revista de cultura # 54
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2006






 

Ouvir a Terra-verbo e ouvir o haver: Gustav Mahler e a catarse pelo audilegível

Luigi Augusto de Oliveira

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O que são os Cantos da terra? Não podemos dizer melhor. E perpetuamente, como elemento de gênese, temos um pequeno ritornelo, às vezes, baseado em dois sinos de vacas. Em Mahler, é muito comovente a maneira como todos esses ritornelos, que já são obras musicais geniais, ritornelos de taverna, de pastores etc., se compõem numa espécie de grande ritornelo que será o Canto da terra.

Gilles Deleuze (1)

 

I

Gustav MahlerAté então, eu não contava com um encarte digno, com letras, do Canto da Terra, de Gustav Mahler. Não fazia caso, já que ignoro por completo o alemão. Porém, adquiri afinal um disco que o traz (não por isso o adquiri, mas pela gravação com Christa Ludwig no imensamente longo e piano “adeus” e a Filarmônica de Israel, com Bernstein).

Primeiro abandonara-me numa audição na sala quase escura; depois, ao ouvir de novo, com a intenção de acompanhar as letras nas versões em inglês ou francês, a preguiça foi maior que a intenção, de modo que apenas deixei-me seguir à toa e sem “sentido”, achando-me um pouco ridículo, as linhas do texto original. Terminei com a sensação de que nunca havia, até então, ouvido a música vocalizada – o instrumento que consiste, não na voz apenas com sua melodia (como se dá puramente no scat-singing, o improviso vocal do jazz, ou nos floreados das árias em coloratura), mas no som do significado da voz, isto é, significado da dose e do ritmo das palavras, que carrega a voz – carrega-a menos para o encontro, que para o além ou o aquém dos significados intelectuais estritos daquelas.

Que um significado possa ter um som intrínseco, não apenas um efeito ocasional ou convencional (que até aí eu continuava a ignorar, ainda a deixá-lo perdido para mim): houvesse-me alguém explicado isso, e eu não teria dado crédito algum – escapismo metafísico, ou “poético”, pensaria logo. Mas nada posso fazer se me aconteceu, se me pesou no espírito e na percepção, alterando-lhes a densidade, a flutuação…

E teve ainda o efeito de me permitir enfim compreender – empatia, navegação no mesmo afeto – esse desenho de Ortega: “O conhecimento do próximo se produz muito lentamente, dia a dia. Vai precipitando-se em finíssimas camadas, como um polvo impalpável, sobre nosso fundo. A lentidão desta aquisição faz com que não reparemos nela conforme o vamos adquirindo. É preciso que se haja acumulado em grande quantidade, que as finas capas superpostas formem um estrato de encorpada espessura, para que um dia, muito adiante, sintamos de pronto seu peso. Então voltamos a vista a esse tesouro subterrâneo, imprevisto, e sua própria e súbita riqueza nos angustia mais do que nos compraz.”

Pintura deste primor deixou Ortega num artigo de jornal sobre O silêncio, grande brahman; e ao relê-lo – re-ouvi-lo – desvela-me que o lento conhecer do outro e o da música – do significado, dose e ritmo daquilo que, expresso, carrega a voz, a outra voz, que se estará sempre a depositar no além ou no aquém dos significados intelectuais os quais essa voz se atribui, com os quais se identifica – são, mais que análogos, empáticos.

Que significa isso: ouvir palavras? Palavras musicadas – mais que a voz, mais que cadências ou estruturas rítmicas? E não entender, nem mesmo perceber o significado, mas sim o som – ouvir –, porém som de palavras, como que dado tanto por sua grafia, o reflexo de sua visão no papel, quanto pelo ar que as ondas sonoras deslocam? Mas palavras musicadas, claro, música vocalizada em verbo; e é possível, afinal, que tenha sido a música, específica, a causar-me agora essa percepção – que não me haveria sobrevindo em audições anteriores por falta de suficiente atenção, por descuramento na vigília, que é por onde a sensibilidade se instala.

