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A biblioteca silenciada - Sobre a censura na antiga
República Democrática Alemã e as múltiplas faces da censura na literatura
Viviane
de Santana Paulo
Após
os arquivos secretos
do único
partido
da antiga
República
Democrática Alemã, o SED, terem
sido abertos, a
maior
revelação ficou
por
conta, sobretudo, da dimensão do intervencionismo
do
Estado
na vida dos
cidadãos
durante a Cortina
de Ferro,
que
perdurou quarenta e sete anos (1942-1989). Analisando os
documentos
referentes à literatura,
os autores Ines Geipel e Joachim
Walther, impressionados com o amplo controle
na história
literária
daquele país, criaram o Arquivo
da literatura oprimida
na RDA (Archiv unterdrückter Literatur in der DDR),
que reúne, desde 2002, além
de originais encontrados nas gavetas do Estado,
aqueles escondidos
por
parentes e amigos
de escritores
que
foram criminalizados, vigiados, perseguidos e
presos; e tiveram suas
obras
violadas ou deturpadas de acordo com as ideologias do regime. O arquivo, organizado para o público e à pesquisa,
já guarda
mais de 40.000
manuscritos
abrangendo vários
gêneros
literários como
prosa, poesia
ou fragmentos.
Para dar ao leitor uma idéia dos achados
e dos acontecimentos que permearam esse
período, uma série
de publicações, chamada A biblioteca silenciada (die verschwiegene
Bibliothek), está sendo lançada,
reunindo obras previamente
selecionadas de escritores
talentosos
ou com
uma biografia
peculiar.
Em virtude
da quantidade dos
manuscritos,
cada um
possuindo estilo,
temática
e gênero
diferentes, e considerando as
histórias chocantes ou circunstâncias especiais
da biografia de
cada
autor, é de se imaginar
a dificuldade
em
analisá-los, e selecionar as
obras
mais interessantes para
o leitor de
hoje.
Para Ines Geipel e Joachim Walther “trata-se não apenas de
uma obrigação perante
os escritores,
mas
também perante
os leitores desencorajados”, que foram destituídos da
leitura. Esta difícil
e árdua
tarefa do exame
dos originais está sendo realizada por um grupo de especialistas
e alguns
autores
que viveram a
experiência
derivada da opressão
política.
Até agora
foram lançados quatro autores: Edeltraud Eckert, Radjo Monk, Ralf-Günter
Krolkiewicz e Gabriele Stötzer.
O primeiro título ficou
com Ano
sem primavera (Jahr
ohne Frühling), da poeta Edeltraud Eckert
(1930-1955), uma mocinha de vinte
anos que,
em 1950, foi condenada a 25 anos de prisão e trabalho forçado ao ser flagrada distribuindo panfletos “para
a liberdade e democracia”. Os poemas e cartas
foram escritos na
prisão,
onde ela
sofre um
terrível
acidente: as
pontas
de seu cabelo
ficaram presas
em
uma máquina de
rotação, arrancando uma grande parte do couro cabeludo -
Edeltraud Eckert falece após
cinco
anos de prisão,
aos 25 anos,
vítima
dos cuidados
medicinais
insuficientes. Os
cadernos
foram guardados, esse longo tempo, por sua irmã, e
curiosamente nada
revelam sobre a
vida
consternada na prisão
como
era o esperado. A
ausência
da transposição escrita da dura realidade atrás das grades,
condenada ao trabalho
mecânico
e forçado, deve-se
certamente
ao medo. Em um regime totalitário, o medo é o co-autor de quase toda obra, medo de ser descoberto e
perseguido, da prisão e da
tortura
psicológica, da morte
ou da represália
em algum
ente querido
da família. Para
um escritor
vivendo em um
sistema opressor
é comum a
censura
iniciar-se primeiramente na própria cabeça
do autor, não
havendo a liberdade de pensamento, sendo necessário
excluir tudo
o que puder ser
considerado suspeito antes mesmo de
esboçá-lo no papel, ou
então correr
o risco procurando
ser
bastante sofisticado na elaboração das metáforas
na tentativa de driblar
os censores.
