revista de cultura # 50
fortaleza, são paulo - março/abril de 2006

artista convidado: ivald granato






 

Ivald Granato, gênio, inventor do granatês

Jacob Klintowitz

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Ivald GranatoExiste uma coisa que o performático Ivald Granato faz excepcionalmente bem: ele cria situações, fatos e acontecimentos que se desmancham no ar. Neste momento, está aqui – podem apalpar, sentir com as mãos e com a boca - vejam todos, podem tocar, é um evento e um impacto imenso. E, logo, não será nada, salvo uma sombra, memória acinzentada do que terá existido neste sítio e que as novas gerações duvidarão, com justificado ceticismo, que alguma vez tenha acontecido.

Existe uma segunda coisa que o pintor Ivald Granato faz muito bem e é exatamente o antípoda da primeira: é a sua habilidade de tornar permanente, extenso, pesado, sólido, o que não existia antes; Ivald torna o inexistente concreto e sensorial. É um demiurgo ao tirar do nada uma cadeia de existências. Séries de pinturas e desenhos temáticos, objetos, esculturas, espaços expositivos em galerias, museus, restaurantes, lojas. Poderia ser um herói norte-americano, um bebê cuja nave aterrisasse entre nós, e que logo mostrasse os seus poderes, a velocidade, a invulnerabilidade, os sentidos aguçadíssimos. Um bebê que poderia pressionar o carvão tão completamente que ele se tornasse diamante. É assim é o pintor Granato.

A terceira mágica do inventor Ivald Granato é a mais inacreditável, mesmo para os crédulos, como eu. Quem imaginaria que este artista, nascido em Campos, Estado do Rio, filho de um conhecido dentista local, com forte dose indígena na composição corporal, atleta, multimídia, fosse capaz de realizar uma das mais raras façanhas da história: criar sozinho um idioma. É exatamente isto: Mr. Granato é autor de um novo idioma, complexo, expressivo, extenso, vivo. O granatês é uma invenção de Ivald Granato.

Estes três complexos sistemas lingüísticos e cognitivos desenvolvidos e mantidos por Ivald Granato, seguramente devem lhe garantir um lugar na posteridade e uma página especial no álbum dos Heróis da Pátria. Quem dos nossos artistas pode se vangloriar de organizar e inventar três estruturas de comunicação e incomunicação?

Ivald GranatoO primeiro encontro com Granato é sempre impactante: ele tem o tronco desenvolvido como se praticasse luta-livre, o cabelo é curtíssimo, cortado rente, pousado na cabeça como um casquete. Os braços vigorosos movimentam-se o tempo todo, livres e felizes. É de estatura baixa. Brasileiríssimo no olhar brejeiro, na convicção de que tudo pode ser resolvido e na alegre desenvoltura com que trata os humildes e os poderosos. Fala com todos numa perfeita mistura de granatês e português, com a naturalidade dos poliglotas habituados aos cenários internacionais. Nas grandes ocasiões, quando veste terno, a roupa ajusta-se à perfeição ao corpo musculoso. Na sua incessante movimentação corporal, o terno como uma pele adicional, ele provoca certa inquietude: como um tipo tão familiar e nacional pode transmitir a repentina impressão de que dará alguns elegantes passos de tango?

Há alguns anos organizei uma extraordinária mostra de “Arte e Reciclagem”, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. A importância do tamanho do evento é registrado porque nos fornece dezenas de testemunhas para o que então se passou. Estávamos numa roda de conversa vaga e aleatória, Roberto Magalhães, Tunga, Lygia Pape, Claudio Tozzi, Rubens Gerchman e eu, quando chegou, cada um de um ponto cardeal, norte e sul, Artur Alípio Barrio e Ivald Granato, dois históricos vanguardistas da nossa arte. Uma alegria só, muitos abraços e beijos. Que momento, crítico e artistas, boa parte da vanguarda brasileira, no Jardim Botânico, à luz do céu azul carioca.

Ivald Granato, calça jeans azul, apertada, camisa de gola olímpica, justa, de um verde desbotado. Tênis. Óculos escuros, armação de tartaruga branca. Sorriso aberto, espontâneo. Cerca de 45 anos.

IG Barrio, que schleper, turrugado. RRRRRRRRR. Turrugado. Ai, maniporlé. Uh, uh, uh! Uhrru. Hahá. HI.Hi.Hiiii!. Soltinho, soltinho. Molinho. Molinho. Nestes gestos, papum. Cigarras. Um grande papum. Mestre Jacob, papunzanzão. Eihn?

