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revista de cultura # 52 |
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Henrique Fuhro e a celebração da vida Jacob Klintowitz
A constante do artista é exatamente esta representação de figuras mascaradas, estes seres- personas, a máscara do teatro antigo, origem da nossa palavra personalidade. Nos gregos, a máscara era a representação das emoções básicas, em nós, a representação das funções. Num caso, o sentimento do homem diante de si mesmo e diante do destino; no nosso caso, o desempenho, a função na estrutura social.
É compreensível que o artista tenha homenageado com a sua exposição o escritor e jornalista Ruy Carlos Ostermann, também ele um refinado pensador fascinado com o universo do jogo, do homem no limite, e daquele que é capaz de transcender a sua contingência. Há muitos anos Ruy Carlos Ostermann é o sumo sacerdote desta celebração à vida, à qual glorificou com textos e oratória de alta literatura.
O Curador Renato Rosa teve uma tarefa difícil, selecionar uma série entre centenas de obras e estabelecer uma articulação coerente. Mas saiu-se com êxito. Ele teve a sabedoria que tem faltado a tantos curadores atuais, de deixar o artista falar. Em nenhum momento Renato Rosa se substituiu ao artista e ocupou o centro do palco. Essa ausência planejada permitiu que tivéssemos a sensação de espontaneidade, como se estivéssemos no atelier do artista, e pudéssemos circular livremente, entre desenhos e pinturas de grande força interior, e encontrássemos, aqui e ali, construções pictóricas que nos emocionassem.
Fuhro tem uma curiosa posição na história da nossa arte. O seu trabalho foi registrado em inúmeros livros de importantes críticos de arte, em vários dicionários e esteve presente em mostras antológicas de importância nacional. Entretanto, o artista permanece silencioso e à margem do percurso público de sua obra, observador de si mesmo. É um homem que contempla o horizonte, observa-se em perspectiva e reserva-se o solitário e doce prazer de fazer. As imagens do artista são reflexões multiplicadas em imaginários espelhos infinitos paralelos. Nelas está contido o conceito do homem contemporâneo e de sua possibilidade introspectiva. É a máscara e o homem feito um desenho, escrito num espaço cromático desdobrado em equações geradas para projeções cibernéticas. Verdadeiramente a intuição e o som interior de um refinado pensador formalizado nestas sutis aparências e sombras de uma realidade não consensual.
Imagens ? Parece que as conhecemos, mas, de repente, nos escapam. Por um momento sabíamos e já esquecemos e este teor de incômoda estranheza nos dá a sensação de que se tratava de alguma coisa importante para nós. Talvez, o nosso surpreendente retrato, aquele vislumbre de um desconhecido a nosso respeito, um passante que nos observa sem interesse. Magnífica articulação lingüística de fragmentos. Sinais luminosos, enigmas, esfinge rediviva. E a onipresente serenidade que caracteriza e marca a presença deste artista, Henrique Léo Fuhro, na arte brasileira. Fuhro designa o mito contemporâneo para o porvir e nós nos contemplamos nesta gravação germinal como os habitantes da transição, finalmente impregnados de confiança e conforto. |
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Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Texto escrito para catálogo de exposição realizada em Porto Alegre, em 2002, na galeria Via Lívia. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Henrique Fuhro (Brasil). |
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