemente marcado pelo envolvimento da cantora com a música brasileira. Seu recente trabalho, CD Saragasso ainda não lançado no Brasil, mostra uma criadora à vontade no universo musical contemporâneo, entre múltiplas expressões e influências que se fundem com elementos jazzísticos clássicos, e é o repertório desse CD a base para esse espetáculo homônimo que será apresentado no Bourbon Street, com seu Jazz Trio formado por uma nova geração de músicos de seu país são eles Mathias Landaeus – Piano, Torbjorn Zachrisson – C.baixo, e Jon Falt – Bateria. Ela trabalhou também com: John Taylor, Palle Danielsson, Tomas Stanko, Esbjörn Svensson e Dr. Dingo; Lina ganhou diversos prêmios, entre os quais o da Associação Sueca de Compositores de Música Popular; leciona na Real Academia de Música em Estocolmo e na Escola Superior de Música de Gotemburgo; participa, ainda, da Associação Sueca de Músicos de Jazz e do Fórum Sueco de Jazz; em 2002, Ela ganhou o “Jazzkannan”, prêmio dado pela Federação Sueca de Jazz para músicos de jazz progressivo. Segundo o júri: “Lina Nyberg é uma musicista corajosa e madura. Ela procura e desenvolve o tradicional no seu próprio tempo e de acordo com suas próprias idéias; Lina é uma emocionante cantora e instrumentista e sua música se encontra em constante mutação; Suas colaborações com outros músicos criativos são prova de sua ambição para explorar novos caminhos”.
Realizando um sonho antigo Marcos Ariel gravou este tributo em piano-solo, interpretando as músicas de Jobim de forma singela, sublimando suas melodias com respeito, admiração e dedicação, inserindo variações e inflexões de forma sutil, sem exibicionismos gratuitos ou pretenso virtuosismo. Piano com Tom Jobim é a obra de um artista maduro, consciente, que conhece muito bem o que toca, um desafio vencido com brilho ao gravar músicas exaustivamente exploradas por centenas de intérpretes, descartando o óbvio e o redundante. O estilo escorreito, melódico e de bom gosto de Marcos Ariel criou climas próprios dentro da temática jobineana, colocando sua estampa pessoal em cada interpretação. A preciosa execução de "Insensatez", a pungente melancolia de "Inútil Paisagem", o romantismo de "Lígia", o swing emocionado de "Samba do Avião" e o vigor de "Desafinado" fazem deste um disco indispensável na estante dos amantes de Antonio Carlos Jobim. Os arranjos são do próprio Ariel, exceto "Inútil Paisagem", de Victor Biglione, "Olha Maria" e "Choro (Garoto)", de Eumir Deodato.
“Impressões" nasceu do encontro entre o Fotógrafo Ricardo Burg e o músico Sérgio Rossoni, na exposição realizada por Burg “Encontros com o Brasil”, que reunia todo seu trabalho realizado durante uma excursão de 11 meses pelo país, com o objetivo de registrar diversas situações, comunidades, olhares e paisagens ligadas ao meio ambiente brasileiro. Deste encontro, a idéia de musicar cada imagem, estabelecendo desta forma a troca de impressões entre o músico e o fotógrafo, retratada em reflexões pessoais de ambos artistas. Na descrição dos artistas, Impressões é uma reflexão sobre ideais e caminhos trilhados por cada um. Impressões é o quarto CD do Sergio Rossoni Grupo, que anteriormente concorreu a indicações para o prêmio Sharp (CD Pescadores), e Grammy Latino 2004 (CD Fogo Cerrado).
Em Canta Chico Buarque, Zé Luis Mazziotti aperfeiçoa a explosão musical, como um projeto de vida, com a devida noção de que fazer e viver é sempre renascer, sempre, a cada respiração profunda - pois que o universo habitado é, na realidade, de uma coerência densa, mas fluida, simultaneamente, - para quem sabe navegar - de modo que só quem tem coragem do mergulhar e respirar intensa e sistematicamente terá nas mãos o “milagre dos peixes”. Pesquisar, adentrar o universo particularmente múltiplo e intenso como é o reino das composições de Chico Buarque poderia até ser deja vu - se levarmos em conta o imediatismo a que nossas visões foram condicionadas, até por contabilizarmos tamanhos equívocos anteriores. Mas, onde estão Chico Buarque e Zé Luiz Mazziotti não há a possibilidade de repetições impróprias. Tudo é multi-dimensional. Há bem mais do que o escrito nas pautas das partituras ou nas laudas dos derrames literários. Há interpretação. Canto!
