revista de cultura # 53
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2006

livros da agulha

 

Não somos racistas – Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor, de Ali Kamel01. Não somos racistas – Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor, de Ali Kamel. Ed. Nova Fronteira. Rio de janeiro. 2006.

Não somos racistas é um livro nascido do espanto. Movido pelo instinto de repórter, Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, começou a perceber que a política de cotas proposta pelo Governo Lula - e que pode ser aprovada em breve pelo Senado - divide o Brasil em duas cores, eliminando todas as nuances características da nossa miscigenação. Ali constata, estarrecido, que, nesta divisão entre brancos e não-brancos, os "não-brancos" são considerados todos negros: “Certo dia, caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. Cafuzo, mulato, mameluco, caboclo, escurinho, moreno-bombom? Nada disso, agora eram brancos ou negros. Pior: uma nação de brancos e negros, onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu”.

A tentativa de entender e reconhecer este novo país fez com que o jornalista, ex-aluno do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, revisse antigas leituras e pesquisasse documentos, livros e teses. O primeiro capítulo de Não somos racistas mostra como a política de cotas começou a ser construída no governo Fernando Henrique Cardoso. Mostra, ainda, como o jovem sociólogo Fernando Henrique foi uma das cabeças de um movimento que dominou parte da intelectualidade nacional nos anos 1950. Um movimento que se afastava do conceito de multiplicidade e democracia racial proposto por Gilberto Freyre em obras como Casa grande & senzala e dividia o Brasil entre duas cores: negros e brancos.

Com prefácio da socióloga Yvonne Maggie, uma das maiores estudiosas do assunto no país, o livro de Ali Kamel começou a se desenhar em 2003, quando ele passou a publicar, quinzenalmente, uma série de artigos sobre as cotas no jornal O Globo. Neles, constatava o sumiço dos pardos e dos miscigenados nas estatísticas raciais brasileiras. Apontava, também, para o fato de que o branco pobre tem a mesma dificuldade de acesso à educação que um negro pobre, levantando a hipótese de que o maior problema do país talvez não seja a segregação pela cor da pele - e sim pela quantidade de dinheiro que se carrega no bolso.

Não somos racistas aprofunda e sistematiza as idéias apresentadas pelo jornalista naqueles artigos: a negação da miscigenação; o “olho torto” das estatísticas, que escamoteiam problemas sociais na divisão da população por cores; a situação de negros e brancos no mercado de trabalho; o medo de que uma política de cotas, posta em prática, construa uma separação entre cores que nunca existiu, de fato, no Brasil, promovendo o ódio racial; os estudos científicos que provam que raças não existem e, portanto, não pode haver tratamento desigual para seres humanos iguais.

No prefácio deste livro, observa Yvonne Maggie: "Acusados de defender os privilégios de uma elite branca que se beneficiou e se beneficia com o racismo, o que na nossa so­ciedade é crime que envergonha, os críticos da política de cotas raciais ficam acuados. Se isso ocorre com aqueles que estão no meio acadêmico ou em ambientes menos formais, mais ainda com Ali Kamel que, além de cientista social e jornalista, é também um importante executivo de jornalismo das Organizações Globo. Exe­cutivos de grandes redes, usualmente, não manifestam suas posi­ções pessoais sobre temas nacionais. Por isso, sua participação no debate público é tão importante para demonstrar que as empresas da mídia são instituições formadas por alguns indivíduos que têm opiniões próprias, uma outra batalha que Ali Kamel vem travando com muitas patrulhas de plantão."

Ali Kamel é diretor de jornalismo da Rede Globo e trabalhou, como repórter e editor, em diversas redações do país. Formado em Ciências Sociais pela UFRJ e em Jornalismo pela PUC-RJ, começou a escrever sobre a política de cotas numa série de artigos publicados em O Globo a partir de 2003; também escreveu, para o mesmo jornal, uma série de textos sobre islamismo, o mundo árabe e a situação política do Oriente Médio.

 

Suave é o coração enamorado, de Antonio Naud Júnior02. Suave é o coração enamorado, de Antonio Naud Júnior. Via Litterarum Editora. Brasil. 2006. Contato: editora@vialitterarum.com.br.

Em Suave é o Coração Enamorado há um poeta andarilho, anunciando o mistério de sua existência e sua perplexidade diante de cada situação que se apresenta em sua caminhada. Seu lar é cada plaga deste planeta, cada cidade por onde tenha passado ou habitado. Assim, Barcelona, Cádiz, Colônia, Edimburgo, Havana, Florença, Ilhéus, Itabuna, Itacaré, Lisboa, Londres, Madri, Mondariz, Paris, Natal, Rio de Janeiro, Salvador, Santa Cruz de Graciosa, São Paulo, Sintra e Tânger são os pontos de partida de cada série de poemas deste livro.

Antonio Naud Júnior é um poeta do mundo, caminheiro dos quatro cantos, navegador dos sete mares. Para ele “nada é mais importante/ do que o caminho a seguir”, e compreende que esta escolha é uma busca solitária que pode conduzir a todas as partes, mas seu objetivo é outro.

Sua poesia não poderia ser de outra maneira, senão a vastidão dos versos livres soltos no mar da página, em busca da praia em que possam se estender. A sua forma – modo de nomear – não busca a contenção, porém dizer o tudo dos caminhos que vão surgindo: “e eu passeio sem destino à cata da divina comédia.”. Uma poesia que flerta com a prosa, que observa com desprendimento a vida que passa, ao mesmo tempo em que descreve objetos, paisagens e ambientes.

Suave é o Coração Enamorado faz uma viagem dentro da vida do jovem escritor, reunindo poemas produzidos entre 1987 e 2005. Não se trata de um diário qualquer, mas uma espécie de ata de registros onde o autor imprime suas sensações sobre o que o movimenta: seus prazeres, delícias, angústias, viagens. Um caderno de anotações poético-existenciais cuja medida maior é a palavra.

Este poeta de coração enamorado, em um momento está em Madri à procura do amor. E o procura “na queda de são paulo ante a visão de cristo”, mas o amor é “um cântico do rei salomão”; noutro, em Salvador, onde faz uma oração ao seu santo protetor, e cada verso é um degrau para o delírio, cada verso é um mover de montanhas.

O coração enamorado, que se apresenta suave, é, também, selvagem, como fica evidenciado em um dos mais belos poemas do livro, onde o autor homenageia suas referências e dá mostras de onde o seu lirismo pode alcançar.

Às vezes, seus versos passam por um processo de fragmentação e, quase sempre, se expandem para o universo da prosa – tênue seara. Mas diferentemente de estar em cima do muro – sem se decidir entre a prosa e a poesia –, Naud se equilibra na palavra que melhor expressa o seu lirismo e dá o passo sem perder o tom: “vou para dentro para dentro do enigma. (...) / porque nele reside o êxtase”.

