revista de cultura # 52
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2006






 

O triângulo de Jérôme Peignot: "amor, poesia, Revolução"
[entrevista]

Dominique Hasselmann

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Jérôme PeignotO escritor, ensaísta e poeta Jérôme Peignot quis de bom grado nos conceder esta entrevista, no fim de 2004. Ele nos recebeu no apartamento que ocupa no primeiro andar de uma casa antiga no bairro de Marais, em Paris. Após nos ter preparado gentilmente um café, eis que o gravador gira…

“Ah bem, vou lhes contar tudo isso… Vou tentar pôr um pouco de ordem! Comecei por publicar uma autobiografia - como sempre, finalmente: menos temos coisas para dizer, mais falamos de nós mesmos (enfim, é freqüentemente esse o caso!) - que se chama Les Jérômiades. Então, me disseram, com certeza, que se eu havia chamado isso de Les Jérômiades, era porque meu primeiro nome é Jérôme… Não, essa não é razão; a razão é esta frase de São Jerônimo [Jérôme em francês] que pus como epígrafe em meu livro: “Não busqueis nenhuma satisfação fora de vossa obra que só seja digna de vossos cuidados, e só deve contar para vós, já que ela é vós mesmos. Para ela, tornai-vos livres de todo laço, então, às vezes, do meio de vossa obscuridade, de vossa solidão, acontecerá talvez a vós, e pelo tempo de um relâmpago, ouvir o aplauso dos anjos.”

É esse “aplauso dos anjos” que procuro. Longe, longe aliás, muito longe, da glória midiática da qual caçôo.

Então publiquei isso, que remonta longe, é muito muito velho, 1957, está ai, em seguida disso cheguei à Gallimard. Por que deixei Le Seuil? Ah bem, porque eu tinha escrito um romance que chamei de Grandeur et misères d’un employé de bureau que contava minha greve numa revista célebre na época. Ora esta revista tinha negócios com Le Seuil, e quando eles souberam do papel que eu desempenhava nesta história, por fim eles recusaram meu manuscrito e então o propus à Gallimard.

E o livro conta a história dessa greve na revista onde eu era representante do pessoal e onde diziam: “O burguês Peignot não trará problemas!” E enquanto nos suprimiam a gratificação anual concedida aos empregados da revista, havia muita gente, ganhei minha greve, a greve esmerada, e escrevi esse romance. Gallimard o pegou, em 1965, fui introduzido na Gallimard por Aragon que eu conhecia bem, mas sobretudo por Jean Paulhan e por Dominique Aury, pois eu tinha trabalhado por muito tempo na Nouvelle Revue Française, na qual escrevi uns 20 artigos, sobretudo sobre biografias…

Mais tarde, em 1967, publiquei, sempre na Gallimard, um romance que se chama L’amour a ses princes, que finalmente é um romance erótico, e depois vieram Les Ecrits de Laure.

Laure é minha tia: ela se chamava Colette Peignot. Essa Laure era considerada na família como uma empestada, nessa família muito burguesa, convencional, sufocante, eu me indispus aliás com meu pai que fiquei sem ver durante 25 anos. Meu pai era um homem de direita e rompi toda relação com ele, até os seus últimos dias. Recolhi, pois, os escritos de Laure graças a Michel Leiris, do qual me tornei amigo, e pelo intermédio de Georges Bataille que conheci na seqüência da publicação dos meus livros.

Infelizmente, creio que foi no ano de sua morte, em 1962. Entretanto, mantivemos um laço de amizade, ele me propôs trabalhar com ele em Critique, enfim, isso foi muito desconcertante para mim, e para ele também, pois ele disse que eu me parecia com minha tia Colette, pela qual ele teve uma verdadeira paixão. Dizem de bom grado de Bataille que ele era um libertino: mas não, era bem mais que isso, é um dos maiores filósofos do século, é um homem de uma dimensão colossal. Eu tinha lido a obra dele, eu o admirava, e ele então me perguntou, mas não pude fazer, se eu poderia dispor dos manuscritos, e dos papéis de Laure que se encontravam na época na casa do meu pai que detinha os direitos jurídicos deles e que proibia a sua publicação.

Houvera aliás uma polêmica que se desencadeou entre Georges Bataille e meu pai, polêmica da qual dei o relato numa obra que publiquei nas Éditions des Cendres em 1999, e que se chama Laure. Une rupture (1934), onde retomo certos textos de Laure que encontrei mais tarde, em parte na casa de Bataille, em parte com a ajuda de alguém que trabalhou com Boris Souvarine, o menchevique, do qual minha tia, antes de viver com Bataille durante quatro anos, e em cuja casa ela morreu em Saint-Germain-en-Laye, tinha sido a companheira.