Apesar de eu já há tempos gostar imenso deste Canto da Terra, e sobretudo do movimento final – metade da peça: meia hora de melancolia que insiste em manter-se, estranha e clara, no ar pejado, como se não se resolvesse nunca a dissolver-se… E dentro desse estado suspensivo, no entanto, uma intermitente desintegração recitativa e uma reconstrução; como se um arrebatamento cadenciado, aos poucos, se submetesse, resignado, a uma recitação algo monótona até, apesar de bela, de suave, doce… se submetesse a esse irremediável até a inteira desfiguração de tudo, da música e da palavra-em-música, do mundo sonoro – e então, mais lenta e suavemente ainda, uma pequena linha nua, de voz isolada, o sopro de um instrumento abafado, como que tentando puxar as últimas pontas, que restaram finas e pequenas na areia, para permitir ainda alguma tessitura…

Fernando MaldonadoE daí – e é isso, sobretudo, o que acho que estaria perdido, para minha possibilidade de percepção ao menos, se os olhos não estivessem a acompanhar o som pelo papel – daí algo se trama e se apresenta como se unidade, como se estável, embora provisório: uma palavra, e daí outra palavra, e lentamente o silêncio e mais uma – na linha puxada, no encordoamento esvanecente – e uma frase – uma frase, um verso! – cresceu, não temos a menor idéia do que signifique, da convenção, mas percebemos que o arrebatamento recitativo apega-se, palpa-se em estar de volta – como que em forma de lembrança, apenas recordação de uma melancolia e de sua soterrada esperança e, já sabemos, recomeçou: condenada. Já recomeçara a apontar o horizonte de seu desmoronamento, resignado, suicida, como se única conclusão possível – já que todas as alternativas estão outra vez mostrando-se suspensas, insolúveis.

E é justamente desse sem solução que me parece desfiar-se a dor, a ferida da resignação, o resignar-se explosivo, a explosão do suspenso, a suspensão corrosiva, a corrosão do significado pelo sentido, pelo aspecto do sentido que está além ou aquém daquele – tanto que o conhecemos, mesmo ainda sem nada saber de significados… Conforme este arranjo excelente em Ódio à música, “A obsessão sonora não consegue separar do que ela ouve o que ela não cessa de querer ouvir e o que ela não pode ter ouvido”. (1)

Ludwig é mezzo-soprano, apesar de Mahler haver indicado “Sinfonia para contralto, tenor e orquestra” (na gravação, o tenor foi Kollo; o maestro, Bernstein); não sei se terá feito diferença importante para o que percebi. E no movimento final me pareceu – isso sim, creio relevante – que de fato a execução foi igualmente para a voz da cantora e a da orquestra, em momento algum uma obscureceu a outra, e a da orquestra parece que o texto, dá expressão às palavras, tanto quanto a voz humana. É assim que a terra pode expressar tão bem “seu” adeus – o adeus que recebe e o que dá, ao mesmo tempo? –; justamente porque uma voz segue a lembrar a outra. Aliás, talvez não seja mesmo cada uma delas mais que a recordação da outra, perdida não se sabe onde – ou desde sempre, nascida já como perdida. Mas, assim, encontra alguma reconstrução, absurda talvez quanto à lógica… (como é que se faz desmoronarem sombras, esquecimentos, vazios solidificados à força?). “Alteamos um pouco para o ouvido do olho o que a tecla não saberia produzir”.

Essa distinção de vozes não é afinal tão distinta, menos distinção que duplicidade, menos duplicidade que uma espécie de provocação e de provação mútuas; e talvez o mesmo seja válido dizer, em suma, sobre as “vozes” do significado e do sentido. Seja como for, a distinção que houver, por assim chamá-la, mais funda estará na subjetividade que num mero modo de ouvir, ouvindo assim ou assado, atentando mais para o semântico, ou para a sensualidade da forma harmônica. Quanto ao plano da experiência, pouco ou nada a distinção iria esclarecer; seria preciso, antes, muito mais intimar-se tanto do ouvir quanto do ler a letra segura de sua instância. Alcançar um rio subterrâneo, desinquieto, onde as identificações não mais coincidam com nenhuma intimidade sabida: só com as indefiníveis, desclassificadas, mudas.

