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revista de cultura # 50 |
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Ang Lee: nem tudo é perfeito Antonio Naud Júnior
Fiel adaptação de um conto de Annie Proulx, O Segredo de Brokeback Mountain, nos relata a história de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhall), dois cowboys. Uma relação clandestina de toda uma vida, marcada pelo amor e pelo medo dos comentários de uma sociedade repressora. As cenas de sexo praticamente não existem, as interpretações são assentes na linguagem física e no uso do olhar. A obra é comandada pelo laconismo - emocional, verbal, dramático - pelo não dito, pelo sugerido numa pose, numa expressão e num gesto, pela justeza de expressão, e por muito pudor. Um belo filme que está dando o que falar e que põe em evidência a cinematografia homossexual. Mas até que ponto pode-se falar da filmografia de temática gay e lésbica como se de um movimento cinematográfico se tratasse? Seria correto afirmar que a produção de filmes e a popularidade desse “gênero” são crescentes, com proliferação de mais de cem festivais em todo o mundo e êxitos como As Horas (The Hours, 2002), em que são lésbicas as protagonistas (Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman) das três histórias em torno de uma novela de Virginia Woolf; Longe do Paraíso (Far From Heaven, 2002), um retrato de “desejos proibidos” em tom aparentemente lúdico, desmontando velhos totens e tabus sexuais, e o espanhol Má Educação (La Mala Educación, 2004), do irreverente Pedro Almodóvar, com Gael Garcia Bernal travestido de Sarita Montiel. É um boom de formato e qualidade muito variada, com alguns filmes nada ambiciosos e aborrecidos, e outros honestos e sensíveis, desenhando personagens humanos, com defeitos e virtudes, sem caricatura, diferente dos primeiros passos homossexuais na história do cinema.
O cinema acatou, ao longo de décadas, códigos rígidos e controle sobre a identidade e o comportamento de seus personagens. Mas a homossexualidade está presente desde a sua invenção, expressando-se inicialmente de forma tímida e dissimulada. Na Suécia, o diretor Mauritz Stiller narrou a atração de um escultor por um jovem que adota como filho em Vingarne (1916). Na Alemanha, cuja capital fora, até a ascensão de Hitler, tratada como Metrópole Gay da Europa e sede da primeira organização do mundo a combater a intolerância sexual, Richard Oswald dirigiu Diferente dos Outros (Anders als Difer Anderen, 1919), com Conrad Veidt interpretando um violonista gay que acaba se matando. A época de seu lançamento, o filme ocupou um dos maiores cinemas de Berlim; mereceu ampla cobertura da imprensa, com críticas em geral favoráveis e foi um sucesso de público. Da obra original só foram preservados 20 a 30 minutos de projeção numa cópia de má qualidade. Ainda nos primórdios do cinema mudo o homossexualismo pode ser visto em A Boneca do Amor (Die Puppe, 1919), de Ernest Lubitsch; em Sodoma e Gomorra (Sodom und Gomorrha - Die Legende von Sünde und Strafe,1922), de Mihaly Kertesz; A Caixa de Pandora (Die Buchse der Pandora, 1928), de G. W. Pabst, com Alice Roberts como a condessa Geschwitz que ama a Lulu da mítica Louise Brooks (um dos maiores ícones homossexuais do cinema); e Asfalto (Asphalt, 1928/9), de Joe May.