Então, esses escritos, finalmente, eu os obtive graças a Michel Leiris, com o qual eu me reencontrei na prisão em 1970, por ter querido defender os trabalhadores malineses que recolhiam nosso lixo todas as manhãs. Chaban-Delmas era o Primeiro Ministro na época.

Finalmente, pude ter acesso à biblioteca de Bataille, pois conheci Diane Bataille e pude recolher alguns papéis novos que eu não tinha, que Leiris não tinha, dois pequenos escritos que tinham sido publicados talvez em 100 exemplares pelos cuidados de Leiris e de Bataille em 1940 ou 1941. Laure morreu em 1938, nasceu em 1904.

Propus então esses papéis à Gallimard, que os recusou, depois à editora de Jean-Jacques Pauvert, que os aceitou imediatamente. E esta edição fez um enorme sucesso, um artigo em primeira página no Le Monde, um número especial de La Quinzaine littéraire, e finalmente peguei Roland Dumas como advogado para me defender contra meu pai, a quem fiz saber que se ele quisesse me proibir ou entravar a publicação dos escritos de Laure, eu o processaria… Situação curiosa!

Mas fui muito firme, finalmente preparei muito meu combate, já que houve um grande número de artigos de imprensa e meu pai teve medo de confrontar tudo isso. Eu tinha criado uma “Associação dos amigos de Laure”, com Michel Foucault, Marguerite Duras, enfim muitas “enormes locomotivas”, como se diz, que me trouxeram seu apoio, pois os escritos magníficos, sublimes, de Laure, conhecidos desde então no mundo inteiro, traduzidos em japonês, no inglês dos Estados Unidos; eu os publiquei em 1972 e prefaciei com um texto que se chama Ma mère diagonale. Significa lhes dizer, por esse título, a ligação que eu tive com essa mulher e que tenho ainda…

O sucesso dos Ecrits de Laure teve um efeito duplo: o primeiro é que, sabendo que Laure era a companheira de Bataille terminamos por pensar, na opinião, ou espalhamos a idéia, que ela seria uma grande escritores porque fora a companheira de Bataille… é contra isso que me insurjo.

Rafael Charco PortilloUm dia, Jean-Jacques Brochier, que acaba infelizmente de morrer, fizera um número especial sobre Bataille e me telefonara me dizendo: “Por que você não faz um encarte sobre Laure?” Ao que respondi: “No dia em que você fizer um número especial sobre Laure, será de bom grado que farei um encarte sobre Bataille!” Seria colocar Laure na sombra de Bataille. Ora, Bataille diz em várias ocasiões em seus escritos, em particular em Le Coupable, que certos conceitos que ele buscava definir e que ele não chegou a formular, ele os achou nos escritos de Laure, que, para ele, foi uma verdadeira egéria. Mas, mais uma vez, Laure é uma mestra do pensar, ainda mais: uma mestra do viver.

O segundo efeito, é que a notoriedade e a glória que Laure adquiriu graças a essa edição me valeram passar ao segundo plano. Isso dito, tanto melhor: meus escritos são pouca coisa ao lado dos de minha tia. Mas enfim, é preciso que eu continue meu pequeno caminho e pretendo justamente ter querido ser, próximo uma geração e um sexo, o herdeiro mais digno possível de Laure. Então continuei a trabalhar e, sem me engajar da mesma maneira que ela, tentei por minha vez ter um engajamento político. Então, foi minha greve na revista da qual falei, depois meu engajamento durante a guerra de Argélia…

Não assinei O Manifesto dos 121, embora o tivesse podido. Trabalhei muito na rádio, nos Chemins de la connaissance, e em particular no programa Le Masque et la Plume que conduzi com François-Régis Bastide e Michel Polac durante quase dez anos, e fui eu que pus a pique este programa, precisamente por causa do Manifesto dos 121.

A rádio nacional nos proibira de citar diante de um microfone o nome de qualquer pessoa que tenha assinado esse texto, como Jérôme Lindon, Sartre, Simone de Beauvoir, Françoise Sagan… Quanto a mim, eu não o assinei pelo fato de que não me sentia no direito, enquanto finalmente era praticamente meu momento de engajar jovens pessoas à insubmissão.

E depois, na época, eu tinha publicado pouco. Não era, e não sou sempre, alguém colocado na frente da cena. Tinha escrito, em 1971, um romance, que você me disse ter lido, que se chama La Tour, publicado na Christian Bourgeois. Esse livro foi escrito sob o império dos românticos alemães, e sobretudo de Novalis. Eu vivia então uma aventura amorosa com uma mulher que era proprietária dessa torre que se encontra em Dordogne, exatamente em Saint-Léon-sur-Vézère, é uma torre que existe, ela está sempre de pé, data do século XII ou XIII, um vestígio muito surpreendente, e aliás reproduzi sua foto no início do livro.

