revista de cultura # 50
fortaleza, são paulo - março/abril de 2006






 

A biblioteca silenciada - Sobre a censura na antiga República Democrática Alemã e as múltiplas faces da censura na literatura

Viviane de Santana Paulo

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Viviane de Santana PauloApós os arquivos secretos do único partido da antiga República Democrática Alemã, o SED, terem sido abertos, a maior revelação ficou por conta, sobretudo, da dimensão do intervencionismo do Estado na vida dos cidadãos durante a Cortina de Ferro, que perdurou quarenta e sete anos (1942-1989). Analisando os documentos referentes à literatura, os autores Ines Geipel e Joachim Walther, impressionados com o amplo controle na história literária daquele país, criaram o Arquivo da literatura oprimida na RDA (Archiv unterdrückter Literatur in der DDR), que reúne, desde 2002, além de originais encontrados nas gavetas do Estado, aqueles escondidos por parentes e amigos de escritores que foram criminalizados, vigiados, perseguidos e presos; e tiveram suas obras violadas ou deturpadas de acordo com as ideologias do regime. O arquivo, organizado para o público e à pesquisa, guarda mais de 40.000 manuscritos abrangendo vários gêneros literários como prosa, poesia ou fragmentos.

Para dar ao leitor uma idéia dos achados e dos acontecimentos que permearam esse período, uma série de publicações, chamada A biblioteca silenciada (die verschwiegene Bibliothek), está sendo lançada, reunindo obras previamente selecionadas de escritores talentosos ou com uma biografia peculiar. Em virtude da quantidade dos manuscritos, cada um possuindo estilo, temática e gênero diferentes, e considerando as histórias chocantes ou circunstâncias especiais da biografia de cada autor, é de se imaginar a dificuldade em analisá-los, e selecionar as obras mais interessantes para o leitor de hoje. Para Ines Geipel e Joachim Walther “trata-se não apenas de uma obrigação perante os escritores, mas também perante os leitores desencorajados”, que foram destituídos da leitura. Esta difícil e árdua tarefa do exame dos originais está sendo realizada por um grupo de especialistas e alguns autores que viveram a experiência derivada da opressão política. Até agora foram lançados quatro autores: Edeltraud Eckert, Radjo Monk, Ralf-Günter Krolkiewicz e Gabriele Stötzer.

O primeiro título ficou com Ano sem primavera (Jahr ohne Frühling), da poeta Edeltraud Eckert (1930-1955), uma mocinha de vinte anos que, em 1950, foi condenada a 25 anos de prisão e trabalho forçado ao ser flagrada distribuindo panfletos “para a liberdade e democracia”. Os poemas e cartas foram escritos na prisão, onde ela sofre um terrível acidente: as pontas de seu cabelo ficaram presas em uma máquina de rotação, arrancando uma grande parte do couro cabeludo - Edeltraud Eckert falece após cinco anos de prisão, aos 25 anos, vítima dos cuidados medicinais insuficientes. Os cadernos foram guardados, esse longo tempo, por sua irmã, e curiosamente nada revelam sobre a vida consternada na prisão como era o esperado. A ausência da transposição escrita da dura realidade atrás das grades, condenada ao trabalho mecânico e forçado, deve-se certamente ao medo. Em um regime totalitário, o medo é o co-autor de quase toda obra, medo de ser descoberto e perseguido, da prisão e da tortura psicológica, da morte ou da represália em algum ente querido da família. Para um escritor vivendo em um sistema opressor é comum a censura iniciar-se primeiramente na própria cabeça do autor, não havendo a liberdade de pensamento, sendo necessário excluir tudo o que puder ser considerado suspeito antes mesmo de esboçá-lo no papel, ou então correr o risco procurando ser bastante sofisticado na elaboração das metáforas na tentativa de driblar os censores.

