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revista de cultura # 54 |
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Campos de Carvalho: entrevista, depoimento e textos inéditos Heleno Álvares
Agulha tem recebido, com alguma freqüência, consultas de pesquisadores e leitores interessados sobre Campos de Carvalho, a propósito do ensaio Campos de Carvalho: prosador surrealista? - publicado em Agulha # 3. Isso, por uma razão: a falta de bibliografia sobre esse autor. Apesar de sua importância ser reconhecida, Campos de Carvalho não é estudado. Não entrou na Universidade, digamos. A bibliografia crítica sobre ele é reduzidíssima: quase nada além do ensaio de Carlos Felipe Moisés que prefacia a edição da José Olímpio, a entrevista na revista e no almanaque Azougue, e uma ou outra matéria. Evidentemente, isso amplia o interesse do material que nos foi enviado por seu amigo Heleno Álvares: entrevista, inéditos, depoimentos. Corrobora algo que já havia sido dito, a propósito de surrealismo em Campos de Carvalho. Sugere relação entre seu estilo literário e seu modo de dar entrevistas, com respostas paralelas, atravessadas. Estas lembram o modo como Breton, no primeiro Manifesto do Surrealismo, associava o Sintoma de Ganse ou respostas desconexas e a ecolalia ao surrealismo. [Claudio Willer]
Quando estive em seu apartamento, Campos de Carvalho me recebeu com a elegância de um humorista que permanece com o semblante sério como quem está ridicularizando a desprezível formalidade e, como não podia deixar de ser, falando com o seu refinado humor. Num dado momento, falando sobre surrealismo brasileiro, ele disse gostar de Jorge de Lima, “o de Invenção de Orfeu”, fez questão de frisar. Depois, sobre autores estrangeiros, perguntei sobre Kafka: “Não gosto! Não tem nada de humor. A literatura tem que ter humor. Quando você escrever, não se esqueça nunca do humor.” “Neste caso pode-se dizer que o humor é a coisa mais séria que existe?”, perguntei. “Sim. É exatamente isto!” E relendo uma entrevista que concedeu, em 30/10/69, à revista O Cruzeiro, Campos já dizia o mesmo em relação a Kafka. “Não direi que detesto Kafka, mas nunca vi ninguém tão desprovido de humor. Minha identificação mais forte, não em qualidade, mas em sentido de obra, é com o Céline de “Viagem ao Fim da Noite”. Temos a mesma maneira trágica e humorística de encarar a vida. Depois, Ionesco, Beckett e Alfred Jarry. E, ainda, Antonin Artaud, Trinton Tzara e o Balzac de ‘Contes Drolatiques’”. Em seguida, o mestre do surrealismo brasileiro me confirmou seu encontro com o Diabo, como é dito na apresentação de seu livro “A Chuva Imóvel”. Na conversa anterior à entrevista, chegou a me informar que tal encontro com o Demo teve a duração de “um minuto, um minuto e meio”. Este fato teria ocorrido em sua adolescência. Depois, para minha total felicidade, Campos de Carvalho me dedicou um exemplar de “A Lua Vem da Ásia” e outro de “Vaca de Nariz Sutil”, 1ª edição, de 1961, além de me permitir fotocopiar seu segundo romance, “Tribo”, e o seu livro de poemas, ainda inédito, chamado “Os Sinos de Is”, que escreveu aos 18 anos de idade. Em outro momento, Dona Lygia fez uma importante revelação quando perguntei sobre as crônicas de O Pasquim, me dizendo: “Não sei se é de fato, mas alguns críticos chegaram a comentar que estas crônicas de O Pasquim representam o que há de melhor na obra do Walter (Campos de Carvalho)”. E, felizmente, agora temos em livro suas “Cartas de Viagem e Outras Crônicas”, que já pode ser considerado o acontecimento literário do ano. Em 1º de dezembro de 1996 tive o privilégio de ir ao Restaurante “La Villete” com o próprio Campos e dona Lygia, depois de ter completado (em 1º de novembro) seus 80 anos. Nesta ocasião, me falou que já havia iniciado seu livro “O Concerto no Ovo”. Preferiu não adiantar nada sobre o “novo” livro. Ao perguntar sobre qual retrospecto faria dos seus 80 anos, me respondeu enfaticamente: “não tenho 80 anos! Tenho três anos de idade!” “Sendo assim”, provoquei, “o que pretende ser quando crescer?” – “Escritor!” Então já conseguiu o que queria. Neste instante, silenciosamente, concordou com o que havia dito através de um sorriso discreto, dando uma bela amostra do quanto sempre levou a sério a questão do humor reflexivo, filosófico.
