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revista de cultura # 51 |
discos da agulha
Com os violões plugados, o DUOFEL sempre esteve atualizado em suas manifestações musicais, quer em suas composições, quer em seus arranjos, mas principalmente na busca incessante pela nova sonoridade. O Duofel que comemora 27 anos de carreira e inicia nova fase com a criação da Fine MusiC, com o lançamento do CD Precioso, oitavo CD na discografia. Em novos tempos, o DUOFEL cria a própria gravadora, editora e distribuidora, Fine Music, que oferece em seu site todas as opções de download gratuitos e venda por internet de CDs, DVDs, partituras e podcasts. Fine Music, do inglês fine (alta qualidade), o DUOFEL passa administrar sua obra levando seu conceito de modernidade para sua organização geral, abrangendo a cadeia produtivo que envolve sua música, desde a criação, composição até a distribuição final de seus produtos comerciáveis usando recursos tecnológicos avançados. É muito mais que gravadora, editora e distribuidora exclusiva, um novo conceito de relacionamento direto com os admiradores de sua música onde o artista e o publico O lançamento do Cd “Precioso”, pela Fine Music consolida o trabalho diferenciado do DUOFEL na música brasileira. O DUOFEL traz para suas canções, experiências vividas nas viagens que realizam pelas diversas cidades brasileiras por onde se apresentam e traduzem em harmonias e melodias a sonoridade e a conexão dos encontros dos sentidos com a criatividade. Em setembro de 2003 o destino foi Manaus. Luiz e Fernando levaram na bagagem o projeto de conhecer a floresta amazônica para então compor aquele que seria seu CD comemorativo de 25 anos; “nosso projeto original seria lançarmos três CDs, cada um com diferentes tendências registrando em um mesmo pacote nosso momento criativo; experimentando com a eletrônica, uma jam session com nossos amigos músicos de Nova Iorque e um tradicional em formação solo. Nenhuma gravadora se interessou pelo ousado projeto o que nos fez inicialmente mudar os planos sem abandonarmos o conteúdo; gravamos e lançamos o DVD Frente & Verso, pela MCD onde apresentamos uma síntese do projeto original mostrando temas do CD solo e da experiência eletrônica e postergamos o lançamento dos dois Cds. Criamos a Fine Music lançando inicialmente o solo e para o próximo ano lançaremos o eletrônico”, explica Luiz. No dia em que chegaram a Manaus puderam sentir que sua proposta deveria ser revista; o envolvimento com a cidade e seus músicos seduziram o instinto criativo dos dois compositores e o destino se encarregou do resto. A convite de Torrinho, cantor e compositor LOCAL, se apresentaram na Escadaria do Teatro Amazonas que resultou na brejeira “Caipirandando no Largo São Sebastião”, assim como o papo furado e a cerveja geladinha inspirou “Samba no Galvez”. Assim foram vivendo e experimentando a cidade de forma muito intensa e a cada dia naturalmente surgiam os temas como, “Rio Negro e Solimões, O Encontro” ou no “Sarau no Parque 10” ou ainda “A Caminho de Iracema”. Desde o início Manaus seduziu os compositores, e eles se renderam. Inauguraram o teatro Luiz Cabral, tocaram ao vivo no programa de Joaquim Marinho e foram capa do caderno B do jornal A Crítica. Gravado, mixado e masterizado nos estúdios Audiomobile, em São Paulo, em 2004 com projeto gráfico e fotos de Gal Oppido.