Walt Whitman, bardo cósmico de Flores de Relva,, no prefácio da primeira edição de sua obra essencial, afirma que “o jovem que arriscou sua vida tranquilamente e a perdeu fez um extremo bem para si mesmo, enquanto que o homem que não arriscou sua vida e a retém até a velhice na riqueza e no conforto provavelmente não conquistou nada para si que valha a pena mencionar”. Como o jovem de Whitman e ainda como Aquiles, na Ilíada, que escolheu a glória em detrimento de uma vida longa, cheia de filhos e regalos, Naud prefere correr todos os riscos, mas só percorre os caminhos do coração enamorado. E essa é a sua tônica. É aí que reside todo o seu encanto, todo o seu espanto.

Cabe ao leitor atento seguir o fio de Ariadne que conduz ao cerne da poética de Antonio Naud Júnior – Apolo Grapiúna antenado ao legado do Walt Whitman, que em Canção de mim Mesmo, do já citado Flores de Relva, predizia o brado desse Suave é o Coração Enamorado: “solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo”.

[José Inácio Vieira de Melo]

 

La Costumbre del Reflejo, de Carlos Calero03. La Costumbre del Reflejo, de Carlos Calero. Ediciones Andrómeda. Costa Rica. 2006.

La Costumbre del Reflejo, poemario del poeta Carlos Calero es un libro afincado en la memoria. Como fotografías, daguerrotipos o cinematógrafo, las ciudades, aldeas, lagos, volcanes, ríos, calles, personajes y voces de su país natal, Nicaragua, circulan nostálgicamente por todo el texto. Especialmente su ciudad natal Masaya y alrededores: Niquinomo y su ferrocarril fantasma, El Mombacho, las mercaderas, los pescadores en las riberas del lago... y, una vez más, la nostalgia, las cabangas...

Desde su portada, esa hermosa serigrafía intervenida del artista panameño Raúl Vázquez, se nos sugiere un mundo sumergido, suerte de osario donde se prefiguran algunas especies que bien pudieran haber sobrevivido. Es la infancia del poeta, esa patria de todos. Su infancia/Masaya/Nicaragua que debió dejar para venirse a otro su país. Esa patria que nunca perdemos y que ha sido traicionada por los inquisidores. La que sobrevive en la palabra poética.

Vivencias como imágenes retenidas en el exilio del poeta. O imágenes como vivencias. Palabras que pasan de costumbres propias a costumbres ajenas. Así son los poemas de la desencantada costumbre. Poemas elaborados con la sangre y el dolor de un país que se nos fue porque nos lo birlaron: “Nos han dejado un país con polillas y ponzoñas, donde sólo existe oficio para el contubernio”: (Furia, Pág. 24). Un país extraño ahora, pero permanente en la memoria de quien siempre lo sueña solidario.

Eros y Tanatos se funden y confunden en este viaje por la memoria que conforma la aventura poética de Carlos Calero, para comprenderse y explicarse en el ahora. La muerte nos persigue porque se adueña de los más íntimo y querido. “La procesión de calaveras deja el hueso en el libro de los cementerios” (Pérdida, Pág. 22). Porque cayeron miles por conservar la infancia y renovar el país. Cayeron inútilmente. Por eso “La calavera repugna más que el hueso, pulveriza las posesiones y convoca gabinetes que no calzan en oficio con la esperanza. Sin piedad los cementerios abren fosas, pero culpan a la memoria” (Risa para calaveras, Pág. 23). Y “No hemos revisado las tumbas, no hemos revisado la historia de los culpables atrapados en los tribunales de la memoria” (Procesión de calaveras, Pág. 54).

La muerte nos deja el pasmo, la tristeza, el vacío. Tremendo desencanto, incomprensible desolación. Y la rabia: “Nicaragua grazna contra los inquisidores” (Suplicantes, Pág. 78). Pero la rabia no es suficiente en un entorno crucificado por la avaricia, la usura y la miseria: “Chupamos la teta seca de la tristeza, bebemos del agua que se zafa, batazo en la crisma cuando lo queremos, sopa de chombón y luna para las inspiraciones; el gavilán con caldo de pollo en la resolana; cielo del que bajamos con más hambre, sobre los adoquines y el centauro que relincha con ardor de sarna en las ingles” (Anti-apología, Págs. 32-33). He allí el terrible país que nos heredan.

Pero está el amor, la única posibilidad de salvarnos ante la muerte. El amor nos reconcilia con esta cadena de sufrimientos. Con amor vencemos la agonía y sus espantos. “Para cuando se crispe salobre esta sirena me ofrecerá el cielo; será cuando la cama revuelta se rompa con las sábanas, y solo el temblor de sus muslos me dejará desposeído y ufano”, dice el poeta (Ufano, Pág. 85). La pasión amorosa es el medio para encontrarnos con los otros. La comunión de los cuerpos es la comunión de la vida. Cópula vital donde aprendemos a mirarnos y a posesionarnos del porvenir. Exorcismo del deseo para entonar el único canto que puede liberarnos. “Aprendimos del deseo. Aprendimos que la pasión naufraga sin retórica de alcoba, ni espejo ruborizado. A escondidas supe del canto, supe del gallo que sin piedad nos sentenciaba con el terror de una robusta palabra” (Pasión. Pág. 97).

Porque el amor es la única esperanza de sabernos nítidamente humanos, es decir, seres para los otros. Pero sin olvidar la tragedia de un país que se busca y se expresa en la poesía, su mayor producto de exportación, como dijera el maestro Coronel Urtecho. El amor es la única posibilidad de retener en la memoria a los seres queridos que se han marchado. Por eso la conjunción de eros y tanatos aunados a la memoria son la espina dorsal del poemario. Esa espina dorsal se despliega con una tremenda lucidez en el extraordinario poema que encontramos en la página 13 dedicado a la difunta esposa del poeta: Paloma póstuma. En ese poema se reúne y se resuelve toda la temática y la estructura del texto. El viaje como iniciación hacia lo desconocido y la palabra como encuentro y retención de lo amado y de lo ido.

Por lo demás, este poemario se ubica en la senda de una profunda tradición poética como la del inevitable vecinos país del norte. La voces de José Coronel Urtecho, Pablo Antonio Cuadra y Carlos Martínez Rivas, para sólo citar tres cumbres de la reciente poesía centroamericana, se entrecruzan con los versos del poeta de la Costumbre del reflejo. De allí la rigurosidad y la contención en el uso de la palabra. La calidad de la poesía nicaragüense le otorga suficiente contenido a aquélla consigna urtechiana, con la suerte de que uno de sus “exportadores” convive hoy con nosotros. ¡Celebremos pues este encuentro con la tradición y la poesía!

[Adriano Corrales Arias]

 

La voz por enterrar, de Fernando Palenzuela04. La voz por enterrar, de Fernando Palenzuela. Ediciones Catalejo. 2005.

¿Qué nos impide salir de nosotros mismos?  ¿Qué especie de locura nos envía de vuelta sin cesar?  ¿Por qué seguimos anclados a este festín de carroña celeste?  En un mundo infestado de barcos mutilados y hogueras de lagartos, ¿qué parte del Todo nos regresa continuamente a nuestro ser? [1] Al centro de esta llama, el poeta de origen cubano Fernando Palenzuela descubre al Vacío como respuesta o, más bien, como una fúnebre anemia que lo hace respirar sangre acorralada en un callejón sin salida.  Lento verdugo o compañero secular, el Vacío y sus ecos son los elementos que subyacen pulsando el tenor de sus poemas... mi último recurso será poner proa a las sombras / Con la esperanza de volverme invisible.

