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revista de cultura # 51 |
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Realismo fantástico e floração ecológica [1] Per Johns
Figuras como Antônio Conselheiro e Macunaíma, e essa feérica travessia do sertão árido que Guimarães Rosa empreendeu, nos dão, difusamente, uma importante pista dessa diferença. Há, entretanto, na literatura brasileira uma floração que, por sua gênese e intenções, se pode propriamente chamar de fantástica. E por fantástico quer-se aqui designar o estado de espírito que apanha no cotidiano o insólito, sem perder nem o cotidiano nem o insólito. Nesse particular, Aníbal Machado é mestre indiscutido, embora um tanto esquecido, ainda transitando por aquela sombra cruel que separa a morte da ressurreição literária. Sua inteligência sucinta desdramatiza as coisas, sem perder, entretanto, a essência do drama e, sobretudo, dando ao leitor - por dentro, literalmente nas entranhas das palavras e dos temas -, de surpresa em surpresa, a visão do que normalmente não é visto. É autor de algumas modelares histórias curtas que pouco ultrapassam a dezena, de uma coletânea de ensaios poemáticos, reunidos em Cadernos de João (1957), e de um romance (João Ternura), verdadeiramente uma work in progress, que lhe tomou a bem dizer a vida inteira, feito de fragmentos que se aglutinam, em suas próprias palavras, num “mapa irregular de nosso descontínuo interior” [2], por natureza inacabado, daí ter sido editado postumamente, um ano após a sua morte, em 1965. Entre suas histórias curtas (Histórias reunidas, 1959) avulta em particular esse admirável “O iniciado do vento”. Transita-se com insólita simplicidade do plano de um mero julgamento forense - calcado em premissas e preconceitos humanos - para um plano cósmico inexplicável. É a história de um engenheiro que, numa pequena cidade do interior, conhece um menino maltrapilho que diz coisas com um misterioso, inato sentido poético. O engenheiro, e ele faz questão de enfatizá-lo, apresenta-se como pessoa que sempre procurou “viver de coisas positivas e, tanto quanto possível, explicáveis”, acrescentando que em nenhum momento de sua vida cultivou a perigosa “atração do abismo”, e a quem, sobretudo, “o absurdo aborrece”. Sua educação consistira basicamente - a par desse aprendizado do concreto e do factível - em prevenir-se “contra as ciladas da imaginação…” Não obstante tamanha solidez, deixa-se enfeitiçar (ou seria converter?) pelo menino, que tinha, em especial, o estranho dom de relacionar-se com os ventos e antecipar sua chegada individualizando-os como se fossem seres vivos. Sentindo-os no corpo, com precisão anunciava sua chegada no alto de uma colina solitária, onde ele e o engenheiro todas as tardes se aboletavam para (sic) recebê-los. Nunca falhavam, como se obedecessem a seu comando. O engenheiro não só se convence de que os misteriosos poderes do menino eram verdadeiros como esquece suas explicações. A certa altura liga a figura do menino “às coisas da mitologia”, de que só vagamente se lembrava. E mais: troca sua “experiência de adulto” pelas invenções do menino ventícola, a ponto de dizer: O pequeno maltrapilho era o meu mestre de vento, o verdadeiro iniciado. E eu, o discípulo, não me vexo de confessá-lo. Daí por diante, só o compreendia dentro mesmo do vento. Os ventos deixam de ser vento (genérico) e, coisa espantosa, se individualizam, adquirem características próprias e diferenciadas. Por assim dizer, vivem no corpo de quem os recebe. Pouco a pouco, e por estranho que possa parecer, essa “conversão” do engenheiro passa a significar, em primeiro lugar, e talvez simplesmente, o paradoxo de ser ele capaz de voltar a sentir os ventos como ventos e não apenas como uma explicação (que elimina a necessidade de senti-los) do tipo “deslocamento de massas quentes e frias da atmosfera”. É o que se percebe no reconhecimento de um dos ventos que se personaliza, trazendo de volta toda uma dimensão perdida do “que havia de melhor e mais antigo no espaço”:
