revista de cultura # 54
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2006






 

Campos de Carvalho: entrevista, depoimento e textos inéditos

Heleno Álvares

.

 

Agulha tem recebido, com alguma freqüência, consultas de pesquisadores e leitores interessados sobre Campos de Carvalho, a propósito do ensaio Campos de Carvalho: prosador surrealista? - publicado em Agulha # 3. Isso, por uma razão: a falta de bibliografia sobre esse autor. Apesar de sua importância ser reconhecida, Campos de Carvalho não é estudado. Não entrou na Universidade, digamos. A bibliografia crítica sobre ele é reduzidíssima: quase nada além do ensaio de Carlos Felipe Moisés que prefacia a edição da José Olímpio, a entrevista na revista e no almanaque Azougue, e uma ou outra matéria. Evidentemente, isso amplia o interesse do material que nos foi enviado por seu amigo Heleno Álvares: entrevista, inéditos, depoimentos. Corrobora algo que já havia sido dito, a propósito de surrealismo em Campos de Carvalho. Sugere relação entre seu estilo literário e seu modo de dar entrevistas, com respostas paralelas, atravessadas. Estas lembram o modo como Breton, no primeiro Manifesto do Surrealismo, associava o Sintoma de Ganse ou respostas desconexas e a ecolalia ao surrealismo. [Claudio Willer]

Campos de Carvalho & Heleno Álvares 

Quando estive em seu apartamento, Campos de Carvalho me recebeu com a elegância de um humorista que permanece com o semblante sério como quem está ridicularizando a desprezível formalidade e, como não podia deixar de ser, falando com o seu refinado humor. Num dado momento, falando sobre surrealismo brasileiro, ele disse gostar de Jorge de Lima, “o de Invenção de Orfeu”, fez questão de frisar. Depois, sobre autores estrangeiros, perguntei sobre Kafka: “Não gosto! Não tem nada de humor. A literatura tem que ter humor. Quando você escrever, não se esqueça nunca do humor.” “Neste caso pode-se dizer que o humor é a coisa mais séria que existe?”, perguntei. “Sim. É exatamente isto!”

E relendo uma entrevista que concedeu, em 30/10/69, à revista O Cruzeiro, Campos já dizia o mesmo em relação a Kafka. “Não direi que detesto Kafka, mas nunca vi ninguém tão desprovido de humor. Minha identificação mais forte, não em qualidade, mas em sentido de obra, é com o Céline de “Viagem ao Fim da Noite”. Temos a mesma maneira trágica e humorística de encarar a vida. Depois, Ionesco, Beckett e Alfred Jarry. E, ainda, Antonin Artaud, Trinton Tzara e o Balzac de ‘Contes Drolatiques’”.

Em seguida, o mestre do surrealismo brasileiro me confirmou seu encontro com o Diabo, como é dito na apresentação de seu livro “A Chuva Imóvel”. Na conversa anterior à entrevista, chegou a me informar que tal encontro com o Demo teve a duração de “um minuto, um minuto e meio”. Este fato teria ocorrido em sua adolescência.

Depois, para minha total felicidade, Campos de Carvalho me dedicou um exemplar de “A Lua Vem da Ásia” e outro de “Vaca de Nariz Sutil”, 1ª edição, de 1961, além de me permitir fotocopiar seu segundo romance, “Tribo”, e o seu livro de poemas, ainda inédito, chamado “Os Sinos de Is”, que escreveu aos 18 anos de idade.

Em outro momento, Dona Lygia fez uma importante revelação quando perguntei sobre as crônicas de O Pasquim, me dizendo: “Não sei se é de fato, mas alguns críticos chegaram a comentar que estas crônicas de O Pasquim representam o que há de melhor na obra do Walter (Campos de Carvalho)”. E, felizmente, agora temos em livro suas “Cartas de Viagem e Outras Crônicas”, que já pode ser considerado o acontecimento literário do ano.