Após ter deixado a Gallimard, eu tinha de fato chegado à Bourgeois, onde publiquei em seguida uma obra, em 1974, na coleção “10/18”, que se chama Les jeux de l’amour et du langage, e, em 1979, Le petit gobe-mouches (llustrado por Valerio Adami), é um jogo de linguagem.

E como você falava da qualidade tipográfica e plástica dos livros de Bourgeois, este me pedira para escrever um livro sobre tipografia. Bourgeois me disse: “Mas por que você não mistura tua pequena migalha de pluma e teu amor pela tipografia num mesmo livro e a gente verá o que dá…”

Então, por que ele me falava de meu amor pela tipografia? Ah bem, porque faço parte de uma família de pessoas que foram fundadores de tipos de impressão. A firma que dirigiam meu pai dirigia, e meu avô e meu bisavô, remonta a gerações!, se chamava Deberny et Peignot.

E Deberny, isso deve te dizer alguma coisa, é o nome de Madame de Berny (Laure…), La Dilecta, aquela que viveu com Balzac antes de Madame Hanska, e que financiou seu empreendimento de fundador de tipos. Isso não quer dizer que há um laço familiar com De Berny mas há um laço industrial, a fundição Deberny, num momento dado, engoliu a fundição Peignot ou o inverso…

Em 1965, eu tinha sido convidado por M. Kissinger para a Universidade de Harvard (USA), da qual aliás fui expulso porque estava em plena guerra do Vietnã e eu tinha feito uma declaração no jornal The Crimson: pela partida, o recuo, a retirada dos Americanos do Vietnã. O que me valeu ter muitos problemas com M. [Henri] Kissinger que tinha por fim suprimido meu visto, e que pude recuperar mais tarde! Fui pois uma vítima das continuações do maccarthysmo e de M. Kissinger… O qual, apesar das bombas que ele fez cair sobre uma parte do Vietnã até, parece, afundar uma ilha inteira no mar, ganhou assim mesmo o Prêmio Nobel…

Escrevi esse livro, De l’écriture à la typographie, nessa universidade. O acesso à biblioteca era fácil. Por fim, não foi Bourgeois mas Gallimard que o publicou na coleção “Idées”, em 1967. De l’écriture à la typographie é um livro que fala do signo tipográfico, mas não à maneira de um especialista. Significante, significado, mas o signo? Ele faz parte integrante do que veicula. Lacan empregou essas expressões, “significante”, “significado”, mas também chamou a atenção sobre o signo, um parente pobre, negligenciado… O signo veicula muito significante e seus referentes. Entretanto, não se fala nunca deles.

Após o episódio Bourgeois, pediram-me um dia, na France Culture, para fazer um programa de rádio sobre Pierre Leroux. Quem é Pierre Leroux? Há uma rua em Paris que leva seu nome. Na seqüência dos programas, um editor, Lattès, me propôs que eu preparasse um livro sobre Leroux. De início hesitei e depois esse livro (Pierre Leroux, inventeur du Socialisme, Klincksieck, 1989), eu assim mesmo finalmente o escrevi, e dediquei a François Mitterrand com essa epígrafe: “Ao presidente da República francesa, a quem devemos ter dado do socialismo uma expressão tão poética quanto realista.”

Pierre Leroux é um companheiro de Victor Hugo em Jersey. Eu o defino assim, na verdade ele foi primeiro um tipógrafo. E essa é uma das razões que me levou até ele. Ele foi tipógrafo do jornal Le Globe, onde compôs textos de Victor Hugo. Depois, pouco a pouco, ele se engajou na Revolução de 1830, depois naquela de 1848, e até mesmo sobre as barricadas, muito violentamente. Era um cristão, mas um cristão de esquerda: muito se falou, no século XIX, do “Cristo sem calças”. No fundo, trata-se do encontro do cristianismo e do socialismo…

Leroux, que escreveu uma obra muito importante, na qual há um livro que se chama De l’Humanité, de son principe et de son avenir (1840), que Michel Serres reproduziu em seu corpus filosófico, é um tipo formidável! Ele foi amigo de George Sand, e o inspirador do romance La Comtesse de Rudolstadt (1843). Ele era feminista. Mas do tipógrafo que ele foi, pouco a pouco se tornou escritor revolucionário e defendeu a causa dos tipógrafos que representavam, de qualquer maneira, a elite proletária já que são pessoas que lêem, escrevem, conhecem a língua, e que são eminentemente cultas, das quais não se podia prescindir. Entretanto, eles foram muito maltratados na História, pois passaram da Revolução ao Império, à Restauração…

Finalmente, Pierre Leroux respondia completamente às minhas obsessões: a escritura, mas também o engajamento político, que formam nele um todo indissociável.

