![]() |
|
revista de cultura # 53 |
|
Rio acima da elocução: encontro com Paul-Marie Lapointe Thierry Bissonnette
Se nos debruçamos mais longamente sobre essa personalidade discreta e estudamos em profundidade sua obra multiforme, a dificuldade de apreender o conjunto do fenômeno aparece. Encontramo-nos então levados numa pesquisa sobre a própria natureza da poesia, resistente à definição tanto quanto ela é sempre a aventura singular de um poeta. É uma cólera sagrada (ou uma sagrada cólera, à tua guisa) que dá nascimento aos primeiros poemas de um jovem de dezoito anos confrontado a uma atmosfera cultural sufocante para os criadores. Cólera traduzida em palavras que se pode apenas comparar em nossa literatura à obra de Claude Gauvreau, na origem aliás da primeira publicação de Paul-Marie Lapointe e determinado como ele a fazer ir a pique as conveniências e a hipocrisia do fim dos anos 40. “Para um adolescente que se interrogava sobre a natureza da vida, seu futuro, observa Paul-Marie Lapointe, era um período bastante negro. Eu tinha uma necessidade fundamental de me interrogar sobre aquela sociedade e de ver como alguém podia se tornar um homem nesse contexto. Para mim, a poesia, Le vierge incendié, foi uma maneira de me interrogar sobre a maneira de ser livre dentro ou fora daquele universo.” Essa maneira não foi nada menos do que um retorno ao caos gerador de onde proveio essa centena de textos que causaram o efeito de uma bomba de retardamento anos mais tarde, enquanto uma outra geração descobria parentescos entre si com essa coragem solitária. Explosão sintática nas fronteiras do inteligível, estética flertando com prazer com o terrorismo verbal, contaminação da prosa, esse ataque liberador pode ainda hoje se ler como um catecismo do espírito livre, uma encantação fazendo tábua rasa e permitindo todas as iniciativas de partida, ao preço de um risco máximo. Pois uma invectiva e uma desconstrução dessa ordem contêm sempre uma parte de promessas proporcional à agitação que elas efetuam.
A parte de agressividade que marca os primórdios de Paul-Marie Lapointe na escritura só se atenuará, durante a pausa de 12 anos que termina com o livro Choix de poèmes, ao proveito de um canto inovador, feito de improvisação e de audácia, mas que não se priva de enlaçar o mundo em seu movimento. Nele subsiste o espírito de independência que corresponde bem à fórmula de Yves Bonnefoy para quem “[es]crever a poesia é querer se desfazer da autoridade dos sistemas de representação”; dito de outra maneira, permitir-se a escritura poética apenas uma vez purgadas as tendências ao endurecimento impressas pelo uso tanto na língua quanto na cultura. O que explica em parte a nota conflitual freqüentemente presente na esteira da arte. “O exercício da poesia, segundo Paul-Marie Lapointe, é um exercício sobre as palavras, que representam o mundo e traduzem a verdadeira realidade. É aqui que é interessante se questionar sobre a relação entre poesia e prosa. Valéry dizia que, na prosa, as palavras desaparecem, são destruídas à medida que o sentido se constrói; na poesia, cada uma das palavras está colocada lá para si mesma e deve tornar-se o elemento mais importante da leitura. Isso diferencia a linguagem da poesia de um uso servil ou que visa a utilidade. É um face a face com o mundo tal como ele é através das palavras que o expressam mais do que uma construção intelectual. É o que faz com que a poesia seja uma arte de criação, como a pintura e as outras artes. Além do mais, é um dos únicos lugares onde se pode explorar a cólera sem, no entanto, derramar sangue, se recolocar em questão sem se destruir.”
Entretanto, Paul-Marie Lapointe sai de sua rota quando ele apresenta seu mais recente projeto, de um ludismo sem igual, mas que um rigor, uma depuração absolutos enquadram sempre. Não é preciso se enganar nele, já que Le sacre é uma obra síntese onde se reconhece a deriva controlada, a ironia presente em vários textos precedentes, e onde ele prossegue cada vez mais a exploração do caligrama atraído com o massivo écRiturEs: dois volumes onde as palavras se entregam com prazer e alegria num verdadeiro “êxtase material”. Somente no momento em que vários poetas retornam em direção ao metafísico puro, ele abandona a atitude mais austera que conservou em tempos de eufonia para rivalizar em invenção com os criadores de conceitos publicitários mais apaixonados por figuras de estilo.
