revista de cultura # 53
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2006






 

Rio acima da elocução: encontro com Paul-Marie Lapointe

Thierry Bissonnette

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Paul-Marie LapointeÉ fácil, se alguém só leu Le vierge incendié (1948), confundir a arte de Paul-Marie Lapointe com o militantismo estético de antes da Revolução tranqüila que se encontrou em convergência com ele, notadamente para o que respeita ao célebre manifesto Refus global publicado no mesmo ano.

Se nos debruçamos mais longamente sobre essa personalidade discreta e estudamos em profundidade sua obra multiforme, a dificuldade de apreender o conjunto do fenômeno aparece. Encontramo-nos então levados numa pesquisa sobre a própria natureza da poesia, resistente à definição tanto quanto ela é sempre a aventura singular de um poeta.

É uma cólera sagrada (ou uma sagrada cólera, à tua guisa) que dá nascimento aos primeiros poemas de um jovem de dezoito anos confrontado a uma atmosfera cultural sufocante para os criadores. Cólera traduzida em palavras que se pode apenas comparar em nossa literatura à obra de Claude Gauvreau, na origem aliás da primeira publicação de Paul-Marie Lapointe e determinado como ele a fazer ir a pique as conveniências e a hipocrisia do fim dos anos 40. “Para um adolescente que se interrogava sobre a natureza da vida, seu futuro, observa Paul-Marie Lapointe, era um período bastante negro. Eu tinha uma necessidade fundamental de me interrogar sobre aquela sociedade e de ver como alguém podia se tornar um homem nesse contexto. Para mim, a poesia, Le vierge incendié, foi uma maneira de me interrogar sobre a maneira de ser livre dentro ou fora daquele universo.” Essa maneira não foi nada menos do que um retorno ao caos gerador de onde proveio essa centena de textos que causaram o efeito de uma bomba de retardamento anos mais tarde, enquanto uma outra geração descobria parentescos entre si com essa coragem solitária. Explosão sintática nas fronteiras do inteligível, estética flertando com prazer com o terrorismo verbal, contaminação da prosa, esse ataque liberador pode ainda hoje se ler como um catecismo do espírito livre, uma encantação fazendo tábua rasa e permitindo todas as iniciativas de partida, ao preço de um risco máximo. Pois uma invectiva e uma desconstrução dessa ordem contêm sempre uma parte de promessas proporcional à agitação que elas efetuam.

Luis López GabúComparar-se-á a justo título a incursão desse jovem autor de problemas na paisagem cultural com aquela na França de Arthur Rimbaud, para a fulgurância e a suspensão total das certezas que eles inspiram. No momento em que se decide publicá-lo, Paul-Marie Lapointe reescreverá em uma semana o volume ao qual ele dedicou quase um ano. Ele dá um ritmo e uma forma definitivos a esse detonador com o qual carrega o inconsciente quebequense. Pois aquele que Gaston Miron considerava como o maior de nossos poetas trabalha a montante da oralidade, até ao ponto de surgimento da força imaginária. “Sim, é na própria natureza da poesia que desejo e consigo às vezes fazer estabelecer esse gênero de abertura ao exame do mundo e de si mesmo que pertence a todas as épocas, bem como para mim Rimbaud incita constantemente a se interrogar, me alimenta constantemente. Desejo que minha poesia possa, que seja com Le vierge incendié ou com la Nuit du 15 au 26 novembre 1948, permitir a um leitor se exercitar na liberdade, em tudo o que nos permite nos situar no mundo, isto justamente porque ela não é datada. Um verdadeiro poema não deve, aliás, envelhecer.” Não há de fato mais obstáculos - nem comodidade - para o leitor de hoje do que para aquele leitor de ontem para se recolocar em questão, levado no tumulto dessas primeiras obras, que atacam tanto no todo quanto em múltiplas “pequenas obscuridades”.