Então, escrevi esse livro que foi publicado pelas edições Klincksieck. Elas tinham editado La grève de Samarez que é um dos mais belos livros, o último, creio, de Leroux que tinha deixado a França, como Victor Hugo, no momento da chegada de Badinguet, aliás Napoleão III. Ele viveu lá longe num estado de miséria enquanto M. Victor Hugo andava a cavalo e tinha uma vida mundana na ilha. Leroux morre de fome…

Mas ele escreveu uma obra absolutamente admirável; em particular, há um hino a Gutenberg, que reproduzo, e ele havia criado finalmente um falanstério em Boussac, ao lado de Nohant, na casa de George Sand.

Infelizmente, o difusor do meu livro queimou e o livro partiu em fumaça… mas eu adoraria muito que um dia eu o recuperasse.

Escrevi mais alguns livros. Passei às edições L’âge d’homme, onde publiquei em 1986 um livro que se chama Puzzle. O segundo volume se chama Puzzle N°2 e foi prefaciado, em 1996, por Bernard Noël, mas aí eu o publiquei na Talus d’approche, de um pequeno editor belga. M. Dimitrievitch que dirigia, e que dirigia sempre essas edições, tinha publicado as memórias de Milocevicz, o que lhe valeu ser posto de lado…

Rafael Charco PortilloEntão, por que esse livro e esse título Puzzle? Leio: “Não esqueci o que um dia me disse Paul Valéry a quem eu dei meus primeiros poemas para que ele lesse: “Você chegará lá porque não tem grande coisa para dizer”. Naquele momento, a casa todo zombou. Esperavam muito que a lição entendida e que, na costa azul, eu iria enfim aplicá-la. Para mim restava o olhar apoiado de Paul Valéry. Anos mais tarde, ele teve esse momento de exaltação louca em que lendo os Cadernos eu reencontrei textualmente a observação que ele me fez, seguida dessa frase: “Que faço eu mesmo de diferente? Se de aventura acontece de eu ter uma idéia, apresso-me a tomar nota dela, isto apenas porque não estou seguro de ter uma outra. O que é o pensamento, senão a enumeração dos pensamentos?”

Achei isso muito belo e então escrevi um livro de fragmentos. Roland Barthes, que eu conheci bem, dizia que os fragmentos haviam se tornado um gênero literário: Fragments d’un discours amoureux, fragmentos de Barthes par lui-même… Então, eu também escrevi fragmentos, mas quis acrescentar a essa teoria uma prova quase… implacável, fazendo dela um puzzle. Porque, ao ler o livro, nos perguntamos: quando ele vai parar? De fato, eu estrago meu puzzle se crio uma peça a mais ou se uma peça falta. Tenho um subterfúgio, que não revelarei a você, que o incitará a me ler! Puzzle é finalmente “o romance de um espírito”. Eis a fórmula que utilizei.

Depois, fui muito tocado pelos acontecimentos da praça Tien An Men, na primavera de 1989) (no Brasil, no outono de 1989). Sempre o engajamento político… Não dissocio o que escrevo desse engajamento e, finalmente, como Laure, de uma certa maneira, acho que a mais bela escritura que vale é a da vida. Como pomos um pé depois do outro: eis a verdadeira escritura!

Na praça Tien An Men, havia aquele homem de frente para um tanque, e é o herói do meu romance, que se chama Un printemps à Pékin (Uma primavera em Pequim), que publiquei nas edições Calmann-Lévy, em 1993. Esse romance conta a história desse homem sobre o qual encontrei algumas informações junto ao agrupamento dos chineses que estavam refugiados aqui, e que foram muito ajudados e sustentados por Roland Dumas. Os dois herói de meu livro são o homem que ficou plantado diante do tanque e a passionária da qual ele estava apaixonado. Pretendo que todos nós temos, num momento ou outro, um tanque diante de nós: levamos um tiro ou enfrentamos?

E um romance, no fundo, sobre a morte. Pequena anedota a essa proposição: eu queria chamar esse romance de Le triangle botanique (O triângulo botânico). Aliás, as edições Calmann-Lévy aceitaram essa fórmula como subtítulo. Mas eles não quiseram que eu o chamasse assim: “Se puser esse título, você vai se encontrar na prateleira de botânica!”

No interior do palácio imperial em Pequim, no jardim dos fundos, os filósofos taoístas faziam árvores brotarem, diziam que só a natureza é artista. Então, eles plantavam dois brotos, depois eles os juntavam um ao outro, de maneira a compor com o solo um triângulo, e então esperavam. Um tronco se desenvolvia a partir do cruzamento desses dois brotos unidos, formando um triângulo botânico. E esse triângulo se tornou, mais tarde, o símbolo do amor na China.