Então, sim, a distinção: se, na re-significação que tento, posso encontrar-me, definir-me vagamente uma identidade, já no sentido mesmo desse rio – rio-som que sem cessar desliga-se – só me posso perder. E assim muito vou e muito volto, e ao voltar não sei mais para onde teria voltado, apesar de saber-me de volta. Isso, de ouvir, era-me pensado.

Ainda em resto de fascinação, leio numa enciclopédia de música que Mahler teria escolhido o texto – A Flauta Chinesa, com o poeta Bethge “adaptando” poemas chineses, em segunda mão (não lia chinês) e pobre estilo, quase meramente decorativo – porque assim se iria sentir mais à vontade para “intervir” nele segundo as necessidades da música, suprimindo e acrescentando com toda sem-cerimônia. De modo que uma trinca do movimento final havia sido substituída por versos de sentido parecido que, já largo tempo se passara, um jovem Mahler havia escrito: “As gentes fatigadas vão para casa, / a fim de encontrar em sono a felicidade esquecida / e reaprender a juventude!”

Ir para casa… reencetar o contato-convívio, a sinestesia com as vozes primevas de nossa formação: como espécie e como pessoa… Não há nada mais persistentemente pessoal – talvez esteja nisso o porquê de certas músicas, que de modo íntimo se mostram nossas preferidas (sem que nos saibamos dizer a razão), nos causarem tamanho envolvimento deslumbrado, e melancolia e por vezes um pouco de pavor –; essa persistência nos pode desnudar, e sabemos disso… Essa nudez íntima soa-nos como um pecado em nossa origem, na origem do mecanismo dos nossos desejos – pois, ao desejar mais que uma simples existência, o homem se faz homem; com isso, porém, sente-se compelido a encontrar uma finalidade nesse a mais – isso pode chegar a ser uma “situação de horror total”; e por isso as vestes com que corre a cobrir-se…

Fernando MaldonadoA conseqüência, porém, é de pavorosa tristeza: não percebe mais que nesse limite do que ele é – sua nudez – “reside seu próprio valor”, e o abandona, sente vergonha, veste-se cada vez mais, quer manifestar-se mais, mas já não é a si (o que vale para si) que se manifesta em seus esforços… Manifesta, nos casos de “sucesso”, uma força – pleonexia, “o desejo de se engrandecer”, tentar obter além de sua parte, “um erro moral e intelectual” – pois não é dele essa força, nem é a ele que ela engrandece de fato, intimamente…(2) Que possibilidades há, sem ilusões – como o grego clássico, numa “clara apreciação do homem não suavizada nem por esperanças de um ‘além’ nem por crenças em ‘progressos’”(3) – de antídoto? Simone Weil fala em descriação, um conceito-chave: o que chamamos de Criação nada mais seria que a renúncia de Deus a parcelas de seu poder: criar o imperfeito só pode ser, para o perfeito, uma perda, não acréscimo. E nessa renúncia-criação surgíramos nus – e salvar-se significaria, então, imitar Deus em sua renúncia: descriar-se de todas as vestes, despersonalizar-se.

 

II

“O que se põe a tocar (…) debaixo do céu, sem ouvir a música das esferas, não merece que se o ouça. Não conhece a abismal poesia do fanatismo, não conhece a imensa poesia dos templos vazios, sem luzes, sem dourados, sem imagens, sem pompas, sem nada disso a que chamam arte. Quatro paredes lisas e um teto de tábuas: um curral qualquer”(4). Aí estaria um adequado espelho – um abrigo espelhado – no qual mirar-se apenas cego, nu de entraves vestidos no olho… Com a costumeira força textual Unamuno amarra, mediante rápidas alusões, a questão estética – da produção, da recepção (também quem produz é receptor do que produz…), musical ou visual, no caso, e também das formas de empobrecer-se no contato com uma obra – à questão ética e religiosa. E um material dos mais nítidos nesse cordame é nossa velha vaidade: “Se alguém quer colher no caminho tal ou qual florzinha (…) colha-a, sem deter-se, e que siga o esquadrão, cujo porta-bandeiras não despregará o olho da estrela refulgente e sonora, e se põe a florzinha no peitoral sobre a couraça, não para vê-la ele, mas para que a vejam, fora com ele!”

