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revista de cultura # 53 |
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Thomas Rain Crowe: diálogos sobre Surrealismo nos Estados
Unidos Floriano Martins
Thomas Rain Crowe é poeta, tradutor e editor-chefe da New Native Press. Durante os anos 1970 foi diretor do primeiro festival internacional de poesia de San Francisco (1976) e editor da revista e da editora Beatitude. Sua própria obra inclui The Laugharne Poems que foi escrito em Laugharne, Wales, na casa de Dylan Thomas, durante os verões de 1993 e 1995, e The Personified Street (com uma Introdução de Jack Hirschman), de seus anos em San Francisco durante os anos 1970. Escreveu um prefácio para a antologia The Baby Beats & The 2nd San Francisco Renaissance a ser publicado na França por La Main Courante no outono de 2005. Esta entrevista foi realizada em julho de 2006, e consta do 2º vol. de O Começo da Busca (obra em preparação). [FM]
TRC Sim, era “pensamento livre integral”, como você chama, que era a coisa mais importante para mim em termos tanto da literatura beat quanto do surrealismo francês. No lado beat, era essencialmente a máxima do “primeiro pensamento, o melhor pensamento”, que foi acrescentada por Kerouac que era crítico. No lado francês, Breton levou esta máxima um pouco mais longe, e dogmaticamente, para dentro do subconsciente, com restrições quanto ao conteúdo que era “do mundo”. Penso que ele estava mais interessado nos outros mundos do que naquele em que estava vivendo. E seu Manifesto era uma tentativa de impor essa perspectiva a seus companheiros de surrealismo, pelo menos o mundo em geral. Minha percepção era que, enquanto Kerouac estava vivendo no mundo, e era do mundo, Breton estava vivendo a maior parte do tempo em sua cabeça. FM Você fala em uma relação com a tradição céltica, um tema que teria dado a você uma maior intensidade entre voz e texto. Um poeta como Robert Graves despertou algum interesse para a tua poesia? Além da aproximação aos Beats, quais eram os poetas que você mais lia? TRC Deixe-me começar por responder a segunda parte da tua questão, primeiro, conforme ela se relaciona com tua questão anterior. Minha descoberta dos beats foi para mim o “sinal para acordar” quando eu estava ainda na minha adolescência. Logo depois, descobri a poesia de Yevgeny Yevtushenko e Andrei Vosnesensky na Rússia (A União Soviética). Eles estavam, mais ou menos, escrevendo numa voz e numa tradição similares às dos Beats. Ao pesquisar mais sobre esses dois poetas, também descobri muitos poetas russos de uma geração anterior. Maiakovsky, Esenin, Khlebnikov, Krushchenek, Pasternak, Mandelstam. E entre as mulheres: Akhmatova, Tsvetayeva e Akhmadulina. Os “futuristas” russos, especialmente, captaram a minha atenção. Por volta desta mesma época, eu estava descobrindo a obra dos franceses. Rimbaud, Baudelaire, Lautréamont, Bachelard, Voltaire, Fournier, Balzac, Artaud. Estes escritores franceses, juntamente com os pintores surrealistas franceses, tiveram para mim uma influência maior que Breton ou os escritores surrealistas. Assim, esta trindade de russos, franceses e beats é realmente o que formou minha própria oeuvre bem no início, e ainda apresenta uma certa importância, mesmo hoje.