Palenzuela no siente necesidad de transformar o explorar; no, es un poeta en estado de terror, un sueño terminal: Poesía de un aliento agotado que pide el entierro secreto porque la Vida y sus posibilidades son una carta de amor olvidada en un burdel; o, dicho dulcemente, Fernando Palenzuela es la hora exacta en que un hombre y una mujer que se han amado se despiden.  Su objetivo consiste entonces en extenderse dentro de un mar de olvidos, perderse en el peso de la herida, fundir el cuerpo en todas partes y en ninguna, inyectarse al Vacío.  ¡Un Rimbaud perverso y a la inversa!: Si un día yo sentara a la amargura sobre mis rodillas / La encontraría bella sin decirlo / En el fondo del lago donde brillan todos los / caminos que no van a Roma / La felicidad se estrella con el deseo de mentir.  Furia implacable.  No aspira, inspira el débil murmullo de la Belleza que dice “adiós” dentro del hocico del lobo.

Cuando yo finalmente conocí algo más que las inútiles palabras

Salí a descubrir el oro que se esconde en las pupilas de los niños que mueren al nacer

Las secretas claves de lo que no se dice: lo terrible

 Can't stand this cage cos there's no place to fly to. My future's been cancelled, my past's just a lie...” [2], dice la canción y así, hastiado de las frágiles máscaras que el hombre desde la cuna inventa, descubrimos al autor de La Voz Por Enterrar acabar con su pasado y su futuro hasta el punto del aburrimiento: -Alucinada lámpara del alba ven a borrar toda mi existencia. -También borra mi muerte hasta que recobre el invisible sueño del jardín perdido.   -Nuevas horcas se levantan en la boca del horno. -Yo no me alejo.

En 1991, Emil Cioran afirmaba que “la profundidad es una crueldad secreta” y vaya que lo es en la poesía de Palenzuela.  Con la claridad que irradia el canto de las tijeras / hay que seguir buscando el doble fondo del / espíritu.  Descender a las latitudes del espasmo, caída libre al inconsciente.  Allí, la flama del Surrealismo (ese crepúsculo exasperado dentro del abismo) desdobla a Fernando Palenzuela directo al precipicio donde un mago cercena su cabeza al compás del eclipse y a lo lejos, un mono refleja la amargura del mundo al interior de una lágrima de cera:

...En busca del fiel de la balanza

La ensoñación me agarra por el cuello

Demora mi partida hacia el país en que los hombres nacen

Con ojos que miran hacia dentro

Pero yo sigo hundiéndome en los míos

Irrescatable animal mono sublime

Nadando entre los arrecifes de coral

De una lengua que corta el hilo de las alucinaciones

Sin que sea la hora de la rueda dentada

Está ya escrito y proclamado

Los pasos de las voces mutilan la tristeza.

El viaje es al fondo de la sombra, pero no como oleada transitoria sino como entierro y refugio.  Es ahí donde surgen las imágenes especie de gotas que trepan al cielo estructuradas en un alfabeto de rabia: Que me despedacen sobre la hierba azul de una tierra que amo / Cuando me envuelva la increíble sombra que me aguarda / Ya no habrá más códigos ni juegos / Sólo la simetría oscura de infinitas lunas / El sol sobre mis huesos en su galope ciego.  “Crueldad secreta” o entierro en la fatalidad de los días, ambas cosas, el mismo polen destazando a su abeja.

...Tan inesperadamente como el rayo

Terminará mi vida acaso sin que haya

Superado el dolor que es nuestro elefante

Sin comprender las respuestas de los crueles fantasmas que me asedian

Pálidos doctores de dientes enlutados

Dibujando mi aullido en la doble noche

Hasta que llegue el momento de disolverme.

Enterrar la voz, disolverse hacia el eterno Final de Juego.  Dejar la voz fuera de la vista y del tacto.  La vida siempre sentida como ausencia.  Vaciarse de expresión entre las entretelas del ser como una caja de cerillas mojadas.  Retirar de las entrañas su orquesta, hundir el verbo por completo en la inmensidad de la inexistencia; La Muerte en Progreso con el olvido en un brazo, y en el otro un espejo de carne respirando a 3 metros bajo tierra.  La poesía es la muerte del ser...hombre que se dispara hacia el olvido...

La Voz Por Enterrar o el pájaro alucinado que parte en dos a la montaña en un crujido que despluma a la Desesperanza.  Una caída, un salto que se conjuga siempre en futuro...  Mi alianza ha sido siempre con el vacío / Las delicadas armas escondidas del llanto / Invitan a la degollación de las analogías, dice Palenzuela cargando en la punta de un alfiler empapado en sangre...la clave para descifrar el miedo a los orines heredados, los gestos que nos sonríen a diario.

[Enrique Lechuga]

 

NOTAS

1. Las palabras en cursiva fueron tomadas del libro La voz por enterrar.

2. “No soporto esta jaula porque no hay lugar a donde volar. Mi futuro ha sido cancelado, mi pasado una mentira”.  The Legendary Pink Dots, LP: Nemesis Online. Soleilmoon Recordings, 1998.

 

 

Gozo del sexo [compilador: José Vicente Anaya] El rompimiento amoroso [compilador: José Vicente Anaya] Poesía Homoerótica [compilador: Sergio Téllez-Pon] Sirenas y otros animales fabulosos [compilador: Alejandro García]05. Poesía de Ángeles [compilador: José Ángel Leyva], El rompimiento amoroso [compilador: José Vicente Anaya], Gozo del sexo [compilador: José Vicente Anaya], Poesía Homoerótica [compilador: Sergio Téllez-Pon], Poemas de la Patria [compiladora: María Begoña Pulido Herráez], Sirenas y otros animales fabulosos [compilador: Alejandro García], Poesía de los sueños [compiladores: Begoña Pulido Herráez-José Ángel Leyva], e Poemas de vampiros y fantasmas [compilador: H. Pascal]. Colección “Poesía en el Andén”. Ediciones Alforja. México. 2006.

Es atípico: una distribuidora de libros, de iniciativa privada, tiene como objetivo formar lectores. Además, ahora se anima a publicar algunos títulos, iniciando con la serie de antologías Poesía en el Andén. Se trata de la red de librerías Un Metro de Libros, conformada por los contenedores que se encuentran en casi todas las estaciones del metro de la ciudad de México y en distintas plazas y centrales camioneras de estados como Oaxaca, Querétaro, Monterrey o Guanajuato. Es, asimismo, el último proyecto de Mauricio Achar, fundador de las librerías Gandhi y autor de un modo exitoso y debatible de entender el oficio de librero.