Ou então como este outro, vento terráqueo que já vinha com o cheiro de mato e de rebanho. Ganhasse um pouco mais de espessura e o agarraríamos com a mão. Era como um animal invisível, mas perto. Ficamos mudos, a sentir o perpassar de sua cauda interminável. Um dia, entretanto, enquanto assistiam à passagem de um dos ventos prediletos do menino, este, subitamente, volta-se para o engenheiro, como se precisasse de uma testemunha fidedigna de sua comunhão cósmica, e diz, com a alegria estampada no rosto: - Com este eu vou! E literalmente desaparece no ar, deixando para trás o engenheiro desolado não com o desaparecimento, mas por não ter podido ir junto: Pudesse eu fazer aquilo! Faltavam-me a força e a pureza do menino. Fui tomado de um sentimento estranho: senti-me rebaixado perante mim mesmo. É o que relata o engenheiro. Uma história absurda (contrária ao senso comum) em que ninguém acredita. Preferem culpá-lo pelo desaparecimento, reduzindo sua experiência a uma perversa lógica penal. Paira no ar a suspeita de pedofilia seguida de assassinato. O conto é o embate de duas lógicas diferentes, que conformam o mundo de maneiras opostas, ou por outra, é o embate de uma lógica do mundo contra um sentimento do mundo, deixando o engenheiro à mercê da estranheza de não poder explicar fatos “simples demais para serem acreditados”. Ainda assim, ele insiste em sua versão, embora sem grande esperança de que sua “verdade tivesse mais poder do que a mentira armada com os aparelhos e o cerimonial da justiça”. Ou - já que não se pode configurar um crime sem vítima - com a inescapável maledicência humana, que talvez fira mais do que qualquer condenação. Apesar do ceticismo de mentes viciadas em não acreditar ou só acreditar no pior, o desfecho dessa estranha aventura do encontro de um engenheiro que tudo sabe explicar com um menino - apelidado de Zeca da Curva - enfeitiçado pelo vento, cujas “narinas farejavam o longe”, é surpreendente. Por mais absurdo que fosse qualquer coisa havia mudado na fisionomia moral da cidade. O vento começou a existir. Descobriram-lhe um sentido novo. E mais: ao arquivamento do julgamento seguiu-se o desaparecimento do juiz. A última vez em que o magistrado foi visto (…) vagava pela colina onde Zeca da Curva partira para sempre. Notaram que sobraçava o calhamaço de um processo. E que falava sozinho. Qual fosse esse processo ninguém sabia. Sabia-se apenas que o vento soprava no calhamaço com força desconhecida e, uma a uma, arrancava-lhe todas as folhas… [3] Por trás do fantástico dessa pequena obra-prima esconde-se um filão ecológico raro e precursor na literatura brasileira.
Claramente
consangüíneo e conterrâneo espiritual de Aníbal Machado é o gaúcho Mário
Quintana. Antes de tudo, trata-se de um dos melhores poetas do verso em
língua portuguesa. E sua prosa ergue-se ao nível de uma absoluta economia e
precisão poéticas. Prosa e poesia nele se fundem, num apelo rítmico e
encantatório de pura magia. Pervagam nessa obra de alquimista da
ambigüidade “claras incursões surrealistas”, como sugere Fausto Cunha,
um dos seus melhores intérpretes, ao lado de Augusto Meyer.