A lírica de Edeltraud Eckert exprime a dolorosa procura
do que resta
depois de se ser
injustamente condenado a 25 anos de prisão em pleno início da juventude; fala de esperança,
das lembranças dos
amigos
e da família, do
carinho
por eles,
e da paixão
pela
música e literatura.
DESPEDIDA
Mais
uma vez tu
me chamastes
Pois
esqueci de dizer adeus
Mais
uma vez encontrei
teu
olhar
E
me
virei para entrar no carro
Quantas vezes
revivi essa imagem
Tu
sorristes, quase
alegre
Uma última
vez estivestes
diante
de mim
Um aperto de mão -
e nada mais
Eu
precisava partir e sabia
Meus passos se perderiam dos teus
Eu ainda possuía o timbre
quente
O
som
de sua voz
no meu ouvido
Adeus,
dissestes tu
Eu
acenei, não queria
te
contrariar
Pois
sabia tão bem
quanto tu
Por muito tempo eu não mais regressaria.
ABSCHIED
Du riefst mich noch einmal zurück,
Weil ich vergaß, Lebwohl zusagen.
Noch einmal fand ich Deinen Blick
Und wandte mich und ging zum Wagen.
Wie oft sah ich dies Bild vor mir,
Du lächelnd, ja beinah heiter,
Ein letztes Mal stand ich vor dir,
Ein Händedruck und dann - nichts weiter.
Ich musste gehen und wusste schon,
Mein Schritt ging deiner Welt verloren.
Ich hatte noch den warmen Ton,
Den Klang der Stimme in den Ohren.
Auf Wiedersehen sagtest du,
ich nickte, wollte dir nicht wehren,
und wußte doch so gut wie du,
Ich würde lange Zeit nicht wiederkehren.
Por sua vez, o diário estético
de Radjo Monk (1959), escritor e artista de performance,
focaliza os acontecimentos históricos através
de suas
impressões
subjetivas e experiências pessoais sobre
o fim da
República
Democrática Alemã.
Panorama 89 (Blende 89) é uma crônica poetizada que
começa no dia
3 de outubro de 1989, com a chamada “manifestação
de segunda-feira” (Montagsdemonstration),
que dá início
às transições
políticas
extremas no país. No dia 9 de outubro,
milhares de
pessoas
foram para as ruas
de Leipzig, e também em outras cidades,
como em
Dresden, ocorreram manifestações em massa, as quais culminaram na queda
do muro em
Berlim, no dia 9 de
novembro
de 1989. O diário termina um ano depois. Radjo Monk foi vigiado e perseguido, pois detectaram em sua obra uma posição crítica
perante a sociedade
comunista da Alemanha
oriental.
Em uma viagem
à Hungria, em 1983, foi detido por suspeita de fuga
e várias vezes interrogado, como descreve na seguinte
passagem: “Desde
a minha prisão, no outono de 1983, eu
sabia que os
agentes
de segurança manipulariam
minha
memória, de forma
absurda, através
de protocolos
clandestinos
e, no caso de
dúvida,
toda a minha
confissão seria interpretada de uma maneira que
pudesse ser usada contra
mim. Somem
originais
da minha
gaveta
desde 1978… A insegurança de não poder escrever determinadas coisas, me
acompanha intuitivamente. Uma voz interior, que não pode ser calada de um dia para o outro e que eu ainda ouço, mesmo depois da
ocupação de Leipzig, Berlim, e outras cidades, pela central da Stas”. (Radjo Monk, Blende 89).
O destino de Ralf-Gunter Krolkiewicz (1955) não foi muito diferente, autor
da coletânea de
poemas
e fragmentos,
Nirgends ein Feuer
mehr (Não há mais
fogo em
nenhum
lugar), colocaram-no na prisão
por
um ano
devido aos seus
poemas debochados e
textos
satíricos. Em
seguida, em
1985, foi expatriado, indo viver na Alemanha ocidental. Hoje
ele trabalha
como diretor
de teatro,
dramaturgo
e escritor.