A parte de agressividade que marca os primórdios de Paul-Marie Lapointe na escritura só se atenuará, durante a pausa de 12 anos que termina com o livro Choix de poèmes, ao proveito de um canto inovador, feito de improvisação e de audácia, mas que não se priva de enlaçar o mundo em seu movimento. Nele subsiste o espírito de independência que corresponde bem à fórmula de Yves Bonnefoy para quem “[es]crever a poesia é querer se desfazer da autoridade dos sistemas de representação”; dito de outra maneira, permitir-se a escritura poética apenas uma vez purgadas as tendências ao endurecimento impressas pelo uso tanto na língua quanto na cultura. O que explica em parte a nota conflitual freqüentemente presente na esteira da arte. “O exercício da poesia, segundo Paul-Marie Lapointe, é um exercício sobre as palavras, que representam o mundo e traduzem a verdadeira realidade. É aqui que é interessante se questionar sobre a relação entre poesia e prosa. Valéry dizia que, na prosa, as palavras desaparecem, são destruídas à medida que o sentido se constrói; na poesia, cada uma das palavras está colocada lá para si mesma e deve tornar-se o elemento mais importante da leitura. Isso diferencia a linguagem da poesia de um uso servil ou que visa a utilidade. É um face a face com o mundo tal como ele é através das palavras que o expressam mais do que uma construção intelectual. É o que faz com que a poesia seja uma arte de criação, como a pintura e as outras artes. Além do mais, é um dos únicos lugares onde se pode explorar a cólera sem, no entanto, derramar sangue, se recolocar em questão sem se destruir.”

Luis López GabúQue, cinco decênios após Refus global, a poesia bem como a filosofia conhecem certa nova elevação na estima das jovens gerações, da mesma maneira que sobressaltos de atenção ocasional nas mídias não assustam a Paul-Marie Lapointe além da medida. Consciente da dificuldade de pôr palavras sobre um mal-estar contemporâneo tão potente quanto dissimulado pelo entrechoque de tantos discursos e imagens, ele não manifesta menos, por isso, certas inquietudes. Poeta em tempos de aflição, ele conhece bem os ardis da poesia que consegue ao desviar a nevrose, ao construir na fala lugares de transformação potencial. “Talvez as pessoas sintam a necessidade de ir mais longe em sua reflexão sobre o mundo e vão se debruçar sobre o estudo ou o exercício da escritura poética para tentar encontrar motivos no universo no qual eles estão postos e que não os satisfaz. Mesma coisa para a filosofia, que está bem perto, em minha opinião, da poesia, ainda que o filósofo construa máquinas querendo para si explicações do mundo, enquanto que o poeta busca antes de tudo se situar nele. Ler os filósofos me interessa freqüentemente mais que o romance; ler um filósofo é para mim tão importante quanto ler Rimbaud ou um outro poeta, pois se encontra nele uma reflexão que se associa à procura de outra coisa que contingências.”

Entretanto, Paul-Marie Lapointe sai de sua rota quando ele apresenta seu mais recente projeto, de um ludismo sem igual, mas que um rigor, uma depuração absolutos enquadram sempre. Não é preciso se enganar nele, já que Le sacre é uma obra síntese onde se reconhece a deriva controlada, a ironia presente em vários textos precedentes, e onde ele prossegue cada vez mais a exploração do caligrama atraído com o massivo écRiturEs: dois volumes onde as palavras se entregam com prazer e alegria num verdadeiro “êxtase material”. Somente no momento em que vários poetas retornam em direção ao metafísico puro, ele abandona a atitude mais austera que conservou em tempos de eufonia para rivalizar em invenção com os criadores de conceitos publicitários mais apaixonados por figuras de estilo.

Luis López GabúO manuscrito que ele põe sobre a mesa constitui um empreendimento de brocagem semântica no interior da blasfêmia mais pesada, mais completa, sonora e carregada de conotações do vocabulário quebequense. Querendo tomar o contrapé disso, o poeta, após uma introdução que contém antropologia lingüística, aproveita-se de sua ocorrência em língua mexicana, tabarnacos, e desenvolve uma série de acrósticos, anagramas, paragramas e outros tropos, no seio dos quais o dito sagrado se encontra ininterruptamente utilizado, triturado, remembrado etc. Fazendo oscilar o discurso entre o maravilhamento, a cólera e o resto da paleta da blasfêmia, Paul-Marie Lapointe constrói em simetria mapas geográficos mexicanos que são constelações, as letras da palavra sagrada fazendo sempre ofício de ponto religando as formas que refletem  em negativo.

