revista de cultura # 53
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2006






 

Stuart Ross: "o bizarro é a minha maneira usual de pensar"
[entrevista]

Danielle Couture

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Stuart Ross é um poeta de Toronto, escritor de ficção, editor e professor de escritura criativa. Tem sido ativo na cena literária de Toronto desde meados dos anos 70. Ele é co-fundador, com Nicholas Power, da Toronto Small Press Book Fair. Sua obra tem honrado as páginas das revistas Harper’s, This Magazine, Geist, Rampike e Bomb Threat Checklist, para nomear apenas algumas. Seu livro de poesia Farmer Gloomy’s New Hybrid (1999) foi indicado para curta lista do Prêmio do Livro 2000 Trillium. Em 2003, ECW publicou Hey, Crumbling Balcony! Poems New & Selected. [DC]

 

Stuart RossDC Stuart, você começou a se auto-publicar em 1979, vendendo sua poesia nas ruas. Às vezes, você sente vontade de poder voltar a fazer isso, ficando na Yonge Street, pedalando seus poemas, conectando-se imediatamente com os supostos leitores?

SR Tenho pensado muitíssimas vezes em voltar para as ruas, pelo menos por um ou dois dias. Fiquei nas ruas de 1979 a quase 1991, mas no fim a rua foi ficando bastante pesada. Também, havia muitas pessoas sem-teto lá, e eu sentia que estava me acotovelando no território de pessoas que realmente precisavam estar lá. Acho, no entanto, que fazer leituras cumpre a mesma coisa para mim – conectando-me com novos leitores potenciais, obtendo um retorno imediato.

A única vantagem que a venda nas ruas me oferecia, no entanto, era que ela também me forneceu o contato com pessoas que talvez apenas leriam bestsellers ou obras literárias feitas sob encomendas comerciais, mas examinaram minha bizarra poesia porque elas estavam curiosas em relação a este janota ficando nas ruas com um cartaz dizendo "Writer Going to Hell" (Escritor indo para o inferno) em volta do pescoço.

DC Falando de auto-publicação, qual é a sua opinião sobre o estigma negativo que é às vezes vinculado à auto-publicação?

Luis López GabúSR Penso que há material de baixa qualidade auto-publicado, e há material de baixa qualidade publicado por casas literárias e de negócio. E material de boa qualidade também ocasionalmente vem dessas duas fontes. Entendo o impulso para condenar os livros auto-publicados (os autores não conseguiram ser publicados em outros lugares, os livros não são editados, etc.), mas isso não leva em conta o fato de que muitos autores na verdade tomam prazer em se auto-publicar e em fazer isso como uma escolha consciente.

DC Ouvi você dizer que poemas podem ter vidas diferentes em meios (mídias) diferentes, i.e., livretos, "grandes livros", folhetos. Você pode, por favor, se deter mais nesta idéia?

SR A maioria dos poemas tem uma vida bastante fugaz, como todos nós temos, suponho. Às vezes escrevo um poema, no entanto, e gostaria de vê-lo manter-se por si mesmo – talvez como um livreto, ou como um folheto (dependendo da extensão) – e eu gostaria de vê-lo acotovelando-se com o trabalho de outros poetas em uma revista e por último gostaria de ver como ele salta para fora de outros poemas meus num volume com formato de livro.

Kevin Connolly publicou um suntuoso livreto do meu longo poema "Paralysis Beach" em sua série Pink Dog (1989), e amei ver esse poema ser sua própria entidade. Mais tarde, eu o incluí em meu primeiro livro grande de poemas, The Inspiration Cha-Cha (ECW Press, 1996). Foi o penúltimo poema nessa seleção. Depois, no ano passado, ele apareceu de novo em meu livro New & Selected, Hey, Crumbling Balcony! (ECW Press, 2003), onde ele foi posicionado na trajetória cronológica de minha obra entre 1978 e 2003.

Assim esse poema teve três vidas distintas. Significa que a) extraí mais milhagens dele, e b) o poema conseguiu existir em três contextos diferentes, o que é excitante para mim.

DC No artigo on-line “The Maturing of Stuart Ross”, de Harry Vandervlist, você é citado dizendo: "Um poema que é uma espécie de absurdo ou tem coisas tolas nele realmente aborrece acadêmicos, ou aqueles que pensam que a poesia não ‘deve ser enlevada.’" Por que você acha que há uma tal pressão na academia para se ser sério, e para escrever uma poesia séria e cheia de significado?

Luis López GabúSR Agora, eu poderia estar errado em relação a isso, porque não estive no mundo acadêmico por um período longo, e minha breve carreira na academia foi bastante indistinta, mas… eu penso que há este sentido (e não está apenas na academia) de que a Arte deve ser séria. Se é engraçado ou estúpido, então é um ataque sobre a Arte. É claro, eu acho que isto é uma merda. Isto dito, fui convidado a ler para graduandos em universidades por professores que conheciam meu trabalho, e ficaram satisfeitos que eu fiz seus alunos rirem, porque eles conseguiram ver seus alunos na verdade apreciando a literatura. Gostaria de acrescentar, no entanto, que apenas porque algo é divertido ou absurdo não significa que também não seja profundamente sério.

DC Você escreve poesia com a intenção de ser cheio de significado?