[4] O cotidiano
torna-se sobrenatural e o óbvio misterioso, sobretudo nos livros de prosa
poética ou de ensaios poemáticos O sapato florido (1948) e a A
vaca e o hipogrifo (1977), em que luzem pequenas jóias como esta:
Estragaram o grande
espetáculo do Juízo Final O apocalíptico da ruptura do homem consigo mesmo. Dessa ruptura nascem espectros indecifráveis, que dançam sua dança de morte e ressurreição dentro das criaturas. Às vezes, de total entrega ao demônio, de que é exemplo essa avis rara da literatura brasileira, Margarida La Rocque (1949), de Dinah Silveira de Queiroz. É a história de uma possessão demoníaca na época crucial em que, a par dos descobrimentos, em meio ao século XVI, começou a disparar o relógio mental (tecnocientífico) que tornaria a cada dia mais inverossímil uma história como a do engenheiro de Aníbal Machado. Inspira-se a história de Dinah - como esclarece a autora - numa passagem da Cosmografia de um certo Padre André Thévet, que mostra (…) a realidade maravilhosa de uma época em que a Europa vivia abalada pelos sonhos dos descobrimentos, quando as paredes das tavernas e hospedarias eram cobertas de desenhos representando índios, monstros, serpentes e demônios que os marinheiros teriam conhecido nas jovens terras pagãs…[6]
De novo e de novo, o demoníaco irrompe sob os mais variados disfarces (advirta-se que se trata aqui de demônio conforme a etimologia grega, daimónion: gênio inspirador, não necessariamente mau, mas sempre disruptor em relação à tábua de valores vigente). Em Murilo Rubião ele se torna mágico, e em sua magia completa-se dentro da própria operação mágica. Consiste e se esgota nessa operação que não conduz a nada, muito menos ao real. Deixa os personagens e o leitor em suspenso, numa eterna e agourenta expectativa, num jogo de espelhos mágicos (incidentalmente, título de uma coletânea poética de Mário Quintana), a ponto de o próprio mágico acabar se burocratizando na (já agora) antimagia de suas criações. Tem a ver, curiosamente, com a física moderna, com a teoria da indeterminação, em que já não há mais que falar em causa e efeito e sim em probabilidade. A posição de Murilo Rubião na literatura brasileira é solitária como poucas. Estreando com o Ex-mágico (1947), é um realista mágico avant la lettre, por compulsão visceral, porque “acredita muito no que está além das coisas”, mesmo porque nunca se espanta “com o sobrenatural, com o mágico, com o mistério”. [7] Um conto como “O edifício” é uma magnífica alegoria de nosso mundo contemporâneo, uma construção que nunca se encerra e que até continua a crescer à nossa revelia ou mesmo contra nossa vontade. Mas o demoníaco é multívoco. Por vezes manifesta-se numa clara intenção de racionalidade, a das máquinas e da funcionalidade álgida e hígida. Fausto Cunha é nosso primeiro e, se não único, mais importante cultor de uma ficção científica (As noites marcianas, 1960) de raízes humanistas, à maneira de Ray Bradbury, vale dizer, em que o tema só vale pela obsessão que o autor tem de avaliar suas conseqüências no corpo e na alma. Suas qualidades de ficcionista reafirmam-se nesse excelente e cruciante volume de contos O dia da nuvem (1980). Em meio a um cientificismo delirante em que computadores abafam ou constroem a engenharia (sic) dos orgasmos, o demoníaco está na escravidão que a parafernália tecnológica acaba impondo ao senhor humano, já não pela imersão na noite da alma, mas, o que é pior, pela dramática luminosidade da compreensão do mecanismo íntimo do funcionamento das coisas. A alma transforma-se em átomo, cujo único defeito (ou maior virtude) é que já não existe, apenas funciona. Quer dizer, produzem-se efeitos práticos (por vezes catastróficos) a partir de uma causa que se reduz a uma fórmula matemática. Dá-se aqui o que se poderia chamar de ruptura completa. O engenheiro de Aníbal Machado, pelo menos, ainda sentia o choque no encontro de uma mundividência não só outra, mas mais forte. Num outro diapasão, Gerardo Mello Mourão, num romance perturbador, O valete de espadas (1960), põe o dedo no reverso da medalha do absurdo sem volta de se complicar a vida em nome de sua simplificação mecânica. A facilidade assim proporcionada nos faz oscilar entre a dormência e a excitação das faculdades, com a conseqüente perda da sabedoria instintiva de situar-se. O valete de espadas é fantástico na medida em que tudo nele tem os ingredientes do