A lírica de Edeltraud Eckert exprime a dolorosa procura do que resta depois de se ser injustamente condenado a 25 anos de prisão em pleno início da juventude; fala de esperança, das lembranças dos amigos e da família, do carinho por eles, e da paixão pela música e literatura.

 

DESPEDIDA

Mais uma vez tu me chamastes
Pois esqueci de dizer adeus
Mais uma vez encontrei teu olhar
E me virei para entrar no carro

Quantas vezes revivi essa imagem
Tu sorristes, quase alegre
Uma última vez estivestes diante de mim
Um aperto de mão - e nada mais

Eu precisava partir e sabia
Meus passos se perderiam dos teus
Eu ainda possuía o timbre quente
O som de sua voz no meu ouvido

Adeus, dissestes tu
Eu acenei, não queria te contrariar
Pois sabia tão bem quanto tu
Por muito tempo eu não mais regressaria.

 

ABSCHIED

Du riefst mich noch einmal zurück,
Weil ich vergaß, Lebwohl zusagen.
Noch einmal fand ich Deinen Blick
Und wandte mich und ging zum Wagen.

Wie oft sah ich dies Bild vor mir,
Du lächelnd, ja beinah heiter,
Ein letztes Mal stand ich vor dir,
Ein Händedruck und dann - nichts weiter.

Ich musste gehen und wusste schon,
Mein Schritt ging deiner Welt verloren.
Ich hatte noch den warmen Ton,
Den Klang der Stimme in den Ohren.

Auf Wiedersehen sagtest du,
ich nickte, wollte dir nicht wehren,
und wußte doch so gut wie du,
Ich würde lange Zeit nicht wiederkehren.

Ivald GranatoPor sua vez, o diário estético de Radjo Monk (1959), escritor e artista de performance, focaliza os acontecimentos históricos através de suas impressões subjetivas e experiências pessoais sobre o fim da República Democrática Alemã. Panorama 89 (Blende 89) é uma crônica poetizada que começa no dia 3 de outubro de 1989, com a chamada “manifestação de segunda-feira” (Montagsdemonstration), queinício às transições políticas extremas no país. No dia 9 de outubro, milhares de pessoas foram para as ruas de Leipzig, e também em outras cidades, como em Dresden, ocorreram manifestações em massa, as quais culminaram na queda do muro em Berlim, no dia 9 de novembro de 1989. O diário termina um ano depois. Radjo Monk foi vigiado e perseguido, pois detectaram em sua obra uma posição crítica perante a sociedade comunista da Alemanha oriental. Em uma viagem à Hungria, em 1983, foi detido por suspeita de fuga e várias vezes interrogado, como descreve na seguinte passagem: “Desde a minha prisão, no outono de 1983, eu sabia que os agentes de segurança manipulariam minha memória, de forma absurda, através de protocolos clandestinos e, no caso de dúvida, toda a minha confissão seria interpretada de uma maneira que pudesse ser usada contra mim. Somem originais da minha gaveta desde 1978… A insegurança de não poder escrever determinadas coisas, me acompanha intuitivamente. Uma voz interior, que não pode ser calada de um dia para o outro e que eu ainda ouço, mesmo depois da ocupação de Leipzig, Berlim, e outras cidades, pela central da Stas”. (Radjo Monk, Blende 89).

O destino de Ralf-Gunter Krolkiewicz (1955) não foi muito diferente, autor da coletânea de poemas e fragmentos, Nirgends ein Feuer mehr (Nãomais fogo em nenhum lugar), colocaram-no na prisão por um ano devido aos seus poemas debochados e textos satíricos. Em seguida, em 1985, foi expatriado, indo viver na Alemanha ocidental. Hoje ele trabalha como diretor de teatro, dramaturgo e escritor.

