revista de cultura # 52
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 200
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discos da agulha

O piano nas Américas, de Clara Sverner1. O piano nas Américas, de Clara Sverner. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

Piano nas Américas é fruto da longa trajetória da pianista Clara Sverner no universo musical. Mesclando o erudito e o popular, o disco traz composições de consagrados autores brasileiros e norte-americanos da segunda metade do século 19 e início do 20.

A primeira música é uma vigorosa interpretação da obra de Gottschalk, Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Brasileiro. O jazz e os ritmos populares estão bem representados pelas obras do pianista e compositor George Gershwin. Outro destaque é o ragtime The Entertainer, de Scott Joplin.

Ernesto Nazareth aparece em 4 faixas, no choro Odeon, no tango Tenebroso, e na valsa Eponina, assim como no suave estudo para concerto, chamado pelo autor de Improviso e dedicado ao "distinto amigo Villa-Lobos". De Villa-Lobos Clara executa Polichinelo, música composta em 1918 e que tornou-se conhecida mundialmente ao ser interpretada por Arthur Rubinstein, e a Valsa da Dor, de 1932. Deste mesmo ano, há a Valsa Suburbana, de Oscar Lorenzo Fernandez, que retrata a nossa música seresteira de sabor urbano. Alexandre Levi está presente com duas peças, Romance sem Palavras, e Tango Brasileiro

Clara Sverner, pianista da área erudita, mas com incursões pela música popular, teve uma sólida formação que se iniciou com o professor José Kliass na cidade onde nasceu, São Paulo. Mais tarde, estudou nos centros musicais mais avançados, como o Conservatório de Genebra, onde teve aulas com Ouis Hildebrand e no Mannes College of Music de Nova York, com Leonard Shure.

Ainda adolescente foi premiada no Concurso Internacional Wilhelm Backhaus e começou a se tornar conhecida e respeitada no meio musical. Mais tarde passou a se apresentar em recitais e concertos por todo o Brasil, por diversos países da Europa, nos Estados Unidos, Japão e Israel, com um repertório que vai desde virginalistas ingleses do século XVII até os principais representantes do século XX.

Em 1983 começou a atuar em duo com o saxofonista Paulo Moura, interpretando músicas de Pixinguinha, Almeida Padro, Gilberto Mendes e Ronaldo Miranda. Um ano depois, registrou, com João Carlos Assis Brasil, obras de Scott Joplin e Érik Satie no LP Joplin e Satie: Clara Sverner e João Carlos Assis Brasil, eleito um dos dez melhores discos do ano pelas revistas Manchete e Isto é.

Em 2000, lançou um CD em que interpreta desde Villa Lobos a Gershwin, tendo sido apresentada em notas de contracapa por Ricardo Cravo Albin que afirma: "Clara Sverner pode vestir a definição que Mário de Andrade deu a Ernesto Nazareth, isto é, transita com igual desenvoltura - e ritmo - pela música erudita e pela popular".

 

Odette Ernest Dias, de Odette Ernest Dias2. Odette Ernest Dias, de Odette Ernest Dias. Selo Rádio MEC. Contato: contato@robdigital.com.br.

Cada CD de Odette Ernest Dias constitui um presente raro em que ela compartilha conosco o seu prazer de fazer música. Foi assim com “Le Rossignol”, com “Sonatas de Bach”, com “Paisagens Noturnas”, entre outros. Atenta ao que a vida oferece, Odette é assim também em relação à música. Tudo importa. Quando se integra a um grupo de choro ou interpreta um autor erudito contemporâneo, quando toca Debussy ou improvisa, sua abertura e essencial liberdade lhe permitem a mesma entrega e a mesma intensidade de prazer.
Tem ensinado muita gente a tocar flauta, porém, mais que isso, tem transmitido esse prazer único que a música proporciona.
Para além de seu domínio técnico que parece não conhecer limites, Odette, isenta de purismos, guiada por sua intuição certeira e pela extraordinária vivência musical, não se furta a experiências que revelem novas possibilidades em repertório já consagrado.
Em suas andanças por Diamantina, Odette descobre tesouros musicais nos arquivos da cidade. Através da adesão dos músicos amadores locais - que ela contagia e conquista para o prazer de cantar e tocar juntos - faz reviver esses sons do século XIX e início do século XX entre os muitos sons de Diamantina.
Para a organização de um repertório, uma atitude puramente intelectual buscaria unidade por meio de seleção de autores, gêneros, estilos. O CD de Odette tem outra dimensão. Nem é apenas a presença da flautista que cria essa idéia de um todo. É a sua participação na vida - em cada dia e não só em dias escolhidos - que explica tal entrega, tão autêntica que permite recebermos esse presente como uma mensagem total, formada por facetas que se integram sem perder seu contorno e luz especiais.