dia-a-dia, só que desfocado, quebrado, como se as coisas fossem vistas de ângulos inusitados. Assim, o lar, o hotel, o hospital, o navio, o bordel, o convento, o cassino. A aventura dos que conspiram para descobrir “as coisas [que] se ocultam atrás da familiaridade e da repetição”. Há que quebrar a espinha dorsal da familiaridade e da repetição dentro do próprio homem para chegar às coisas, já que, como diz o narrador de O valete de espadas: As coisas mais decisivas lhe acontecem, e ele em geral só as estranha e examina quando representam a quebra de uma rotina. Quebrada a rotina, dá-se, de repente, a descoberta. De repente, dá-se aquilo que Brecht chamou de Verfremdung: vê-se pela primeira vez o que sempre foi visto até a exaustão, e nunca o foi. E com isso desvela-se uma realidade arraigada, tão arraigada que já não existia. É esse o fantástico familiar de Gerardo Mello Mourão. Se o personagem enlouqueceu, ou está morto, ou sonha, pouco importa. Importa abrir (…) o espantoso caroço do quotidiano, que permanece inexplorado e quase ninguém conhece o seu semblante inédito e terrível. Mesmo porque, do outro lado da medalha: As chamadas coisas extraordinárias são, na realidade, punhados de insignificâncias absolutamente banais. [8] Ou seja, em verdade, para repetir as palavras do engenheiro de Aníbal Machado, as coisas extraordinárias são “simples demais para serem acreditadas”. Essa mesma operação fantástica de dar força ao demoníaco que aflora na obviedade, desrespeitador de normas e rotinas (sobretudo, de pensar), espécie de descoberta da aventura latente de viver, soterrada sob falsas aparências e falsos andaimes, irrompe no insólito romance de estréia A Lua vem da Ásia (1965), de Campos de Carvalho. Não por acaso inicia-se o romance com esta contundência: Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. O curioso é que o autor desculpa-se (arrepende-se?) de sua insubmissäo num estranho Post-Scriptum em que até certo ponto renega o livro, que, segundo ele, exprime “com fidelidade a angústia e a perplexidade de um espírito que durante quarenta anos foi solitário, antes de fazer-se solidário”. [9] Resta saber se esta solidariedade implica já não ver o que viu o personagem solitário, mesmo porque, e talvez até pelo contrário, solidão não exclui solidariedade. A não ser, claro, que tudo não passe de um jogo de palavras.
Capítulo à parte é o fantástico de José J.Veiga, pois atém-se à ambiência e ao coloquial brasileiro, num estilo não só de grande simplicidade, como até ortodoxo. Dir-se-ia que o demoníaco vai fluindo objetivamente, quase como se fosse uma fatalidade que não pudesse ser detida. Ao contrário de Gerardo Mello Mourão e Campos de Carvalho, em Veiga as situações não chegam ao nível das intrincadas elaborações intelectuais, embora o efeito seja igualmente forte. Dos três, portanto, é o mais kafkiano pela naturalidade com que trata o absurdo. Sempre paira no ar uma ameaça que se vai aos poucos concretizando de maneira sufocante em A hora dos ruminantes (1966), possivelmente seu melhor romance, Sombras de reis barbudos (1972) e Aquele mundo de Vasabarros (1982). Neste último romance, o desenraizamento da criatura humana, num misto de presente deteriorado e futuro impossível, atinge o nível da melhor sátira política. Vimos, anteriormente, que O iniciado do vento, de Aníbal Machado, é uma espécie de precursor, à falta de melhor expressão, daquilo que se pode chamar de ficção ecológica, já que lida - não só em termos pragmaticamente humanos de sobrevivência, mas de solidariedade com a vida como um todo - com uma outra possibilidade de viver e conviver, a que se mostra alheia nossa herança civilizatória desde o fim do paganismo. O humano tornou-se mais do que central, manipulador a um grau indescritível, com as conseqüências que não precisam ser descritas. Entretanto, embora seja tema que se vai tornando mais e mais premente, como tal é filão raro na literatura brasileira. O conto de Fausto Cunha O dia da nuvem, na já mencionada coletânea de mesmo título (talvez aproveitando a sugestão do astrônomo Fred Hoyle, em sua ficção científica A nuvem), relata os catastróficos acontecimentos sucedidos no dia em que uma “densa nuvem de poluição se abateu sobre a cidade [de São Paulo], e parecia disposta a ficar para sempre como uma carapaça asfixiante”. [10] É como se o sol deixasse de aparecer, dando lugar a uma noite eterna.