La red comenzó a funcionar hace cuatro años. Su finalidad es y ha sido siempre crear nuevos lectores, porque, como cuenta Nelly Achar, su directora general: "La gente no va a las librerías, los lectores ya formados sí, el resto de la población no. Son espacios que se visualizan como sagrados, que intimidan." Lo que buscaban, platica, era demostrar que en México existe el gusto por la lectura y desmentir, de paso, aquella estadística que indica que se leen 1.5 libros al año por persona; señalar que en realidad la ineficiencia radica en la promoción que se hace de la lectura.

Y así se labró el camino, con el plus, dice Nelly, del precio, pues ofrecer títulos "baratos" podía ser el elemento de seducción que atrajera a los usuarios a ver los libros, a tocarlos, a leerlos.
La organización es sencilla y en ella arriesgan todos: "El Metro de Libros pone los muebles, paga la renta al gobierno y toda la parafernalia, y lo único que hace el microempresario -como llama Nelly Achar a sus libreros- es invertir en los ejemplares que vende".

Pero a pesar de la buena planeación del proyecto pronto se dieron cuenta que debían formar libreros, que los microempresarios debían amar los libros o aprender, por medio de cursos y trabajo, a enamorarse de ellos: "los libros castigan -advierte Nelly-. Si no los quieres te arrojan para afuera, de veras. Y a los que entienden cuál es la labor del librero les va muy bien."

La recepción ha sido buena, y a pesar de que al principio tuvo cierto auge de ventas que luego decreció, con el tiempo ha encontrado estabilidad. La ventaja es que esta red ha podido intervenir en la formación de los lectores. Lo explico: al principio sólo la línea tres del metro, la que recorren los alumnos, profesores y trabajadores de la unam, reportaba mayor venta de lecturas elaboradas (ensayos, poesía, libros de arte, literatura), mientras que el resto de las líneas vendía prioritariamente obras referidas a hechizos, magia blanca o negra, horóscopos y temas cercanos. Ahora la relación ha cambiado: "Ya las otras líneas están aceptando libros de mayor complejidad -indica Nelly-. Quiere decir que sí hay un proceso que genera lectores, porque todos esos libros de magia ya no son el hit."

Estas son las prioridades que guían Poesía en el Andén, la primera aventura editorial a la que se lanza Un Metro de Libros junto a la revista Alforja. "Ambas partes poseen recursos distintos -sostiene José Ángel Leyva, el coordinador de esta serie de antologías-. Nelly tiene la experiencia como librera y nosotros carecemos de ella. Hacemos un esfuerzo por promover y difundir la lectura de la poesía, pero caemos en el mismo drama que todos los que publicamos de manera independiente: entramos en la dictadura de los mil ejemplares y terminamos regalándolos, tirándolos o almacenándolos. Con Nelly encontramos un soporte que nos permitió ser más creativos y descolocarnos, porque nosotros siempre pensábamos en un lector especializado, exigente; la verdad es que nunca contemplábamos otro tipo de lector hasta que nos pusimos a dialogar con ella. En ese intercambio surgió un producto que creo que es el justo medio."

Lo primero que llama la atención al consultar las antologías que componen Poesía en el Andén son sus temas. Si el lector se guía por los títulos, notará el esfuerzo de sus editores por abrir el abanico de preocupaciones poéticas. Los ocho primeros libros son: El rompimiento amoroso en la poesía, Sirenas y otros animales fabulosos, De raíz entraña. Poemas de la patria, Poemas de vampiros y fantasmas, Sin límite ni puerta. Poesía de los sueños, Gozo del sexo, Poesía homoerótica y Rumor de alas. Poesía de ángeles. Es lo primero que llama la atención y también el primer acierto. Por un lado, según el propio Leyva, se busca el acercamiento con el lector no profesional de poesía mediante contenidos que le sean familiares, como los ángeles, los sueños o los vampiros. Por otro lado, al buscar dichos temas (y acercarse a ellos de manera efectiva), se busca combatir el lugar común que sostiene que las cuestiones sobre las que versa la poesía son pocas, que ya están agotadas y que por lo general son el amor y la muerte. Error que Poesía en el Andén se encarga de enmendar.

José Ángel Leyva, H. Pascal, Begoña Pulido, José Vicente Anaya, Alejandro García y Sergio Téllez-Pon son los antólogos de estas primeras entregas. Y quizá la mayor virtud de este equipo sea el haber logrado libros rigurosos y de fácil lectura, sin la pretensión de agotar los temas. Es bien conocido que muchos antólogos buscan construir "antologías definitivas"; en el caso de Poesía en el Andén es claro que no, que sólo brindan unos cuantos ejemplos de lo escrito sobre algunos tópicos que sirven de pretexto para ejercer la escritura: "Nunca pretendimos presentar libros canónicos -explica Leyva- […] la poesía que está aquí no son los mejores poemas de tal cosa, nunca quisimos eso. Lo que sí sabemos es que los poemas que están aquí reunidos son de calidad."

En estas obras pueden encontrarse autores de distintas épocas y nacionalidades (destacado es también el crédito a los traductores), y con ello parece que se sugiere la idea de una escritura universal que cumple a cabalidad una de las funciones primarias de la literatura: la lectura recreativa. Aunque, insisto, no por ello exenta de rigor. Quien se acerque a estas compilaciones encontrará una propuesta que ayuda a salvar la distancia que crea la especialización de la poesía. Esta colección, sin denostar a la poesía cultista, a la académica, a la vanguardista o a la experimental, propone que el lector común se reencuentre con el género. Y esto es algo que se cumple, pues Axel, el microempresario que atiende los puntos de La Raza y Zócalo, cuenta: "La poesía sí se vende, pero no hay muchas publicaciones. Si tienes poesía tienes venta."

Varios son los hallazgos de Poesía en el Andén y pocos sus errores. Creo que vale la pena acercarse a sus tomos, porque más allá de ser una ingeniosa contribución a la difusión de obras poéticas (destaca igualmente el precio accesible que tienen, 20 pesos), son productos literarios acabados que pueden leerse de una sentada y que tienen como finalidad celebrar a la poesía sin caer en desatinos tales como defender una postura elitista en la escritura o una expresión "cercana al pueblo".

Se tienen proyectadas una segunda serie con los temas: espejos, tiempo, ángeles caídos, besos, duendes y brujas, cosas que nuca ocurrieron, versos cochinos y el viaje, además de una tercera que tratará los pecados capitales y las virtudes.

Quizá sea como dice José Ángel Leyva: "Este tipo de trabajos empiezan a sentar las bases de una industria editorial más sana, más competitiva y más objetiva, que piensa en el lector y su economía."

[Jorge Salvador Jurado]

 

Simples, de Franklin Fernández06. Simples, de Franklin Fernández. Editorial El perro y la rana. Ministerio de Cultura. Venezuela. 2006.