Em 1º de dezembro de 1996 tive o privilégio de ir ao Restaurante “La Villete” com o próprio Campos e dona Lygia, depois de ter completado (em 1º de novembro) seus 80 anos. Nesta ocasião, me falou que já havia iniciado seu livro “O Concerto no Ovo”. Preferiu não adiantar nada sobre o “novo” livro. Ao perguntar sobre qual retrospecto faria dos seus 80 anos, me respondeu enfaticamente: “não tenho 80 anos! Tenho três anos de idade!” “Sendo assim”, provoquei, “o que pretende ser quando crescer?” – “Escritor!” Então já conseguiu o que queria. Neste instante, silenciosamente, concordou com o que havia dito através de um sorriso discreto, dando uma bela amostra do quanto sempre levou a sério a questão do humor reflexivo, filosófico.

 

CAMPOS DE CARVALHO - O PAI DO SURREALISMO BRASILEIRO FALA AO CORREIO DE ARAXÁ

Fernando MaldonadoFoi no último dia 28, quando tive o enorme prazer de reencontrar Campos de Carvalho, o pai do surrealismo brasileiro, em seu apartamento. Walter Campos de Carvalho nasceu em Uberaba, a 1º de novembro de 1916. Ao saudar-me, Campos me surpreendeu, dizendo que era um prazer em me rever. Como não podia deixar de ser, disse, egoisticamente, que o prazer era todo meu. Em seguida, serviu whisky e conversamos bastante. Depois, chegou dona Lygia, sua esposa, e o bate-papo se prolongou até à hora do almoço. Tanto Campos de Carvalho, quanto dona Lygia, contaram muitos casos interessantes. Ao perguntar se tem escrito alguns contos, crônicas, me falou: “Não. Mas quero escrever dois livros: um sobre a velhice; outro sobre a morte. A primeira é pior”, respondeu acriliricamente, destilando seu nobre humor. E vale lembrar que esta é uma das raríssimas entrevistas que Campos de Carvalho já concedeu até hoje, em sua vida. Dona Lygia disse ter gostado do artigo que publiquei aqui no “Correio...”, a respeito de Campos de Carvalho. Campos comentou: “Gostei. Muito bom”. E avisa: “Queira-me desculpar, mas não sou de comentar.” O que, evidentemente, me deixou feliz. Afinal, o comentário veio antes do aviso.

HA Gostaria que tecesse algum comentário sobre sua literatura.

CC Eu pretendia ser poeta. Minha formação foi toda francesa, porque naquele tempo o francês era a “língua nacional”. Hoje é o inglês.

HA Ionesco, Sartre, tiveram...

CC Todos esses escritores eu conhecia, na época. Hoje, eu não leio mais.

HA Qual o grande autor do surrealismo brasileiro?

CC Nenhum.

HA Mas, o seu estilo é...

CC ...Surrealista!

HA Existe algum objetivo pessoal na criação do personagem uno e ambíguo, “André-Andréa”?

CC Não. Só existe viva, uma irmã em Uberaba.

HA E ela influenciou na criação...

CC Não, não, não...

HA Agora gostaria que você me matasse uma curiosidade. Onde fica a sua Bulgária? Perto da Pasárgada de Manuel Bandeira?

CC Não. Manuel Bandeira não me influenciou nada.

HA De qualquer forma, esta “Bulgária” (do livro “O Púcaro Búlgaro”) foi criada por você.

CC Havia um editor na época que lançou uma coleção que se chamava “Os Grandes Humoristas”, quando publiquei “O Púcaro Búlgaro”.

HA Você acha que o Brasil, hoje, é um Cafarnaum contemporâneo, uma bagunça (como se vê em “A Chuva Imóvel”), ou não?

CC Não.

De repente, Campos de Carvalho conta que escreveu “O Púcaro Búlgaro” em 20 dias e que o considera seu melhor livro. E volto a lhe perguntar:

HA Quem, da nova safra, merece destaque na Literatura Brasileira?

CC Nenhum.

HA Pra você, o que é Lógica?

CC Os meus livros foram escritos no Rio de Janeiro, onde eu morei 23 anos. No entanto, não tem nada.