CAMPOS DE CARVALHO - O PAI DO SURREALISMO BRASILEIRO FALA AO CORREIO DE ARAXÁ
HA Gostaria que tecesse algum comentário sobre sua literatura. CC Eu pretendia ser poeta. Minha formação foi toda francesa, porque naquele tempo o francês era a “língua nacional”. Hoje é o inglês. HA Ionesco, Sartre, tiveram... CC Todos esses escritores eu conhecia, na época. Hoje, eu não leio mais. HA Qual o grande autor do surrealismo brasileiro? CC Nenhum. HA Mas, o seu estilo é... CC ...Surrealista! HA Existe algum objetivo pessoal na criação do personagem uno e ambíguo, “André-Andréa”? CC Não. Só existe viva, uma irmã em Uberaba. HA E ela influenciou na criação... CC Não, não, não... HA Agora gostaria que você me matasse uma curiosidade. Onde fica a sua Bulgária? Perto da Pasárgada de Manuel Bandeira? CC Não. Manuel Bandeira não me influenciou nada. HA De qualquer forma, esta “Bulgária” (do livro “O Púcaro Búlgaro”) foi criada por você. CC Havia um editor na época que lançou uma coleção que se chamava “Os Grandes Humoristas”, quando publiquei “O Púcaro Búlgaro”. HA Você acha que o Brasil, hoje, é um Cafarnaum contemporâneo, uma bagunça (como se vê em “A Chuva Imóvel”), ou não? CC Não. De repente, Campos de Carvalho conta que escreveu “O Púcaro Búlgaro” em 20 dias e que o considera seu melhor livro. E volto a lhe perguntar: HA Quem, da nova safra, merece destaque na Literatura Brasileira? CC Nenhum. HA Pra você, o que é Lógica? CC Os meus livros foram escritos no Rio de Janeiro, onde eu morei 23 anos. No entanto, não tem nada. Campos respondeu assim para mostrar a falta de Lógica entre as coisas, e insisti: HA Mas, em se tratando de conceito, a Lógica é como você diz em “A Lua Vem da Ásia”: “Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica”, insinuando que esta não existe? CC Não existe! HA Já que falamos de conceito, o que é sexo? CC Também não existe. HA E Deus? CC Não significa nada, nada, nada. HA Aliás, como foi seu encontro com o Demo, o Diabo? Que Idade você tinha na época? CC 40 anos. Eu comecei a escrever aos 40 anos. HA Mas, antes já havia escrito “Banda Forra” em Uberaba, não é? CC Não, foi aqui em São Paulo. HA Esse encontro durou um minuto, um minuto e meio; você teve a visão do Diabo, realmente? CC Tive a visão dele. HA O que é Literatura? CC Atualmente, eu gostaria de escrever. Mas não saiu nada. HA Gostaria de escrever conto, romance, novela, poema? CC Poema eu não sou capaz, não...
TRECHOS DE POEMAS DO LIVRO INÉDITO OS SINOS DE IS, DE CAMPOS DE CARVALHO[1]
1. KARMA
O espírito dos mortos
vela.
Quando em plena noite acordo,/vejo-o sentado em minha cama, imóvel./ Seu negro olhar profundo,/eterno e meigo olhar de quem não é do mundo/ e traz ainda a visão de esferas inefáveis,/pousa tranqüilo em mim, como um frio epitáfio numa lousa./Dir-se-ia o olhar de um irmão ou de uma esposa/ que assim me espreita e me protege, em meio ao sono,/dos sortilégios do demônio ou de algum gnomo/ surgido, há séculos, da estranha fantasia/ de um antepassado cabalista. /(...)/É bem possível que esse estranho ser/ não seja para mim um ser estranho, e sim/ a imagem dos que viveram minha vida antes de mim.”
2. SAL DA TERRA
Vós sois o sal da
terra.