Portanto, meu Printemps à Pékin é a história, mais ou menos verídica, mas porque não se sabe tudo sobre ele, desse rapaz que morreu ao mesmo tempo pelo espírito revolucionário, e pelo amor desse jovem mulher, a qual amava um outro rapaz que morreu de greve de fome na praça Tien An Men. Ele queria ao mesmo tempo rivalizar com esse morto, oferecendo a sua vida diante desse tanque, e conquistar essa mulher.

E uma das grandes idéias que sobressai finalmente de toda a obra da minha tia Laure: é que o amor, a poesia, a Revolução formam um triângulo… cujos três elementos são indissociáveis uns dos outros. E uma das tramas que subjaz em todo o meu trabalho.

Há também esse volume que não quero esquecer, nas Éditions des Cendres, publicado em 2001, e que se chama Je vous donne de mes nouvelles. E uma autobiografia transposta. Trato lá de alguns dos episódios que evoco aqui: o caso Kissinger, o dos malineses, as desventuras burocráticas que a passagem de meu doutorado me valeu… Leiris me dizia: “Tu podes falar de ti, mas com uma condição, que é falar verdadeiramente de ti indo até o fundo, revelando o que tu não queres dizer”. O prefácio de L’âge d’homme se chama De la littérature considérée comme une tauromachie”…(Da literatura considerada como uma tauromaquia…)

Para seguir sempre o meu fio, e na admiração e no respeito de Leiris e de Laure, eu quis justamente dizer tudo o que eu não queria dizer! Vou aliás publicar em breve, nas Éditions du Rocher, um segundo volume que se chamará: Broyer du bleu, e que será a seqüência de Je vous donne de mes nouvelles.

Entrementes, eu me tornava de uma vez professor, na Universidade de Paris I Sorbonne, onde, após a publicação dos meus livros, pediram-me, a título de professor substituto, para vir dar palestras, cursos: e eis que ensinei, durante quase nove anos, de 1981 a 1991… uma disciplina que não existe e que se volta para a escritura!

Depois alguns amigos me disseram: “Escuta, por que você não tenta o doutorado?” Eu tinha tanto mais vontade de escutá-los quanto eu tinha sido membro da Comissão interministerial sobre o grafismo e a tipografia, criada em 1981 por Jack Lang no Ministério da Cultura. A chegada de Mitterrand em 1981 foi para mim uma festa extraordinária! Sobre esse assunto, disse para mim mesmo: não basta votar em Mitterrand, mas o que que eu posso fazer? Você se lembra da frase de Kennedy: “Não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer por seu país”… Pareceu-me que eu poderia trabalhar para a sorte da tipografia, da imprensa, na França. Eu esperava que isso trouxesse a adesão de todo mundo.

A imprensa francesa, na Liberação, se encontrava num estado abominável. Os alemães tinham tomado todas as máquinas. Após a guerra, os franceses iam imprimir seus livros no estrangeiro, na Espanha ou na Itália, onde as imprensas continuavam a rodar e não tinham sofrido a depredação que a França havia conhecido. Mais tarde, sob o governo de Giscard d’Estaing, 20.000 pessoas foram postas à la porte.

Então, eu me ocupava muito desse assunto, e é o que eu tinha explicado a Jack Lang: “Sou um escritor que se interessa pelas pessoas que o imprimem!”. Um pouco como Leroux, finalmente! Os tipógrafos não são meus lacaios, são companheiros, camaradas, colaboradores. Você se lembra da fórmula de Mallarmé: “O camarada-escritor”. Quanto aos livros, imagine todos esses textos admiráveis que Mallarmé escreveu sobre a tipografia. Ele se interessava muito por esse assunto já que seu “lance de dados jamais abolirá o acaso” é construído totalmente com base no verso alexandrino de doze pés e sobre o tipo doze tipográfico.

Nessa Comissão da qual eu fazia parte, propus então a Jack Lang introduzir a disciplina da escritura nos cursos universitários. E o que de melhor do que passar para o Doutorado, que não existia, sobre esse assunto! Sim, sempre fui obcecado pelo laço, não somente plástico mas literário e poético, entre a tipografia e a escritura. Fiz esse doutorado com Julia Kristeva, Gilbert Lascaux, Bernard Teyssèdre, e pessoas magníficas, mas que estão mortas: Marc Le Bot, Louis Marin, Jean Laude…

Tratava-se de um doutorado sobre trabalhos com meus livros De l’écriture à la typographie, Du calligramme, publicado nas Éditions du Chêne em 1978, acompanhado de Du trait de plume aux contre-écritures, publicado por Jacques Damase (1983), absorvido a partir de então pela Hachette. São justamente esses três livros que vão ser retomados em breve na coleção “Bouquins”, na editora Laffont, no meio de 2005.