Esse jogo com as esperas do leitor e da crítica sublinha então a concepção que o poeta se faz do ato de leitura de um texto: a leitura deve ser desestabilizante, exigir que nós que nos invistamos nela, não se reduzir à simples observação ou a uma satisfação fácil. “O poema é feito de ‘buracos’  no espaço e exige a participação do leitor. Muitas pessoas amam a poesia, poucas sabem lê-la, quer dizer, aproveitar-se do poema para fazer um exercício de criação e de liberdade. A leitura de um poema é um pouco o contrário da televisão, diante da qual se é completamente passivo, tal um ‘recipiente’, ao invés de aprender a fabricar imagens como se faz em situação de leitura.”

Paul-Marie Lapointe não se fecha entretanto numa torre de marfim que a crítica lhe teria construído ao longo dos decênios. Ele participa na ocasião das noitadas poéticas, pudemos ouvi-lo no Festival de Trois-Rivières em sua edição de 1997, depois, por um segundo ano, em Québec, nos eventos Les Poètes de l’Amérique française (os poetas da América francesa), do qual ele lançou a temporada em outubro com a leitura integral do longo poema “Arbres”, momento de uma grande intensidade. Mas, repetimo-lo, trata-se, antes de tudo, do poeta por excelência da página lida em solidão, no contato visual e plástico com o texto. Não nos assustemos aliás com seu gosto pelas artes visuais: ele fez em sua primeira juventude estudos curtos nas Belas Artes, e em certos livros textos e material pictural se correspondem. “A pintura foi para mim uma carreira abortada. Acreditava ter talento nela, não era realmente o caso. Do lado escritura, o livro Tableaux de l’amoureuse foi inspirado pela obra de Gisèle Verreault, minha esposa. São traduções poéticas de quadros que eu amava. Para Bouche rouge trabalhamos diferentemente: nós nos demos uma temática geral para realizar um livro de artista, seja a história da feminilidade e da imagem da mulher através das épocas. Em écRiturEs, os caligramas e os jogos tipográficos vêm de um gosto particular pela impressão gráfica que remonta aos tempos em que trabalhei para jornais entre outros como maquetista. Minha poesia é aliás mais visual que oral, ela é concebida como uma aplicação de traços pretos sobre uma folha branca primeiro, não como substrato destinado a ser lido. Sou um pouco mallarmeano sobre esse plano.”

Luis López Gabú

Um pouco inquieto acerca do futuro da poesia em Québec, ele constata o renascimento de uma escritura mais exigente, cada vez menos tributária de debates e de clichês que podem apenas reduzir suas manifestações a bens de consumo mais ou menos duráveis. Não é preciso esquecer de fato que, sob uma aparência de destacamento, o poeta trabalha a própria estrutura de nossa percepção das coisas, tarefa ingrata, pois, dizia Roland Giguère do poeta, “esquecemos bastante em qual profundidade ele circula” e tomamos satisfação da primeira desculpa vinda para não lê-lo. Infatigável espeleólogo de todos os estratos do real, Paul-Marie Lapointe talvez não tenha, em seu caso, terminado de acumular as transformações assumidas e reunidas por sua assinatura, e, mesmo que seja apenas uma vez por decênio, seremos levados para além de nós mesmos pelos deslocamentos que ele submeteu ao olhar em seus livros. 

Entrevista originalmente publicada na Revista Nuit Blanche # 89. Hiver. 2002/2003. Contato: t.bissonnette@sympatico.ca. A tradução esteve a cargo de Éclair Antonio Almeida Filho. Página ilustrada com obras do artista Luis López Gabú (Galiza).

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