revista de cultura # 53
fortaleza, são paulo - setembro/outubro de 2006






 

Esoterismo das "33 folhas", de Ernesto de Sousa

Maria Estela Guedes

.

Para Isabel do Carmo e Isabel Alves, com gratidão e amizade

 

Ernesto de Sousa1. Isabel, um pouco de História

Ernesto de Sousa foi uma dessas figuras fortemente carismáticas na cultura portuguesa, que atravessaram a barreira da ditadura, para o seu pensamento se abrir, sem censura, com a democracia instaurada em Portugal a 25 de Abril de 1974. O livro “33 Folhas”, cuja última data expressa é 1972, espelha algo do que foi o período salazarista, talvez não para o leitor estrangeiro, sim para quem teve a fortuna de conviver com o autor. Ernesto de Sousa foi várias vezes preso pela PIDE, a polícia secreta de Salazar, como tantos outros intelectuais, sob acusação de actividades subversivas. Andou fugido e clandestino pelo Norte de África, daí tendo resultado as “Cartas do meu Magrebe”, publicadas, salvo erro, na revista “Opção” (1).

Para obviar a lapsos de memória, próprios de quem, neste momento, escreve sem fontes debaixo dos olhos, transcrevo a nota biográfica de José António Salvador, publicada no Diário Popular na altura da morte de ES, e hoje em linha em vários locais:

JOSÉ ERNESTO DE SOUSA nasceu em Lisboa, em 1921, e nos anos quarenta frequentou a Faculdade de Ciências, onde organizou a exposição de arte negra da Associação de Estudantes. Militava, então, no MUD Juvenil, organização política da resistência antifascista, na qual o PCP desenvolvia uma participação significativa a par de outras correntes de opinião.

Amante das artes e entre estas do cinema, Ernesto de Sousa foi pioneiro na animação cultural, contribuindo para a implantação do movimento cineclubista no nosso país a partir da década de 50, ao fundar o primeiro cineclube entre nós, o Círculo de Cinema.

O cinema apaixona-o e dirige a revista «Imagem». Em 1962 nasce do seu talento um filme que marcou o cinema português: «Dom Roberto», com o actor Raul Solnado. Como afirmou um grande crítico, Alves Costa, «é talvez arbitrário considerar Dom Roberto o filme charneira. O certo é que a partir dali a história do cinema português seria outra».

Ernesto de Sousa, no silêncio do seu comedimento, fez outra história para o cinema português. Como fez outra história para as artes por onde viajou: - encenações no TEP, cursos de formação artística na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Nos anos 60, quando se preparava para se deslocar a Cannes e aí receber o Prémio da Crítica pelo seu filme «Dom Roberto», foi detido pela PIDE, ficando preso na cadeia do Aljube. Nos anos de chumbo, a liberdade era coisa por conquistar. E o direito à diferença, estrangulado pela violência da ordem imposta.

Escreve, lê, pinta, fotografa, filma, teatriza, vive numa busca constante da beleza inesperada. Instalações, exposições e happenings fazem parte do seu itinerário nos anos 70 e 80.

Atravessa-o o 25 de Abril quando já tinha sido preso três vezes pela PIDE: em 48, numa reunião do cineclube, mais tarde por ter visitado a URSS e a última vez quando foi impedido de receber o prémio em Cannes.

«Foi a minha terceira prisão», declarou a Rui Ferreira e Sousa. «Eu estava no Aljube. Vesti-me com o fraque que iria levar a Cannes e fui contando vários episódios. Todos os companheiros estavam a ouvir-me contar e ler poesia: operários e até guardas. Então, os presos confeccionaram um diploma para me oferecer e premiaram, assim, a realização de 'Dom Roberto'. Foi muito bonito».

Pode dizer-se que o objectivo supremo deste homem foi fazer da vida uma coisa bonita, como quem respira. Conheceu Bazin, Agnès Varda, Resnais. Estudou Sartre, Merlau-Ponty e Rosa Ramalho. Conheceu por dentro o neo-realismo como o surrealismo. Não impôs a si próprio fronteiras ideológicas e deixou que a cultura o atravessasse sem tréguas.

Filma poemas de Herberto Helder, faz exercícios sobre poesia de Almada Negreiros, Luísa Neto Jorge, Herberto e Cesariny no Primeiro Acto de Algés, com música de Jorge Peixinho e a sua imaginação.