O Pessoal do Ceará, como foi rotulado o (quase) movimento que levou um bando de compositores, cantores cearenses ao Rio, no começo da década de 70, tem semelhanças com o manguebeat pernambucano dos anos 90, na medida que se tratava de uma cena, não de um movimento. Coincidência de muita gente criando, ao mesmo tempo numa mesma cidade, mas cada qual com sua individualidade estética. Citando os mais bem-sucedidos, a música de Fagner se parecia muito pouco com a de Belchior, que comungava de menos ainda semelhanças com a de Ednardo, que tem agora relançados três discos da década de 1980, pela EMI – Terra da Luz (1982), Ednardo (1983), e Libertree (1985). Da trinca, Ednardo é de uma trajetória mais original. "O Romance do Pavão Mysteriozo" (1974) inicia a trajetória solo de Ednardo, é o seu disco mais regional, e ao mesmo tempo universal. Seus dois discos seguintes, Berro (1976) e O Azul e o encarnado (1977) predominam as raízes nordestinas, em geral, e cearense em particular. Cauim (1979) é mais aberto para as guitarras (com Robertinho do Recife endiabrado). Estes três discos lançados agora, vêm depois de Imã (1980), um disco que emprega uma infinidade de músicos, várias participações especiais, e marca o fim de uma era, na qual as gravadoras ainda apostavam em música autoral e a MPB dividia o mercado e a programação das FMs com outros gêneros. Terra da Luz (1982), Ednardo (1983), e Libertree (1985), chegaram às lojas com a eclosão do BRock, o rock nacional que dominaria a década e abriria caminho para a monocultura musical que perdura até hoje nos departamento de A&R das gravadoras e na maioria das emissoras de rádio. Terra da Luz é, de certa forma, uma volta ao início da carreira, tem marcante sabor regional, embora com o som, na época obrigatório, do violão Ovation, do teclado Oberheim, e do maestro Lincoln Olivetti. Ednardo, reflete, em parte do repertório, o clima roqueiro que tomou conta do País. “Super X”, faixa de abertura, é a canção mais roqueira de Ednardo, de um álbum híbrido, que termina com um maracatu, “Ponto de Conexão”. Libertree, embora se valha de modernos teclados (coqueluche dos 80) e bateria eletrônica, é menos roqueiro. A maioria do repertório é formada por ritmos nordestinos com vestimenta pop. Um disco tipicamente ednardeano, que merece ser mais ouvido. Ednardo fez um disco inspirado, autoral, com algumas canções deliciosas, como a suingada “O patrão zangou”. Agora, a ausência do encarte é imperdoável. Pode ter barateado, mas mutilou o produto. [José Teles]
Uma vez um grande amigo, cuja opinião eu respeito muito, ao criticar um CD do Max de Castro onde o próprio tecia comentários e definições sobre cada canção, me disse que música não precisava de bula. Acho que esse comentário me inibiu e sempre tenho resistido à hipótese de escrever sobre minhas músicas. “A arte tem de falar sozinha…se precisa de explicação é porque tem alguma coisa errada”. Tudo bem, eu continuo respeitando a opinião do meu amigo, mas dessa vez senti a necessidade de me manifestar sobre esse meu último trabalho. E resolvi, sem culpas, escrever minha bula. Sol a Girar é meu sexto CD autoral. Nele há um desejo pessoal de comemorar uma década de caminho percorrido. Meu primeiro álbum foi feito a exatos dez anos atrás, dentro de um contexto absolutamente diferente deste início de 2006. Primeiras Estórias foi lançado pela gravadora Velas (95/96) num momento em que a música brasileira esboçou uma reação a muita coisa ruim que vinha acontecendo no país. A música brasileira naquele período de ressaca pós Era Collor estava abatida e desacreditada. Tom Jobim acabara de morrer… Minas Gerais vivia uma mal sucedida entressafra de gerações musicais… As multinacionais do disco ainda davam as cartas no mercado fonográfico brasileiro que, a essas alturas, estava mais promíscuo e descartável do que nunca. A música brasileira de qualidade que não tinha uma vendagem expressiva foi completamente abandonada e invalidada por essas empresas e seus comandantes - mais um grande crime