 

[ESTOU AQUI SENTADO PROTEGIDO]

Estou aqui sentado protegido
Na minha ilha de palavras
Que me protege com solidão
Me resguarda com sonhos
Dissimula minha fuga
Acima de mim a luz acesa
Que não me denuncia
Aos olhares penetrantes
Que como tiros disparados
Perfuram queimando minha carne
Para me acertar, me matar
Queimam buracos na minha pele
Abrem feridas como lâmina na minha cabe
ça
A me cortar o couro cabeludo
Isto não é nenhum filme
Que está sendo transmitido
Este é o pão nosso de cada dia Senhor
Que ruidoso nos despedaça
Divida o pão com teu irmão
Também tu despedaçarás teu irmão
Tanto que ele não conseguirá mais levantar
Não o levante
Ele te arrebenta exatamente
Onde tu não tomares cuidado
E é tão rápido
Antes de tu perceberes
Sob os pés trinca o gelo
O espelho brilha imaculado
E não é nenhuma maldição de inverno
Tu não congelas de brincadeira
É um outro fogo
Que queima implacável
Tua carne derrete nas chamas
Ligeiro descompõe-se dos ossos
Mas ainda estou sentado aqui
No brilho quente de minha luz acesa
Esperando os acontecimentos
Que estão por vir
Cedo ou tarde
Tanto faz quando
Tanto faz como
Tanto faz para quê
Esqueci-me de tudo
E a lua se esconde
Tem medo do quê?

 

[ICH SITZ HIER GESCHÜTZT]

Ich sitz hier geschützt
Auf meiner Insel aus Worten
Die mich mit Einsamkeit schützt
Die mich mit Träumen behütet
Die mein Entfliehen verschleiert
Über mir die Lampe
Die mich nicht preisgibt
Den durchbohrenden Blicken
Die sich wie abgefeuerte Schüsse
Durch mein Fleisch brennen
Mich zu treffen und zu töten
Sei brennen Löcher in meine Haut
Sie fuchteln mir mit Messern am Kopf
Mir meinen Skalp zu schneiden
Das ist kein früher Film
Der dort gerade abläuft
Das ist unser täglich Brot Herr
Das uns krachend zerbricht
Teile das Brot mit deinem Bruder
Dann brich auch du deinen Bruder
Daß er nicht aufrecht mehr geht
Heb ihn nicht auf
Er reißt dich dort
Wenn du unachtsam bist
Das geht so schnell
Eh du dich versiehst
Bricht unter den Füßen das Eis
Der blitzblanke Spiegel
Das ist kein Winterspuk
Du erfrierst nicht zum Scherz
Das ist ein anderes Feuer
Das erbarmmungslos brennt
Dein Fleisch zerfällt in seinen Flammen
Es löst sich rasch von den Knochen
Aber noch sitz ich hier
Im warmen Schein meiner Lampe
Und harre der Dinge
Die da kommen solln
Heut oder später
Egal wann
Egal wie
Egal wozu
Ich hab alles vergessen
Der Mond versteckt sich
Wovor hat der denn Angst

Ivald Granato

Em 1976, a escritora e artista Gabriele Stötzer (1953) cometeu o crime de colecionar assinaturas contra o expatriamento de seu compatriota, o famoso poeta e cantor Wolf Biermann. Como medida de repressão, foi expulsa da universidade de Erfurt, onde estudava pedagogia, e proibida de estudar em qualquer universidade da RDA, foi presa durante um ano na casa de detenção para mulheres junto com as criminosas graves. Seu livro Sou a mulher de ontem (Ich bin die Frau von gestern), reúne contos fragmentos e poemas sobre a amizade, sexualidade e a condição da mulher dentro de um regime autoritário.