Curiosamente, esse
pesadelo de se acordar um dia em que o sol não nasce e a atmosfera se mostra
asfixiada e as pessoas se vão enregelando já fora objeto, nos longínquos
idos de 1816, de uma premonição do inglês Lord Byron, que assim descreve um
seu sonho apocalíptico no poema “Darkness”:
I had a dream which was not at all a dream. Um sonho que não era absolutamente um sonho, diz Byron, antes - completamos nós - uma clarividente e sinistra premonição em vias de se tornar realidade quase duzentos anos depois. Da mesma linhagem é o romance do paulista Inácio de Loiola Brandão, Não verás país nenhum (1981), que dá um passo adiante, na medida em que leva às últimas conseqüências o apocalipse já propriamente ecológico. Chega-se à perfeição da absurdidade. Água e ar, que no jargão dessueto dos economistas só têm valor de uso (não de troca), passam a ser a diferença crucial entre a vida e a morte, quando já é tarde demais. Paira no ar a pergunta irrespondível: Por que, inconscientemente, escolhemos a morte, apesar da compreensão racional de que o desiderato está em curso? O demoníaco é aqui a própria razão que se esconde de si mesma ou sublima-se (em irônico jargão freudiano) em sua antítese. Essa ficção já não é científica, nem só ficção. A morte ronda em torno da febricitante construtividade demoníaca - para falar ainda em jargão econômico - desse chamado Produto Interno Bruto. Que se alimenta de si mesmo. Como o Edifício de Murilo Rubião. Só que não é mais uma morte ficcional ou futura. O alarme já soou (e soa todos os dias) na megalópole industrial de São Paulo, espraiando-se praticamente até a cidade portuária de Santos, em cuja proximidade se situa Cubatão, num todo que já vem dando inquietantes sinais de saturação vital. Somando-se a poluição aos desmatamentos sistemáticos e aos saques indiscriminados à fauna, o quadro de uma civilização opressora - ecumênica já - configura-se acabado. O mal está em suas entranhas, não é um acidente. E pois o demoníaco deixa de ser uma ilusão de ótica. Dessa cartola de mágico o que sai é o estrago irreversível das fontes da vida. Atinge tudo e ricocheteia mortalmente no aprendiz de feiticeiro que somos.
A nossa civilização é uma vontade de poderio, que vê em tudo um não-eu a ser vencido e destruído ou reconduzido aos esquemas construtivos da mente. Existe no ar que respiramos um rancor surdo contra tudo o que não seja obra do homem, uma animosidade que sempre interpreta o mundo como matéria inerte de um plano de conquista. [12] Como vimos, em sua trajetória, malograda por absoluta incompreensão de uma época que já não consegue se enxergar, cega de soberba, Vicente Ferreira da Silva transitou da lógica matemática - com brilhantismo, diga-se de passagem - passando pelo Existencialismo (foi dos primeiros e mais criativos divulgadores de Martin Heidegger no Brasil), para chegar à valorização do mito como mentor do resgate de uma realidade viva que se fragmentou e transformou em produto, seja de consumo, seja de uma operação puramente mental ou mercantil. (Desse cadinho emergiu um irreversível inferno urbano.) Reflexos claros desse pensamento rico e germinativo, embora difícil, por pressupor uma visão exterior à couraça que nos enforma, encontramos em Guimarães Rosa e, mais recente e surpreendentemente, justamente num ex-marxista como Fernando Gabeira, com sua redescoberta do corpo. É o corpo que se comunica com os elementos. E o espírito só faz sentido quando encarnado e transformado em alma. Do contrário, passa a ser um elemento disruptivo e destrutivo, como já foi diversas vezes mencionado ao longo destes ensaios. Em livros como O que é isso, companheiro? (1979) e Crepúsculo do macho (1980), Fernando Gabeira não se limita à autocrítica, mas trilha uma direção que se diria oposta à do antigo guerrilheiro, no rumo não do espírito descarnado (ou apolíneo) mas da alma encarnada (ou dionisíaca), cuja essência é antipuritana e, por derivação, anticapitalista no sentido que lhe emprestou não Marx, mas Max Weber, além de antiorgani-zacional ou