[ESTOU AQUI
SENTADO PROTEGIDO]
Estou aqui
sentado protegido
Na minha ilha de palavras
Que
me
protege com solidão
Me
resguarda
com sonhos
Dissimula minha fuga
Acima
de mim
a luz acesa
Que
não
me denuncia
Aos olhares penetrantes
Que
como
tiros disparados
Perfuram
queimando minha
carne
Para
me
acertar, me matar
Queimam buracos na minha
pele
Abrem feridas como lâmina na minha
cabeça
A
me cortar
o couro cabeludo
Isto
não é nenhum filme
Que
está sendo transmitido
Este
é o pão nosso de cada dia Senhor
Que
ruidoso nos despedaça
Divida o
pão com
teu irmão
Também
tu
despedaçarás teu
irmão
Tanto
que ele não
conseguirá mais
levantar
Não
o levante
Ele
te
arrebenta exatamente lá
Onde
tu não tomares cuidado
E é
tão rápido
Antes
de tu perceberes
Sob
os pés trinca o gelo
O
espelho brilha
imaculado
E
não é nenhuma maldição
de inverno
Tu
não
congelas de brincadeira
É
um outro
fogo
Que
queima implacável
Tua
carne derrete nas chamas
Ligeiro
descompõe-se dos ossos
Mas
ainda
estou sentado aqui
No
brilho quente
de minha luz
acesa
Esperando os
acontecimentos
Que
estão por
vir
Cedo
ou tarde
Tanto
faz quando
Tanto
faz como
Tanto
faz para quê
Esqueci-me de
tudo
E a
lua se esconde
Tem
medo do quê?
[ICH SITZ
HIER GESCHÜTZT]
Ich sitz
hier geschützt
Auf meiner
Insel aus Worten
Die mich mit
Einsamkeit schützt
Die mich mit
Träumen behütet
Die mein
Entfliehen verschleiert
Über mir die
Lampe
Die mich
nicht preisgibt
Den
durchbohrenden Blicken
Die sich wie
abgefeuerte Schüsse
Durch mein
Fleisch brennen
Mich zu
treffen und zu töten
Sei brennen
Löcher in meine Haut
Sie fuchteln
mir mit Messern am Kopf
Mir meinen
Skalp zu schneiden
Das ist kein
früher Film
Der dort
gerade abläuft
Das ist
unser täglich Brot Herr
Das uns
krachend zerbricht
Teile das
Brot mit deinem Bruder
Dann brich
auch du deinen Bruder
Daß er nicht
aufrecht mehr geht
Heb ihn
nicht auf
Er reißt dich dort
Wenn du
unachtsam bist
Das geht so
schnell
Eh
du dich versiehst
Bricht unter
den Füßen das Eis
Der
blitzblanke Spiegel
Das ist kein
Winterspuk
Du erfrierst
nicht zum Scherz
Das ist ein
anderes Feuer
Das
erbarmmungslos brennt
Dein Fleisch
zerfällt in seinen Flammen
Es löst sich
rasch von den Knochen
Aber noch
sitz ich hier
Im warmen
Schein meiner Lampe
Und harre
der Dinge
Die da
kommen solln
Heut oder
später
Egal wann
Egal wie
Egal wozu
Ich hab
alles vergessen
Der Mond
versteckt sich
Wovor hat
der denn Angst

Em 1976, a escritora e artista Gabriele Stötzer (1953) cometeu o crime de colecionar
assinaturas
contra
o expatriamento de
seu
compatriota, o
famoso
poeta e cantor
Wolf Biermann. Como
medida
de repressão, foi
expulsa
da universidade de Erfurt, onde estudava pedagogia,
e proibida de
estudar
em qualquer
universidade da RDA, foi
presa
durante um
ano na casa
de detenção para
mulheres junto
com as criminosas
graves.
Seu livro
Sou a mulher
de ontem (Ich bin die
Frau von gestern), reúne contos
fragmentos
e poemas
sobre
a amizade,
sexualidade
e a condição da
mulher
dentro de um
regime autoritário.