Recupera painéis de Almada Negreiros, em Madrid. É comissário por Portugal para a Bienal de Veneza em 1980, e vive no silêncio da sua serenidade. J.A.S. (2)

Luis López GabúJosé António Salvador refere a exposição de arte negra e Rosa Ramalho, ou Ramalha, uma célebre ceramista popular, em paralelo com o conhecimento íntimo do surrealismo e outras actividades na vanguarda. De facto, Ernesto de Sousa cruzava duas grandes linhas de força, ao contrário, aliás, do que pretendeu o surrealismo de primeira fase, que visava cortar amarras com a arte do passado: aliava a arte vinda da tradição com a modernidade. Esse cruzamento deixou título numa instalação na galeria Quadrum, em Lisboa, “Tradição e Aventura”.

Para protagonizar a Tradição, ES escolheu Mitra, divindade solar iraniana que Cristo espelha em vários aspectos, entre eles, o nascimento, a 25 de Dezembro, no solstício de Inverno, de acordo com outro cineasta português, António de Macedo (3). A vanguarda, ou aventura, vê-se nos procedimentos: uma parede recoberta com cópias, em grandes dimensões, da sua fotografia da pequena escultura de Mitra, tão mínima que ES mostrava o polegar para lhe indicar a altura. No TriploV estão em linha textos e imagens dessa instalação (4).

Na época de redacção dos textos, as mais importantes mulheres na vida de Ernesto de Sousa, esposas, por acaso objectivo, decerto, chamavam-se, e chamam-se, Isabel. Para além de mescla de prosa, verso, imagens, etc., o livro apresenta uma linha dramática, expressa no discurso directo, mais óbvia na “Carta a Isabel”. O processo traz então à superfície uma personagem feminina, mas a pessoa a que se refere não é sempre a mesma. Não só o nome se refere a várias Isabéis, como é à Mulher, ou a todas as mulheres, que ES dedica este livro (Folha 6, na edição do TriploV).

Espero não violar a privacidade de nenhuma de nós, mulheres, se disser que uma das de “33 Folhas”, minha querida amiga Isabel Alves, é a viúva de Ernesto de Sousa, mulher ligada de várias maneiras à arte contemporânea; e que outra, grande figura da frente guerrilheira que na sombra combateu a ditadura, Isabel do Carmo, estava na prisão à data em que alguns dos poemas do livro foram redigidos. Aliás, a acção de Isabel do Carmo prolongou-se para além da instauração da democracia, o que lhe grangeou longa peregrinação pela cadeia e pelos tribunais:

Isabel do Carmo, hoje médica num hospital de Lisboa, fundou com o marido as Brigadas Revolucionárias e mais tarde (1973), o Partido Revolucionário do Proletariado (PRP).

Após o 25 de Abril, destacou-se no denominado "período quente", desenvolvendo grande actividade nas ruas, em empresas e em fábricas. Acabou por passar alguns anos presa, acusada de "autoria de acções armadas". Após a sua libertação seguiu a carreira médica. (5)

Foi com Carlos Antunes que Isabel do Carmo fundou as Brigadas Revolucionárias, em 1973. O livro “33 Folhas” cobre um período de mais de 12 anos, recuando aos anos 60. A presença de Isabel nele, bem como alguns temas, como o apelo à liberdade e à revolução, e referências políticas indiscutíveis, de aprovação de lutas pela independência colonial, como dedicatórias a heróis tombados nesse combate - Patrice Lumumba, do ex-Congo-Belga, assassinado em 1961; Amílcar Cabral, dirigente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, assassinado em Conakri a 20 de Janeiro de 1973; e Che Guevara, assassinado em 1967, no povoado boliviano de Higueras, aos 39 anos de idade, por boinas verdes bolivianos, exército treinado e armado pelos norte-americanos – estas pessoas e temas, repito, precisam de ser postas na mesa deste ensaio, sob pena de ligeireza da minha parte, ao pegar no livro por um lado que não é certamente o mais importante: os elementos relativos a um hermetismo de sempre, mas que assume relevo especial com as obras dos surrealistas, e em Ernesto de Sousa desempenha um papel desconcertante.

 

2. 33 Folhas ou 33 Graus?