Assim como a tradição céltica. É algo que tenho recentemente preferido visitar. Fiz minha primeira viagem para o País de Gales em 1993 - para visitar a cidade natal de Dylan Thomas, quem considero ser o maior poeta do século 20 que escreveu em língua inglesa. Esta viagem para Laugharne foi algo como que uma peregrinação para mim. Durante essa primeira visita, fiquei exposto à amplitude e à profundidade da tradição literária galesa, e fui arrebatado por isso. Tive a oportunidade de me encontrar com um dos maiores poetas/escritores contemporâneos galeses, Bobi Jones. Bobi Jones me pôs na trilha tanto de outros poetas galeses, quanto na de livros sobre a tradição galesa. Foi a minha introdução inicial às coisas célticas. De lá, eu fui, em 1995 até a Escócia (onde tudo de minha ascendência se origina). Encontrei-me com poetas contemporâneos tais como o poeta escocês gaélico Aonghas MacNeacail em Edinburgh, e com Tessa Ransford na Scottish Poetry Library (Biblioteca de Poesia Escocesa). A partir destes encontros comecei meu estudo de tradições escocesas e da língua escocesa gaélica. Nesse mesmo ano, passei pela Irlanda. Tive contatos com pessoas no Poetry Ireland e visitei várias livrarias tanto em Dublin quanto, no oeste, em Galway. Depois de muitas leituras e depois de muitos Guinness (uísque escocês), eu estava desligado e correndo. Dois anos mais tarde e mais duas viagens para o País de Gales, Escócia e Irlanda, e tinha coletado, editado e publicado a primeira antologia bilíngüe contemporânea que abrangia poetas de línguas célticas das comunidades célticas do País de Gales, Irlanda, Escócia e Bretanha, Cornwall e a Ilha de Man. Esta antologia foi um grande sucesso nos países célticos, conforme ela unificava com sucesso os clãs – algo que nem mesmo o Bonito Príncipe Charles poderia pôde fazer! O livro é usado, agora, como livro-texto em vários programas de estudos célticos de universidades nos EUA e no Canadá. O que eu tirei de tudo isto foi principalmente um amor do verso lírico, e ter incorporado este elemento a minha própria obra. FM Como era tua convivência com a música? Que tipo de música? E como a tua poesia se beneficiava com esta convivência? TRC Enquanto minha obra ficava mais lírica seguindo minhas viagens para as ilhas britânicas, descobri que a idéia da tradição bárdica tornava-se de interesse para mim. Nos tempos antigos nessas tradições célticas, a poesia era recitada muito freqüentemente com acompanhamento musical. Eu queria explora isto e dar à minha poesia uma sonoridade maior e mais completa. Em 1991 formei uma banda de música e comecei a fazer performances de poesia falada com música. No processo, criei um selo musical (Fern Hill Records) dedicado exclusivamente à colaboração de poesia e música. Tenho produzido, agora, vários discos neste gênero – usando minha própria obra e a obra de outros poetas, também. Mais recentemente minha banda, The Boatrockers, e eu estivemos performando um tipo de música do oriente médio para acompanhar minhas traduções para décimo quarto século do poeta sufi Hafiz. Mas nós também, na ocasião, nos aventuramos em outras áreas musicais, bem como na poesia política – que parece necessária para mim, dado o clima político nos EUA no presente momento.
TRC Como mencionei antes, a máxima de Kerouac “primeiro pensamento, o melhor pensamento” era, e é uma máxima que tenho seguido. Poesia, para mim, sempre esteve às voltas com “a mágica.” O processo, bem como o produto, é um mistério. De onde ela vem e até mesmo sobre o que ele (o poema) é, é parte desta mágica, deste mistério. Em essência apenas abri as janelas e as portas e o deixei (o poema) entrar. Não sei se meus poemas vêm do inconsciente ou do mundo exterior. Tudo que sei é que eles entram em mim e me atravessam vindos de um “outro” lugar. Breton e os surrealistas falam muito sobre o “outro”. Não está claro o que o “outro” é, mas definitivamente não é a mente racional. A mente racional é o criador da prosa. Poesia não é prosa. Jack Hirschman, poeta da geração Beat e um dos meus mentores desde meus anos em San Francisco durante os anos 1970s, escreveu um ensaio muitos anos atrás intitulado “No Such Thing As Prose” (Não uma coisa tal como a prosa). Neste ensaio ele tentou delinear as diferenças entre prosa e poesia. No fim, ele tomou partido pela poesia como o mais genuíno veículo para a transmissão de idéias por meio da linguagem. Concordaria com ele nesta passagem. Embora eu escreva uma boa quantidade de prosa nestes dias para garantir minha sobrevivência, quando escrevo poesia é um processo inteiramente diferente do que quando estou (conscientemente) escrevendo prosa. FM As leituras em público antecedem, em teu caso, a publicação de poemas em revistas ou livros? O contato direto com o público de alguma maneira despertou em você uma fascinação pelo teatro? TRC Às vezes, meus poemas aparecem em publicações antes de eu os performar realmente em público. E às vezes não. Não tenho fórmulas estabelecidas para tudo isso. Muito disso está fora do meu controle – o tempo de tais coisas. Posso te contar que, ao performar meus poemas em público, há um processo orgânico de edição que permanece boa parte do tempo. Aprendi isto de Lawrence Ferlinghetti, que frequentemente lê um novo poema em público e o edita direto no lugar. Ele está interessado em como o seu ouvido percebe as coisas conforme elas são faladas. Eu cheguei a fazer a mesma coisa. Se algo em um novo poema soa estranho na leitura, eu frequentemente a mudo ou na revisão da composição eu a tiro, mais tarde. Durante os anos 1970 em San Francisco, que é onde eu realmente aparei minhas arestas como um poeta público, eu levei minha não-doutrinação e minha iniciação para o lado teatral do trabalho do