[SOU A MULHER DE
ONTEM]
Sou a mulher de ontem
Com as coisas diante
do leito do
dia
passado
Com
os semblantes
no corpo
Que
outrora
foram apenas
pensamentos
E o que ontem
incriminei, hoje o cometo
sem
escrúpulos
Pelo
que ontem chorei, dou risada
hoje
Esta noite, que
reparte os dias
E inconsciente receia
a razão de ocultar as coisas
Em
plena claridade
Sou a mulher de ontem
Que
hoje não mais
consegue
Se configurar do presente
Se hoje você me quiser
Você
me
terá
Mesmo
que eu ontem tenha lhe ofendido
Porque estou
insegura
E não alcancei o dia
de hoje
Transpus a
noite
E esqueci de
vendar meus
olhos
Dos semblantes inerentes
De uma liberdade incerta
Sou a mulher de ontem
Mas
quando
o dia esmaece
Entra um novo dia
E esta nova noite
Arrancarei
meu desejo
de esquecer
Este
amor não sentido
E os pensamentos vividos equivocadamente
E a figura de uma mulher
Com
as coisas
do dia
passado
[ICH BIN DIE
FRAU VON GESTERN]
Ich bin die
Frau von gestern
Mit den
Sachen vor dem Bett vom vergangenen Tag
Mit den
Gestalten im Körper
Die
gestern nur Gedanken waren
Und was
ich gestern verwarf mach ich heute ohne Skrupel
Worüber
ich gestern heulte, heute lache ich
Diese
Nacht, die die Tage spaltet
Und
gewissenlos bedenkt
Worüber
sie in der Helligkeit
Den
Mantel hält
Ich bin die
Frau von gestern
Die sich
heute nicht mehr selbst
Aus dem
Heute schaffen kann
Wenn du mich
heute willst
Dann
bekommst du mich
Auch wenn
ich dich gestern noch beleidigt habe
Weil ich
unsicher bin
Und nicht
angekommen in dem heutigen Tag
Ich habe
die Nacht übersprungen
Und
vergessen meine Augen zu bedecken
Vor den
trennungslosen Gestalten
Einer
unbestimmbaren Freiheit
Ich bin
die Frau von gestern
Doch wenn
der Tag verklingt
Kommt ein
neuer Tag
Und
dieser neuen Nacht
Werde ich
mein Vergessen entringen
Über
diese
ungefühlte Liebe
Und die
falsch gelebten Gedanken
Und das
Bild einer Frau
Mit den
Sachen vom vergangenen Tag
Para entendermos
como essa máquina opressora funcionava na RDA, convém mencionar alguns documentos publicados no livro,
“Censura na RDA -
Histórias,
atividades e estética do bloqueio
de obras
literárias” (Zensur in der DDR - Geschichte, Praxis und Ästhetik
der Behinderung von Literatur), editado por
Ernest Wichner e Herbert Wiesner, por ocasião da exposição Censura na RDA, realizada no final de janeiro,
na Literaturhaus (Casa da Literatura), em Berlim, para ilustrar o quadro hipócrita, sinistro e ameaçador que era o meio intelectual e artístico
na antiga
República
Democrática Alemã.
Todo original na RDA era
submetido ao órgão de censura literária,
que trabalhava
diretamente
com as editoras,
os censures faziam o trabalho dos copidesques; 75% das editoras
eram dedicadas à impressão de folhetos, prospectos
e livros de
estatísticas
ou relatórios
de reuniões do
partido, poucas editoras
eram especializadas em
literatura. A Editora-Aufbau, com mais de 450
títulos anuais,
entre clássicos
e best-sellers,
era
a mais representativa. Também não havia
o comércio
livre
de livros, o
interesse
concentrava-se exclusivamente na divulgação estética
da ideologia
marxista,
educando o leitor
nesse sentido. A
censura
cumpria então
um
papel de educador
e vigia infiltrando-se em todas as ramificações da
literatura. Sendo assim,
nem
a formação da
crítica
literária se viu
livre
da manipulação: os
censores
determinavam exatamente o que era para ser
escrito
elogiando ou criticando uma obra; e chegavam a organizar
eventos em
que o fracasso
do escritor
era
previamente programado para desmoralizá-lo; além de que os parentes, amigos
e vizinhos eram persuadidos a
espioná-lo, passando informações
úteis sobre seu estado emocional
(com o
intuito
de chantageá-lo ou
exercer
o terror
psicológico),
ou para
furtar-lhe os originais: os textos eram roubados das casas
ou apreendidos em
uma busca
domiciliar, e os escritores,
não
raras vezes,
detidos
como criminosos.