Campos respondeu assim para mostrar a falta de Lógica entre as coisas, e insisti:

HA Mas, em se tratando de conceito, a Lógica é como você diz em “A Lua Vem da Ásia”: “Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica”, insinuando que esta não existe?

CC Não existe!

HA Já que falamos de conceito, o que é sexo?

CC Também não existe.

HA E Deus?

CC Não significa nada, nada, nada.

HA Aliás, como foi seu encontro com o Demo, o Diabo? Que Idade você tinha na época?

CC 40 anos. Eu comecei a escrever aos 40 anos.

HA Mas, antes já havia escrito “Banda Forra” em Uberaba, não é?

CC Não, foi aqui em São Paulo.

HA Esse encontro durou um minuto, um minuto e meio; você teve a visão do Diabo, realmente?

CC Tive a visão dele.

HA O que é Literatura?

CC Atualmente, eu gostaria de escrever. Mas não saiu nada.

HA Gostaria de escrever conto, romance, novela, poema?

CC Poema eu não sou capaz, não...

 

TRECHOS DE POEMAS DO LIVRO INÉDITO OS SINOS DE IS, DE CAMPOS DE CARVALHO[1]

Fernando Maldonado 

1. KARMA

 

O espírito dos mortos vela.
Gauguin

 

Quando em plena noite acordo,/vejo-o sentado em minha cama, imóvel./ Seu negro olhar profundo,/eterno e meigo olhar de quem não é do mundo/ e traz ainda a visão de esferas inefáveis,/pousa tranqüilo em mim, como um frio epitáfio numa lousa./Dir-se-ia o olhar de um irmão ou de uma esposa/ que assim me espreita e me protege, em meio ao sono,/dos sortilégios do demônio ou de algum gnomo/ surgido, há séculos, da estranha fantasia/ de um antepassado cabalista. /(...)/É bem possível que esse estranho ser/ não seja para mim um ser estranho, e sim/ a imagem dos que viveram minha vida antes de mim.”

 

2. SAL DA TERRA

 

Vós sois o sal da terra.
Mateus, 5:13

 

(...)/E como defini-los, se são indefiníveis como o espírito de que emanam/ e sua rara estirpe não se ajusta a uma só fórmula ou imagem única?/ Direi somente que são aqueles que jamais se deixam poluir/ e nunca se dão aos outros, sendo sempre eles mesmos;/ Os que não abandonaram sua infância e sabem sentir a alma das coisas/ e aceitam todas as contradições porque superam as aparências;/ Os que trazem consigo um Deus único, particular, e não necessitam de outros deuses;/ Os que vêem de olhos fechados e escutam o silêncio dos mortos;/ Os que amam sobretudo a solidão e a paz, e só odeiam o ódio;/ Os que se sentem grávidos de estranhas verdades, mas não as conhecem;/ Os que sofrem de inexplicáveis angústias e sentem súbitos pavores; /Os que amam e veneram os loucos, porque os compreendem sempre;/ Os que esperam a Morte a cada passo e não a temem;/ Os que não têm família nem pátria, mas se conhecem a enorme distância;/ Os que nasceram, enfim, para ser odiados, lapidados, crucificados,/ como o foram sempre, em toda parte, mesmo se em pensamento apenas.

 

3. OS SINOS DE IS

 

Meu coração é como o frio espectro de Is,/ a submersa:/cobrem-no turvas águas silenciosas/ e a fluida fauna dos pecados e das penas/ que eu vivi outrora, quando vivo./Tudo é profundo, inerte, escuro,/ neste meu grande mundo extinto,/e é em vão que ainda perpassam sobre os seus escombros/ sombras de sonhos, lívidas, incertas,/como peixes sonâmbulos./ De quando em vez, porém,/sinto nascer de mim, como de um estranho abismo,/cantos plangentes, mil vozes em coro,/que me surpreendem e animam como deuses/ ou me apavoram./Não sei como explicar - ninguém o sabe - / esses cantos funéreos ou divinos/ que assim despertam e vibram no meu peito,/em meio à grande e densa noite de minha alma, /como sinos submersos...” 