Rafael Charco PortilloNão sou o único autor desse livro. Sou seu mestre de obra, e retomei duas obras importantes que caíram no esquecimento, que não se encontram mais no comércio há muito tempo: uma, de Marcel Cohen, que se chama La naissance de l’écriture, e a outra, Synthèse, volume de um colóquio absolutamente extraordinário que se desenvolveu nos anos 1950, onde todas as grandes vozes da história da escritura falam, trocam idéias sobre cuneiformes, hieróglifos, ideogramas… Tudo isso é apaixonante. Isso constituirá uma síntese; a parte que reservei para mim atém-se à arte da escritura.

Durante meu doutorado em 1985, na sala Liard, na Sorbonne, Julia Kristeva me disse: “Senhor Peignot, você escreveu em um dos seus livros: “Os lingüistas arrastaram Deus sempre como a um grilhão…” Que você quer dizer com isso?” E eu sentia que havia assim mesmo, na escritura, não forçosamente a nossa escritura romana, ocidental, mas do lado dos hieróglifos (“escritura sagrada”, em grego), do lado dos cuneiformes também (a estela de Marduc, etc.), um aspecto sagrado…

Tinha deixado esta fórmula escorrer sob a minha pluma em De l’écriture à la typographie e Julia Kristeva me retomava esse assunto. Na seqüência dessa observação, escrevi esse pequeno livro que chamei de Moïse, ou la Preuve par l’écriture de l’existence de Yahvé, obra a que dei o subtítulo “Petit essai d’épigraphie polémique”. Não o dediquei a Julia Kristeva, talvez eu devesse, mas pus como epígrafe: “Quando as tábuas se quebrarem, as letras voarão e , diante dos olhos de toda Israel, elas retornarão a seu lugar original”. Assinado: o Talmud)

Minha tese, e a demonstro, é que as Tábuas da lei e o alfabeto, são a mesma coisa. Contrariamente ao que afirmam as pessoas que organizaram a exposição que se realizou recentemente em Lyon (eu fui lá), e que se chama Ugarit, e para as quais é lá, na Síria, que o alfabeto foi descoberto, eu pretendo, que 1.500 anos antes de Jesus Cristo, foi Moisés (que gaguejava, porque ele não conseguia dominar os hieróglifos - é difícil, eles existem há 7 000! - o texto da Torá o explica bem, quando ele desce novamente do Sinai ele não gagueja mais…), que está na origem do alfabeto. Ele tinha compreendido que, com uns cinqüenta sinais, podia-se muito se virar!

Aliás, isso coincide com o uso do alfabeto hieroglífico por Aménophis IV, esse faraó “revolucionário” já que ele aboliu a religião de Amon para substituí-la pela de Aton, e sob o reino do qual os grilhões foram abertos para o povo egípcio. É então que se utilizou o alfabeto. Mas desde a morte de Aménophis IV (ele reinou dezoito anis), tem-se, parece, oberado voluntariamente o alfabeto. Com esse desaparecimento, o faraó perdia seu poder!

Aos pés do Sinai, Moisés reencontra esses primos germanos dos Hebreus que são os Cananeus e os Arameus. Sob a schlague (maneira bruta de agir) da soldadesca egípcia, esses homens exploram uma mina de turquesa. E nessa mina, transcrita sobre o flanco de uma pequena esfinge chamada “a deusa da turquesa”, que se descobriu a escritura alfabética dita “proto-sinaiética”. Que essa escritura tenha inspirado Moisés, e que ele tenha tido, ou não, a revelação de seu uso sobre o Sinai, e sob a forma das Tábuas da Lei, sempre ocorre que, graças ao alfabeto, Moisés conseguiu convencer esses escravos a segui-lo, a ele e ao povo hebreu, até Israel.

Em suma, à descoberta do alfabeto corresponde a da liberdade.

Esse pequeno livro, Moïse ou la Preuve par l’alphabet de l’existence de Yahvé, eu o publiquei em 1988, e evidentemente ele vai ser assunto também na obra que será editada pela Laffont.

Em seguida, dediquei-me à “tipoesia”. De que se trata? Você conhece os construtivistas russos: El Lyssitzky, Rodchenko, Tatline, Gan… Em 1917, eles dizem para si mesmos: é preciso encontrar uma linguagem e uma escritura que sejam ao mesmo tempo revolucionárias - estamos ainda nisso: “mudar a vida”, como diz Rimbaud - e adaptados à evolução tecnológica do momento, o offset não está longe. Eles inventam então um movimento poético que se chama de o construtivismo, ainda mal conhecido na França, mas que revela um estilo artístico absolutamente prodigioso. Esse movimento poético e plástico foi retomado pelos estudantes em 1968, particularmente na Alemanha. E depois houve os trabalhos de Villeglé, de Dotremont, de Jasper Jones…

Em 1920, um homem que se chama Eugen Gomringer, um suíço alemão, lançou a idéia da “poesia visual”. É o avatar moderno do caligrama. Não se fala mais de texto que forma uma imagem mas, simplesmente, a partir de uma única palavra, pode-se tirar uma imagem. Por exemplo: a palavra “ZON”, em holandês, desenha um sol. A abstração é trazida ao concreto! o Sein und Zeit de Heidegger, O Ser e o Tempo, também…

“Tipoesia” é uma palavra-valise que eu inventei, à maneira de James Joyce. Grudamos duas palavras uma na outra e formamos finalmente delas um conceito. E o que se faz correntemente na língua alemã. “Tipoesia” é a contração entre tipografia e poesia. E é portanto uma antologia… e também a última obra publicada em tipos de chumbo pela Imprensa Nacional, em 1993. Ela teve muito sucesso.