Nas editoras, os censores
revisavam as obras, “propondo”
diversas alterações no texto: o manuscrito era
devolvido cheio de
passagens
riscadas para serem rescritas
ou
simplesmente extraídas. Depois das alterações o
original
era novamente
analisado e devolvido com outras passagens riscadas ou
extraídas. Alguns
escritores
tiveram que reescrever seus originais inúmeras vezes
até chegar ao
consenso dos censores, e
receber
a tão esperada e desejada permissão de impressão.
Isso demorava meses e anos. Mas a tortura mental não terminava aí,
algumas vezes,
por
alguma razão
subjacente, a impressão
era
interrompida no meio do
processo, e mesmo
com
a permissão de publicação o livro não
entrava no restrito mercado.
A censura era tanta que a própria palavra
censura era
proibida: a
ninguém
era permitido
aludir que
havia censura no
meio
literário, os
intelectuais
não podiam definir
tais medidas
de coibição
sob
o substantivo
censura. A retaliação iniciou-se o
mais tardar em 1948 e
alcançou seu
auge
nos anos
de 1951 e 52, com a
campanha
do formalismo, a
rebelião
de 17 de junho de 1953, em que mais de um milhão de trabalhadores
foram às ruas, e a
represália
foi violenta,
com
muitos mortos
e feridos, nessa época a
economia
da RDA encontrava-se debilitada o que
ocasionou em uma
profunda
crise iniciada
em fins
de 1952, e em 1956,
com
a Revolução
Húngara,
iniciada pelos
estudantes, que
exigiu o fim da
ocupação
soviética e a
implantação
de um verdadeiro socialismo.
Conseqüentemente, os líderes do SED sentiram-se ameaçados e aumentaram o controle, a vigilância
e o domínio,
principalmente
com relação
aos autores
jovens
e iniciantes, para
aqueles
que já
eram reconhecidos, como por exemplo,
Bertold Brecht, Christa Wolf, Anna Seghers, Heiner Müller, Arnold Zweig, e outros, eles
gozavam de certa tolerância, não sendo levados
diretamente ao
calabouço,
mas não
estavam imunes à
mesquinharia
e implicância gratuitas do Estado. Para os jovens, no entanto,
as repressões foram impiedosas, implacáveis e extremamente
severas, objetivando assim aniquilar qualquer
possibilidade de formação intelectual autônoma:
“Siegmar Faust foi detido duas vezes, passou no total
33 meses na prisão. Andreas Reimann foi expulso do instituto
de literatura de Leipzig e
preso
por quatro
anos. Gerald Zschorsch foi condenado a cinco anos por cometer o seguinte delito:
escrever e divulgar poesia. O poeta Uwe Keller
foi condenado, em 1981, a seis anos e oito meses de prisão. Frank
Romeiss foi condenado por três anos e seis meses por causa de doze poemas.
Ralph Arneke enviou seu manuscrito para a Alemanha ocidental e foi condenado, “por
ligação ilegal”, a
um
ano e dez
meses. Rolf Becker, em 1980, só por causa de um manuscrito, recebeu cinco
anos e seis
meses… alguns suicidaram-se como o poeta Jorns Pfeiffer
que se lançou nos
trilhos do metrô” (posfácio
de Joachim Walther, Nirgendwo ein Feuer mehr). A
meta do SED era cercear qualquer tipo
de criatividade,
logo
no início, e
neutralizar
aquela já existente.
No entanto, para muitos intelectuais
de esquerda,
com
o nascimento da RDA, eles acreditavam
na
formação de um
país mais
justo, com
maior igualdade
social, não
contavam com
um
Estado totalitário. Bertold Brecht e
Christa Wolf eram unânimes à doutrina marxista.
Para esses intelectuais não
se tratavam de um
controle
as alterações no texto, mas de uma orientação
para um benefício comum.
Assim também
pensava o escritor e marxista Johannes R. Becher (1891-1958), como revela em seu discurso, “Problemas da política
cultural sob as
experiências
do ministério da cultura” (Probleme
der Kulturpolitik aus der Praxis des Ministeriums für Kultur, 1959):
“Pode o Estado
ou é de se desejar
que o Estado
interfira ou
até
mesmo decida
sobre
o desenvolvimento da criação cultural? Para responder essa questão, é necessário indagar-se que
tipo de Estado
é esse que
requer para si
o direito de
decidir
sobre a vida
cultural de um
povo. Se o Estado é
um
como o nosso,
de operários e
funcionários,
idêntico com
o interesse da
maioria
do povo, se incorpora o princípio do progresso
e desenvolvimento de um povo, então seria um absurdo não conceder este direito a esse país, de intervir na vida cultural. Pelo contrário, um Estado como esse tem a obrigação de influenciar na vida
cultural e seria uma desvalorização da cultura
excluí-la da esfera do domínio do Estado”. (Censura
na RDA - Histórias,
atividades e estética do bloqueio
de obras
literárias).