impune no Brasil, dessa vez cometido contra um dos cernes da cultura nacional. Esse processo já era antigo, porém alcançava seu auge nessa época. A gravadora VELAS então recém criada por compositores brasileiros, tinha a utopia de reconstruir e reerguer a auto-estima da nossa música popular. Ao lançar nomes como Guinga, Lenine, Chico César, Rosa Passos e apoiar outros tantos projetos, a VELAS deu um sopro de renovação, uma renovação diferenciada, baseada em artistas com um trabalho já amadurecido e que há muito já mereciam essa chance - uma atitude louvável que diminuiu um pouco as injustiças da época. O CD era um objeto desejável, atraente, poucos artistas independentes tinham essa oportunidade. Nessas circunstâncias meu primeiro trabalho foi lançado… era tudo absolutamente inédito… eu era inédito pra mim mesmo…afinal de contas, tinha começado a compor em 92 e em pouquíssimo tempo estava estreando num selo de qualidade que representava muito para a música brasileira naquele momento. Primeiras Estórias tinha todos os defeitos e virtudes do jovem compositor… era arrojado e frágil, pretensioso e espontâneo, moderno e regional… tudo ao mesmo tempo. Eu era o mais jovem dos artistas lançados pela Velas e nem de longe tinha aquele perfil “amadurecido e urgente” de meus pares, mas senti a responsabilidade de receber esse apoio, o que me deu incentivo e me colocou de vez de corpo e alma nessa aventura de produzir discos no Brasil. Muita e muita água passou por baixo da ponte, lancei CDs ao lado de amigos como Chico Amaral, Marina Machado, um registro ao vivo (Aos Olhos de Guignard), um trabalho direcionado às crianças (Presépio Cantado), produzi e fiz arranjos para dezenas de outros CDs e agora, Sol a Girar é lançado numa outra página da música brasileira… com as multinacionais do disco ruindo e um grande mercado independente ainda confuso e desorganizado se abrindo democraticamente para todos. O próprio CD parece ter os seus dias contados… o objeto banalizou-se… o conteúdo não… ainda bem!! As grandes gravadoras continuam promíscuas e descartáveis, e parecem ter um merecido futuro incerto. Com certeza vivemos outro importante momento de transição. Sol a Girar é um apanhado de 11 canções bem recentes, salvo uma e outra exceção. O formato utilizado para apresentá-las foi propositadamente o mesmo de dez anos atrás. Um intérprete pra cada canção e pequenos flertes com a música instrumental. Um formato que reflete incoerências e incertezas necessárias à esse momento… Sol a Girar tem em comum com Primeiras Estórias a busca de um conteúdo significativo através de fragmentos que não se complementam necessariamente… como se fossem dois CDs de contos… digamos assim. É uma aposta autoral fundamentada nas melodias, nas particularidades e soluções harmônicas e poéticas de cada canção. Tive o prazer durante os últimos meses de trabalhar com muitos colegas que admiro demais. A participação do Guinga teve para mim um valor muito especial por tudo que ele representa enquanto símbolo de uma música brasileira de qualidade que resistiu a tudo nas últimas décadas, sem perder a ternura. A música dele e a da Mônica Salmaso carregam valores alinhados a tudo que eu penso à respeito de música nesse início de 2006 - qualidade, requinte, originalidade e brasilidade. Gravar uma canção de violão e voz com a Ná Ozzetti também foi uma emoção inesquecível… pouca gente sabe (ela também não imaginava) que eu ainda era um menino e sequer tocava qualquer instrumento quando tive um contato forte com a música que ela, também muito jovem, já produzia no início da década de 80. A Lira Paulistana chegava até mim por uma feliz coincidência… uma prima (Beatriz Goulart) freqüentava muito São Paulo e trazia os CD raros. Os sons do Grupo Rumo, Arrigo Barnabé, Ná Ozzetti, Língua de Trapo e Luiz Tatit me chegavam aos ouvidos, curiosamente na mesma época em que os acordes de Toninho Horta e Lô Borges começavam a me fascinar. A parceria com Carlos Rennó e esse encontro com a Ná (na música “Lud”) materializaram