Publiquei em seguida dois volumes de “tipoesia” nas Éditions des Cendres, em 1996: Toutes les pommes se croquent, “divertissement typoétique en cinq actes”, e Le Petit Peignot, “dictionnaire des mots-images”.

E depois tive a idéia de reunir “Tipoemas” de minha lavra (Editions du Seuil, 2004). O sistema que adotei é esse: tudo se passa entre a imagem, que é também um texto, e a legenda. Por exemplo, inverto um grande número de parênteses, ponho entre eles, que se viram de costas, um ponto, e dou ao todo, como legenda: “Coorte de deserdados recusando se deixar pôr entre parênteses”. De fato, as partes superiores dos dois parênteses invertidos representam os braços, as partes inferiores os pés.

Rafael Charco PortilloUm outro exemplo do qual fico contente: “La cour de l’école” (O pátio da escola). Os alunos da ENA deambulam no pátio, e quando eles caminham da direita para a esquerda, são asnos. Ou ainda: “Rose”, “Eros”, “Oser” (“Rosa”, “Eros”, “Ousar”…)

De fato, não inventei nada. O que fiz foi tirar a nata do que a linguagem porta. E pretendo que é a escritura do momento já que eu não poderia ter realizado tudo isso sem o computador. Meus “tipoemas” definem um novo gênero poético: é a escritura poética dos computadores! Este aqui foi realizado com um Xpress, E estou contente com ele. Chego a me pergunto-me por que não inventaram isso mais cedo.

Portanto mostrei, de certa maneira - como Leiris, em 1939, em Glossaire j’y serre mes gloses -, que a escritura, quando a deixamos se exprimir sozinha, traz referentes nos quais nós não havíamos pensado. No fundo, deixei a linguagem se exprimir no meu lugar.

Se você me permite, tenho um lamento para formular: meus livros de pura literatura foram “dublados” por meus escritos sobre a escritura. Isso me afeta tanto mais quanto, do conjunto de minha obra, é ao que estou mais ligado. Esperemos que, com o tempo, as coisas se restabeleçam. Ao menos, ao menos que não seja preciso esperar mais. Há muito tempo, uma vidente me disse que eu terei a glória póstuma… Não peço tanto dela.

E depois, publiquei também, em 2000, “Petit traité de la vignette”, na Imprensa nacional: é o último livro meu que ela editou.

A Imprensa nacional (I.N.), criada por François I, sob o nome de Imprensa real, relegava ou relega a outros as suas publicações. Estamos prestes a assistir à agonia da Imprensa nacional, com tudo o que ela comporta… Tentamos salvar, com uma pequena equipe de umas vinte pessoas, seu patrimônio tipográfico… que tem um valor internacional!

E incrível! Os punções de Garamond, que estão lá desde François I, caracteres de impressão em setenta línguas diferentes, uma biblioteca de trinta a quarenta mil livros… um tesouro nacional está prestes a desaparecer, sem que os poderes públicos se comovem com isso.

Ocupo-me desse dossiê desde a época do meu doutorado, e mesmo antes, já que isso remonta à chegada de Mitterrand em 1981. Faz tempo! Apenas Jack Lang fez alguma coisa. Ele pôs em funcionamento uma Comissão interministerial que criou um ateliê tipográfico na Imprensa nacional, encarregado de digitalizar o patrimônio tipográfico nacional.

Esse ateliê fechou, por falta de meios financeiros. O protótipo de uma fotocompositora de quarta geração tinha sido criado: a máquina foi posta a pique pelo ministro da cultura Léotard. O relatório que eu tinha escrito, na seqüência da missão de que eu tinha sido encarregado por Jack Lang em 1993, não foi aberto por seus sucessores, e entretanto isso diz respeito ao mesmo tempo à Cultura, à Educação nacional, à Indústria, à Pesquisa…

Hoje, estamos à beira do abismo. A Imprensa nacional está vendida, o imóvel da Rua de la Convention está vendido, o déficit da Imprensa nacional é abissal… A situação se encontra de tal modo que eu sou praticamente o único escritor a me ocupar disso. E curioso, mas está assim.