Algo análogo a esse encontro com a nudez indica-se na etimologia do que chamamos arcaico: “idéia de arkhé, de um princípio inaugural, constitutivo e dirigente de toda a experiência da palavra poética” (5). Em suma, talvez isso não signifique mais que o enfrentamento desarmado (e não será este o único possível?) daquilo que apenas existe aí – o das coisas, “Algo que se parece com aquilo que se ouve ao aproximarmos do ouvido uma concha vazia, como se o vazio estivesse cheio, o silêncio fosse um barulho”; o que talvez nos seja marca indelével pela experiência da criança em dormir sozinha, e descobri-lo – “as pessoas adultas continuam a vida; a criança sente o silêncio do seu quarto como algo sussurrante”… (6) Esse abandono evocaria na alma um horror tal que não haveria como não proteger-se dele, fechar-se… “O ato não é puro. Seu ser duplica-se num ter que ao mesmo tempo possui e é possuído. (…) Ele é preocupação de si mesmo”, algo que se impõe ao homem, ao eu, “pela solidez do ser que começa e que já está embaraçado pelo excesso de si mesmo. Em lugar de ser pobre e nu, ele afirma sua incorruptibilidade na plena posse de si. Ele possui riquezas que são fonte de preocupação, antes de ser de gozo. (…) Ele nunca é nem inocentemente só, nem inocentemente pobre. O Reino dos Céus já lhe está fechado. A existência projeta uma sombra que a persegue infatigavelmente”.

Fernando Maldonado

Algo que tento acrescentar a esse campo de análises, numa contribuição humilde, seria a idéia de um homeostato sinestésico, construto que envolva o arcaico e a projeção instalante de uma alma em e a partir de sua circunstância (prefiro negar a noção de “harmonia” entre essas instâncias: antes de mais nada por confundir-se com bandeiras de pseudo-espiritualistas ou religiosos de casca e casta; mas também porque não evoca, necessariamente, a idéia de retroalimentação). Mas isso não significa, de modo algum, uma estabilidade mantida sem conflito, isenta ou “inocente” de traumas sofridos e provocados. Porém de modo algum significaria, também, uma “filiação” (“cínica” ou não – como se o fato de sê-lo a desculpasse…) a algo análogo às “políticas do possível” com que alguns expertos tentam acomodar tudo, dar, ou melhor, fingir que se dá uma migalha a cada instância de exigência e tudo bem, tudo conservado – e condenado à repetição do mesmo que só “muda” as grades para permanecer gradeado. A manutenção dessa sinestesia retroalimentante exige depuração, portanto inclui o sacrifício – e nunca cessa de haver o que sacrificar de si, o que significa: das circunstâncias de “dentro” e de “fora”… Também eu “Comecei a me irritar com as classificações dos tratados, com as definições e sutilezas dos estágios de consciência, e verifiquei que o que havia era uma reificação da consciência” (7).

Um “haver”, o , esse horror possível no puro fato de as coisas existirem – e de nós sabermos disso e que dos outros e de nós mesmos também fazemos coisas, nós os objetificamos para que possam ter uma convivência menos intranqüila conosco –; não é tão raro, creio, nem por si mesmo “patológico” alguém sentir-se, num instante repentino, responsável por isso, carregado com esse peso: muitos relatos em terapias, e antes inúmeras confissões, bio ou hagiografias, narram instantes assim. E não seriam esses instantes os únicos nos quais, ainda hoje – eclipsados indeterminadamente “Providência” e “Progresso” –, se pode perceber anulada, ainda que só por momentos, a vigência da indiferença geral e inflante, e invertida a expectativa de sucção contínua de um vazio cínico e auto-anestésico?

O ideal seria o ato descriador (e descrendiçante) que conseguisse, anonimamente, ser e causar: pelo qual um sujeito se causasse o despojamento de nomes a impor, ou seja, de Poder acumulado: ao gastá-lo no ato mesmo pelo qual o obtivesse, a esse poder de ser (mas que já seria: poder de ter sido) um sujeito. Um ato de sacrifício aniquilante, mas constituinte, “pois, ali onde o jogo perpétuo de nossas relações com o mundo está interrompido, não se encontra – como se poderia erroneamente pensar –, a morte, nem o ‘eu puro’, mas o fato anônimo de ser. A relação com o mundo não é sinônimo de existência. Esta é anterior ao mundo”(8). E esta anterioridade, nesse sentido, por baixo de todas as armaduras, é a instância que envia, que nos projeta em “ser”.