poeta. Eu era tímido e inexperiente na performance pública, no início, mas mais eu lia em público, mais fácil ficava. E quanto mais fácil ficava, mais experimental era minha abordagem a isso tudo. Jack Hirschman tinha traduzido um volume de obras de Artaud, e estava mais ou menos atuando a partir das noções de Artaud de absurdo e de teatro político em sua vida diária. Suas aparições e suas performances de poesia eram revitalizantes, elétricas. Aprendi muito apenas por estar por perto e por observar o Jack. Aprendi muito sobre projetar a voz de alguém ao observá-lo e escutá-lo. Isto tem servido bem para mim, enquanto nos últimos anos eu me tornei mais e mais um performer público com bandas maiores e maiores. Ou, quando possível, nós combinamos formas de arte e nossas performances são multimídia. No espírito da noção de Wagner “Gesamtkunstwerk” (obra de arte total), frequentemente as performances dos The Boatrockers performances incluirão não apenas músicas e língua falada, mas iluminações visuais, projeções, e danças ao vivo, também. Neste sentido, poesia se tornou teatro, como você sugere. FM Hoje é possível falar em uma família literária em relação à tua poesia ou este é um tema que não te desperta interesse? TRC Eu sou muito mais um renegado, um fora-da-lei, como poeta. Pelo menos é assim que passei minha vida poética nestes últimos 25 anos, desde que deixei San Francisco e meu trabalho como o grupo da revista Beatitude e os beats. Todavia, ainda me considero fazendo parte dessa “família” como você chama, e parte da tradição beat. Embora eu não goste de rótulos, e não estou propenso a me juntar a grupos, mantenho uma lealdade a essa tradição e a esses poetas com quem fiz amizade durante os anos 1970, e que permaneceram meus amigos, ou pelo menos coortes. Acredito que o movimento beat foi mais que um lampejo que só aconteceu durante um período curto entre um pequeno grupo nos anos 1950. Minha geração foi diretamente influenciada pelos beats. Especialmente aqueles entre nós que estavam vivendo em San Francisco e convivendo com eles, trabalhando com eles em projetos de publicação e performando com eles em leituras públicas. Suas idéias e valores literários foram literalmente transmitidos de mão em mão para nós, “Baby Beats”, durante os anos 1970, e, agora, repassamos esses valores, essa tradição para toda uma geração de “grandbaby beats”, se você acha melhor. Assim, a coisa está em progredindo. Ou, como o dito permanece: “the Beat goes on.....” (A batida continua)
FM É possível se falar em Baby Beats como um movimento com características próprias? Ou esta denominação expressa apenas um desdobramento da geração anterior? TRC Eu não diria que o grupo que foi designado como os “Baby Beats” era um movimento consciente, em e de si mesmo, antes, uma continuação do “movimento” que foi iniciado nos anos 50 pelos Beats. Em termos de uma tradição literária, está na linha [a próxima] após a geração Beat dos anos 50 – nós chegamos nos anos 70. Há um vínculo bem definido físico, ideológico e literário entre os Beats e os Baby Beats. Como sói acontecer, o futuro nos dará uma identidade, talvez, seja tudo nosso próprio e se possa mesmo chamá-lo de um “movimento”. Mas, na realidade, éramos apenas um grupo de poetas trabalhando para ser poetas e não pensando sobre o futuro e nosso legado. FM Em uma entrevista que você fez ao Philip Lamantia você pergunta a ele sobre o Grupo Surrealista de Chicago. Eu gostaria de saber a tua opinião acerca das atividades deste grupo. Um outro poeta que em certo momento esteve ligado ao grupo é Allan Graubard. Ele considera este grupo demasiado ortodoxo. Você pensa a mesma coisa? TRC Não tenho muito conhecimento sobre o Grupo Surrealista de Chicago a partir de qualquer experiência de primeira mão ou de conexões. O que eu conheço é o que ouvi de pessoas como Philip Lamantia, Stephen Schwartz, Ken Wainio, Jerry Estrin (com exceção de Stephen Schwartz, os outros três já morreram) e o que eu li em suas publicações e na mídia em geral. Minha percepção é que eles estão vinculados a Breton e aos surrealistas franceses filosoficamente, mas são sua própria identidade em todos os outros modos. Parecem ser muito políticos, e ter inclinações para o Socialismo, até mesmo para o Anarquismo. Eles são certamente o grupo literário surrealista com maior visibilidade nos EUA e nesse sentido o mais influente. Lamantia foi um “membro” durante um tempo, porém um tempo depois retirou-se. Então, deve ter havido algo no Grupo de Chicago de que ele não gostou ou do qual discordava. Mas então, de novo, ele podia ter sido, de toda maneira, uma pessoa de convivência muito difícil. FM Lamantia observa que no Surrealismo tudo começa com o sagrado, com a premissa de que poeta individualmente procura o velocino de ouro em si mesmo. O que procura Thomas? TRC eu penso que teria que concordar, amplamente, com ponto de vista de Lamantia, aqui. Eu não comecei como poeta pensando que tudo começava com o sagrado, mas com o decorrer do tempo eu passei a acreditar que, no fim, é o que é o mais importante. Que a poesia é parte de um ato sagrado, e tem implicações sagradas. Eu diria que, embora eu ame escrever poesia pelo puro prazer do ato, ao se levar em consideração o resultado, eu esperaria que meus poemas contivessem, aos olhos de meus leitores, algo de sagrado. E, sim, está tudo em torno da busca pelo “velocino” de ouro dentro de mim mesmo. Já que a verdadeira busca do poeta é encontrar a si mesmo ou a si mesma e encontrar o “ouro” (num sentido metafísico) na natureza de uma pessoa – para penetrar nesse veio e minerá-lo (escrever) em benefício de todos, não apenas para si mesmos. FM É possíval comparar as duas fases da revista Beatitude, dos anos 50 e 70?