SR Definitivamente eu nunca pretendi ser "cheio de significado" e raramente me preocupo com o sentido. O sentido vem depois, e vem diferentemente para cada leitor, assim como cada leitor traz uma experiência de vida diferente para o poema. Não acredito que a poesia gire em torno do sentido – para mim, gira mais em torno de texturas e justaposições e de ter diversão.

Um poema desconexo e picaresco como "Little Black Train" ou um frenético poema-inventário "After the Event, but Before the Thing That Happened" – eu meio que os vejo como o equivalente literário de uma pintura de Jackson Pollock: eu apenas me mantenho lançando bolhas de tinta sobre a tela, uma após outra, e ver como as cores e texturas jogam juntas, ou jogam cada uma à sua maneira.

Certamente há histórias reais em alguns de meus poemas – como "We Got Punched" ou "One of Those Lakes in Minnesota" or "The Catch" (esses são alguns dos meus poemas mais abertamente autobiográficos) – mas ainda os abordo da mesma maneira. Eu lanço uma linha, e então tento outra linha, e a coisa apenas se constrói. Eu quase nunca tenho uma estrutura ou plano em mente. Quando escrevo um soneto, a única coisa que sei é que terminarei depois de 14 linhas.

Mesmo ao escrever um poema que é pessoal e catártico – tal como "Selecting the Proper Coffin", sobre a morte repentina e o enterro apressado de meu irmão Owen – não gira em torno do sentido. Nesse caso, estou explorando um acontecimento horrível da minha vida, e estou me desafiando a encontrar uma maneira de incluí-lo num pedaço de papel.

Nunca tento extrair uma mensagem. Apenas apresento meu derramamento cerebral e espero que ele irá divertir ou intrigar alguém.

Luis López GabúDC Sei que você ministra um número de “campos de treinamento de recrutas” de escritura criativa ao longo de um ano. O que você aprecia no ato de ensinar, e porque você chama suas aulas de “campos de treinamento de recrutas”?

SR Eu os chamo de “campos de treinamento de recrutas” porque eles não tomam o formato da maioria das oficinas de poesia. Uma oficina usualmente consiste de um pessoal tal um rebanho sentado em volta de uma mesa lendo seu trabalho e depois o criticando. Isto freqüentemente resulta em que a poesia seja escrita por um comitê, com todas as margens tranqüilas da espontaneidade aparadas dos poemas do inexperiente e do inseguro.

Em minhas oficinas, a ênfase é em produzir novos poemas, e em produzi-los rapidamente e de novas maneiras. Imponho exercícios aos participantes, dou-lhes limitações e regras, deixo claro que eles não escrevam poemas de “sentimentos” de primeira pessoa. Quero que eles tentem todos os tipos de novas maneiras de escrever num período concentrado de tempo.

Passei a gostar de liderar oficinas cada vez mais. Gosto do sentimento de direcionar alguém para uma nova poesia, ou para novas abordagens da poesia. Gosto de quando posso levar as pessoas a se surpreender consigo mesmas. Realizar oficinas também sempre me faz pensar sobre a poesia, e sobre processos, em maneiras nas quais eu não penso quando estou realmente escrevendo. E, finalmente, especialmente quando estou trabalhando com garotos de segundo grau, isto me leva de volta às coisas que primeiro me excitaram em relação à escritura. É como dar a mim mesmo um curso de atualização várias vezes por ano.

DC Tenho que admitir que aprecio o senso de humor que a maioria de seus poemas tem, mas também me dou conta de que há algumas subcorrentes bastante gélidas para a sua poesia. Você já leu alguma vez um poema que achasse que era sério, e a platéia o percebeu diferentemente? Se sim, isto muda o modo como você olha o poema?

Luis López GabúSR Isto acontece freqüentemente, mas fico cada vez menos surpreso, e cada vez menos interessado. Há um poema que escrevi sobre a morte de meu pai, "Road Trip, Southern Ontario, 1999", e o primeiro movimento tem umas piadas, algum humor delicado, e assim vai "Two years later, my father will be dead, the car will be mine…" (dois anos mais tarde, meu pai estará morto, o carro será meu), e as platéias sempre riem disso. Mas comumente, la pelo fim do poema, eles se sentem um pouco culpados.

Pode ser um mecanismo de defesa da minha parte, para esconder o material pesado com humor. Mas também acho que é simplesmente porque as pessoas acham o bizarro engraçado, mas, para mim, o bizarro é a minha maneira usual de pensar. Assim, não vejo sempre humor no que estou escrevendo.

Isso costumava me aborrecer de verdade, quando as pessoas riam de composições que eu considerava sérias. Agora apenas aceito isto.

DC Na leitura na Kat Biscuits com Lillian Necakov e Ben Walker em fevereiro, você leu um trecho de um romance em que está trabalhando. Quando poderemos lê-lo?

SR Espero tê-lo terminado lá pelo fim deste ano. Ligue então e você pode ler o manuscrito. Todos os outros terão que esperar até que ele seja publicado - se ele for publicado. Bem, se ninguém se interessar, acho que eu mesmo terei que publicá-lo. Este livro é realmente importante para mim.  

Danielle Couture (Canadá, 1978). Poeta. Autora de Good meat (2006). Entrevista originalmente publicada em The Danforth Review (Canadá, 2004). Tradução a cargo de Éclair Antonio Almeida Filho. Contato: couturedani@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Luis López Gabú (Galiza).

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