 

[SOU A MULHER DE ONTEM]

Sou a mulher de ontem
Com as coisas diante do leito do dia passado
Com os semblantes no corpo
Que outrora foram apenas pensamentos
E o que ontem incriminei, hoje o cometo sem escrúpulos
Pelo que ontem chorei, dou risada hoje

Esta noite, que reparte os dias
E inconsciente receia
a razão de ocultar as coisas
Em plena claridade
Sou a mulher de ontem
Que hoje não mais consegue
Se configurar do presente
Se hoje você me quiser
Você me terá
Mesmo que eu ontem tenha lhe ofendido

Porque estou insegura
E não alcancei o dia de hoje

Transpus a noite
E esqueci de vendar meus olhos

Dos semblantes inerentes
De uma liberdade incerta
Sou a mulher de ontem
Mas quando o dia esmaece
Entra um novo dia
E esta nova noite
Arrancarei meu desejo de esquecer
Este amor não sentido
E os pensamentos vividos equivocadamente
E a figura de uma mulher
Com as coisas do dia passado

 

[ICH BIN DIE FRAU VON GESTERN]

Ich bin die Frau von gestern
Mit den Sachen vor dem Bett vom vergangenen Tag
Mit den Gestalten im Körper
Die gestern nur Gedanken waren
Und was ich gestern verwarf mach ich heute ohne Skrupel
Worüber ich gestern heulte, heute lache ich
Diese Nacht, die die Tage spaltet
Und gewissenlos bedenkt
Worüber sie in der Helligkeit
Den Mantel hält
Ich bin die Frau von gestern
Die sich heute nicht mehr selbst
Aus dem Heute schaffen kann
Wenn du mich heute willst
Dann bekommst du mich
Auch wenn ich dich gestern noch beleidigt habe
Weil ich unsicher bin
Und nicht angekommen in dem heutigen Tag
Ich habe die Nacht übersprungen
Und vergessen meine Augen zu bedecken
Vor den trennungslosen Gestalten
Einer unbestimmbaren Freiheit
Ich bin die Frau von gestern
Doch wenn der Tag verklingt
Kommt ein neuer Tag
Und dieser neuen Nacht
Werde ich mein Vergessen entringen
Über diese ungefühlte Liebe
Und die falsch gelebten Gedanken

Und das Bild einer Frau
Mit den Sachen vom vergangenen Tag

Ivald GranatoPara entendermos como essa máquina opressora funcionava na RDA, convém mencionar alguns documentos publicados no livro, “Censura na RDA - Histórias, atividades e estética do bloqueio de obras literárias” (Zensur in der DDR - Geschichte, Praxis und Ästhetik der Behinderung von Literatur), editado por Ernest Wichner e Herbert Wiesner, por ocasião da exposição Censura na RDA, realizada no final de janeiro, na Literaturhaus (Casa da Literatura), em Berlim, para ilustrar o quadro hipócrita, sinistro e ameaçador que era o meio intelectual e artístico na antiga República Democrática Alemã.

Todo original na RDA era submetido ao órgão de censura literária, que trabalhava diretamente com as editoras, os censures faziam o trabalho dos copidesques; 75% das editoras eram dedicadas à impressão de folhetos, prospectos e livros de estatísticas ou relatórios de reuniões do partido, poucas editoras eram especializadas em literatura. A Editora-Aufbau, com mais de 450 títulos anuais, entre clássicos e best-sellers, era a mais representativa. Também não havia o comércio livre de livros, o interesse concentrava-se exclusivamente na divulgação estética da ideologia marxista, educando o leitor nesse sentido. A censura cumpria então um papel de educador e vigia infiltrando-se em todas as ramificações da literatura. Sendo assim, nem a formação da crítica literária se viu livre da manipulação: os censores determinavam exatamente o que era para ser escrito elogiando ou criticando uma obra; e chegavam a organizar eventos em que o fracasso do escritor era previamente programado para desmoralizá-lo; além de que os parentes, amigos e vizinhos eram persuadidos a espioná-lo, passando informações úteis sobre seu estado emocional (com o intuito de chantageá-lo ou exercer o terror psicológico), ou para furtar-lhe os originais: os textos eram roubados das casas ou apreendidos em uma busca domiciliar, e os escritores, não raras vezes, detidos como criminosos.