El aforismo es un género reflexivo que consiste en cargar las palabras de mayor sentido del que tienen en las oraciones corrientes. Obra por síntesis y se propone manipular la conciencia haciéndole ver al sujeto lector cosas en que éste no ha pensado. El atractivo del aforismo, su anzuelo por decirlo así, estriba en decir lo más que se pueda con el menor número de vocablos, hasta donde el concepto puede ser reducido a una especie de granada de fragmentación que se lleva debajo de la manga. Cuando el aforismo se sustenta en la filosofía aparece la sentencia, la paradoja, la reflexión abstracta, el precepto moral, las ideas o la teoría de conocimiento. Pero cuando nace aliado con imágenes entonces se vuelve objeto de la estética o la poética.
Franklin Fernández reúne en su libro SIMPLES, publicado por la editorial El Perro y la rana, un apretado conjunto de textos, fragmentos discursivos o poéticas en los cuales la densidad del enunciado breve y condensado roza la metáfora y el razonamiento para inscribirse en un género aforístico muy poco practicado en la literatura venezolana y cuyas referencias más inmediatas habría que buscar en Antonio Porchia, E.M. Cioran y Roger Munier.

Sin duda, la eficacia -en muchos casos demoledora de prejuicios- de estos textos proviene del carácter anómalo y desenfadado de este joven autor a quien le da igual transitar la poesía que aplicarse laboriosamente a construir objetos conceptuales, o a la formulación teórica en torno al tipo de poesía o de arte que él practica.

[Juan Calzadilla]

 

Patativa do Assaré, melhores poemas07. Patativa do Assaré, melhores poemas (org. Cláudio Portella). Editora Global. São Paulo. 2006.

É chegada a hora de Antônio Gonçalves da Silva, poeta cearence, ser o homenageado pela Global Editora na coleção Melhores Poemas. Pelo nome de batismo, poucos saberão de quem se trata. Dizendo que nasceu no Vale do Cariri, num sítio distante três léguas de Assaré, começa a ficar mais claro que o poeta em questão é Patativa do Assaré. A responsabilidade de apresentar o estudo introdutório e selecionar os poemas para a antologia ficou a cargo do escritor, e também poeta cearense, Cláudio Portella.

Contrariando o que muitos dizem, Patativa do Assaré não foi um homem analfabeto e iletrado. Teve pouco estudo, sim, mas teve também, o raro dom de lidar com as palavras. Possuidor de uma memória incomum, era capaz de dizer todos os mais de mil poemas que escreveu sem errar, ao menos, uma palavra. Quando escrevia, seus versos e rimas irrompiam de sua mente e não precisavam de retoques ou ajustes. Nasciam perfeitos, não careciam de lapidação. “O que nos faz lembrar Jorge Luis Borges, que também não retrabalhava seus escritos, a palavra primeira era sempre a mais adequada”, diz Cláudio Portella em sua apresentação.  

Autodidata, não filiou-se a nenhuma escola literária, aliás, nem tinha como fazê-lo. O que era de se esperar de um homem simples, que teve como cenário de toda sua vida o sertão nordestino. Aprendeu desde muito cedo a trabalhar a terra e esse dom se estendeu às letras, transformando-o, também, num semeador de palavras. Com um teor muitas vezes moralista, sua obra vê nas injustiças sociais o verdadeiro mal a ser combatido por meio do caráter do sertanejo, símbolo de humildade, força e honra.

Patativa do Assaré é uma das vozes fortes do homem do Nordeste, procurando fazer valer a vontade do povo por meio de seus versos. Seus poemas são apresentados em duas maneiras: uma culta, ou erudita como prefere alguns, e outra que procura representar a linguagem própria do sertanejo, sendo necessário às vezes um glossário para tornar compreensível o significado de alguns termos.

A poesia de Patativa do Assaré, como observou o professor Gilmar de Carvalho no prefácio da 3ª edição da obra Inspiração Nordestina, tem a força de uma manifesto social. Mas ele próprio fugia das definições políticas. “Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei conhecimento das coisas.”

Para quem não conhece Patativa do Assaré, esse é o momento de conhecê-lo e para quem já o conhece, essa é uma oportunidade de retomá-lo segundo a óptica de um poeta da nova geração.

Sobre o autor: Patativa do Assaré nasceu em 5 de março de 1909. Cego de um olho, aprendeu a ler aos 12 anos e no ano seguinte já atuava como versejador em festas. Em 1925, com a compra de uma viola, inicia sua atividade de compositor, cantor e improvisador. Em 1926 teve um poema publicado no Correio do Ceará, mas seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, foi lançado 30 anos depois. Seus poemas, na maioria das vezes em redondilhas e decassílabos, sempre denotaram uma visão, ora nostálgica, ora surpreendente, das mudanças forjadas pela modernidade e pela vida urbana. Morreu em 2002, aos 93 anos.

Sobre o selecionador: Cláudio Portella nasceu em Fortaleza, em 1972. É poeta e escritor. Escreve também para o teatro, cinema, música e publicidade. Colaborou nos jornais O Globo e Jornal do Brasil. Escreveu na revista Caros Amigos, no jornal Rascunho, no Suplemento Literário de Minas Gerais, entre outros. Seus poemas foram traduzidos para o inglês, espanhol e italiano. Em 2004 publicou o poema Bingo!, pela editora portuguesa Palavra em Mutação.

 

Sonetos dos amores mortos, de Rita Moutinho08. Sonetos dos amores mortos, de Rita Moutinho. Lacerta Editores. 2006.

O novo livro de Rita Moutinho, Sonetos dos amores mortos (Lacerda Editores, R$ 21,00) mostra que, quando tratados com rigor e criatividade, os tradicionais sonetos são sempre atuais e expressivos e, no caso do livro em questão, são a forma fixa mais adequada, pois trata-se de um livro que fala da perda do amor e da arte de desamar, até

que um amor novo venha a suceder o perdido.

De origem controversa, o soneto italiano parece ter se difundido com Petrarca, no século XIV, e foi introduzido em Portugal por Sá de Miranda. Já o soneto inglês, com seus três quartetos e um dístico, segue a fórmula estabelecida por Wyatt e Howard (Duque de Surrey) introdutores desse tipo de poema na Inglaterra. Rita Moutinho faz uso de ambos, que vão se alternando na obra.

Ao optar por este gênero de quatorze versos, a poeta assume os riscos de enveredar por uma estrutura rígida e consegue sucesso na empreitada. Grande conhecedora das leis da versificação tradicional, a autora maneja o soneto com segurança e alto grau de criatividade, atenta ao ritmo, melodia, harmonia, matizes do fraseado e alternando poemas de rimas tradicionais (soantes) com outros que contêm a sutil e moderna rima toante. Há que sublinhar, também, a riqueza de metáforas e o vigor lexical.

Rita Moutinho dedicou-se ao versilibrismo até 1999, quando publicou seu primeiro livro de sonetos, Romanceiro dos amantes. Na obra que acaba de lançar a empreitada se aprofunda. Trata-se de um livro com nada mais nada menos que 90 sonetos divididos em treze partes que poetizam os passos de quem perde um amor:da revelação, da esperança, da súplica, da despedida, do ódio, das razões, da memória, da saudade, do lamento, das reaparições, do luto, dos frutos e do futuro. Extremamente elaborados psicologicamente, os poemas dão conta de todo um processo psíquico que o ser humano passa para suportar o desamor até que brote um amor novo. E a poeta planta essa semente em seu jardim íntimo e diz: “Ainda falta, enfim, solilóquio da flor: brotar ou não brotar?” Na parte final do livro, frisando que o amor vivo não vem substituir o amor morto, mas sim sucedê-lo, a autora dá, a um livro permeado pela tristeza, um fim em que o amor é sublimado.