essa curiosa época onde eu me interessava apenas em ouvir o que me dava prazer, independente de onde vinha, de quem era, ou de quando tinha sido feito. Eu montava coletâneas em fita K7 com Grupo Rumo, Led Zepepelin, Toninho Horta, AC DC e Waldir Azevedo… uma beleza!! A faixa que dá nome ao CD é mais uma feliz parceria com o Chico Amaral. Quando estamos juntos - eu, Chico Amaral e Marina Machado - me sinto absolutamente feliz musicalmente e reconheço neles o complemento poético e a atitude do meu pensamento musical. Ao lado do Chico e da Marina tenho sempre a sensação de estarmos criando um trabalho muito bem inserido no contexto histórico da música de Minas Gerais. Desde a gravação do “Baile das Pulgas” sinto que temos tocado num “invisível” fio da meada das experimentações propostas pelo Clube da Esquina e temos dado prosseguimento a elas com bastante honestidade. Falando nisso, pra mim é sempre uma honra publicar novas parcerias com Fernando Brant, Márcio Borges e Murilo Antunes. Exercer minha música com esses caras é uma grande realização pessoal e oportunidade única de aprendizado que eu sempre soube aproveitar. A cada nova parceria com o pessoal do Clube e também com o genial Paulinho Pinheiro, sinto mais segurança como compositor e respeito e admiro ainda mais a obra deles. Também foi fundamental e obrigatório para mim nesse trabalho, registrar a convivência musical com a novíssima geração daqui de Belo Horizonte. Nos últimos anos tenho me dedicado diariamente como arranjador e produtor musical à produção fonográfica dessa nova turma. Esse trabalho me renova e me motiva a compor e trabalhar com eles cada vez mais. São músicos, intérpretes e compositores com muito talento, pessoas em quem aposto todas as fichas e com quem tenho aprendido muito. Guardem esses nomes: Pedro Morais, Mariana Nunes, Kadu Vianna, Juliana Perdigão, Antônio Loureiro, Vitor Santana, Rafael Martini, Gilberto Sáfar etc… Evoé jovens artistas!! Por fim registro o privilégio que tive, durante as gravações de tocar e aprender com instrumentistas do porte de André Memhari, Stephan Kurman, Carlos Ernest Dias, Teco Cardoso, Cléber Alves, Beto Lopes, Neném, Chico Amaral, Sérgio Silva e Harvey Winaplle. Mestres em seus ofícios, músicos geniais que facilitam muito o trabalho do produtor. É isso aí… Sol a Girar é um álbum onde muitas experiências foram trocadas onde muita energia foi repartida, o consagrado e o iniciante, o tradicional e o experimental, o simples e o complicado, o solitário e o coletivo, tudo junto convivendo lado a lado, uma coisa se alimentando da outra e eu ali no meio, junto com as minhas canções e meus parceiros, exercendo com enorme prazer a arte de fazer música. Esse é o meu conceito atual da música - uma imensa teia de relações, admirações, aprendizados, incertezas, tentativas, acertos, erros, ensinamentos, paciências, sonhos, dificuldades, alegrias e introspecções. Uma entrega franca e apaixonada que se confunde intimamente com minha vida nesse período. Espero que gostem. [Flávio Henrique]
Pianista, compositor,
arranjador dos mais festejados na música popular brasileira, LEANDRO BRAGA
tem uma invejável carreira solo. Desde seu disco de estréia - “And Why Not?”
- gravado em Nova York, ao lado de “feras” do circuito jazzístico como Bob
Mintzer, David Finck e Romero Lubambo, foi colecionando prêmios, além do
reconhecimento como um dos mais criativos músicos surgidos no Brasil nos
últimos tempos. Dedicado às profundas raízes da música brasileira, Leandro
visitou com seu talento a obra de autores fundamentais como Ernesto
Nazareth, Chiquinha Gonzaga e outros além de participar de discos
puro-sangue de samba de Beth Carvalho , Alcione, Nei Lopes , Emilio Santiago
entre muitos. Seus arranjos serviram a grandes artistas, como Ivan Lins ,
Fatima Guedes , Ney Matogrosso , Zé Renato , enquanto desenvolvia, com igual
maestria, seu ofício de compositor e pianista, tendo-se apresentado em
várias partes do mundo, incluindo uma memorável exibição no Free Jazz
Festival.