Nas editoras, os censores revisavam as obras, “propondo” diversas alterações no texto: o manuscrito era devolvido cheio de passagens riscadas para serem rescritas ou simplesmente extraídas. Depois das alterações o original era novamente analisado e devolvido com outras passagens riscadas ou extraídas. Alguns escritores tiveram que reescrever seus originais inúmeras vezes até chegar ao consenso dos censores, e receber a tão esperada e desejada permissão de impressão. Isso demorava meses e anos. Mas a tortura mental não terminava , algumas vezes, por alguma razão subjacente, a impressão era interrompida no meio do processo, e mesmo com a permissão de publicação o livro não entrava no restrito mercado.

A censura era tanta que a própria palavra censura era proibida: a ninguém era permitido aludir que havia censura no meio literário, os intelectuais não podiam definir tais medidas de coibição sob o substantivo censura. A retaliação iniciou-se o mais tardar em 1948 e alcançou seu auge nos anos de 1951 e 52, com a campanha do formalismo, a rebelião de 17 de junho de 1953, em que mais de um milhão de trabalhadores foram às ruas, e a represália foi violenta, com muitos mortos e feridos, nessa época a economia da RDA encontrava-se debilitada o que ocasionou em uma profunda crise iniciada em fins de 1952, e em 1956, com a Revolução Húngara, iniciada pelos estudantes, que exigiu o fim da ocupação soviética e a implantação de um verdadeiro socialismo. Conseqüentemente, os líderes do SED sentiram-se ameaçados e aumentaram o controle, a vigilância e o domínio, principalmente com relação aos autores jovens e iniciantes, para aqueles que eram reconhecidos, como por exemplo, Bertold Brecht, Christa Wolf, Anna Seghers, Heiner Müller, Arnold Zweig, e outros, eles gozavam de certa tolerância, não sendo levados diretamente ao calabouço, mas não estavam imunes à mesquinharia e implicância gratuitas do Estado. Para os jovens, no entanto, as repressões foram impiedosas, implacáveis e extremamente severas, objetivando assim aniquilar qualquer possibilidade de formação intelectual autônoma: “Siegmar Faust foi detido duas vezes, passou no total 33 meses na prisão. Andreas Reimann foi expulso do instituto de literatura de Leipzig e preso por quatro anos. Gerald Zschorsch foi condenado a cinco anos por cometer o seguinte delito: escrever e divulgar poesia. O poeta Uwe Keller foi condenado, em 1981, a seis anos e oito meses de prisão. Frank Romeiss foi condenado por três anos e seis meses por causa de doze poemas. Ralph Arneke enviou seu manuscrito para a Alemanha ocidental e foi condenado, “por ligação ilegal”, a um ano e dez meses. Rolf Becker, em 1980, por causa de um manuscrito, recebeu cinco anos e seis meses… alguns suicidaram-se como o poeta Jorns Pfeiffer que se lançou nos trilhos do metrô” (posfácio de Joachim Walther, Nirgendwo ein Feuer mehr). A meta do SED era cercear qualquer tipo de criatividade, logo no início, e neutralizar aquela existente.

No entanto, para muitos intelectuais de esquerda, com o nascimento da RDA, eles acreditavam na formação de um país mais justo, com maior igualdade social, não contavam com um Estado totalitário. Bertold Brecht e Christa Wolf eram unânimes à doutrina marxista. Para esses intelectuais não se tratavam de um controle as alterações no texto, mas de uma orientação para um benefício comum. Assim também pensava o escritor e marxista Johannes R. Becher (1891-1958), como revela em seu discurso, “Problemas da política cultural sob as experiências do ministério da cultura” (Probleme der Kulturpolitik aus der Praxis des Ministeriums für Kultur, 1959): “Pode o Estado ou é de se desejar que o Estado interfira ou até mesmo decida sobre o desenvolvimento da criação cultural? Para responder essa questão, é necessário indagar-se que tipo de Estado é esse que requer para si o direito de decidir sobre a vida cultural de um povo. Se o Estado é um como o nosso, de operários e funcionários, idêntico com o interesse da maioria do povo, se incorpora o princípio do progresso e desenvolvimento de um povo, então seria um absurdo não conceder este direito a esse país, de intervir na vida cultural. Pelo contrário, um Estado como esse tem a obrigação de influenciar na vida cultural e seria uma desvalorização da cultura excluí-la da esfera do domínio do Estado”. (Censura na RDA - Histórias, atividades e estética do bloqueio de obras literárias).