Aliando reflexão filosófica e psicológica com uma emoção bem dosada e com a perfeição formal, Rita Moutinho procura, fazendo uso de uma forma poética que se sustenta atravessando os séculos mostrar uma dicção própria, uma maneira original de tratar o soneto dando a ele toques sutis de humor e introduzindo alguns cânones pós-modernos.

Os poemas que formam um grupo homogêneo, não se tornam nunca monótonos pela riqueza de dicções da autora, tendo diversas entonações que vão do sussurro ao declamatório. Há que se atentar para a beleza das chaves nos sonetos como as que se seguem: “Amores podem ser longos e poucos, / mas pelo menos um tem que ser louco.”; “Por favor, em homenagem ao que foi seda / nos despeçamos com delicadeza!”; “Ninguém te substitui, só te sucede. / Cada flor tem na pétala uma pele.”

Cabe sublinhar que, como escreveu Ruy Espinheira Filho, Rita Moutinho “possui uma voz personalíssima, rica daquela emoção recolhida em tranqüilidade de que falava Wordsworth”. Já Alexei Bueno sublinha a “libérrima, riquíssima imaginação metafórica, completamente pessoal” da autora. Ivan Junqueira fala que “além da competência métrica e rítmica que exige o soneto, o que vejo é arte consumada, dicção concisa e emoção sutilíssima”.

Como já atestava Aristóteles, que se ocupou da adequação do metro ao tema, sublinhemos que para tratar de temas amorosos, o soneto consagrou-se através dos séculos como forma perfeita e mostra-se ainda mais adequado ao tema quando a poeta tem noção de peso e medida, tratando do amor sem transbordamentos românticos, só deixando na atmosfera o vapor emocional necessário. Enlevo existencial e prazer estético. Eis o que alcança Rita Moutinho em Sonetos dos amores mortos.

[Fernando Bastos Gomes]

 

Mala na mão & Asas pretas, de Roberto Piva09. Mala na mão & Asas pretas, de Roberto Piva [org. Alcir Pécora]. Editora Globo. Brasil. 2006. Contato: imprensaglobolivros@edglobo.com.br.

Esse segundo volume das Obras reunidas de Roberto Piva recolhe sua produção editada entre 1976 e 1983. São quatro livros de poesia – Abra os olhos & diga Ah!, Coxas, 20 poemas com brócoli e Quizumba – acrescidos de manifestos que o poeta divulgou em 1983 e 1984, agrupados sob o título O século XXI me dará razão. Alcir Pécora, professor de teoria literária da Unicamp e organizador das obras reunidas, faz a nota de apresentação, e Eliane Robert Moraes, o posfácio, ambos textos valiosos para a fortuna crítica do poeta. O volume possui ainda detalhada bibliografia do autor e obras selecionadas sobre seu trabalho para quem quiser conhecer mais de perto uma das vozes mais dissonantes e singulares da poesia brasileira contemporânea.

Como destaca Alcir Pécora, a obra de Piva pode ser dividida entre três grandes períodos, compondo cada um deles os volumes das obras reunidas. O primeiro, com a poética blasfematória de Paranóia e Piazzas; este segundo, próximo ao experimental e psicodélico; o terceiro, que se estende até o presente, de conteúdo mais místico e visionário, como se pode ler em Ciclones. Mas em todos, a transgressão como a marca mais recorrente. Transgressão dos discursos literários dominantes, das éticas e políticas hegemônicas, dos comportamentos sexuais e dos usos do corpo socialmente admissíveis, dos padrões de normalidade psicológica. E isso a partir de um uso libertário da linguagem, dos sentidos e do corpo, o que supõe vivências afetivas e amorosas não usuais e o consumo de drogas como via de acesso a um conhecimento indisponível com outros recursos.

Os trabalhos reunidos nesse segundo volume, retomando a temática do amor a ser conquistado a qualquer preço, embaralham os gêneros, ao fundir poesia e prosa de forma inovadora no âmbito da literatura brasileira, ao mesmo tempo que nos levam a conhecer, principalmente, as possibilidades do corpo e das relações afetivas. Paralelamente, podem ser vistos como uma leitura singular de nosso modernismo literário. Em torno do corpo, o sexo é experimentado como a via por excelência de acesso à arte. As relações afetivas propostas, os laços de amizade homoerótica para o direito ao pleno gozo, são um poderoso e incômodo contradiscurso ao moralismo reinante. Com relação ao modernismo, Piva praticamente desintegra seus conteúdos iluministas e nacionalistas, criando uma via alternativa, mais hedonista, anárquica, alucinada, sem expectativas de progresso ou de um futuro nacional, mas sobretudo radical, ao propor como vértice supremo a superação contínua da vida e da arte simultaneamente, para atingir o sublime e o desconhecido.

Esse exercício permanente da alucinação, esse método do excesso, que impõe sua contínua auto-superação, é o caminho pelo qual o poeta pretende controlar uma vertigem que é a um só tempo erótica, existencial, estética, como analisa em detalhes Eliane Robert Moraes no posfácio. Apoiando-se com segurança e audácia nesse tripé perigoso, Piva torna-se autor fundamental na poesia brasileira contemporânea.

A CRÍTICA “A galantaria experimental, grupal, sexualizada da poesia de Roberto Piva deve ser entendida, mais uma vez, como disposição ineludivelmente política de afirmação de escolhas culturais fora das alternativas prescritas pela normalidade social.” (Alcir Pécora)

“Como sempre esteve eqüidistante das escolas conhecidas, pode-se dizer que ele é sua própria escola. Roberto Piva persegue e vive o ideal do poeta-profeta.” (João Silvério Trevisan)

“Piva não se limitou a ler muito, apenas, mas acreditou no que leu. A exemplo de Ginsberg, que leu Blake e se pôs a ter visões. De Kerouac, que leu Dostoiévski e foi viver os subterrâneos, para depois escrevê-los.” (Claudio Willer)

“A ênfase do poeta nos cenários noturnos supõe uma forte recusa do mundo emblemático do dia, marcado pela racionalidade do capital e pela rotina do trabalho, em função de um mergulho vertiginoso em domínios mais sombrios, onde predomina o caos.” (Eliane Robert Moraes)

“A preponderância do tom sublime sobre o tom baixo não é uma diferença de grau (...), mas uma relação de força, em que o movimento ascendente domina as imagens, contamina a baixeza que está sujeita à disciplina militar da batalha apocalíptica contra a razão burguesa.” (Ricardo Rizzo)