Com o aumento da rigidez, a
censura literária
na antiga RDA tornou-se, entretanto, de tal
forma incorporada ao sistema
que deu origem
a um meio
profundamente
hipócrita,
cínico, amedrontador e pernicioso, sendo quase
impossível desenvolver
qualquer vestígio
de criatividade
ou
originalidade em
um sistema
que possuía como
premissa
simplesmente
sufocar essa necessidade
elementar. Um
caso famoso
é o do livreto de Bertold Brecht, O interrogatório de Lukullu (Das
Verhör des Lukullus), que foi mordazmente
criticado pelo SED, teve
que
ser modificado e recebeu
outro
título, A
condenação de Lukullu (Die Verurteilung des Lukullus);
Cassandra de Christa Wolf teve sete passagens brilhantes extraídas. A
hipocrisia
era tamanha
que alguns
funcionários,
paradoxalmente, acreditavam na
qualidade do original, mas como este não correspondia à ideologia
do SED, recebia o carimbo de proibição. Heiner Müller, um
dos dramaturgos
mais
importantes da Alemanha
oriental, - ele
mesmo
trabalhou para o SED, tendo sido expulso e várias de suas
obras proibidas,
além
de ter sido obrigado
a escrever uma crítica
negativa sobre
sua própria
peça, - em
um documento
dos arquivos do SED, ele conta o seguinte: “Boris Djacenko, disse
algo
a meu favor, depois da proibição do meu romance Herz und Asche,
parte dois,
em que
as atrocidades do
Exército
Vermelho foram descritas pela
primeira vez.
Meu censor
me convidou para
uma conversa particular
e esse leitor,
funcionário
público,
me mostra
orgulhoso, encadernado em couro, o documento de proibição do meu livro: “é assim que eu adoro o seu livro, tanto que precisei proibi-lo, pelo
interesse, você
sabe, de nossa
ideologia
comum”. No futuro, disse Boris
Djacenko, os livros
proibidos
serão encadernados, “pelo
interesse, você
sabe, de nossa
ideologia
comum”, no couro curtido
feito
da pele do
escritor. Deixemos nossa
pele
intacta, disse Boris Djacenko, para que os nossos livros com capas duras
possam sobreviver o
tempo
da censura”. (Censura na
RDA - Histórias,
atividades e estética do bloqueio
de obras
literárias).
Independente
da qualidade das obras,
a coleção A biblioteca silenciada
resgata certos
textos de autores
impelidos ao anonimato, contribuindo como
um testemunho
de uma intervenção do Estado que é inaceitável, e reúne
depoimentos
contra um
sistema que
atrofia o
desenvolvimento
natural da
relação
humana: a
liberdade
de pensamento,
expressão,
trocar idéias,
de discutir e relacionar-se
com
a realidade empírica
através do trabalho
artístico e
intelectual.
É interessante
traçarmos, nesse contexto, uma ligeira
paralela com
o quadro brasileiro.
Quando falamos de
censura
logo a associamos à
proibição
e perseguição, porém a censura pode ser exercida de
forma muito
mais complexa
e implícita do
que
imaginamos a princípio. Se formos analisar todas as suas
várias facetas,
certamente
chegaremos a resultados surpreendentes, para não dizer assustadores. No decorrer
da história da
literatura,
ela é um
elemento
constante, desaparecendo e surgindo,
com maior ou menor intensidade,
conforme os
países
e seus
regimes
políticos, - e na
era
da globalização,
também
de acordo com
as alternâncias das
leis
de mercado. Tânia Pellegrini
em seu rico ensaio Ficção brasileira contemporânea:
ainda a censura?