Ivald GranatoCom o aumento da rigidez, a censura literária na antiga RDA tornou-se, entretanto, de tal forma incorporada ao sistema que deu origem a um meio profundamente hipócrita, cínico, amedrontador e pernicioso, sendo quase impossível desenvolver qualquer vestígio de criatividade ou originalidade em um sistema que possuía como premissa simplesmente sufocar essa necessidade elementar. Um caso famoso é o do livreto de Bertold Brecht, O interrogatório de Lukullu (Das Verhör des Lukullus), que foi mordazmente criticado pelo SED, teve que ser modificado e recebeu outro título, A condenação de Lukullu (Die Verurteilung des Lukullus); Cassandra de Christa Wolf teve sete passagens brilhantes extraídas. A hipocrisia era tamanha que alguns funcionários, paradoxalmente, acreditavam na qualidade do original, mas como este não correspondia à ideologia do SED, recebia o carimbo de proibição. Heiner Müller, um dos dramaturgos mais importantes da Alemanha oriental, - ele mesmo trabalhou para o SED, tendo sido expulso e várias de suas obras proibidas, além de ter sido obrigado a escrever uma crítica negativa sobre sua própria peça, - em um documento dos arquivos do SED, ele conta o seguinte: “Boris Djacenko, disse algo a meu favor, depois da proibição do meu romance Herz und Asche, parte dois, em que as atrocidades do Exército Vermelho foram descritas pela primeira vez. Meu censor me convidou para uma conversa particular e esse leitor, funcionário público, me mostra orgulhoso, encadernado em couro, o documento de proibição do meu livro: “é assim que eu adoro o seu livro, tanto que precisei proibi-lo, pelo interesse, você sabe, de nossa ideologia comum”. No futuro, disse Boris Djacenko, os livros proibidos serão encadernados, “pelo interesse, você sabe, de nossa ideologia comum”, no couro curtido feito da pele do escritor. Deixemos nossa pele intacta, disse Boris Djacenko, para que os nossos livros com capas duras possam sobreviver o tempo da censura”. (Censura na RDA - Histórias, atividades e estética do bloqueio de obras literárias).

Independente da qualidade das obras, a coleção A biblioteca silenciada resgata certos textos de autores impelidos ao anonimato, contribuindo como um testemunho de uma intervenção do Estado que é inaceitável, e reúne depoimentos contra um sistema que atrofia o desenvolvimento natural da relação humana: a liberdade de pensamento, expressão, trocar idéias, de discutir e relacionar-se com a realidade empírica através do trabalho artístico e intelectual.

É interessante traçarmos, nesse contexto, uma ligeira paralela com o quadro brasileiro. Quando falamos de censura logo a associamos à proibição e perseguição, porém a censura pode ser exercida de forma muito mais complexa e implícita do que imaginamos a princípio. Se formos analisar todas as suas várias facetas, certamente chegaremos a resultados surpreendentes, para não dizer assustadores. No decorrer da história da literatura, ela é um elemento constante, desaparecendo e surgindo, com maior ou menor intensidade, conforme os países e seus regimes políticos, - e na era da globalização, também de acordo com as alternâncias das leis de mercado. Tânia Pellegrini em seu rico ensaio Ficção brasileira contemporânea: ainda a censura? (revista Acta Scientiarum, Maringá, 23(I): 79-86, 2001), esboça um exemplo de como a censura pode ser variável e seus atuantes não precisam ser necessariamente o regime político de um país. Segundo Tânia Pellegrini, no Brasil não apenas o regime militar, durante dezessete anos (1968 a 1985), exerceu controle na produção artística, embora não tenha sido, nem de longe, um controle sistemático e rígido como o da RDA -, talvez porque no Brasil a literatura não possua esse poder, em geral não é atribuída à arte a importância e seriedade da qual ela desfruta na Europa. Embora, vinte e seis anos tenham se passado desde o fim do regime militar, após a redemocratização do Brasil, ainda é possível verificarmos algumas formas de censura, resultado do patrimonialismo, além de grande parte dos arquivos referentes ao período militar continuar sendo vetada ao público.