Ernesto de Sousa, que eu saiba, nunca esteve ligado a sociedades iniciáticas, nem ao movimento liderado em Portugal por Mário Cesariny. Foi uma surpresa descobrir na sua obra símbolos que, em princípio, poucos reconhecem, além dos iniciados, como aconteceu há anos, quando abri o TriploV, e lhe dediquei um pequeno ensaio, centrado na principal peça dos paramentos maçónicos, o avental, usado por ele como obra fundamental de uma instalação, na Galeria Diferença (6). Em “33 Folhas” deparamos com outros elementos característicos dos maçons ou arquitectos, entre eles, um texto sobre arquitecturas ideais (Folha 8) (7), no qual figura um enigma, o de “Chão Ave”, cuja chave é “Chave”. E mais se adianta nesse texto: que a Casa tem de ser feita de pedra.

Luis López GabúNesses anos, e porventura ainda hoje, a simbólica era fustigada pela esquerda, com a alegação de pertencer à ideologia de direita, sendo portanto reaccionária. De resto, num país, a antiga URSS, líder da opinião mundial para os comunistas, decretou-se que estavam extintas as religiões. A partir daqui, quem lida com a panóplia do sagrado fica à mercê de falsos rótulos, por muito que vote à esquerda e defenda princípios democráticos. É interessante então ver como Ernesto de Sousa, politicamente ligado a acções revolucionárias, sobre as quais recaía a acusação de terrorismo, ainda nos anos mais impiedosos teve a coragem de se manifestar como um sacerdote, rodeado no templo da arte por novas gerações de crentes.

Porque a ofensa sobre o sagrado existia – e existe -, o Mestre vê-se na necessidade de exercer um magistério que esclareça o mecanismo do símbolo, e fá-lo – bem à maneira surrealista – no interior de um livro, inclassificável como género, mas que eu diria livro de poesia em termos amplos, “33 Folhas”. Não somente o livro contém elementos simbólicos, e labora no âmbito do sagrado, como reflecte e passa a outrem ensinamentos sobre essa matéria, num procedimento meta-simbólico, correspondente a uma dupla iniciação. Na Folha 4, Leitura de Heraclito, o neófito é Isabel:

“Violência. A prova iniciática (de tipo heróico) só pode consumar-se pela violência. O jovem come os frutos da árvore da vida. E até os foliões enterram o carnaval. Tese, antítese, síntese. A violência (...) de todo o erotismo. (...) Negação da negação.

A des-simbolização, como a des-sacralização (da Natureza, em particular) é uma característica do homem moderno. Mas estamos tão perto dos símbolos que ainda quase tudo a que chamamos emoção estética não é outra coisa senão metamorfose dos valores sagrados. A nossa própria linguagem é conotativa, e não denotativa (nocional). Quer dizer que não falamos de coisas, funções, relações, actualizando apenas os respectivos caracteres objectivos, desiderativos, estéticos, contemplativos, morais, e... em última análise, disfarçadamente sagrados, simbólico-sagrados. Sob os signos escondemos os símbolos.

Assim, é necessário estar atento às hierofanias cósmicas (do gr. hieros, sagrado, e faneros, visível).

O Girassol é a metamorfose da lua em sol, da vida mutável e feminina em vida autónoma e soberanamente inteligente; é lua pela forma e sol pela cor. É o fim das distinções. A fusão de DOIS em UM. Pode também (porque, des-sacralizados estes meus símbolos, são emblemas, mnemónicas do todo) ser um símbolo do amor-profano-não-diminuído.

Iniciação é conhecimento e assunção de uma nova personalidade. O iniciado é aquele que sabe, que conhece os mistérios (do seu corpo, do seu espírito, do seu-mundo). A morte do neófito, do anjo, do adolescente, é a geração do adulto, daquele que sabe. As torturas, as mutilações, estão em relação com as divindades lunares. A lua morre, para a ressurreição três dias depois. Como Cristo, como o Homem. Com a iniciação, tudo recomeça de novo”.