(revista Acta Scientiarum,
Maringá, 23(I): 79-86, 2001), esboça um exemplo de como
a censura pode ser
variável e seus
atuantes não
precisam ser necessariamente o
regime
político de um
país. Segundo
Tânia Pellegrini, no Brasil não apenas o regime militar, durante
dezessete anos (1968 a 1985), exerceu controle na produção artística, embora
não tenha sido,
nem
de longe, um
controle
sistemático
e rígido como
o da RDA -, talvez
porque
no Brasil a literatura
não
possua esse poder,
em geral
não é atribuída à arte
a importância e
seriedade
da qual ela
desfruta na Europa. Embora, vinte e seis anos
tenham se passado
desde
o fim do regime
militar,
após
a redemocratização do Brasil, ainda é possível
verificarmos algumas formas de censura, resultado
do
patrimonialismo,
além
de grande
parte
dos arquivos
referentes
ao período militar continuar sendo vetada ao público.
Tânia Pellegrini
trata, entretanto, de
um outro
tipo de censura,
difícil de ser
registrada, porque se desenvolve de forma completamente implícita. Trata-se do que
ela denomina de
censura econômica,
muito bem
explanado no seguinte
trecho: “Com o
fim
da censura
política,
em 1970, e o fim
do regime militar, em 1985, ganha força o que
chamamos censura
econômica
(…). É importante
lembrar, neste ponto,
que
os esquemas da
indústria
cultural funcionam unicamente no sentido
de padronizar e racionalizar
as técnicas de
produção
e distribuição de “bens”, visando um rendimento ótimo, que aproxime de
imediato consumidor
e produto. Essa
aproximação
tem como
ponte
o prazer do entretenimento
(…). Em outras
palavras, a cultura,
antes
entendida sobretudo
como criação,
agora é vista
exclusivamente
como
produção. Eis
aí, portanto,
estabelecido o primeiro
patamar
para o fortalecimento
da censura
econômica, aquela que
veta
qualquer produto
que não
se enquadre nessas expectativas
preferenciais”. E ainda continuando:
“a consolidação
da indústria cultural estabeleceu outros critérios
para o mercado
editorial,
critérios
agora
estritamente
econômicos, muito
pouco ligados à
velha
idéia de “produzir
conhecimento e cultura”, (…). Um outro elemento que ajuda a constituir a censura econômica
(…) é o papel exercido
por
outras formas de
entretenimento,
principalmente as
visuais,
como a televisão,
vídeo e
computadores. A predominância
contemporânea
de uma cultura
visual, transmitida “democraticamente”,
sobretudo pela televisão,
impõe, antes da alfabetização pela letra, uma
alfabetização pela imagem”.
Partindo do
exposto, verificamos que a censura não se restringe às medidas
de proibição e perseguição,
mas
também pode agir
de forma sutil, apolítica, ambígua
e tácita, sendo
nociva
tanto quanto
ou, sob
determinados
aspectos,
até mais
corrosiva do que
a institucionalizada, uma vez que as pessoas não possuem consciência
desse controle e,
portanto, efetuam pouco
contra
ele. Não
se trata da “censura” estética: dispensar um original porque sua qualidade é duvidosa
ou porque
simplesmente não
a possui. Não seria
correto
definir seleção
por censura,
onde há classificação, há a exclusão natural.
Aqui diz respeito
ao tratamento
indiferente
que é dispensado à
literatura, ao direito de
liberdade
de expressão, e
também
ao impedimento de
transmitir
conhecimento e
cultura
ao povo.
Analisando
sucintamente os
diferentes
mecanismos da
censura, chegamos a um
resultado
comum: todos
eles prejudicam o
artista, a cultura de
um
país e, por
fim, o leitor
que é alijado do
conhecimento
e de uma formação cultural de qualidade em seu próprio país. Um censor da antiga
RDA justifica o seu
trabalho
esclarecendo que: “sempre
há censura
quando
existe o trabalho de
seleção
de uma obra”. As palavras de Herbert
Wiesner, na abertura da
exposição
Censura na RDA, provam o contrário: “uma
exposição contra
a censura, é
sempre
uma exposição em
prol da literatura”. Quer dizer simplesmente que,
onde há censura,
não há seleção,
e sim o bloqueio da fluência natural da arte, da liberdade de expressão
e do conhecimento
humano,
cujos benefícios
devem ser um direito de todos.
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