(...)/E como defini-los, se são indefiníveis como o espírito de que emanam/ e sua rara estirpe não se ajusta a uma só fórmula ou imagem única?/ Direi somente que são aqueles que jamais se deixam poluir/ e nunca se dão aos outros, sendo sempre eles mesmos;/ Os que não abandonaram sua infância e sabem sentir a alma das coisas/ e aceitam todas as contradições porque superam as aparências;/ Os que trazem consigo um Deus único, particular, e não necessitam de outros deuses;/ Os que vêem de olhos fechados e escutam o silêncio dos mortos;/ Os que amam sobretudo a solidão e a paz, e só odeiam o ódio;/ Os que se sentem grávidos de estranhas verdades, mas não as conhecem;/ Os que sofrem de inexplicáveis angústias e sentem súbitos pavores; /Os que amam e veneram os loucos, porque os compreendem sempre;/ Os que esperam a Morte a cada passo e não a temem;/ Os que não têm família nem pátria, mas se conhecem a enorme distância;/ Os que nasceram, enfim, para ser odiados, lapidados, crucificados,/ como o foram sempre, em toda parte, mesmo se em pensamento apenas.
3. OS SINOS DE IS
Meu coração é como o frio espectro de Is,/ a submersa:/cobrem-no turvas águas silenciosas/ e a fluida fauna dos pecados e das penas/ que eu vivi outrora, quando vivo./Tudo é profundo, inerte, escuro,/ neste meu grande mundo extinto,/e é em vão que ainda perpassam sobre os seus escombros/ sombras de sonhos, lívidas, incertas,/como peixes sonâmbulos./ De quando em vez, porém,/sinto nascer de mim, como de um estranho abismo,/cantos plangentes, mil vozes em coro,/que me surpreendem e animam como deuses/ ou me apavoram./Não sei como explicar - ninguém o sabe - / esses cantos funéreos ou divinos/ que assim despertam e vibram no meu peito,/em meio à grande e densa noite de minha alma, /como sinos submersos...”
4. MENSAGEM
Há que haver os loucos,/ os alucinados, os videntes,/ cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver/ sobre este mundo visível e as verdades consagradas,/e cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações/ das águas eternas e inaudíveis/ que são o destino de todos os barcos./ Há que haver os que despertam à meia-noite/ angustiados,/e põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas/ como uns loucos - não o sendo - /e exprimem numa linguagem que não é a sua,/nem a de seus pais,/nem a de qualquer outro povo da terra,/estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas,/e depois serenam como o mar após a tempestade/ e não sabem mais recordar aquilo que disseram,/e choram quando lhes mostram seus puros êxtases,/e sentem-se miseráveis despertados. Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim,/ pálidas, sinuosas, quase fluidas,/se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas/ e inconscientemente, totalmente a cegas,/gravem para a eternidade, como num frio rochedo,/palavras de fogo e de sangue,/ânsias, ódios, espantosos desesperos,/para depois se admirarem eles próprios daquilo que escreveram,/como sonâmbulos que, de repente e a sós,/despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas/ e não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas paragens,/tão perto dos deuses. Há que haver os que abandonam o lar, pátria, amigos, cidade,/ velhos hábitos e confortos seculares,/e sem levar nada de seu,/ apenas sua consciência desarvorada e lúcida,/ põem-se a perseguir novas e estranhas verdades,/ como que hipnotizados,/e não mais repousam e dormem, em sua peregrinação,/ noite após noite, sol após sol,/ até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as suas chagas/ e vejam enfim mais nítido dentro da própria alma,/e pela primeira vez se reconheçam em toda a sua nudez,/como o amante à amante no momento supremo da posse.
A ESTRELA-GUIA DA TRIBO SURREALISTA[2]
Quando se apagam as
luzes é que eu me vingo espiando as estrelas.