ES integra-se numa estirpe de intelectuais que, não pertencendo a grupos surrealistas, conhecem o movimento, admiram-no, e perfilham alguns dos seus princípios – a defesa intransigente da liberdade; a arte como forma de vida em oposição declarada a regimes anti-democráticos, e simultaneamente meio para alcançar a revolução; o princípio de que toda a arte é sagrada; o amor único; o erotismo; o recurso às potências do inconsciente; o aproveitamento das linhas de força religiosas, nelas incluído o esoterismo. Além disso, muitos procedimentos do surrealismo foram adoptados pela comunidade de escritores e artistas. De forma geral, são actuações anti-arte convencional, e hibridadoras, como a colagem. A obra de Ernesto de Sousa está cheia de actos e referências surrealistas, seja referências a autores, seja citações, com ou sem menção de autoridade. Uma das mais notáveis, a que já me referi várias vezes, é o nome do site TriploV=VVV (8; 9). VVV é o título de uma importante revista fundada por André Breton em Nova Iorque. Outra, não menos surpreendente, foi a sua opção pela Gioconda de Marcel Duchamp para o logotipo da mais importante manifestação de arte de vanguarda em Portugal, a Alternativa Zero, que organizou.

“33 Folhas” é um livro inédito em papel, em linha no TriploV, num conjunto de 11 páginas .html, de Folha 1 a Folha 11, alojadas no directório de Ernesto de Sousa (10). Neste momento, escrevo sem refrescar a memória em escritos meus que porventura esclarecessem alguns mistérios, tais como a autoria do título, porque isso é irrelevante no contexto de uma obra híbrida, que convoca vozes de autores distintos, dispersos no mundo e na História. Desde a “Invenção do dia claro”, de Almada Negreiros, até Aragon, que parafraseia Marx (“O destino do homem é o homem”), escrevendo que “O destino do homem é a mulher”, o livro é um intertexto e uma polifonia complexos, em que as “33 Folhas” se acomodam bem, chamando a atenção para o esoterismo, precisamente. No caso, tal como no do avental, para uma simbologia ostensivamente maçónica.

Julgo que o título é meu, julgo que lho atribuí por o maço de 33 folhas A4 que Ernesto de Sousa me deu não ter rosto, com alguma frase em corpo grande que pudesse sem dúvida tomar-se por tal, embora tivesse algures a declaração manuscrita de que eram 33 folhas. O maço também não traz imagens, sabendo eu no entanto que esse livro, quando fosse publicado, teria imagens e um esquema gráfico original. Uma delas seria a fotografia da maçã.

Mas o que há de mistério num título como “33 Folhas”, pertença ele ao autor ou a outra pessoa? Esse mistério faz parte de um complexo maior, que inclui outras participações do número 3. Na Folha 2, a rematar o conjunto de textos “O teu corpo é o meu corpo”, vem a seguinte charada/assinatura:

Luis López Gabú“máquina 3

um nome desconhecido

3172 1/3 L

este número é o inventário e tu

procura…

E.S.”

Não se trata de um testamento, em que se inventariam bens materiais, trata-se de… e pode ser um testamento, porque não? Trata-se de um testamento cujos bens são constituídos por “3172 1/3 L”, e necessário será que o beneficiário procure este tesouro.

A título de curiosidade, usei a máquina de calcular para saber qual seria o terço do inventário. Obtive o resultado seguinte:

“1057,3333333333333333333333333333”.

Na Folha 6, a que dei o título geral “X ou a incógnita”, por o X, símbolo do fogo sagrado, estar presente no texto, vemos uma recapitulação deste mistério:

“re capitulo

faltava acrescentar

a palavra é

333333333333333333333;   313;  3”

 

Escusado dizer que não disponho de solução para o mistério, de resto o que tem solução são os enigmas e charadas. Os mistérios dizem respeito a rituais. Como já deixei expresso, “33 Folhas” é uma dupla obra de iniciação, aliás tripla: iniciação do sujeito que fala, iniciação de Isabel, e iniciação na Poesia. Não resisto no entanto a olhar de cima para o poema, como objectiva de uma “máquina 3”, ou Leica, sabendo que faço arte com isso, e com essa arte amo o corpo de Isabel.