Sobre Chico talvez não
sejam mais necessárias apresentações adicionais, pois o compositor é
extensamente reconhecido em sua grande obra. Jogar-se à releitura de sua
obra é o desafio: a possibilidade de sugerir olhares equivocados do “já
visto e revisto, exaustivamente” - padronizadamente. Tive contato com sua “obra” no final dos anos 70, quando foi gravada Bambino, de Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense, no disco Antônio Adolfo abraça Ernesto Nazareth. O disco que já se fazia inteiro pela proposta de resgate do compositor, numa releitura peculiar do pianista, justifica-se ainda mais pela escolha, na incomparável interpretação vocal de Zé Luiz. Diferentemente dos que são compositores e intérpretes de sua própria obra, Zé Luiz é “O Intérprete”. Sabe e faz! Infelizmente, por problemas de distribuição, boa parte do público não entrou em contato com seus trabalhos posteriores. Até que voltou à carga no ótimo Pra fugir da saudade, sobre a obra de Paulinho da Viola, com participação da cantora Célia, eleito melhor disco do ano pelo Jornal Movimento, de São Paulo. No que antecede, Zé Luiz atuou nos mais diversos campos, com Gal Costa, “parceria” registrada na belíssima Estrela Estrela, debut de Vitor Ramil, incluída no álbum Fantasia, da cantora. Zé Luiz inaugura na música brasileira a técnica da timbragem, fazendo com a cantora um coro de 16 vozes que dão um brilho especial à tão especial canção. Logo após, morou em Paris por 10 anos. Em sua volta produz discos de Eduardo Conde e de Cauby Peixoto, entre outros, lança um álbum pelo selo Perfil Musical, e o álbum direcionado à obra de Paulinho da Viola, sucedido pela produção de Lucinha Lins interpreta Sueli Costa. Contribuiu com uma participação especialíssima no “songbook” de nosso querido violonista e compositor Nonato Luiz, no recém lançado Canções, com “Sedução”, letra de Olympio Rocha. Vem-se apresentando com assiduidade pelo Sudeste-Sul do país, em solos ou com cantoras do naipe de Leny Andrade, Fátima Guedes, Célia, entre outras, além da participação na apresentação da obra Suíte Paulistana de Billy Branco, no prestigiado espaço Júlio Prestes (SP). Que Zé Luiz Mazziotti venha a revirar este baú das fantasias do almanaque cotidiano de Chico Buarque até poderia sugerir que o intérprete se apresentasse “somente” com sua ousadia no malabarismo das notas, colhendo dentro delas e das palavras “a intensidade”. Mas, num sábio “volteio”, manobra equilibradíssima, o “cantor dos cantores” chega a um repertório onde se arrisca mais ainda, ultrapassando as incômodas possibilidades previstas e chegando às multiplicidades e intensidades diversas contidas nas letras e músicas dos universos de um grande Chico e seus parceiros musicais cuja citação é referencial: Francis Hime, João Donato, Tom Jobim e Dominguinhos. E tudo surge fabulosamente mágico, integrado, renovado. A sabedoria está feita! Não há pontos finais agora. Zé Luiz se expande para que as palavras explodam no inteligível racional ou no mágico sensorial, mesmo no mais hermético dos universos explorados e/ou (re)construídos. Visita os versos, palavras e sons como se os tivesse escrito (o que poderá nos referenciar ao “modo artístico” de Elis Regina: apoderar-se das canções, num mundo em que reinou tão especial e especializadamente) e não como um leitor acidental que produz burocraticamente uma tese. Claro, a linguagem é mutante mas, com graves tendências à padronização, no que se poderia ver habitar a forma lírica, apaixonada, desbragadamente romântica ou da MPB e seus referenciais anteriores ou paralelos. Mas a integridade é o que dirige o trabalho compondo uma linguagem especial: significar através de arranjos e estilos que facilitem a fruição das palavras manipuladas pelo intérprete, sua conjunção com o som e da emoção do cantor que não