Esse jogo com as esperas do leitor e da crítica sublinha então a concepção que o poeta se faz do ato de leitura de um texto: a leitura deve ser desestabilizante, exigir que nós que nos invistamos nela, não se reduzir à simples observação ou a uma satisfação fácil. “O poema é feito de ‘buracos’ no espaço e exige a participação do leitor. Muitas pessoas amam a poesia, poucas sabem lê-la, quer dizer, aproveitar-se do poema para fazer um exercício de criação e de liberdade. A leitura de um poema é um pouco o contrário da televisão, diante da qual se é completamente passivo, tal um ‘recipiente’, ao invés de aprender a fabricar imagens como se faz em situação de leitura.” Paul-Marie Lapointe não se fecha entretanto numa torre de marfim que a crítica lhe teria construído ao longo dos decênios. Ele participa na ocasião das noitadas poéticas, pudemos ouvi-lo no Festival de Trois-Rivières em sua edição de 1997, depois, por um segundo ano, em Québec, nos eventos Les Poètes de l’Amérique française (os poetas da América francesa), do qual ele lançou a temporada em outubro com a leitura integral do longo poema “Arbres”, momento de uma grande intensidade. Mas, repetimo-lo, trata-se, antes de tudo, do poeta por excelência da página lida em solidão, no contato visual e plástico com o texto. Não nos assustemos aliás com seu gosto pelas artes visuais: ele fez em sua primeira juventude estudos curtos nas Belas Artes, e em certos livros textos e material pictural se correspondem. “A pintura foi para mim uma carreira abortada. Acreditava ter talento nela, não era realmente o caso. Do lado escritura, o livro Tableaux de l’amoureuse foi inspirado pela obra de Gisèle Verreault, minha esposa. São traduções poéticas de quadros que eu amava. Para Bouche rouge trabalhamos diferentemente: nós nos demos uma temática geral para realizar um livro de artista, seja a história da feminilidade e da imagem da mulher através das épocas. Em écRiturEs, os caligramas e os jogos tipográficos vêm de um gosto particular pela impressão gráfica que remonta aos tempos em que trabalhei para jornais entre outros como maquetista. Minha poesia é aliás mais visual que oral, ela é concebida como uma aplicação de traços pretos sobre uma folha branca primeiro, não como substrato destinado a ser lido. Sou um pouco mallarmeano sobre esse plano.”
Um pouco inquieto acerca do futuro da poesia em Québec, ele constata o renascimento de uma escritura mais exigente, cada vez menos tributária de debates e de clichês que podem apenas reduzir suas manifestações a bens de consumo mais ou menos duráveis. Não é preciso esquecer de fato que, sob uma aparência de destacamento, o poeta trabalha a própria estrutura de nossa percepção das coisas, tarefa ingrata, pois, dizia Roland Giguère do poeta, “esquecemos bastante em qual profundidade ele circula” e tomamos satisfação da primeira desculpa vinda para não lê-lo. Infatigável espeleólogo de todos os estratos do real, Paul-Marie Lapointe talvez não tenha, em seu caso, terminado de acumular as transformações assumidas e reunidas por sua assinatura, e, mesmo que seja apenas uma vez por decênio, seremos levados para além de nós mesmos pelos deslocamentos que ele submeteu ao olhar em seus livros. |
|
Entrevista originalmente publicada na Revista Nuit Blanche # 89. Hiver. 2002/2003. Contato: t.bissonnette@sympatico.ca. A tradução esteve a cargo de Éclair Antonio Almeida Filho. Página ilustrada com obras do artista Luis López Gabú (Galiza). |
| RETORNO À CAPA | ÍNDICE GERAL | BANDA HISPÂNICA | JORNAL DE POESIA |
|