[Berenice Menegale]

 

Choro e samba em Niterói, de Orquídea3. Choro e samba em Niterói, de Orquídea. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

Este primeiro CD do Grupo Orquídea é o resultado de quatro anos de encontros de grandes músicos no famoso Bar Orquídea, em Niterói-RJ, onde as animadas rodas de choro dos domingos celebram a boa música brasileira. O quarteto central é formado por Ronaldo do Bandolim (do Época de Ouro e Trio Madeira Brasil), Rogério Souza (violonista e arranjador do Nó em Pingo D’Água), Silvério Pontes (trompetista de vários artistas como Cidade Negra e Ed Motta e parceiro de Zé da Velha), Marcio Almeida (cavaquinista dos Oito Batutas com Paulo Moura e parceiro de shows e discos de Altamiro Carrilho, Martinho da Vila e Beth Carvalho) e Celsinho Silva (pandeirista e percussionista do Nó em Pingo D’Água), todos de Niterói, cidade famosa por seu berço de grandes músicos brasileiros, o grupo escalou como músicos convidados os que tivessem participado, pelo menos uma vez, das rodas de choro do lugar. Daí o luxuoso auxílio de Zé da Velha (trombone), Rodrigo Lessa (violão), e Guinga, entre outros Com arranjos de Rogério Souza para choros e outras bossas de Pixinguinha ("O Gato e o Canário"), Guinga/Aldir ("Valsa pra Leila"), Paulinho da Viola ("Beliscando"), Luiz Bonfá ("Menina Flor") e Nazareth ("Matuto" e "Vem Cá Branquinha") e para sua inédita "Choro Triste", as dez faixas deste cd são um belo passeio pelo choro e samba; retrato do clima das rodas domingueiras animadas pelo rico legado musical brasileiro com o estilo carioca.

 

Som mestiço, de Quarteto Repercussão4. Som mestiço, de Quarteto Repercussão. Selo Fina Flor. Visite www.finaflor.art.br.

Som Mestiço é o primeiro CD do Quarteto Repercussão pela Gravadora Fina Flor e traz, como o título sugere, uma mistura de sons, ritmos e estilos, priorizando a linguagem musical afro-brasileira. O sotaque africano no som do quarteto é fruto de um trabalho de pesquisa de mais de vinte anos dos percussionistas Carlos Negreiros e Luiz Bastos, e da sólida parceria deles com o violonista e arranjador Edson Barbosa.
A produção artística e a direção musical do CD ficaram a cargo do saxofonista, flautista e arranjador Humberto Araújo, que deu tintas finais aos arranjos concebidos pelo grupo formado por Edson Barbosa - violões (seis e sete cordas) / vocal, Andrea Spada - baixo acústico / vocal, Luiz Bastos - percussão / vocal e Carlos Negreiros - voz solo / percussão.
O CD traz duas faixas instrumentais, além de sambas, jongos, baiões, músicas de autores consagrados como Tom Jobim (Estrada do Sol) e Edu Lobo (Zanzibar), e composições inéditas de Carlos Negreiros como Águas, Apito do Trem e Som Mestiço.
O trabalho contou ainda com a participação especial de Paulo Moura - clarineta em Apito do Trem - e de Humberto Araújo - flautas na faixa instrumental Salsa e Cebolinha.