 

4. MENSAGEM

 

Há que haver os loucos,/ os alucinados, os videntes,/ cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver/ sobre este mundo visível e as verdades consagradas,/e cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações/ das águas eternas e inaudíveis/ que são o destino de todos os barcos./

Há que haver os que despertam à meia-noite/ angustiados,/e põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas/ como uns loucos - não o sendo - /e exprimem numa linguagem que não é a sua,/nem a de seus pais,/nem a de qualquer outro povo da terra,/estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas,/e depois serenam como o mar após a tempestade/ e não sabem mais recordar aquilo que disseram,/e choram quando lhes mostram seus puros êxtases,/e sentem-se miseráveis despertados.

Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim,/ pálidas, sinuosas, quase fluidas,/se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas/ e inconscientemente, totalmente a cegas,/gravem para a eternidade, como num frio rochedo,/palavras de fogo e de sangue,/ânsias, ódios, espantosos desesperos,/para depois se admirarem eles próprios daquilo que escreveram,/como sonâmbulos que, de repente e a sós,/despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas/ e não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas paragens,/tão perto dos deuses.

Há que haver os que abandonam o lar, pátria, amigos, cidade,/ velhos hábitos e confortos seculares,/e sem levar nada de seu,/ apenas sua consciência desarvorada e lúcida,/ põem-se a perseguir novas e estranhas verdades,/ como que hipnotizados,/e não mais repousam e dormem, em sua peregrinação,/ noite após noite, sol após sol,/ até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as suas chagas/ e vejam enfim mais nítido dentro da própria alma,/e pela primeira vez se reconheçam em toda a sua nudez,/como o amante à amante no momento supremo da posse.

 

A ESTRELA-GUIA DA TRIBO SURREALISTA[2]

 

Quando se apagam as luzes é que eu me vingo espiando as estrelas.
Campos de Carvalho

 

Fernando MaldonadoDe repente, vejo uma bela constelação: Sartre, Ionesco, Buñuel, Breton e Campos de Carvalho. São sábias estrelas onde tentamos, encantados, buscar um pouco de brilho, na esperança de ofuscar o fosco que somos. Do meu pequeno observatório constato que observam muito mais do que qualquer luneta. No contexto de tal constelação, Campos de Carvalho se faz minha Estrela-Guia. Estrela discreta. Não gosta de figurar no centro do céu, para não ser vista. Não gosta de luzes ao seu redor. Pra quê? se luz é o que mais tem para nos dar?

Pra enxergá-la, é preciso não uma luneta, mas, uma “visão” que transcenda o meramente visível. E esta visão não se encontra nos olhos, mas no abstrato sentido de “ver”. E, a Arte de ver atinge o “óbvio oculto”, aquilo que nossos olhos não nos permite alcançar, mesmo usando lunetas. Também não estou me referindo a uma “terceira retina” e, sim, aos “olhos da percepção”, que ultrapassam o fato chamado de real, criando desta forma, uma outra realidade que, antes de se consolidar, é vista como Utopia, como se esta não fosse fundamental para transformar a (Ir)Realidade que (Iludidos) acreditamos vi-ver.

E esta minha Estrela-Guia me fez acreditar que estivesse em um outro plano que não o terrestre, quando pisei o chão de seu apartamento, no dia dois de dezembro de 94, um dia após meu aniversário (E poderia haver presente maior?), quando ao lado de sua esposa, Dona Lygia (a quem ele chama de Santa), me entregou um livro absolutamente inédito, escrito há sessenta anos, ou seja: aos dezoito anos de idade! É um livro de poemas que se chama “Os Sinos de Is”, onde o poeta já fazia citações de Verlaine, Gaughin e, se inspirando ao mesmo tempo em um quadro (não especificado) de Arnold Böcklin, além de epigrafar o seguinte texto de Jens Peter Jacobsen: “...Mas isso não impedia que em certos momentos, em horas de recolhimento, algo se agitasse e murmurasse dentro dele, qualquer coisa como sinos que tocassem numa cidade coberta pelo mar.” E, junto com seu segundo livro editado que é “Tribo”, Campos me deixou fotocopiar este inédito, que é um perfeito esboço de toda a sua obra. Certamente, este foi um dos mais felizes e importantes dias de minha vida. Afinal, você já teve o privilégio de conversar com a sua estrela-guia? De ser muito bem recebido em seu apartamento? Já bebeu uísque com sua estrela-guia? Pois, eu já.