O AUTOR Roberto Piva nasceu em São Paulo (SP), em 25 de setembro de 1937. Poeta, com graduação em sociologia e política, ex-professor, foi membro do Grupo Novíssimos. É estudioso da flora e da fauna brasileiras e iniciado no xamanismo. Participou de diversas antologias, como Antologia dos novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961) e 26 poetas hoje (org. Heloísa Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Editorial Labor, 1976). Em 1961, a editora Massao Ohno editou a plaquete Ode a Fernando Pessoa. Piva publicou os seguintes livros de poesia: Paranóia: São Paulo: Massao Ohno, 1963; Piazzas. São Paulo: Massao Ohno, 1964; Abra os olhos & diga AH. São Paulo: Massao Ohno, 1975; Coxas. São Paulo: Feira de Poesia, 1979; 20 poemas com brócoli. São Paulo: Massao Ohno; Roswitta Kempf, 1981; Quizumba. São Paulo: Global, 1983; Antologia poética. Porto Alegre: L&PM, 1985 e Ciclones. São Paulo: Nankin, 1997. Em 2005, a Editora Globo publicou o primeiro volume de suas obras reunidas, intitulado Um estrangeiro na legião. Piva publicou ainda diversos artigos e manifestos em jornais e revistas. Seus poemas foram traduzidos para o inglês, o francês, o espanhol e o catalão. Já é extensa a fortuna crítica do poeta, incluindo resenhas, artigos, capítulos de livros, dissertações de mestrado e depoimentos.

 

Pedra de luz, de Rodrigo Petronio10. Pedra de luz, de Rodrigo Petronio. Ed. Girafa. São Paulo. 2006.

Depois de um ensaio como o de Mário Dirienzo – Corpo como razão: a poesia de Rodrigo Petronio (disponível em Agulha, www.secrel.com.br/jpoesia/ag50petronio.htm) – com um mapeamento tão minucioso e preciso do recente Pedra de Luz (A Girafa, São Paulo, 2005), resta apenas fazer o registro mais subjetivo dessa obra.

Através de um exercício de abstração, faço de conta que não conheço o autor, que Rodrigo Petrônio não é meu interlocutor regular. Procuro imaginá-lo ou visualizá-lo, a esse hipotético desconhecido, através da leitura do seu livro de poesia. Assim praticando o mais puro impressionismo em crítica, diria que Pedra de Luz espanta. Isso, não só por sua dimensão, mas pela amplidão, pelo que tenta abarcar. A impressão que me provocaria, se fosse possível essa separação total de autor conhecido e poesia lida, é que Pedra de Luz foi escrito por alguém que já viu tudo. Viu e, acrescente-se, viveu. E que já leu de tudo, também. Ou, ao menos, do que importa. Devorador de poesia, dialoga, em sua leitura ativa e participativa, com os clássicos, inclusive Camões, a Bíblia, com Baudelaire e Rimbaud, e com os modernos e contemporâneos, como Apollinaire, Octavio Paz (o título, Pedra de Luz, é alusão à Pedra de Sol do mexicano), Drummond, Herberto Helder (inclusive em epígrafes), Roberto Piva, e tantos outros. Daí resultar um livro de poesia dessas dimensões, e dessa amplidão temática e formal, dos metros mais tradicionais e do soneto à mais contemporânea prosa poética; da linguagem direta ao hermetismo.

É como se a sua feitura fosse impulsionada por uma ambição desmedida de realizar a poesia total, a impossível síntese do simbólico e do real. O livro todo é animado por uma tensão entre dois mundos: um deles, atual, prosaico; outro, mítico, arcaico ou atemporal. Há um trânsito entre um e outro, no conjunto de poemas que compõem Pedra de Luz. Daí a variedade de referências geográficas: o poeta vai de Heliópolis ao metrô paulistano, passando pela Costa do Marfim.

O caráter pletórico de Pedra de Luz, com sua variedade e diversidade, mostra Rodrigo Petronio como um selvagem refinado, um bárbaro erudito impelido por uma sensação de urgência de, ao mesmo tempo, querer destruir e refazer o mundo: Uso as mesmas palavras para batizar um mundo novo:/ Pão, cinzel, ouro, fala, sol, fome, selva./ E eis que elas circulam por minhas artérias:/ Sexo, sede, fruto, pomo. Essa recriação tem que ser feita pela via da transgressão: Rouba, saca,esquarteja, plagia/ Furta, copia, inventa, cria, corta [...} Isso é poesia – o resto é arte, proclama de modo veemente.

Pensando bem, esse ímpeto destrutivo e simultaneamente de reconstrução ou recriação não é coisa de autor ‘maduro’, do hipotético erudito já de certa idade que poderia visualizar através dos poemas, alguém que leu de tudo e já viu tudo, porém de um adolescente. É o juvenil levado a extremos. Mas talvez o talento poético resida nisso, na capacidade de preservar a rebelião e o lirismo mais juvenil para chegar a sínteses como esta: Tens a lâmpada, a migração das aves, o ruído das veias, a seiva dos animais e a alvura do cisne; em outras palavras, tudo.

[Claudio Willer]

 

O Coração da Boca, de Vera Lúcia de Oliveira11. O Coração da Boca, de Vera Lúcia de Oliveira. Editora Escrituras. São Paulo. 2006. Acesse o portal da editora: www.escrituras.com.br.

Entrar no mundo poético de Vera Lúcia de Oliveira é descobrir que ela sente com delicadeza e profundidade. No cerne da palavra, pulsa o coração do poeta cheio de compaixão e de ternura pelas vidas minúsculas. Seu ouvido está sempre atento para registrar aquilo que está prestes a perecer. As pequenas histórias, as recordações da infância e as falas do quotidiano são captadas, elaboradas e ganham expressividade máxima em versos concisos, límpidos e despojados.

A sua poesia nunca soa estridente, é sempre dita a sotto voce. Ela abre mão de adornos que possam desviar a atenção, para concentrar-se no que há de mais essencial: o lugar do ser humano em um mundo em que parece não haver mais lugar para ele.

Em No Coração da Boca, Vera Lúcia traça, com rigor e sutileza, uma crônica bem arquitetada das vidas arruinadas, dos sobreviventes, dos desamparados pela sorte. São retratos 3x4, fragmentos desse desastre social brasileiro. Fala dessa gente que “deseja tanta coisa”, mas “tudo vai passando por cima”. Gente que deseja o que não pode desejar. Coerente com seu projeto, foge da idealização da infância ou da vida do interior. Mesmo nos momentos de alegria, há uma dor calada nas entrelinhas. Uma dor sempre pressentida naqueles poemas que retratam a infância.

Vera Lúcia de Oliveira ouve as vozes provindas das coisas. Escuta essas falas sussurradas como um gemido. Daí o uso do ready-made para captar no particular o que é uma representação do social. Este momento raro em que o poeta, com toda humildade, se transforma em fio condutor de outras falas está em suas mãos neste belo livro que a gente lê com uma “apertação na alma”. Sempre resta uma mínima esperança “no fundo do pavio/ ainda capaz/ de acender/ e de incendiar”. Esta é a poesia de Vera.