“É fazendo-se falta de ser que o homem existe, e a existência positiva é essa falta assumida (…) Não se pode fundar sobre a existência uma sabedoria abstrata que, desviando-se do ser, só visaria a harmonia dos seres: pois o silêncio absoluto do em-si é que se fecharia então sobre essa negação da negatividade.” (Parênteses para rosas: “A vida está toda no futuro”, e é isso – que por certo é não-ser, ainda – que torna “baque inteiro do ser”, “gelidez contagiante”, o “golpe-de-Job” que um Deus aplique… E o que resta, no “além do Lethes, o rio sem memória”?(9) Uma frase na qual inteiro me fio – me con-fio, co-fiam-entis – em que se possa tomar por típica, talvez a frase, de um devaneado arquetimítico narrador roseano, seria: conforme quimeras!, com o complemento imaginário que, queira-se ou não, saiba-se ou não, uma leitura sempre viceja, orquideante: ou conforme quixotes. Nisso ou aquilos.) “(…) não se poderia imaginar uma reconciliação das transcendências: elas não têm a docilidade indiferente de uma pura abstração (…) é um campo de batalha onde não há terreno neutro nem se pode distribuir em parcelas: pois é através do mundo inteiro que se afirma cada projeto singular.”

Que vozes enviam – e permanecem a enviar – uma pessoa, que se pretenda sujeito de algo – um autor, um compositor? De textos ou de música, para exemplos mais imediatos. O autor – mas também o leitor ou o ouvinte (e todo bom autor é mais do que ele é em ser ouvinte ou leitor) – é um enviado ao texto. As circunstâncias daquilo onde se radica é que o enviam; ou, do contrário, nem se deveria falar em Ler, em Ouvir: haveria apenas repetição, o leitor-ouvinte-repetidor a enfaixar-se com o texto que se lhe tornou dogmático, ou, num tipo mais vistosamente vigente de empalhamento por assepsia, técnico. Só valerá a pena se for um envio contra (mesmo sabendo impossível a vitória – senão na morte, talvez), contra tudo o que nos veste também por dentro e que assim nos tenta “enviar”, as abstrações do “comum” (do outro, do “nós” – esses objetos mútuos, nessa objetificação mútua cujo saldo é zero, embora um zero suportável, cômodo, auto-imune…).

Fernando Maldonado

E a contrariedade mostra-se efetiva, viável, pelo uso mesmo que é feito dessa linguagem de resistência que a constitui – que lhe dá especificidade como linguagem. Só valerá a pena atirar sobre o texto parcelas de concentração e tempo – de vida – se for para impedir sua distribuição em faixas de múmia e, melhor ainda, caso haja forças, rasgar as faixas já preparadas (pré-sentidas…): no mínimo, se se puder e souber saquear os textos que a si próprio lhes estão formando, leitor-ouvinte-autor, subverter-lhes as estruturas sempre que for o caso, segundo a medida da fome, das necessidades íntimas (que talvez exatamente através disso é que se mostrem existentes) que fazem com que alguém se atire, desvie o vôo gelado, aéreo, conformado de sua vida e se atire, cego. Transmutar… mas sem nunca saber-se em quê.

Segundo a medida ou a verdade dessa fome, pois existe, aí, a verdade, nenhum cinismo óbvio teria força para negá-la, apenas para fingir sua negação: “a verdade (…) é o que eu leio, nas aparências, desejando a verdade”. Ou o que saqueio, aquilo que faço apropriação minha, a bricolagem a qual dou causa, o que para a verdade em mim, ou para a transposição (e volto à música) em que consisto, desloco (e volto a Freud). A vida do homem-leitor-ouvinte, a fome nessa vida, dá a medida – mas talvez ainda esteja obscuro demais (mas talvez seja mesmo obscuro, e tudo o que se possa fazer seja deixar a obscuridade mais ampla, o que não significa mais escura, mas nem menos: porém com maior espaço para tropeços libertos…).