 

3. Mistérios do girassol

O girassol abre o livro, como verbete em dicionário de símbolos: “Héliotrope”, eis o título que anuncia os mistérios da iniciação, muito claramente erótica, mesmo quando ES nos dá enormes charadas com o 3, ou quando vai buscar aos índios da Colômbia um texto de aparência culinária:

Informo-te, girassol, que tenciono comer-te. Podes sempre ajudar-me a crescer de tal maneira que me seja dado atingir o cume das mais altas montanhas, e que nunca seja desirmanado. Suplico-te, girassol! Tu, que és o maior de todos os mistérios! (Folha 1)

O girassol é originário da América. Sabe-se que a sua cultura remonta a mais de três mil anos, no México. Foi introduzido na Europa na sequência dos Descobrimentos Portugueses, no século XVI. Simbolizava o Sol entre os aztecas. Os templos e as sacerdotizas eram coroados com flores de girassol. Os maias, por seu lado, extraíam dele uma substância usada como afrodisíaco. Continuamos com a iniciação nos mistérios do corpo, com um Mestre reversível: Isabel é iniciada e inicia; ambos, pelo amor, se iniciam nos mistérios da Poesia, indestrinçável da vida, e por isso “O TEU CORPO É REVOLUÇÃO” (Folha 2 – O teu corpo é o meu corpo).

Destas ou de similares questões acerca do heliotrópio e da heliotrópia trata o falso ensaio da Folha 1 – Héliotrope, no qual se anuncia a iniciação, a perversão do status, ou o princípio revolucionário.

Recapitulemos: o livro tem como última data expressa 1972. Só a partir de 1974, com a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, o sexo passou a gozar de alguma liberdade. Até então, um simples beijo podia provocar cataclismos domésticos e sociais. Imperava a repressão política, e com ela a religiosa, tendo como resultado a repressão do corpo. Por isso, a liberdade sexual atacava o sistema político. Quanto mais livre o sexo, mais hipótese tem de entrar na libertinagem, espaço no qual as intimidades recebem da opinião pública o nome de pornografia (Folha 5). Quanto mais transgressor, tanto mais subversivo das leis que vigoravam na pátria. Se uma das mulheres fez a revolução armada, outra fez a revolução sexual. Ambas foram necessárias para conquistar a liberdade.

Luis López GabúDa transgressão, ou da revolução amorosa, faz parte a união de Dois em Um, a hierogamia celeste. Porém nas bodas alquímicas nada garante que macho seja Ele e que Ela seja fêmea. A metamorfose anunciada pelo girassol, na Folha 1, põe que no acto sexual a mulher possua e o homem se deixe possuir, uma vez transmutados os papéis sexuais. E ainda aqui o amor é política, o amor é História, se dermos atenção à Índia da Folha 7, em que ES nos garante que a penetração equivale ao caminho marítimo. Já no início do livro ele invocava a Virgem e Santa Marinha, imagens líquidas da grande e maternal matriarca.

As mulheres.

A Mulher.

A Revolução antecipada.

 

NOTAS

1. Ver “Itinerário dos Itinerários” (Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1987), catálogo da retrospectiva “Itinerários”, de Ernesto de Sousa, co-organizado por mim, no qual se colige muita bibliografia do artista.

2. José António Salvador, Diário Popular, 7.10.88. Em linha no TriploV e em “Estudos sobre o Comunismo”: http://estudossobrecomunismo.weblog.com.pt/arquivo/167747.php

3. António de Macedo, “Textos neo-gnósticos. Os códigos mistéricos da Quinta Idade”. Lisboa, Zéfiro, 2006.

4. www.triplov.com/ernesto/traditio.htm

5. http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/036714.html

6. Maria Estela Guedes, “O avental”. Em: www.triplov.com/ernesto/avental.htm

7. Página-index em: www.triplov.com/ernesto/33Folhas/index.htm

8. Entrevista de Floriano Martins e Maria Estela Guedes no Jornal da UBE (União Brasileira de Escritores), São Paulo, SP, 2003. Em linha em: www.revista.agulha.nom.br/ag31revista5.htm.

9. Maria Estela Guedes, Surrealistas que se ignoram. Apresentação de um dossier sobre o surrealismo, organizado com Floriano Martins. Atalaia-Intermundos, Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa, nº 10-11: 5-8, 2002. Em linha no TriploV.

10. http://triplov.com/ernesto/ 

Maria Estela Guedes (Portugal, 1947). Escritora, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. Dirige o TriploV [http://triplov.org]. Autora de livros como Herberto Helder, Poeta Obscuro (1979), Lápis de Carvão (2005) e Ofício das Trevas (2006). Contacto: estela@triplov.com. Página ilustrada com obras do artista Luis López Gabú (Galiza).

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