[Donizete Galvão]

***

Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis, no Estado de São Paulo. Desde 1983, vive na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Lecce. Formou-se em Letras pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), em 1981, e em Línguas e Literaturas Estrangeiras, em 1991, pela Università degli Studi di Perugia, na Itália. Neste mesmo país, obteve o doutorado, em 1997, pela Università degili Studi di Palermo. Recebeu em 2005, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A Chuva nos Ruídos, publicado pela Escrituras, uma antologia que reúne poemas de cinco livros, quatro dos quais publicados em edição bilíngüe, na Itália. A autora, que escreve tanto em português como em italiano, recebeu também outros prêmios nacionais de poesia e seus poemas foram traduzidos e publicados em várias antologias no Brasil, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal. Tradutora e divulgadora da literatura brasileira na Itália, organizou antologias de vários poetas, entre os quais Lêdo Ivo e Carlos Nejar. Publicou os seguintes livros: A porta range no fim do corredor (poesia), São Paulo, 1983 (Prêmio de Poesia Scortecci, São Paulo, 1982); Geografia d'ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989; Pedaços / Pezzi (poesia), Etruria, Cortona, 1992; Tempo de doer / Tempo di soffrire (poesia), Pellicani, Roma, 1998; La guarigione (poesia), La Fenice, Senigallia, 2000 (Prêmio Nacional de Poesia de Senigallia, Itália, 2000); Uccelli convulsi (poesia), Manni, Lecce, 2001 (Prêmio Nacional de Poesia Gino Perrone, Itália, 2000); Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro (ensaio), Ed. da Unesp e Edifurb, São Paulo, 2002; No coração da boca / Nel cuore della parola (poesia), Adriatica, Bari, 2003; A chuva nos ruídos (antologia poética), Escrituras, 2004, São Paulo (Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 2005); Verrà l'anno (poesia), Fara, Santarcangelo di Romagna, 2005 (Prêmio de Poesia "Popoli in cammino", 2005, Itália); Storie nella storia: le parabole di Guimarães Rosa (ensaio), Pensa, Lecce, 2005. Recebeu, em 2006, do Ministério da Educação, o "Prêmio Literatura para Todos", na categoria de poesia, com o livro inédito Entre as junturas dos ossos, que será publicado pelo MEC.

 

Labios pintados de azul, de Alfonso Peña12. Labios pintados de azul, de Alfonso Peña. Ediciones Andrómeda. Costa Rica. 2006. Visite: www.galeriandromeda.com.

Alfonso Peña llevaba un fardo de escritos bajo el brazo, allá por los años ochenta. Estábamos en el bar la Copucha, una cantina donde se reunían los teatreros, los escribidores, los aspirantes a artista. Usaba boina, se parecía a Gurdjieff, sabía todo acerca de la narrativa contemporánea, era un poco extraño: parecía más bien un embaucador de algún conocimiento oculto, pero su conversación, con aquella voz bronca de locutor nocherniego, develaba el interés fundamentalmente literario de su vida: un hábito de monje áspero y fumador.

En la abigarrada noche josefina, lo escuché hablar de una revista llamada Andrómeda, que publicaba con otro amigo suyo. Era solo un plegable, en blanco y negro, donde leí por primera vez alguna de la poesía que se producía en San José. Tal vez los poemas alucinantes de una hermosa y rebelde chica que hoy es solo la esposa flamante de un respetado político.

A los días de conocerlo -la conversación de Peña tenía un enganche al que nadie se le resistía, porque era la misma narración en curso, el mismo espíritu de la oralidad con sus intrigas, aventuras y resoluciones mágicas-, me enseñó, caviloso, sus cuentos. Estaban escritos furiosamente sobre hojas tamaño carta, sucias, nunca engrapadas. Me leyó unos trozos en una cantina de mala muerte (a Peña siempre le gustaron las penumbras urbanas, junto a putas y borrachitos que formaban un vago mural humano, o cantantes improvisados, o poetas anónimos). Esos legajos de textos conformaron luego su primer libro de cuentos: Noches de celofán, publicado en el año (1987). Consistió esta obra en un tomo de relatos bastante consistente. El denominador común de los textos fue la extrañeza de los personajes de San José, la ficción en la urbe, esa ficción que puede convertirse en musgo maloliente y resplandor apocalíptico.

Peña, el vitalista, dirigió la revista literaria Andrómeda hasta un número considerable, y, al mismo tiempo, fue marchante, cantinero, conquistador empedernido, conversador ávido y alucinógeno. Quienes fuimos sus leales amigos lo recordamos en el cuartucho que le alquilaba a una nigromante de pueblo (llamada paradójicamente Alma), tecleando en su máquina de escribir los destinatarios en aquellos sobres que llevarían a Andrómeda por toda América Latina. Muchos allí conocimos las mejores revistas del momento. Las tertulias se ofrecían como en un laberinto surrealista. Había siempre café. Alguien traía siempre una botella de alcohol o un libro. A la par, había una taberna con pinta de garito de puerto (en San José todo es posible), y un día Peña abrió una cantina literaria que creó leyenda: El Lobo Púrpura. En este sitio curioseó el mundo artístico de San José -muchos solo pasaron, escandalizados, al margen prudente-, se proyectaron actos culturales, y también actos del absurdo -licencias extraliterarias-, se pelearon poetas y pintores, se encontraron musas raídas o policías enmascarados, pero, sobre todo, la poesía vertiginosa de la libertad, una libertad que podía ser lancinante.

Otro libro de Alfonso Peña fue La novena generación (1996), libro que nos ubica en la travesía del escritor que ha vivido. Para ese entonces, ya San José se había ido convirtiendo en una ciudad hueca. La bohemia se fue transformando en un ornamento light de los buscadores de anestesia. Nunca se volvió a ver un bar donde se lanzaran versos ígneos los alucinados, ni tampoco se volvió a oír el escándalo de los contadores de historias inverosímiles, detrás de la Biblioteca Nacional, donde se había instaurado Andrómeda, sus directores, el bar, y los evocadores de espejismo, como el Sha, y su jerga de otro mundo, Maradiaga, el niño prodigio, el argentino Saraví, elegante discutidor y espíritu libre, Gerardo y sus pinturas de flores dementes… y tantos otros…

Hoy día, Alfonso vuelve a la literatura (¿y cuándo ha estado fuera de ella?), con un enigmático libro que tituló Labios pintados de azul. Arrojan sus páginas un escenario de la ciudad que hemos percibido como un bosquejo acuarelista de fantasmas urbanos perseguidos por las calles remotas, sin nombre, ya idas para siempre.

El mundo literario de Peña ha llegado en sus cuentos a una hondonada donde solo persisten los ecos. Se cumplió una trilogía. La prosa ya tiene el sabor de una hoja de tabaco o de un trago lento de whisky. Nos queda la sensación de que el joven Peña de los ochenta arrastró sus cuentos hasta hoy con la misión de pintar una ciudad alternativa: la ciudad de las penumbras, de las líneas de tren, de los caminantes que, de pronto, viven a la inversa, contra las manecillas de reloj.

Labios pintados de azul es un libro de cuentos de quien ha vivido su existencia como el mismo tono de una narración saturada por sus hemistiquios misteriosos; a veces, penumbrosos, y de difícil potabilidad; pero nunca condescendientes.

[Guillermo Fernández]


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