 

Lo que vendrá, de Sérgio & Odair Assad5. Lo que vendrá, de Sérgio & Odair Assad. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

Lo que Vendrá reúne releituras de clássicos espanhóis, brasileiros e argentinos de três grandes compositores. A Tonadilha para dos guitarras, composta em 1964 por Joaquín Rodrigo, mantém a idéia de um gênero musical tipicamente espanhol para o violão, onde o duo ressalta as expressivas qualidades dos violões que dividem entre si cantos de exaltação apoiados por ousados rasgueados. A Brasiliana N8 escrita em 1956 por Radamés Gnattali, ilustra o aspecto nacionalista de sua obra e presta homenagem à rica herança da música popular brasileira. Os arranjos de Lo que vendrá e Escolaso são parte da notável contribuição de Sérgio Assad na transcrição das obras de Astor Piazzola. O Corta Jaca e a Valsa, que finalizam o cd, fazem parte da Suite Retratos composta em 1957 por Radamés Gnattali, cujos quatro movimentos são dedicados respectivamente a Pixinguinha (1898-1972), Ernesto Nazareth (1863-1934), Anacleto de Medeiros (1866-1907) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935), autora do famoso Corta Jaca composto em 1897.

Naturais de São João da Boa Vista-SP e formados no Rio de Janeiro, os irmãos Sérgio e Odair Assad são aclamados pela crítica como fenômenos mundiais no universo do violão, identificados por uma inconfundível versatilidade, harmonia e sonoridade nos campos erudito e popular. A partir dos anos 70 os irmãos Assad começaram a investir na carreira internacional e logo radicaram-se na Europa e Estados Unidos, onde delinearam uma prestigiosa trajetória de gravações, prêmios, e apresentações. A importância do duo revela-se no grande número de obras escritas especialmente para eles por, entre outros, Radamés Gnattali, Marcos Nobre, Astor Piazzola e Nikita Koshkin, que revitalizaram o universo da composição contemporânea para o instrumento.

 

Natsu no niwa, de Sérgio & Odair Assad6. Natsu no niwa, de Sérgio & Odair Assad. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

No outono de 1993 o diretor japonês Shinji Soumai, um entusiasta do violão e admirador dos irmãos Assad, pediu-lhes para compor e gravar a trilha sonora de seu filme Natsu No Niwa (Summer Garden).
As melodias encantadoras expressam sentimentos de alegria, tristeza, surpresa e melancolia, retrato da comovente história de três garotos e um velho homem que convivem um verão de muitas aventuras e descobertas. A trilha sonora do filme Natsu No Niwa trascendeu em muito sua finalidade original, revelando-se uma obra de impressionantes composições, arranjos e execução impecáveis.

 

Questão de tempo, de Terra Brasil7. Questão de tempo, de Terra Brasil. Zabumba Records. Visite www.terrabrasil.mus.br.

Gravado quase ao mesmo tempo que o temático CD “Atlântico” - bossas, valsas e baladas - indicado ao Grammy Latino na categoria melhor álbum instrumental, “Questão de Tempo” apresenta uma grande diversidade de estilos brasileiros, como o samba, maracatu, ijexá, capoeira, choro, além de uma chacarera e um afro-cubano. Trata-se de um trabalho autoral, com exceção da música “Very Early”, uma valsa do grande pianista e compositor de jazz Bill Evans, arranjada em ritmo de samba.
No repertório, 10 composições, sendo 9 delas próprias: “João Danado”, um ijexá sofisticado dedicado ao grande João Donato, traz Jorge Marciano nas congas; ”Valsa Leguera”, uma belíssima melodia em ritmo de chacarera, com Daniel Allain nas flautas e Ricardo Garcia na percussão; em “Se Você me Colcheia” e “Choro Nosso” o grupo visita o choro de maneira particular; “Chino” é uma composição baseada no ritmo e na atmosfera da capoeira angola; “Bluesamba” é um extrovertido e alegre samba; “2001” um samba livre e contemporâneo em 3/4; “Cine Cuba”, um afro-cubano moderno e expansivo; o criativo arranjo em samba de “Very Early” de Bill Evans e o explosivo maracatu “Questão de Tempo” que dá nome ao CD fecham o repertório. As duas últimas contam também com Ricardo Garcia na percussão.
Ao trio base de compositores e instrumentistas Marcelo Gomes - guitarra, Zeli - baixo e Sergio Gomes - bateria, juntam-se Vitor Alcântara - sax e flauta e Antonio Barker - piano , fazendo um som com muita diversidade, suingue, criatividade e força, explorando a inesgotável riqueza da música brasileira.