Artur Alípio Barrio, macacão de jeans, camiseta gola olímpica de mangas curtas, tons de azul. Sandálias trançadas, com dedos parcialmente descobertos. Cabelo encaracolado, rareando, castanho. Bolsa grande, estilo feira livre, em vários tons, pendurada no ombro esquerdo. Cerca de 50 anos.

AB HIHIHIHIHIHI, Granato!!!! Rapaz, gugugugu. Ri. RRRR. Há, há. Zum, plus. Que barra. Tum. Tumtum!!! É meu caro, tumtum! Tam!! E papum, papum, papum!!!!! Umumumumumum!

Barrio já devia conhecer o granatês. Os dois se abraçaram, amigos e companheiros de trabalho.

Ivald GranatoRoberto Magalhães, magro, cerca de 1,78 m, um pouco curvado, calças jeans azul escura, camisa lisa de mangas curtas, cinto marrom com cerca de 20 cms sobrando na cintura, sapatos marrons desbotados.

RM Rapaz, eu não entendi nada, uma só palavra. Não sei nada do que vocês falaram.

Ele e eu acabáramos de conhecer o granatês, este novo idioma gerado em São Paulo. E, desde então, em muitos anos de convívio, Granato demonstrou-me facetas de seu idioma. Muitas vezes, são palavras absolutamente idênticas às da língua portuguesa, mas o seu significado é inteiramente diferente. É uma espécie de idioma de um só indivíduo, pois não consegui descobrir mais ninguém capaz de dialogar em granatês. É raro um artista capaz destes feitos. Mas Ivald pautou a sua vida pelo engajamento no contraditório e no excêntrico.

Coisas que desmancham no ar e não deixam vestígios? Vou contar uma história e me basearei no meu arquivo de época e no meu testemunho ocular, pois eu estava lá. Trata-se do evento chamado de “Mitos vadios”.

O longo alcance dos meios de comunicação é capaz de criar notícias onde os fatos são mínimos. Vivemos a possibilidade da voz das minorias e dos fatos que não aconteceram. Uma bem orientada campanha jornalística pode criar crises políticas, movimentos culturais e lideranças. É possível, certamente, que estas criações tenham uma vida limitada. Mas isto se deve, principalmente, ao choque de interesses entre facções adversárias. Salvo evidentemente, quando a realidade é tão notável que a tarefa mistificadora é quase impossível. Como, por exemplo, nas derrotas militares ou no custo de vida.

Num domingo, finalmente, aconteceu o muito anunciado “Mitos Vadios” (criação, controle de qualidade e coordenação de Ivald Granato, estacionamento da Unipark, rua Augusta, 2918) – 5 de novembro de 1978. Tratava-se de um grande happening que pretendia contestar a 1a. Bienal Latino-Americana e o seu tema, “Mitos e Magia”. Em que se constituiu o episódio?

O episódio se compôs da presença de alguns artistas que se “manifestaram”, alguns espectadores, na sua maioria absoluta, jornalistas, marchands e figurantes habituais das inaugurações. Os artistas principais foram Ivald Granato, Hélio Oiticica, Claudio Tozzi, Ana Maria Maiolino, José Roberto Aguilar, Antonio Manuel, Júlio Plaza, Olney Kruse (mandou só a obra), Regina Vater, Portilhos e Ubirajara Ribeiro. Os dois últimos, surrealistícamente, também participaram da Bienal de São Paulo. E o que disseram e propuseram estes artistas?

Ivald GranatoHélio Oiticica, por seus títulos, a principal presença, fantasiou-se de sunga, sapatos prateados estilo Boris Karlof, blusão cor-de-rosa, rosto maquiadíssimo e peruca feminina. Depois, desfilou entre o pequeno público, fez trejeitos com a língua (imagino que fosse uma paródia erótica) e, com a ajuda das mãos, sacudiu os órgãos genitais para o público. Após esta contundente crítica social subiu num pequeno muro, montou à cavaleiro e ficou à disposição para novas opiniões sobre a arte e o seu circuito, enquanto continuava, em ritmo mais acelerado, a fazer movimentos com a língua.

José Roberto Aguilar, com uma espada japonesa reproduziu a feroz “luta do samurai”, quando investiu contra bonecos apelidados de Omissão Cultural, Bom Gosto, Pacote Cultural e Crítica Colonizada. Curiosamente, Aguilar é o artista que fazia videocassete com equipamento importado e que raramente os apresentava ao público, uma vez que não existiam locais apropriados, já que o Brasil não produzia estes equipamentos.