O baterista é, antes de tudo, um doador de si próprio. É senhor e escravo do tempo, com duplo sentido: primeiro, por que precisa dominar todos os intervalos musicais; depois, por que seu empenho para o sucesso geral precisa necessariamente ser mais intenso do que o de seus colegas de formação. O baterista é o que chega primeiro em todos os ensaios. É o que sai por último – e muitas vezes tem um carro, quando tem um carro, adaptado por inteiro ao demorado e meticuloso monta-e-desmonta de seu instrumento. Contratempo. É dos mais gregários, entre os músicos. Raramente está pensando em projetos-solo. É homem de equipe e basta pensar em Art Blakey para dimensionar quanta generosidade pode existir atrás de duas baquetas. Tudo bem: um baterista houve seduzido por Narciso e chamou-se Gene Krupa – mas é uma exceção numa arte que vem de Louie Bellson e chega a Tony Williams depois de passar por Buddy Rich e Max Roach. Numa arte que, entre nós, tem solistas como Luciano Perrone, Paulinho (já falecidos) e Jadir de Castro, mas se define essencialmente pela parcimônia com que se reserva, pondo-se a serviço do outro – e aí os exemplos se avolumam, de Bituca a Wilson das Neves, de Robertinho Silva a esse menino Kiko Freitas. E isso sem citar outros que também já estão tocando a música das esferas, como Dom Um e Eloir Mendes. A introdução é longa – mas deixa à vontade agora o solista para fazer o seu recital. Pascoal Meirelles festeja quarenta anos de bateria e não poderia ser outro o nome do seu novo CD, distribuído pela Rob Digital. E 'Quarenta' não é apenas uma exibição de um grande instrumentista, um dos mais bem formados bateristas em atividade no Brasil, um artista do ritmo cuja história se sintoniza, de uma forma ou de outra, com todos os nomes citados acima. Pascoal tem vários outros trabalhos individuais, desde que estreou como solista com 'Considerações a respeito', em 1981. Mas, essa veia criativa jamais o impediu de agregar-se a projetos coletivos, ora acompanhando artistas como Gonzaguinha, ora integrando a formação homogênea do Cama de Gato, um dos mais sólidos grupos da música instrumental contemporânea no Brasil, na estrada desde 1986. Em 'Quarenta' percebe-se essa troca. O projeto é dele, mas sua bateria perpassa todo o disco a serviço da música, não submetendo a música à tirania de suas baquetas, super-atuando em detrimento do resultado final. O que se ouve é sempre boa música, com o melhor acabamento possível. É a concepção de um baterista, descobrindo, como em 'Ponteio' (Edu Lobo e Capinan), nuances e sutilezas inesperadas no andamento de uma composição que já é um standard. Esta é uma das treze faixas do CD, em que sete levam a assinatura de Pascoal Meirelles. Em algumas faixas, a formação é de trio, em outras de sexteto, nas demais a presença inevitável do Cama de Gato, no qual o baterista é um destaque perene. É o caso da densa 'Suíte '92', na abertura. Mauro Senise, nos saxes alto e soprano, e Jota Moraes tocam como se fizessem questão de dizer ao amigo: "estamos aqui". Em 'Tom', a homenagem óbvia a Jobim tem uma leveza ipanemenha que os sopros de Idriss Boudrioua, Renato Franco e Jessé Sadoc não ousam macular. Ao contrário, os metais se somam à base de piano (Dario Galante), baixo (Alberto Continentino) e Pascoal (bateria) em clima jobiniano, o mesmo clima que se perceberá logo adiante, em 'Triste', esta do maestro soberano em performance minimalista do trio formado por Pascoal, Continentino e Nelson Faria, guitarra límpida a serviço de um arranjo bossanovista castiço, a bateria calçando as vassourinhas da humildade. Entre as duas faixas, o único momento performático de 'Quarenta'. 