E não é à-toa que no dia-a-dia, quando falamos, quebramos a própria fala e, calados, “vemos” o indizível na linguagem do inominável. Afinal, o que existe nem sempre aparece. Quando diz que “o fato de desaparecer como apareceu, também o pensamento faz o mesmo, e o sonho e nem por isso são menos reais e lhes conseguimos fugir ao jugo, como puros sonâmbulos, a carteira de identidade inutilmente no bolso”, Campos de Carvalho nos prova que só se concretiza o real através da solidez do abstrato.

Com relação à nossa identidade, muitas vezes só a temos “inutilmente no bolso”, sem, no entanto, questionarmos os padrões e valores e conceitos que recebemos “de graça” e, pelos quais pagamos um preço altíssimo: o preço de sermos o que desejam por nós, e não o que desejamos ser.

Falamos tão mecanicamente, que nos tornamos roboticamente humanos, aceitando os comandos do convencional, fingindo que somos felizes pelo simples fato de sermos aceitos como querem, sem criarmos o nosso próprio contexto de vida, sem re-conceituarmos o que dizem ser “certo” ou “errado”. Digo tudo isso porque somente com a embriaguez do questionamento é que se chega à lucidez do conceito. Que o diga minha estrela-guia!

E, para aprendermos os (I)limites do Real/Surreal, para adquirirmos uma visão que transcenda a “miopia cotidiana”, que apenas constata a imagem da obviedade (da qual sempre nos ocultamos), se faz URGENTE ler Campos de Carvalho, este gênio que re-cria, com seu “surrealismo autobiográfico”, a chamada “Linguagem do Absurdo”.

Por fim, para entender Campos de Carvalho é preciso saber que no fim do olhar vê-se o invisível. E, com ou sem observatório, jamais perderei de vista esta minha Estrela-Guia!

 

A MORTE E A IMORTALIDADE DE CAMPOS DE CARVALHO[3]

 