O controle moral nas telas foi ainda mais maniqueísta durante e o pós-Segunda Guerra Mundial, quando a tradição familiar tornou-se intocável. Diretores gays poderosos não ousavam abordar o tema, e quando o fizeram, caso de Vincente Minnelli em Chá e Simpatia (Tea and Simpathy, 1956), que enfatiza o sentimento de compaixão para com o seu protagonista, não se atreviam o suficiente. O mestre Alfred Hitchcock mostraria outro personagem com tendências gays em Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951), numa atuação soberana de Robert Walker como Bruno Anthony. Camuflada, a tensão homoerótica aparece latente em De Repente no Último Verão (Suddenly last Summer, 1959), Spartacus (1960) e Lawrence da Arábia (Lawrence of Arábia, 1962). Personagens ambíguos destacam-se na pele de um Sal Mineo em Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955) e Paul Newman em Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof, 1958) - baseado em obra teatral de Tennessee Williams, Newman faz um ex-atleta que não tem interesse sexual na bela esposa Elizabeth Taylor - ou Stephen Boyd em Ben-Hur (1959). O que não impediu Jack Lemmon travestido em Quanto mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959) partir o coração de Joe E. Brown, que na cena final, quando descobre que deseja um homem, pouco se importa e diz a célebre frase: “Nem tudo é perfeito”. Os atrevimentos e a quebra de tabus morais ficaram por conta de pioneiros europeus, como por exemplo, o escritor e dramaturgo maldito Jean Genet que assinou Chant d’Amour (1950), cuja distribuição comercial nunca autorizou. Roger Vadim enfatizou uma atração lésbica e vampírica entre as sedutoras Elza Martinelli e Annette Stroyberg em Rosas de Sangue (Et Mourir de Plaisir, 1961), talvez o seu melhor filme. A partir dos anos 60 iniciou-se uma complexa leitura psicológica do homossexualismo pelas mãos do sueco Ingmar Bergman no clássico O Silêncio (Tystnaden, 1963), onde são incontroláveis os ciúmes de uma escritora solteira (Ingrid Thulin) por sua irmã divorciada (Gunnel Lindblom) de desenfreada vida sexual. Joseph Losey (O Criado/The Servant, 1963), Pier Paolo Pasolini (Teorema, 1968) e Luchino Visconti (O Crepúsculo dos Deuses/La caduta degli dei, 1969) são outros mestres que abordaram sensivelmente a temática gay. O irreverente norte-americano Kenneth Anger causou polêmica com Scorpio Rising (1963) e The Inauguration of the Pleasure Dome (1966), o mesmo acontecendo com as obras experimentais e iconoclastas de Andy Warhol e Paul Morrisey. Os Estados Unidos da América trataram o tema discretamente em Infâmia (The Children's Hour, 1961), de William Wyler, uma releitura da peça de Lillian Hellman contando os efeitos devastadores dos mexericos e rumores escandalosos sobre duas professoras (Audrey Hepburn e Shirley MacLaine) num colégio interno de garotas, e Tempestade sobre Washington (Advise and Content, 1962), de Otto Preminger, sobre um escândalo sexual entre senhores em altas esferas políticas.
O que vimos, a partir dos anos 80, foi o cinema deixar de se reprimir e fazer da repressão ao homossexualismo, por exemplo, um de seus motes populares e mais atrativos, com William Hurt levando o Oscar de melhor ator como o afetado Molina do nosso O Beijo da Mulher Aranha (1985). Sem Regras para Amar (Making Love, 1982) ganhou espaço na mídia como o primeiro filme heterossexual orientado positivamente para o mundo gay. Do Reino Unido, o debochado Derek Jarman destacou-se como um dos percussores e responsáveis por essa liberação com cinebiografias escrachadas de Caravaggio (1986) e do rei devasso Eduardo II (1991). A crueza das cenas homossexuais de O Homem Ferido (L'Homme Blessé, 1982) mostrou que era preciso prestar atenção no inquieto metteur-en-scène Patrice Chéreau. É quando a homossexualidade rompe a barreira da repressão moral e ganha um novo status no cinema, invertendo a função de acusado para acusador. Que Tom Hanks beijasse na boca a Antonio Banderas em Filadélfia (Philadelphia, 1993) e ainda por cima levasse o Oscar queria dizer simplesmente que a cultura gay se incorporava no que os norte-americanos chamam de mainstream, a cultura popular. Logo surgiram outros sucessos como as comédias para todos os gostos O Casamento de Meu Melhor Amigo (My Best Friend´s Wedding, 1997) e Melhor...