'B.P.C.' permite a Pascoal Meirelles, durante exatos 2'21", espalhar-se por sobre os timbres e partes de seu múltiplo instrumento. Primeiro, numa batida ainda indefinida, mas contemporânea, deslizando por seus pratos, até encontrar o couro do pedal, a levada do contratempo, a pele dos vários tambores e da caixa. Então, soando inteira, a bateria deixa fluir a incrível coordenação motora que separa um baterista de exceção dos mortais comuns. Como por encanto, Pascoal leva o ouvinte a descobrir que tudo acaba em samba. 'Manhã de carnaval' (Bonfá e Antonio Maria), 'Por que também não fui' (André Neiva, baixista do Cama), 'Nuvens douradas', 'Chovendo na roseira' e 'Brigas nunca mais' (estas de Tom Jobim) fecham o disco. E cada releitura guarda para o ouvinte o segredo de uma emoção particular que esse texto faz questão de preservar. [Roberto M. Moura]
O jovem goiano começou
sua trajetória quando se mudou para Brasília, em 1995, e participou do Clube
do Choro, apresentando-se ao lado de Sivuca, Armandinho, Hermeto Pascoal,
Pepeu Gomes, Altamiro Carrilho, dentre outros. Acompanhou, também, os
sambistas Elton Medeiros, Lecy Brandão, Nelson Sargento, Monarco, Wilson
Moreira, Dorina, na casa de show Feitiço Mineiro. Desde essa época
acompanha, entre outros, Ney Matogrosso, Leila Pinheiro e Amélia Rabello em
temporadas de shows. Já foi chamado a gravar em estúdio com músicos
ilustres, como Zeca Pagodinho, Ivan Lins, Dudu Nobre, Fundo de Quintal,
Martinho da Vila, entre outros.
A trajetória errática do capixaba Sérgio Sampaio sempre desafiou explicações. Depois de sacudir o país em 1972 com a marcha-rancho “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” – um sucesso estrondoso, que realmente marcou época –, o compositor viu pouco a pouco sua carreira estagnar. Difícil de entender porque um artista de evidente talento – melodista sensível, poeta inspirado, expressivo cantor, violonista competente – acabou por não alcançar, em seu tempo, a popularidade e o prestígio devidos. Há quem diga que o sucesso foi da música*, não do cantor e compositor – uma análise um tanto simplista, mas não desprovida de um certo fundo de verdade. Nascido em 1947, em Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo, filho de Raul Gonçalves Sampaio, maestro de banda e compositor, e de Maria de Lourdes Moraes, professora primária, Sérgio Sampaio recebeu do pai as primeiras influências musicais, tendo curtido na adolescência grande paixão pelo repertório seresteiro de Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves. Em 1967, enamorado da ebulição cultural do Rio de Janeiro, foi para lá em busca de um lugar no céu estrelado da MPB. Atuou por dois anos como locutor de rádio nas AMs cariocas, enquanto desenvolvia também o seu trabalho musical. Em fins de 1970, foi descoberto acidentalmente pelo produtor Raul Seixas, quando acompanhava ao violão um aspirante a cantor, num teste na gravadora CBS. Contratado pela CBS, Sérgio fez sua estréia, em meados de 1971, com o compacto “Coco Verde/Ana Juan”, produzido por Raul. Meses depois, Raul, Sérgio e mais Míriam Batucada e Edy Starr gravaram o polêmico disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez”, que causou grande celeuma na CBS. Uma verdadeira sessão de escracho, com paródias e pastiches musicais temperadas com um humor corrosivo, esse trabalho trazia algumas parcerias de Sérgio e Raul, como o xote elétrico “Quero ir” e o acid rock “Doutor Pacheco”. No mesmo ano, o artista defendeu no V FIC sua composição “Ano 83”, que permanece inédita em disco. Em 1972, já integrando o elenco da Phillips/Phonogram, Sérgio apresentou no sétimo e último FIC a marcha-rancho “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. Mesmo não tendo sido a vencedora, a música foi o maior sucesso do evento. O compacto lançado a seguir venderia cerca de 500 mil unidades. Em meio ao êxito avassalador da música, Sampaio, jovem e sem dispor ainda de uma estrutura profissional sólida, adotou uma postura