Como pode o que se lê ou se ouve no texto-mundo ser verdade, sem ser pelo menos um dogma cínico, ou seja, um “neo-dogma” relativístico, mutável segundo o poder de quem pode mais? “Mas era como uma pessoa que, tendo nascido cega e não tendo ninguém a seu lado que tivesse tido visão, essa pessoa não pudesse sequer formular uma pergunta sobre a visão: ela não saberia que existia ver. Mas, como na verdade existia a visão, mesmo que essa pessoa em si mesma não soubesse e nem tivesse ouvido falar, essa pessoa estaria parada, inquieta, atenta, sem saber perguntar sobre o que não sabia que existe – ela sentiria falta do que deveria ser seu.”(10)

O paradoxal é que a leitura-escrita, ou a audição (o dar ouvidos) e composição, abrem um mundo, na verdade, sob todos os aspectos de sofisticação sócio-técnica do nosso, primitivo: como o sistema das dádivas trocadas que invade toda a vida dos Trobriandeses: “Ela é como que atravessada por uma corrente contínua e em todos os sentidos, por dádivas dadas, recebidas, retribuídas, obrigatoriamente e por interesse, por grandeza e por serviços, em desafios e em apostas. / (…) Em determinado potlach, deve gastar-se tudo quanto se tem e não guardar nada. É ver quem será o mais rico e também o mais louco gastador”(11). E por que tantas palavras (ou tantas melodias celebratórias…) sobre isso? Não há esperança fora desse dispêndio louco! Ocorre que, numa visão paralela, “Os sentidos recebem sua dignidade das palavras, em vez de dar-lhes essa dignidade”(12).

“Entretanto, o verdadeiro poeta está à mercê de seu tempo – sujeito a ele, servil, é dele o mais humilde criado. Está atado a seu tempo por uma corrente curta e indestrutível (…) o poeta é o cão de seu tempo. (…) corre-lhe os domínios, detendo-se aqui e acolá; arbitrário em aparência e, no entanto, incansável; (…) pronto para ser instigado, mas difícil de ser contido, é impelido por uma depravação inexplicável: em tudo mete o focinho úmido (…) é insaciável, mas não é isso o que o distingue dos demais, e sim a obstinação em seu vício – esse gozo interior e minucioso (…) Dir-se-ia que aprendeu a correr apenas para satisfazer o vício de seu focinho. / E esse mesmo cão, que durante toda a sua vida corre atrás dos desejos de seu focinho, esse fruidor e vítima involuntária, ao mesmo tempo caçador e presa do prazer (…) deve, num átimo, estar contra tudo, pôr-se contra si mesmo e contra seu vício, sem, contudo, poder jamais libertar-se dele (…); uma exigência tão cruel e radical quanto a própria morte. / É, aliás, da morte que deriva essa exigência. A morte é o fato primordial, o mais antigo e, estar-se-ia mesmo tentado a dizer, o único. Tem uma idade monstruosa, mas se renova a cada hora”(13).

 

NOTAS

(1) Pierre-André Boutang, Abecedário de Gilles Deleuze, vídeo, entrevistas concedidas a Claire Parnet.

(2) Pascal Quignard, Ódio à música.

(3) Ana Luísa Janeira, “O vazio no pensamento de Simone Weil”, em Conhecer Simone Weil.

(4) M.D. Kitto, Os Gregos.

(5) Miguel de Unamuno, Vida de Dom Quixote e Sancho.

(6) Jaa Torrano, Hesíodo: Teogonia.

(7) Emanuel Lévinas, Da existência ao existente e Ética e infinito.

(8) Samuel Rawet, Alienação e realidade.

(9) Simone de Beauvoir, Moral da Ambigüidade.

(10) Guimarães Rosa, contos em Estas Estórias.

(11) Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.

(12) Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva.

(13) Pascal, Pensamentos.

(14) Elias Canetti, “Hermann Broch”, em A consciência das palavras. 

Luigi Augusto de Oliveira (Brasil, 1969). Romancista e poeta. Autor de livros como Dalma, na rede (1997), Alice à Passarinho (2000; adaptação teatral: Pintando Alice), Solo para ti (2001) e Crucial e vão (2001). Contato: luigioliveira@yahoo.com. página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia).

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