FM Além de Lamantia, quais outros poetas surrealistas nos Estados Unidos consideras importantes? TRC Os dois poetas que conheço melhor são Ken Wainio e Jerry Estrin. Todos os dois viviam em San Francisco quando eu estava lá durante os anos 1970. Jerry Estrin foi o editor fundador de uma revista surrealista chamada Vanishing Cab, que, para a grana de que eu dispunha, era a melhor publicação surrealista dos EUA durante esses anos. Ele e Ken Wainio tiveram um livro de poemas em conjunto publicado pela Sternum Press durante os anos 70s chamado My Nakedness Creates You [A minha nudez te cria]. Jerry, que foi um motorista de taxi durante os anos que passou em San Francisco, chegou a publicar mais quatro livros de poesia antes de morrer aos 47 anos em 1993. Ken Wainio, sendo um jovem poeta em San Francisco nos anos 1970, que também garantiu seu sustento trabalhando de motorista de taxi, foi reconhecido e aclamado, por causa de seus primeiros poemas, tanto por Philip Lamantia quanto Nanos Valaoritis. Ele fazia parte das oficinas de Harold Norse, onde a maior dos Baby Beats originalmente se encontrava e começou a trabalhar juntos. Ele foi procurado pelo Grupo Surrealista de Chicago, mas não se juntou a eles. Escrevendo uma poesia surrealista que era denso de conteúdo mítico(especialmente egípcio e micênico), sua obra é considerado por muitos como sendo uma mistura singular de humor, sátira e séria observação histórica. Seu primeiro livro solo intitulado Crossroads of the Other [Encruzilhadas do Outro], publicado em 1993 pela Androgyne Books em San Francisco, é considerado agora um clássico. Nos últimos anos ele escreveu mais prosa que poesia, incluindo três romances, sendo que apenas um deles (Starfuck) foi publicado antes de sua morte prematura em janeiro deste ano (2006). Both Wainio and Estrin estavam envolvidos com a revista Beatitude. Wainio editou a edição #26 que saiu em 1976. O outro poeta surrealista que me vem à mente é Franklin Rosemont, que é o fundador e a figura central do Grupo Surrealista de Chicago. Ele é também o fundador da editora Black Swan Press. Desde o final dos anos 1960, ele tem sido uma voz útil e sincera da posição surrealista nos Estados Unidos. E ainda permanece ainda depois de quase 40 anos sendo um firme poeta e ativista surrealista. Tenho certeza de que há outros que poderíamos citar, mas na minha cabeça estes três são os mais importantes, no sentido de que suas obras irão igualmente resistir ao teste do tempo. FM Esquecemos algo? TRC Não, acho que cobrimos todas as bases. Ao menos fizemos o bastante para dar a teus leitores um pouco de alimento para o pensamento. Agradeço-te pelo interesse em meu trabalho e no trabalho dos Baby Beats. É muito excitante saber que haverá agora um público para nosso trabalho no Brasil e na língua portuguesa. Espero que tenhamos muitas outras oportunidades no futuro de ter conversas similares. |
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Floriano Martins (Brasil, 1957) é um dos editores da Agulha. A tradução esteve a cargo de Éclair Antonio Almeida Filho. Contato com Thomas Rain Crowe: newnativepress@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Luis López Gabú (Galiza). |
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