arredia frente ao intenso assédio da mídia, o que acabaria lhe custando a fama de artista “temperamental” e “difícil”. Em março de 1973 foi lançado seu primeiro LP, que levou o título de seu maior sucesso. Embora trazendo sambas de apelo popular (“Cala a Boca, Zebedeu”, de autoria de seu pai, e “Odete”) e incursões personalíssimas pela música pop (“Leros & Leros & Boleros”, “Eu Sou Aquele Que Disse”), o disco teve uma vendagem modesta, além de ser recebido pela crítica com desapontamento notável. Mais à frente, sua composição “Quatro Paredes” foi gravada parcialmente por Maria Bethânia, encaixada num pot-pourri no disco “A Cena Muda”. No início de 1974 saiu o compacto “Meu Pobre Blues / Foi Ela”. A primeira, uma dúbia elegia ao conterrâneo Roberto Carlos, de letra desconcertante, alcançou boa repercussão. Foi sua despedida da Phillips. Ele só retornaria à cena musical em 1975, já na gravadora Continental, lançando o compacto “Velho Bandido / O Teto da Minha Casa”, com boa aceitação popular e críticas muito favoráveis. Ainda em 1975, a irônica marchinha “Cantor de Rádio”, onde o artista alfinetava a indústria musical, foi incluída no LP “Convocação Geral nº 2”, da Som Livre. Em 1976, Sérgio lançou seu segundo LP, “Tem Que Acontecer”, considerado por muitos seu melhor trabalho. Com produção de Roberto Moura e arranjos do violonista João de Aquino, no disco brilhavam instrumentistas como Altamiro Carrilho (flauta), Abel Ferreira (clarinete) e Joel Nascimento (bandolim). Sérgio aliava o vigor interpretativo e poético dos primeiros anos a uma maior maturidade como compositor, em obras bem acabadas, como o amargo samba “Até Outro Dia”, o samba-canção “Velho Bode” (em parceria com Sérgio Natureza), o fox “Que Loucura” (uma letra em homenagem ao poeta tropicalista Torquato Neto) e a faixa-título. O disco foi bem recebido junto à crítica mas não alcançou o sucesso esperado. Em meados de 1977, ainda na Continental, Sérgio Sampaio lançou mais um compacto, “Ninguém Vive Por Mim / História de Boêmio (Um Abraço em Nelson Gonçalves)”. A primeira, um pop altamente suingado, foi bem executada nas rádios, apesar da letra cáustica, novamente enfocando a difícil relação do compositor com a indústria do disco. Foi o derradeiro trabalho de Sampaio por uma gravadora oficial. Dali em diante, já arrolado entre os “malditos” da MPB, ele seria um artista independente, sem gravadora e sem música no rádio, vivendo apenas de shows eventuais para um séquito fiel de admiradores em todo o país. Em 1981, Erasmo Carlos gravou em seu LP “Mulher” a canção “Feminino Coração de Deus”, composta por Sérgio especialmente para ele. No ano seguinte, Sampaio lançou o disco independente “Sinceramente”. Como o título sugeria, um trabalho de grande desnudamento pessoal do compositor. No entanto, mais uma vez a repercussão foi pequena, a despeito da qualidade de canções como “Nem Assim”, “Tolo Fui Eu” e “Essa Tal de Mentira”. O disco trazia também o samba “Doce Melodia”, onde o homenageado Luiz Melodia terçava vozes com Sérgio. Durante os anos 80, o artista viveu praticamente no limbo profissional, com escassos shows em bares a minguados cachês. Em seus longos retiros em sua cidade natal, porém, ele compunha sempre e cada vez melhor. Suas melodias se tornaram mais elaboradas, ao mesmo tempo conservando seu despojamento tão característico. Passou a criar harmonias com maior esmero e sua poesia atingiu o perfeito balanço entre lirismo, humor, perspicácia e concisão. Nos longos anos em que esteve relegado ao acostamento da cena musical, Sérgio apresentou-se quase sempre sozinho com seu violão, maturando sua performance até que sua voz e o acompanhamento formassem o todo inseparável que se ouve aqui. As 14 canções deste CD faziam parte de um rol de cinquenta inéditas e costumavam ser apresentadas pelo artista