é Impossível (As Good at it Gets, 1997), e os estimulantes Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991), de Gus van Sant, Traídos pelo Desejo (The Cryng Game, 1993), de Neil Jordan, contando o envolvimento de um militante do IRA com o amante transexual de um refém, e o comovente Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate, 1993), um retrato desolado sobre a vida privada na ilha comunista de Fidel Castro. De lá pra cá, centenas de filmes com temática homossexual foram lançados, oferecendo inclusive uma variedade considerável que mostra a sexualidade gay e lésbica sob vários pontos de vista, desde comédias a dramas, suspenses, policiais e até aventuras. Num dos primeiros filmes comerciais a falar claramente do lesbianismo, Três Mulheres na Intimidade (The killing of Sister George, 1968), uma atriz de meia idade suspeita que a sua jovem namorada esteja tendo um caso com outra mulher, abrindo portas para os talentosos Almas Gêmeas (Heavenly Creatures, 1994), de Peter Jackson, em que a repressão à amizade de duas adolescentes tem trágicas conseqüências; O Par Perfeito (Go-Fish, 1994), de Rose Troche, um dos melhores filmes sobre a comunidade lésbica; Quando a Noite Cai (When Night is Falling, 1999), de Patricia Rozema, narrando o envolvimento de uma professora de teologia com uma artista de circo; e Aymée e Jaguar (1999), de Max Farberbock, Urso de Prata de Melhor Atriz (Juliane Kohler e Maria Schrader) no Festival de Berlim, sensibilizando com o relacionamento entre judia e esposa de soldado alemão em plena Segunda Guerra. O cinema asiático fortalece o tema com novos autores elevados à categoria de mestres: Tsai Ming-liang, de Taiwan, com O Rio (He Liu, 1997) faz a vez de Bergman no domínio das angústias e dos silêncios; o imperdível Felizes Juntos (Happy Together/Chun Guang Zha Xie, 1997), de Wong Kar-wai, celebra um amor gay decadente em Buenos Aires; Banquete de Casamento (The Wedding Banquet, 1993), colocou abaixo todos os rituais seculares de famílias conservadoras; e outra vez da China, o onírico e sofisticado Adeus, minha Concubina (Bawang Beiji, 1993), de Chen Kaige, Palma de Ouro em Cannes, onde as fascinantes máscaras do Ópera de Pequim acobertam um triângulo amoroso que sobrevive à história conturbada do país.
O Brasil adotou a onda. Rodrigo Santoro faz o marginal travesti Lady Di em Carandiru (2003), de Hector Babenco, e Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele roubam a cena respectivamente em Madame Satã (2002), de Karim Ainouz e Amarelo Manga (2003), de Cláudio Assis. São filmes sem leitura moral, com o Brasil descartando o rótulo de país artisticamente censurado durante tantas décadas. São também fortes os personagens homossexuais de Rainha Diaba (1971), de Antônio Carlos Fontoura; A Estrela Sobe (1974), de Bruno Barreto; Marília e Marina (1976), de Luiz Fernando Goulart, baseado no poema Balada das Duas Mocinhas do Botafogo, de Vinicius de Moraes; Vera (1986), de Sérgio Toledo; Romance (1987), de Sérgio Bianchi; Cinema de Lágrimas (1995), de Nelson Pereira dos Santos e Jenipapo (1995), de Monique Gardenberg. Mas deixando de lado as frescuras preconceituosas das chanchadas de Oscarito e Grande Otelo, o cinema brasileiro já havia apostado na temática lésbica em Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri; e gay em O Menino e o Vento (1967), de Carlos Hugo Christensen, em que um engenheiro de férias numa cidade cortada pelos ventos se relaciona com um garoto; e A Casa Assassinada (1971), de Paulo César Saraceni, com Carlos Kroeber arrebatando vários prêmios. O crescimento do mercado consumidor gay junto com a maior visibilidade das pessoas que agora ousam dizer o nome do amor que praticam favorecem o surgimento de filmes interessantes sobre a homossexualidade. A música, o teatro, a moda, a fotografia, a literatura e o jornalismo também absorveram a cultura homossexual. No cinema, como pode ser detectado neste artigo, o desejo atravessa suas últimas fronteiras, evitando o círculo vicioso dos clichês e das agressões generalizadas. A imagem do homossexual evoluiu ao longo dos anos deixando de ser superficialmente uma vítima social, um bufo espalhafatoso ou um degenerado agressivo, para se tornar um ser de carne e osso como o Reinaldo Arenas de Javier Bardem em Antes que Anoiteça (Before Night Falls, 2000). Estamos perto do momento em que todas as máscaras serão arrancadas e a sociedade, mesmo assim, seguirá igual com os seus vícios e virtudes, com o desejo gay e lésbico sendo conduzido nas telas sem intolerância, como a muito já o deveria ter sido.
NOTAS
[1] Na premiação do Oscar, este filme ganhou nas categorias Direção, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora. NE
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Antonio Jr. (Brasil, 1970). Escritor, jornalista e aventureiro. Autor de ArtePalavra - Conversas no Velho Mundo (2003), Um Sentido para a Vida - Uma Biografia de Diógenes da Cunha Lima (2004), e Se um Viajante numa Espanha de Lorca (2005). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras de Ivald Granato (Brasil). |
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