sistemática, sempre que a organização ou o sistema tendam a contrariar o que é arraigadamente humano, e humano, entenda-se aqui: num sentido que abrange a vida como um todo. Eis como, a certa altura de sua metamorfose, Gabeira estranha um companheiro: Olhei assustado para o meu amigo, mas creio que o compreendi. Há muito tempo que não acreditava em amor e talvez sequer tenha acreditado alguma vez em sua vida em amor entre duas pessoas. Sua única preocupação era a revolução, e havia se casado simbolicamente com a Organização. Dá-se isso quando o concreto da vida errada cede lugar ao abstrato da verdade perfeita e acabada, o hoje - com todas as suas contradições e fermentos - a um amanhã, cuja maior virtude é jamais realizar-se, embora custe montanhas de vidas. Compreender isso e tentar aperfeiçoar-se nos parcos limites de sua individualidade humana é o primeiro passo para uma justiça que se quer por dentro, como respiração, e não por fora, como conceito. O que nos faz retornar ao engenheiro, iniciado do vento, quando se refere àqueles “fatos íntimos, que ocupam a parte maior de nosso ser; mas que temos vergonha de confessar para não parecermos infantis ou loucos”. Ao que Gabeira - com sua experiência malograda a serviço de uma idéia abstrata - poderia concluir: Restava saber para mim o que é que pode acontecer na vida de uma pessoa que a deixe tão fria e tão aberta a uma visão puramente administrativa da felicidade.[13] Ou, em outras palavras, que a remete àquela condição que o escritor num romance posterior chamou (um título que vale por todo um livro) de Hóspede da utopia (1981), vale dizer, de uma pura construção mental e abstrata, matemática e geometricamente calculada. A diferença que existe entre uma semelhante construção inabitável e um devaneio de Bachelard ou um poema de Baudelaire é que estes enriquecem a vida possível enquanto aquela se põe de pé com escombros de vidas (e outros sonhos) rejuntados com argamassa de sangue. No fim das contas, a única verdadeira utopia estaria não num lugar, pensamento ou intenção, mas num processo, talvez longo demais para ser sequer imaginado: na metamorfose radical da postura vital, dentro, não fora do homem. Algo tão antigo quanto o que já sabiam Heráclito e Hesíodo e já se contém no paradoxal Eclesiastes. O herói cede lugar ao vivente, o histórico ao cotidiano, a salvação do mundo à redenção do vizinho, a soberba ilusória de tudo poder à humildade factível de tudo tentar primeiro em si, não nos outros. Se isso é teologia, se isso é alienação, que dizer do resto?
NOTAS 1 Versão retrabalhada dos capítulos, o de mesmo título e “Selva urbana”, in Moderne Brasiliansk Litteratur, op. cit. 2 Aníbal Machado, Cadernos de João, José Olympio, RJ, 1957, p. 6. 3 AM, “O iniciado do vento”, in: Histórias reunidas, José Olympio, RJ, 1959, pp. 5/43. 4 V. Fausto Cunha, A leitura aberta, Cátedra, RJ, 1978, p. 213; e Augusto Meyer, A forma secreta, Lidador, RJ, 1965, p. 187. 5 Mário Quintana, A vaca e o hipogrifo, L&PM, RS, 1983, p. 78. 6 Dinah Silveira de Queiroz, Margarida La Rocque, José Olympio, RJ, 1949, p. 3. 7 Murilo Rubião, O pirotécnico Zacarias, Ática, SP, 1974, p. 4. 8 Gerardo Mello Mourão, O valete de espadas, GRD, RJ, 1960, pp. 61, 62, 142. 9 Campos de Carvalho, A Lua vem da Ásia, José Olympio, RJ, 1956, pp.11 e 193. 10 Fausto Cunha, O dia da nuvem, Liv. Ed. Cultura, SP, 1980, p. 16. 11 Lord Byron, Poems, Everyman’s Library, London, 1948, vol. I, p. 178. 12 Vicente Ferreira da Silva, op. cit., vol. II, p. 161. 13 Fernando Gabeira, O crepúsculo do macho, Codecri, RJ, 1981, p. 84. |
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Per Johns (Brasil, 1933). Ficcionista, tradutor e ensaísta. Autor de livros como As aves de Cassandra (1990), Navegante de opereta (1998), e Dioniso crucificado (2005). Deste último é que foi extraído o presente ensaio, com a concordância do Autor e da Editora Topbooks. Contato: perjohns@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá). |
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