em seus últimos shows. Desse balaio de canções, ele extrairia o repertório do cd “Cruel”, que seria produzido pela gravadora paulista Baratos Afins e que marcaria a volta de Sérgio Sampaio em 1994, projeto abortado pela morte do artista, em maio daquele ano, ocasionada por uma crise de pancreatite. Enfim, a música vital de Sérgio Sampaio atravessa eras. Enriquecida pela colaboração de exímios músicos do presente, ela se mostra atual e moderna. Este CD é um valioso trabalho de resgate da obra de um dos artistas mais verdadeiros, inquietantes e enigmáticos da história da MPB. [Rodrigo Moreira]
O novo CD do grupo Terra Brasil é um trabalho temático composto de bossas, valsas e baladas, temas que o grupo já vinha desenvolvendo há algum tempo. Marcelo Gomes na guitarra e violão, Zeli no baixo, Sergio Gomes na bateria, Vítor Alcântara nos sopros e Antonio Barker ao piano criam nas dez novas composições do quinteto, um clima relaxante e intimista. A atmosfera jazzística favorece as conversas entre os músicos, resultando em um trabalho onde a fluência induz à tranqüilidade, mesmo nos momentos mais vibrantes, e onde é possível apreciar-se com clareza todas as nuances instrumentais.
Formado em 1995, o
grupo reúne boa parte da nata de músicos que atuam nos estúdios cariocas,
paulistas e capixabas. São produtores, professores, arranjadores e
acompanhantes de grandes artistas brasileiros, como Zeca Pagodinho, Martinho
da Vila, Beth Carvalho e Paulinho da Viola. São todos figurinhas carimbadas
nas fichas técnicas dos CDs de música brasileira gravados nos últimos vinte
e cinco anos.
Quando lancei meu primeiro disco, enviei um exemplar a Hilda Hilst, com carinho de fã, sem maior expectativa. Foi grande a minha surpresa ao receber, dias depois, um telefonema da própria, com a fala ainda debilitada por uma dispnéia recente. Falou que queria se tornar minha parceira, afinal “literatura não dá camisa a ninguém”. “Quero ser famosa, cansei dessa história de prestígio”, disse ela, entre irônica e sincera. Ali mesmo, ao telefone, ela pediu que eu anotasse um poemeto, destinado a ser nossa primeira “parceria”. Assustei-me com o inesperado do telefonema de Hilda, e mais ainda quando, meses depois, ela fez chegar às minhas mãos um disquete com toda a sua obra poética. Ali descobri a delicadeza e força de sua “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé”, um dos capítulos do livro “Júbilo Memória Noviciado da Paixão”, conjunto de 10 poemas, profundamente líricos e femininos sobre o amor impossível de Ariana e Dionísio, relato de uma paixão que - depois vim a saber por ela mesma -, era auto-biográfica. Comecei então a musicar os poemas lentamente, mirando a vaga atmosfera medieval neles contida, e ao cabo de dois anos, feitas as canções, mostrei a Hilda já com o intuito de materializar a nossa parceria em disco. Ela ouviu, aprovou, contestou a métrica de um ou dois versos e animou-se com a perspectiva de ver sua poesia transmutada em música, ela que sempre foi grande admiradora da obra de Mahler (também pra meu espanto descobri que ela foi parceira de Adoniran Barbosa em algumas canções), mas que, assim como João Cabral, adorava dizer bombasticamente que não gostava de música. Este disco começou a ser efetivamente gravado em abril de 2003 e levou exatos dois anos para ser concluído. Em fevereiro de 2004, já com a saúde bem fragilizada, Hilda foi “ver os amigos no planeta Marduk” (lugar onde, acreditava ela, vivem as almas imortais) e deixou pra trás alguns projetos e sonhos. Um grande desejo seu está realizado neste trabalho – ter seus versos tornados canções e eternizados nas vozes de dez cantoras fabulosas, sua poesia ao alcance de ouvidos e alma de qualquer mortal. [Zeca Baleiro] parceiros da agulha nesta seção |
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