Júlio Plaza distribuiu pequenos papéis com slogans contra a arte, o circuito de arte e a crítica de arte. A marchande Mônica Filgueiras vibrou com os slogans, especialmente o sobre a crítica de arte e me perguntou: e este – a crítica de arte é o preservativo da arte – o que você acha? O que respondi, seu curioso? Que eu prefiro julgar pelo conjunto da obra.

Ana Maria Maiolino colocou numa pequena mesa um saco de feijão e outro de arroz, amarrou-os com uma fita preta e chamou-os de “Monumento à Fome”. E, como extravasa criatividade, aproveitou um pedaço de parede para pendurar rolos de papel higiênico de cores diferentes, jornais e uma grossa folha de papel. Ácido comentário alusivo aos hábitos de higiene da humanidade.

Ubirajara Ribeiro escolheu cinco famosas obras de arte, imprimiu-as e fez com ela tiro ao alvo. Desta maneira, o público poderia destruir as imagens. Desmistificando a arte (é claro que a Mona Lisa estava entre as cinco) num gesto que se repete ad nauseans, há várias décadas, quando Marcel Duchamp pintou bigodes numa reprodução da Mona Lisa. Ubirajara acrescentou a este gesto, os “alvos” do americano Jaspers Johns.

Ivald Granato, fiel à sua liderança, fez uma performance estelar para afirmar que o seu nome não era Ciccilo Matarazzo, fundador da Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna e do Museu de Arte Contemporânea. O que nos espantou e chocou gravemente, pois tínhamos a esperança de que ele fosse o próprio Ciccilo Matarazzo.

Ivald GranatoAntonio Manuel, também, presente, felizmente não ficou nu, não botou ovos, nem se sentou num ninho, performances anteriores que o tornaram justamente famoso, entre nós. Isto foi o principal. Outros artistas, enfim, com menor talento dramático, tiveram atuação menos destacada.

Quanto à questão do mito… parece que não foi desta vez que Jung, Cassirer, Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Mircea Eliade, receberão uma contribuição mais eficaz. Quanto à critica à Bienal de São Paulo, pareceu-me interessante: como poderia a Bienal de São Paulo concorrer com a expressividade ideológica de Hélio Oiticica? E, quanto ao próprio mérito intrínseco do acontecimento, caberá ao tempo estabelecer a justa valoração.

Este texto procura resgatar do limbo esta história que se desmanchou no ar.

Séries. Especulações. Novos locais. A tarefa de tornar concreto o imaterial. Uma exposição de Ivald Granato composta de séries de pinturas, esculturas e desenhos realizados nos últimos anos. Esta amostragem se relaciona diretamente com a maneira do artista trabalhar, o que podemos chamar de "método Granato". O processo de criação de Ivald Granato é feito de movimentos expansivos nos quais o artista debruça-se sobre um tema e trabalha sobre ele exaustivamente. Este esforço concentrado sobre um único tema é estimulado por uma só percepção visual que o artista persegue e termina por concretizar em séries temáticas. Muitas vezes estas séries são quase simultâneas, tão próximas estão no tempo. Desta maneira, num mesmo ano, Ivald Granato produz várias séries de pinturas, desenhos e objetos que não se relacionam entre si, mas que mantém a unidade devido à escrita peculiar do artista, uma abordagem decidida e incisiva, no espírito da nova figuração.

Esta exposição é uma maneira de conviver mais verdadeiramente com o processo do artista. Aqui a unidade é fornecida pelo estilo, pela abordagem reveladora das imagens do cotidiano e pela permanente indagação do artista sobre a realidade que se oculta na aparência das coisas.

Aos 58 anos, Ivald Granato é um artista com algumas décadas de trabalho e pesquisa permanente e contínua. Neste período, Ivald Granato desenvolveu uma extensa e inquieta obra na qual excursionou nas mais variadas técnicas e procedimentos: desenho, pintura, gravura, objeto, sistemas de multimídia, cerâmica, escultura. Em todos estes campos, o artista foi capaz de destacar-se através da originalidade das suas concepções, da expressividade da pintura, da qualidade do desenho, e de uma vitalidade a toda prova.

O que resultou, finalmente, num conjunto estético, cultural e histórico importante pela qualidade, oportunidade e volume. É possível entender muito da história da arte e da cultura brasileira através do trabalho de Ivald Granato, tão importante é este trabalho e de tal maneira ele foi capaz de expressar as questões, inquietudes, criatividade e os desejos da época.  

Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Contato: jklinto@uol.com.br. Visite o sítio de Ivald Granato: www.ivaldgranato.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ivald Granato (Brasil).

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