se deixa controlar na expressão do que é possibilitado, sentido e extraído das canções, num ambiente sonoro onde fusões invulgares se perseguem. O som e o canto traduzem os símbolos e significados de uma obra construída desde há mais de 30 anos à contemporaneidade. Isto também faz de canta Chico Buarque a exata pérola que ansiamos, pois que para navegar preciso é necessá-rio um “quartzo”. Zé Luiz Mazziotti é preciso, é o quartzo, o dono do quartzo que mobiliza, desestabiliza e reintegra movimentos, inclusive quando se deixa boiar nas marés emocionais das canções, mesmo sabendo-as inconstantes, acidentadas e perigosas. Com uma linguagem além de qualquer competência questionável, vasta experiência em produção e direção musical, o saber poderoso de um intérprete, o cantor armou o ambiente mais propício para que Chico Buarque seja singularmente cantado, por Zé Luiz Mazziotti. Todas as canções são repletas na expulsão dos significados lítero-musicais. Cada movimento é fruição: inesperado e surpreendente. A surpresa forma a integridade e tudo faz a música - no que confirmamos a vitalidade criativa do especialíssimo time de músicos, jovens músicos que entraram de alma e cabeça na produção. Não cito qualquer canção especialmente pois o álbum é inteiro, saborosamente inteiro. Daqueles que repetidamente ouvimos do início ao fim, “de volta ao começo” e novamente à frente e descobrimos “mil mundos” a mais. Falar de determinadas músicas especificamente seria recortar uma experiência que é total. Além de que seria um desrespeito induzir (e reduzir) esta experiência que deve e merece ser sentida com segurança (e não ditada, como os comentários que vendem produtos e já prevêem todos os resultados que devem ser sentidos). Pegando as canções como roupas finas, lava-as na beira do rio, no oceano ou no universo original remetido, pelo que nada é pasteurizado. Tudo é repleto, coerentemente repleto, digno da canção, do cantor e do compositor. Os músicos, competentíssimos, o intérprete e, acredito, Chico, fazem a festa: o deleite neste prazer repleto e enxuto. Ao contrário dos dissociados comentários, vê-se este trabalho confirmando uma música especial, brasileira maravilhosa, cheia de vitalidade e ampliando-se em seus potenciais. Algumas falas tentam comentar negativamente um modo de produção da música no Brasil, através de vozes que gritam: “Ah, essa já conhecemos!”, no que vemos renascer Carolina, contemporânea, denunciando quem não viu o tempo passar na janela. E abre o caminho para que possamos ouvir todas as músicas em sua inteireza vital. A vida sempre será o que é. Os “movimentos” são interesses de elites com interesses diversos da propriedade original da música. Não é do que vende fácil que a “vida é feita”. E não é este padrão que vingará. Mesmo assim, sigamos garimpando e reconhecendo o valor devido à nossa cultura e aos grandes artistas que gravitam este mundo que temos à mão. O prazer da intensidade genuína ainda é e será o pilar onde ancoraremos nossas barcas! E não se tenta aqui impor dogmas estéticos “de classes”. Observa-se o que é! E deixa-se de lado o que não é. Simplesmente! Esta luta já está bem fora de moda, não é? - Se este não for o seu canal, mude-o no controle remoto. Tão simples! Mas, cuidado: pode fazer-se o vazio! Com certeza, não aqui! O trabalho é dedicado a Shirley Horn e Diana Krall. Uma minuciosa gravação de um ourives, à altura das divas do jazz - homenagem mais que propícia. E assim, seguiremos pelas trilhas analógicas ou digitais impressas por cada alma inquieta por beleza! Um brinde à beleza! Nós merecemos. Cante-se Chico e tantos outros compositores. E cante, Zé Luiz Mazziotti, sua voz e pessoa sempre encantarão os lugares. Tenha certeza! [Erico Baymma] parceiros da agulha nesta seção |
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