Fernando Maldonado10 de abril de 1998: eis a Histórica data do suicídio da Morte. Neste dia, Campos de Carvalho fez com que a Morte, após ficar deprimida e com medo perante sua Imortalidade, acabasse se suicidando. Alguns veículos de comunicação, desavisados do fato verdadeiro, anunciaram a morte de Campos de Carvalho. Aqui tentarei relatar como foi que tudo realmente aconteceu. A Morte se encontrava feliz da vida (dos outros, acredito eu), até que um belo dia começou a ler os livros de Campos de Carvalho e se deu conta da poesia em prosa, do humor refinadíssimo, da ironia cortante, da irreverência, dos aforismos, da busca pela Supra-Realidade, e compreendeu que tanto a obra, quanto seu autor, o pai do surrealismo brasileiro, jamais morreriam. A partir deste momento, a Morte começou a fazer análise, na tentativa de que alguns discípulos freudianos (ou de qualquer outra tendência) lhe explicassem e, sobretudo amenizassem este seu conflito interno e existencial diante à Imortalidade deste genial escritor. Nenhum analista conseguiu (e muito menos fez questão) acabar com a depressão dessa Senhora que, por sua vez, faz questão em acabar com a vida de todos nós. A Morte quase morreu de raiva e ainda ameaçou, com toda a sua sedução, em se entregar de corpo e alma (se é que tem) a todos os analistas. Enquanto isso, Campos continuava levando a sua vida, ao lado de dona Lygia, sua esposa, no seu apartamento em São Paulo. Planejava escrever um novo livro com o título “O Concerto no Ovo”. A contra-informação deste fato se deu por conta de um boato, dizendo que esta Senhora-caveira-de-foice-nas-mãos teria ido até o apartamento de Campos para, mais uma vez, tentar matar este seu estado depressivo. Aliás, segundo o que se conta, este foi o dia mais importante na vida de Morte. Dizem até que ela se aprontou toda, passou perfume francês e, emocionada, teria tocado a campainha do apartamento do citado escritor. Apreensiva, chegou a pensar em voz alta: “Como poderei vencer um Imortal? E se ele me entregar, como farei? Sou uma solteirona incompetente! Sequer tenho uma filha para me suceder! O que será de minha vida, ou melhor, de mim?” Depois de ouvir estas palavras, enquanto olhava pelo olho-mágico, Campos, impassível, resolveu não mais abrir a porta, voltando a sentar-se no sofá, com um cigarro e um copo de uísque. Por acreditarem que a Morte teria sido capaz de seduzir o autor de “A Lua Vem da Ásia”, certas pessoas criaram este boato, propagando a sua morte. E, decepcionada, a Morte andava cada dia mais desesperada. Por ouvir falar de uma estranha tendência pseudo-literária chamada “Auto-Ajuda”, a Morte resolveu fazer mais esta tentativa, na esperança de não mais viver naquela depressão profunda. Comprou e leu todos os livros. E mais chateada da vida do que nunca, disse: “Sei que morrerei diante este Imortal. Sei que, a este respeito, não há outra saída. E esta tal de “Auto-Ajuda”, que se exibe como propaganda enganosa, me deixou mais deprimida do que sempre, por mostrar tantas idiotices reunidas de uma só vez. Mas, depois de meu inevitável suicídio, depois de passar três dias pregada na cruz, ressuscitarei para vir buscar estes irresponsáveis por tal “Auto-Ajuda” que, além de me merecerem, não me escaparão”, anunciou. Com este depoimento da Morte pouco antes de sua, como direi? ...bem, pouco antes de si mesma, quando resolveu se auto-degolar na guilhotina da refinadíssima-lâmina-cortante desta humorironia Carvalheana, ela veio nos provar, afirmando humildemente que “diante os Imortais, eu me suicido”. Pena que, antes de seu suicídio, a dita-cuja não nos tenha informado onde seria o velório... Mas, tudo bem, isto é só um pequeno detalhe, afinal, existem outros lugares e ocasiões onde podemos saborear salgados e cafezinhos... Agora, o mais importante é que o amigo e mestre Campos de Carvalho se encontra vivíssimo e feliz, saboreando, muito mais do que nós, delícias especiais, sem contar que está fazendo um Turismo Espacial, na cidade de Galáxia, de onde me enviou um “Cartão-Astral”, com estas palavras: “Você sabe que detesto estrelismo e adoro estrelas. Esta estrela que vê, amigo, sou eu. Infinitos abraços, Campos de Carvalho”. Infinitos abraços também, Campos. Para mim você continuará a ser a eterna estrela-guia, como é para toda a Tribo Surrealista. E você sabe disso. Campos, aqui deixo o meu afetuoso e amigo abraço. Ah! já ia me esquecendo: me mande seu endereço de Galáxia, pois, você esqueceu de colocar no Cartão. Até amanhã.

 

NOTAS

[1] Fotocopiado por Heleno Álvares com autorização de Campos de Carvalho, que o escreveu aos 18 anos de idade.

[2] Jornal Correio de Araxá, 30 de setembro de 1995.

[3] 25/04/98.

 

Heleno Álvares (Brasil, 1960). Jornalista, escritor e compositor-letrista. Autor dos livros Desordem Contemporânea (2002) e Observatório Insólito (2004). Foto: Campos de Carvalho e o jornalista Heleno Álvares no restaurante “La Villete”, em São Paulo, em 1º de dezembro de 1996. Este foi o último contato pessoal com Campos de Carvalho e dona Lygia, antes da morte de Campos de Carvalho (que pedia para ser tratado apenas por “Campos” ou “Walter”). Contato: helenoalvares@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia).

RETORNO À CAPA ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA

procurar textos