 

Vivir en este Carpuela, de Margarita Laso8. Vivir en este Carpuela, de Margarita Laso. Sello Gallito Verde. Ecuador.

¿A qué suena Ecuador? Si alguien se preguntase a qué suena este pequeño país andino, poblado por 13 millones de almas, más el casi millón y medio que vive en España, Estados Unidos e Italia, la respuesta seguramente, podría ser: Ecuador suena a la voz y el feeling de Margarita Laso.

Dentro de la prolífica carrera de esta cantante ecuatoriana, nacida en Quito en 1962, que lleva cerca de 10 discos editados, se destaca un álbum que guarda toda la potencia de la música ecuatoriana y el talento de la artista: “Vivir en este Carpuela”. Un CD con 16 cortes, 16 canciones muy ecuatorianas que escencialmente agrupan pasillos y albazos. Dos géneros que definen el ser ecuatoriano, el sentimiento mestizo, la fusión entre lo andino y lo hispano. El pasillo es un género musical que surge en el siglo XIX a partir de la asimilación del vals europeo con ciertos rasgos musicales de esta región. El pasillo ecuatoriano, con sus propias características melódicas y estructurales, fue originalmente una danza para más tarde convertirse en una canción. El albazo que, al parecer, tiene su origen en el yaraví precolombino, también es producto del sincretismo entre formatos musicales europeos y marcados elementos melódicos de la cultura indígena.

Sí, lo indígena, lo mestizo, y lo hispano. En el Ecuador existe un dicho popular que define muy bien lo que somos: “Quien no tiene de inga tiene de mandinga”. La fusión, la riqueza de las mezclas, los multiritmos y lo multiétnico define al país y “Vivir en este Carpuela” tiene esa virtud: recoge lo que somos más hodamente.

Los 16 cortes son 16 clásicos mestizos de canciones del siglo pasado que se mantienen intactas en la memoria de los ecuatorianos de diversas generaciones. Canciones que nos hablan de ausencias, de amores perdidos, de paisajes, de la frescura del amor primero, pero también nos hablan de lo festivo y sentimental que es el ecuatoriano.

“Vivir en este Carpuela” es un CD entrañable, ineludible para quien quiere entender al Ecuador. La voz impecable de Margarita Laso nunca antes brilló con tanta perfección como en este disco; otro de los aciertos es haber dedicado el álbum a las “familias ecuatorianas desalambradas por la migración”. Ecuador es un país hondamente tocado por la migración, también es un país bellísimo en sus cuatro regiones geográficas: Costa, Sierra, Amazonía y Galápagos; y muy marcado por la inequidad social. La migración ha perfilado otro país, no sé si mejor o peor, pero la migración nos cambió para siempre, esa es la única certeza. Y en esos cambios, en esas mixturas, en esas búsquedas, la música como la poesía son tablas de salvación, vehículos para entendernos mejor.

Entre los más bellos temas, y donde la interpretación de Laso, es sencillamente genial están: “Ángel de Luz”, pasillo; “Mi lindo Carpuela”, bomba; “Invernal”, pasillo; “Romance de mi destino”, pasillo; “Bonita guambrita”, cachullapi.

Ahora, ya sabe a qué suena el Ecuador…

[Aleyda Quevedo] 


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