Eis aqui um documento: o dossiê da Imprensa nacional, que foi publicado em Arts et Métiers du Livre (N° 245 de dezembro de 2004), e que faz o relato dessa história e desse patrimônio mundial.

Leio: “O anúncio da venda dos locais da Rue de la Convention ao grupo americano Carlyle e portanto da transferência próxima da Imprensa nacional renovou e reavivou as inquietudes quanto ao devir de seu patrimônio. Na saída de Jean-Luc Vialla em junho de 2003, a construção de um prédio em Choisy-le-Roi (Val-de-Marne) era considerada para acolher esse museu e a unidade de produção folhas (feuilles), projeto que por fim se restringiu à única acolhida da unidade folhas, sem que uma outra solução seja envisagée para o gabinete dos punções do ateliê do livro. Num artigo publicado no Le Monde de 1º junho, M. Guillerme, professor do Conservatoire national des Arts et Métiers alertava a opinião pública, enquanto que o comitê nascia. Fundado para salvaguardar esse excepcional patrimônio, ele lançou na Internet uma petição endereçada ao presidente da República, cujo objetivo era reunir ao menos 5 000 assinaturas até o fim de outubro de 2004. Traduzida em vinte línguas, ela coletou até a data desejada 12.021 assinaturas. A lista das assinaturas mostra uma excepcional mobilização, não apenas dos profissionais mas de um público de todos os horizontes e de todas as nacionalidades.”

Sobre esse assunto, reunimos, pois, esse grupamento que chamamos de “Patin” (Patins), que dialogou por muito tempo pela Internet, e agora aconteceu: nós achamos uma solução.

Nós a propusemos ao M. Loïc Lenoir de la Cochetière, que é diretor da Imprensa nacional no momento, ele não será mais por muito tempo, pois todos esses senhores se sucedem de dois em dois anos… Conheci M. Bonnin, M. Fiszel, M. Beaussant, M. Saffache, são Inspetores das Finanças, que fazem uma carreira na administração, e que passam um momento na Imprensa nacional. Os fatos estão aí: todos administraram a prova de que a sorte desse patrimônio não os interessa mais que isso.

Na revista já citada, coloca-se para o atual diretor da I.N., M. Loïc Lenoir de la Cochetière, a seguinte questão: “Você acaba de vender o prédio. Será que esse prédio não pode financiar a construção e a criação do que chamamos de “CITE”, quer dizer um Conservatório da Imprensa e da Tipografia e do Escrito?”

“A venda do imóvel da Rue de la Convention, replicou ele, nem mesmo para preencher o déficit! O produto dessa venda se eleva a 85 milhões de euros, a Imprensa nacional perdeu 105 milhões de euros em 2003, portanto todo esse dinheiro já está consumido, as perdas foram monstruosas, o déficit do ateliê do livro de arte e de estampas, é de menos de um milhões de euros…”

A Revista Arts et Métiers du Livre cita ainda esse diretor: “Na primavera de 2005 (outono no Brasil), os locais do número 27 da Rue de la Convention deverão ser postos à disposição de seu novo proprietário… A ata de venda não está ainda assinada, a promessa de venda foi assinada em 2003, mas ela compromete de maneira irreversível as duas partes já que as condições suspensivas são a obtenção do alvará de construção e a despoluição do lugar que cabe a nós. O alvará de construção foi obtido e a despoluição começou e temos até o fim de 2005 para terminá-la.”

Elaboramos então esse projeto de salvaguarda: “CITE”, que podemos achar na Internet, e que prevê reagrupar o patrimônio da Imprensa nacional na Escola Estienne. Supondo que ela aumente seu espaço físico pois suas construções são ainda insuficientes. Essa escola é o último lugar onde permanece ainda um saber-fazer (savoir-faire) na matéria. E preciso também pensar nos operários envolvidos! É o que fazia Pierre Leroux. Não o nosso governo. Nesse momento, na França, há muita liquidação.

E eis aqui, finalmente, sobre o que caio, e que fiz que fosse posto como epígrafe de nosso projeto: “Entre as diferentes causas que concorreram para nos tirar da barbárie, não é preciso esquecer a invenção da arte tipográfica. Portanto desencorajar, abater, envilecer essa arte, é trabalhar para nos mergulhar novamente na barbárie e formar uma liga com a multidão dos inimigos dos conhecimentos humanos.”

Isto aqui figura na Lettre sur le commerce de la librairie, de Diderot, escrita em 1763! 

Entrevista realizada em fevereiro de 2005, originalmente publicada na revista eletrônica Remue.Net (www.remue.net), aqui reproduzida com expressa autorização de Dominique Hasselmann, em tradução de Eclair Antonio Almeida Filho. Contato: dominique.hasselmann@wanadoo.fr. Página ilustrada com obras do artista Rafael Charco Portillo (México).

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