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revista de cultura # 53 |
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Relato sobre o mito, o rito e os símbolos (segundo Mircea Eliade, Aspectos do mito) David Nadeau
O mito não é apenas uma ficção. Ele comporta uma dimensão moral; é história “verdadeira” e significativa que serve de modelo para a conduta humana e confere significação e valor à existência. Ele tem por objetivo revelar o sentido dos ritos e das tarefas de ordem moral e dar um contexto à sua realização. A função mestra do mito, nos diz Eliade, é “revelar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas.”[1] Tradicionalmente, os mitos justificam as regras postas em vigor numa sociedade. E evidente que, para nós, poetas, que trabalhamos para a liberação do imaginário, os mitos propostos pela sociedade - tenho necessidade de nomeá-los? Trabalho, família, pátria, autoridade, lazeres… - são inaceitáveis. De encontro a esses mitos institucionalizados, o mito coletivo poético se nutre dos valores revolucionários e criadores tão bem expressos e reivindicados pelos surrealistas: liberdade, erotismo, poesia, revolta.
Natureza do mito Contrariamente ao mito das sociedades tradicionais, o nosso não pode reclamar para si a revelação de seres transcendentes. Ele toma por base a subjetividade humana tal como ela se conhece. Essa situação particular se remete, antes, a um mito prometeico[2] de criação, de conquista do imaginário, de individuação. Ora, contrariamente aos Gregos, a Idade de Ouro aqui não é vista no passado, mas no futuro; é o trabalho para a reintegração dos poderes perdidos pelo Ocidente racionalista que conduzirá nela a humanidade. Essa reintegração, diz-nos Jacob Boehme, alquimista e visionário do século XVII, não é um retorno ao estado primordial, edênico, porque o humano desenvolveu o pensamento racional claro e o individualismo - quer dizer, o sentimento de sua liberdade e de sua responsabilidade - no curso do desenvolvimento histórico. No que tange à reintegração, além de Boehme, há Joachim de Fiore e Hegel que seria interessante consultar.
Mito e história O mito conta a origem de uma idéia, de uma prática, de uma cultura. Está portanto profundamente ligado à noção de inconsciente coletivo, de memória e de tradição, mesmo sendo ela contracultural. Dessa tradição podemos encontrar traços nos alquimistas, milenaristas, gnósticos, e na poesia erótica e mística dos trovadores. Na época moderna, ela se prolonga em certas correntes culturais e ocultas. O mito conta como o mundo foi modificado: enriquecido ou deteriorado. Proponho um mito evolutivo, baseado sobre o modelo da Grande-Obra, inspirado pela visão hegeliana de uma Razão desenvolvida lentamente pela humanidade (“como a rosa brota sobre a cruz do sofrimento presente”, Prefácio à filosofia do direito). A filosofia de inspiração hegeliana, tal como encontramos traços dela no pensamento de Max Stirner, de André Breton e de René Daumal, é uma metafísica do sujeito; os desejos, a revolta e as esperanças do Eu, e a transformação desse pensamento em algo comum são explorados sistematicamente em vista de se enriquecer o conhecimento que o homem tem de si mesmo e de seus meios de ação.
Mitos e ritos de renovação O mito de renovação conta e justifica uma situação nova ou futura, como a necessidade prometeica de mudar o mundo. A criação da obra, a prática do rito constituem uma recriação ativa do mundo, do universo. Essas operações poéticas expressam as diferentes etapas dos processos históricos e individuais. O rito e a obra são modos de participação na “criação de uma nova época, após a perigosa interrupção da harmonia entre a sociedade, o indivíduo e a natureza”.[4]
Mito e grupo social
O mito de origem conta o nascimento de alguma coisa; um espírito coletivo, uma egrégora. A aposta na base dessa busca mítica é a renovação da cultura sobre uma base iniciática. A cosmogonia[5] é o modelo exemplar de toda situação criadora; que ela seja de ordem individual ou coletiva.
Mito de cataclisma O mundo é vivo. E tem necessidade de uma renovação periódica, pois está submetido à decrepitude. Antes da recriação, portanto, o fim de um ciclo é necessário. Leiamos Eliade: “para que alguma coisa de verdadeiramente nova possa começar, é preciso que os restos e as ruínas do velho ciclo estejam completamente aniquilados. Se desejamos obter um começo absoluto, o fim de um mundo deve ser radical”. Podemos pensar ainda em Charles Fourier e em sua noção de “afastamento absoluto”; se o modelo na base de uma sociedade é reconhecido como falso, é preciso radicalmente tomar uma outra via, e até mesmo o caminho inverso, sobre o plano moral, crítico, econômico, político ou outro.
Simbolismo do mito
O rito O rito permite viver o mito e seus símbolos, enquanto a obra tem sobretudo por função representá-lo. O mito garante a eficácia simbólica dos ritos que concernem a recriação do mundo. Os gestos rituais são freqüentemente importantes nesse tipo de representação simbólica. Poderíamos propor o estudo de certos ritos cosmogônicos, de seus elementos e da articulação de seus símbolos a fim de aprender a maneira de ligar os gestos, os objetos e o ritmo na criação de uma ambiência poética. O ritual iniciático visa um retorno à origem que conduz a um novo nascimento. A regressão ao caos, ou dissolução, é necessária. É a primeira etapa do processo que os alquimistas nomeiam “solve-coagula”. Mercúrio põe Júpiter em cólera pois ele leva o caos no que esse último ordena; ele leva o movimento, impedindo a estagnação. Ele está lá por ocasião de toda transição, ele semeia a desordem, da qual sairá o germe de uma nova ordem.
Ritos poéticos Para a constituição de um mito novo, podemos reinventar as práticas desenvolvidas pelos surrealistas e pelos diferentes movimentos de vanguarda: o automatismo, o sonho acordado, a visualização, a subversão social pelo humor negro, relatar sonhos, coincidências, objetos achados, interpretar obras coletivas. A lista não está encerrada, e pede para ser enriquecida. Penso notadamente nos aportes situacionistas, feitas todas as reservas filosóficas, e nos “happenings” da contracultura americana dos anos 50 e 60.
NOTAS
[1]
Mircea Eliade, Aspects du mythe, Gallimard,
collection “Idée”, 1963, p.19.
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David Nadeau (Canadá, 1981). Poeta, desenhista, colagista, ensaísta. Publicação clandestina da reunião de poemas La mémoire intraveineuse par-delà processus et saveurs (A memória intravenosa para além de processos e de sabores), em 2002. Diretor da revista Terre Gaste, fundada em 2006. Contato: mercuriussulphur@gmail.com. A tradução esteve a cargo de Éclair Antonio Almeida Filho. Página ilustrada com obras do artista Luis López Gabú (Galiza). |
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