Tânia Pellegrini trata, entretanto, de um outro tipo de censura, difícil de ser registrada, porque se desenvolve de forma completamente implícita. Trata-se do que ela denomina de censura econômica, muito bem explanado no seguinte trecho: “Com o fim da censura política, em 1970, e o fim do regime militar, em 1985, ganha força o que chamamos censura econômica (…). É importante lembrar, neste ponto, que os esquemas da indústria cultural funcionam unicamente no sentido de padronizar e racionalizar as técnicas de produção e distribuição de “bens”, visando um rendimento ótimo, que aproxime de imediato consumidor e produto. Essa aproximação tem como ponte o prazer do entretenimento (…). Em outras palavras, a cultura, antes entendida sobretudo como criação, agora é vista exclusivamente como produção. Eis , portanto, estabelecido o primeiro patamar para o fortalecimento da censura econômica, aquela que veta qualquer produto que não se enquadre nessas expectativas preferenciais”. E ainda continuando: “a consolidação da indústria cultural estabeleceu outros critérios para o mercado editorial, critérios agora estritamente econômicos, muito pouco ligados à velha idéia de “produzir conhecimento e cultura”, (…). Um outro elemento que ajuda a constituir a censura econômica (…) é o papel exercido por outras formas de entretenimento, principalmente as visuais, como a televisão, vídeo e computadores. A predominância contemporânea de uma cultura visual, transmitida “democraticamente”, sobretudo pela televisão, impõe, antes da alfabetização pela letra, uma alfabetização pela imagem”.

Partindo do exposto, verificamos que a censura não se restringe às medidas de proibição e perseguição, mas também pode agir de forma sutil, apolítica, ambígua e tácita, sendo nociva tanto quanto ou, sob determinados aspectos, até mais corrosiva do que a institucionalizada, uma vez que as pessoas não possuem consciência desse controle e, portanto, efetuam pouco contra ele. Não se trata da “censura” estética: dispensar um original porque sua qualidade é duvidosa ou porque simplesmente não a possui. Não seria correto definir seleção por censura, onde há classificação, há a exclusão natural. Aqui diz respeito ao tratamento indiferente que é dispensado à literatura, ao direito de liberdade de expressão, e também ao impedimento de transmitir conhecimento e cultura ao povo.

Analisando sucintamente os diferentes mecanismos da censura, chegamos a um resultado comum: todos eles prejudicam o artista, a cultura de um país e, por fim, o leitor que é alijado do conhecimento e de uma formação cultural de qualidade em seu próprio país. Um censor da antiga RDA justifica o seu trabalho esclarecendo que: “semprecensura quando existe o trabalho de seleção de uma obra”. As palavras de Herbert Wiesner, na abertura da exposição Censura na RDA, provam o contrário: “uma exposição contra a censura, é sempre uma exposição em prol da literatura”. Quer dizer simplesmente que, ondecensura, nãoseleção, e sim o bloqueio da fluência natural da arte, da liberdade de expressão e do conhecimento humano, cujos benefícios devem ser um direito de todos. 

Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta e ensaísta, residente na Alemanha. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002) e Estrangeiro de mim (2005). O crédito da foto de VSP é de Frank Sabitzer. Contato: vsantanapaulo@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ivald Granato (Brasil).

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