Pra enxergá-la, é preciso não uma luneta, mas, uma “visão” que transcenda o meramente visível. E esta visão não se encontra nos olhos, mas no abstrato sentido de “ver”. E, a Arte de ver atinge o “óbvio oculto”, aquilo que nossos olhos não nos permite alcançar, mesmo usando lunetas. Também não estou me referindo a uma “terceira retina” e, sim, aos “olhos da percepção”, que ultrapassam o fato chamado de real, criando desta forma, uma outra realidade que, antes de se consolidar, é vista como Utopia, como se esta não fosse fundamental para transformar a (Ir)Realidade que (Iludidos) acreditamos vi-ver. E esta minha Estrela-Guia me fez acreditar que estivesse em um outro plano que não o terrestre, quando pisei o chão de seu apartamento, no dia dois de dezembro de 94, um dia após meu aniversário (E poderia haver presente maior?), quando ao lado de sua esposa, Dona Lygia (a quem ele chama de Santa), me entregou um livro absolutamente inédito, escrito há sessenta anos, ou seja: aos dezoito anos de idade! É um livro de poemas que se chama “Os Sinos de Is”, onde o poeta já fazia citações de Verlaine, Gaughin e, se inspirando ao mesmo tempo em um quadro (não especificado) de Arnold Böcklin, além de epigrafar o seguinte texto de Jens Peter Jacobsen: “...Mas isso não impedia que em certos momentos, em horas de recolhimento, algo se agitasse e murmurasse dentro dele, qualquer coisa como sinos que tocassem numa cidade coberta pelo mar.” E, junto com seu segundo livro editado que é “Tribo”, Campos me deixou fotocopiar este inédito, que é um perfeito esboço de toda a sua obra. Certamente, este foi um dos mais felizes e importantes dias de minha vida. Afinal, você já teve o privilégio de conversar com a sua estrela-guia? De ser muito bem recebido em seu apartamento? Já bebeu uísque com sua estrela-guia? Pois, eu já. E não é à-toa que no dia-a-dia, quando falamos, quebramos a própria fala e, calados, “vemos” o indizível na linguagem do inominável. Afinal, o que existe nem sempre aparece. Quando diz que “o fato de desaparecer como apareceu, também o pensamento faz o mesmo, e o sonho e nem por isso são menos reais e lhes conseguimos fugir ao jugo, como puros sonâmbulos, a carteira de identidade inutilmente no bolso”, Campos de Carvalho nos prova que só se concretiza o real através da solidez do abstrato. Com relação à nossa identidade, muitas vezes só a temos “inutilmente no bolso”, sem, no entanto, questionarmos os padrões e valores e conceitos que recebemos “de graça” e, pelos quais pagamos um preço altíssimo: o preço de sermos o que desejam por nós, e não o que desejamos ser. Falamos tão mecanicamente, que nos tornamos roboticamente humanos, aceitando os comandos do convencional, fingindo que somos felizes pelo simples fato de sermos aceitos como querem, sem criarmos o nosso próprio contexto de vida, sem re-conceituarmos o que dizem ser “certo” ou “errado”. Digo tudo isso porque somente com a embriaguez do questionamento é que se chega à lucidez do conceito. Que o diga minha estrela-guia! E, para aprendermos os (I)limites do Real/Surreal, para adquirirmos uma visão que transcenda a “miopia cotidiana”, que apenas constata a imagem da obviedade (da qual sempre nos ocultamos), se faz URGENTE ler Campos de Carvalho, este gênio que re-cria, com seu “surrealismo autobiográfico”, a chamada “Linguagem do Absurdo”. Por fim, para entender Campos de Carvalho é preciso saber que no fim do olhar vê-se o invisível. E, com ou sem observatório, jamais perderei de vista esta minha Estrela-Guia!
A MORTE E A IMORTALIDADE DE CAMPOS DE CARVALHO[3]
NOTAS [1] Fotocopiado por Heleno Álvares com autorização de Campos de Carvalho, que o escreveu aos 18 anos de idade. [2] Jornal Correio de Araxá, 30 de setembro de 1995. [3] 25/04/98.
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Heleno Álvares (Brasil, 1960). Jornalista, escritor e compositor-letrista. Autor dos livros Desordem Contemporânea (2002) e Observatório Insólito (2004). Foto: Campos de Carvalho e o jornalista Heleno Álvares no restaurante “La Villete”, em São Paulo, em 1º de dezembro de 1996. Este foi o último contato pessoal com Campos de Carvalho e dona Lygia, antes da morte de Campos de Carvalho (que pedia para ser tratado apenas por “Campos” ou “Walter”). Contato: helenoalvares@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia). |
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