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revista de cultura # 54 |
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A vida e a poesia de Frank O'Hara (1926-1966) Joe Engle
Francis Russell O’Hara nasceu em 1926 e foi criado na pequena comunidade de agricultores de Grafton, Massachusetts. Seus pais o forçaram a freqüentar escolas paroquiais por toda a juventude e ele se ressentiu disto grandemente. Passava a maior parte de seu tempo livre estudando piano e tomava aulas particulares várias noites por semana. Todos os seus heróis de infância eram pianistas. Ele conhecia especialmente compositores russos, tais como Sergei Rachmaninoff. Por toda a sua adolescência ele também passava muito do seu tempo lendo. Um dos seus autores favoritos era James Joyce. Era fascinado pelo fluxo de consciência no estilo de escrita de Joyce. Em 1944, O’Hara formou-se no segundo grau e alistou-se na Marinha, onde serviu como operador de sonar de Terceira Classe no destroyer U.S.S. Nicholas no Pacífico Sul. Isto foi durante o auge da Segunda Guerra Mundial. Seu alistamento na Marinha foi a primeira experiência longe de casa e onde ele decidiu que gostava de sua independência e não queria viver a vida toda na pequena cidade de seus pais. Foi então atraído para as cidades que visitava e para os círculos literários e artísticos que seria capaz de encontrar por lá.
O’Hara então passou um ano numa pós-graduação na Universidade do Michigan onde recebeu seu M.A.[1] em literatura comparada. Enquanto esteve lá, ganhou o cobiçado Prêmio Hopwood para Poesia. Foi ao ganhar este prêmio que se convenceu a pôr a sua poesia à frente de qualquer outro tipo de escrita. Ele vinha escrevendo um romance para-nunca-ser-terminado, mas daí em diante sua meta era se tornar bem sucedido como poeta. Em 1951, O’Hara mudou-se para a cidade de Nova Iorque e conseguiu um emprego para trabalhar no escritório central no Museu de Arte Moderna (MOMA). Ele arranjou esse emprego para que pudesse ver a coleção de arte o tanto quanto possível. A exposição que o arrastou primeiro foi uma retrospectiva de Matisse. Deste tempo em diante seus dois maiores interesses foram arte e poesia. Sua vida tinha mudado dramaticamente durante o tempo em que chegou a Nova Iorque. Ele tinha se distanciado de sua família e tinha quase parado totalmente de tocar música. Seu pai morrera durante seus anos em Harvard e ele teve uma desavença com a mãe, que tinha voltado ao álcool depois da morte de seu marido. Ele mantinha boas relações com o irmão e com a irmã, mas não os via com freqüência devido a sua agenda ocupada e à distância entre eles.
O’Hara trabalhou no MOMA por dois anos antes de resignar-se a trabalhar como um associado editorial para a Revista Artnews. Lá ele escreveu pequenas críticas de mostras em galeria. Ele passava muito tempo visitando os estúdios de diferentes artistas para que pudesse chegar a conhecer bem as suas obras. A maior parte de seus escritos não era crítica mas, antes, funcionava como odes a artistas cuja obra apreciava. A experiência e a reputação que O’Hara ganhou como crítico de arte, lhe permitiu a ele retornar ao museu como assistente especial de um curador. Esta função era muito melhor paga, era um emprego mais orientado do que aquele de balconista do escritório central. Ele trabalhou no programa internacional do museu e prestou assistência na preparação de exposições itinerantes que atravessaram o mundo. Freqüentemente era capaz de escolher pessoalmente a obra de arte que iria representar a arte contemporânea americana para as exposições e era conhecido por tentar conseguir incluir tantos amigos pintores quanto possível. Exceto por um período de seis meses, em que trabalhou como poeta-em-residência no Poets’ Theatre em Cambridge com uma bolsa de pesquisa em 1956, manteve-se neste emprego pelo resto de sua vida. O’Hara tornou-se bem sucedido tanto em sua carreira de poeta quanto em seu trabalho no museu, e em 1960 teve vários livros publicados, assim como uma importante promoção a Curador assistente das Exposições de Pintura e Escultura. Ele se tornou conhecido como cabeça de um movimento conhecido como A Escola de Poesia de Nova Iorque (New York School of Poetry), que também incluía os poetas companheiros Kenneth Koch, James Schuyler e John Ashbury. Além do fato de que todos foram juntos para Harvard e depois se mudaram para a cidade de Nova Iorque, eles na verdade tinham muito pouco em comum entre si. A poesia de O’Hara era diferente da de seus contemporâneos. Ele se tornou conhecido como um poeta cosmopolita com um estilo singular que incorporava os diferentes aspectos da sua vida: um amor pela cidade, pelas artes, pela homossexualidade e pela socialização. Embora todos os poetas da Escola de Nova Iorque exibissem um ativo senso de humor e uma tendência para curtos poemas do tempo moderno, nenhum deles era tão fortemente biográfico quanto a obra de O’Hara. Ele também se tornou muito bem conhecido em outros círculos da poesia americana e fez amizade com muitos outros poetas importantes daquele tempo, incluindo Allen Ginsberg e o restante dos escritores que foram conhecidos como a geração Beat. Embora O’Hara não fosse um pintor por si mesmo, ele foi uma parte ativa na obra de muitos artistas. Posou para vários retratos feitos por alguns dos mais famosos e representativos pintores da época, incluindo Larry Rivers, Elaine De Kooning, Fairfield Porter e Alex Katz. Ele também estava envolvido em várias colaborações com artistas que incorporavam os seus poemas. Ele fez uma série bem conhecida de pinturas com Norman Bluhm, um livro cômico de escárnio com Joe Brainard e uma série de litografias com Larry Rivers. Tudo isto consistia de palavras de O’Hara escritas ao lado das imagens dos artistas. Desde cedo, ele tinha colaborado com Grace Hartigan numa série de pinturas que ela fez, as quais acompanhavam seus poemas intitulados “Oranges”. A galeria Tibor de Nagy vendeu os resultados da colaboração como um panfleto de edição limitado que hoje vale milhares de dólares. No início da década de 60, O’Hara ministrou uma oficina de poesia na New School for Social Research e viajou por toda a Europa para organizar diferentes exposições. A posição de ministrar cursos permitiu a ele comunicar-se com a geração mais jovem que sua poesia estava influenciando, e fez então amizade com poetas já conhecidos e outros que estavam surgindo. Algumas poucas peças suas começaram a ser produzidas independentemente também por volta dessa mesma época.
Ele cai; mas mesmo em queda Ele está mais alto do que os que Voam ao sol ordinário.[2] Muitos dos amigos de O’Hara sentiram que este poema funcionava como seu elogio final para si mesmo. Várias centenas de pessoas incluindo muitos poetas, escritores, pintores e curadores de museu compareceram ao seu funeral. Ele foi enterrado no Cemitério Springs, em East Hampton, perto do túmulo de Jackson Pollock, um artista bem conhecido que teve uma morte trágica similar, poucos anos antes, quando o seu carro derrapou para fora da estrada. O’Hara tinha mencionado a vários amigos no funeral de Pollock que esse cemitério era onde ele queria ser enterrado, ao contrário de Massachusetts, onde sua família iria querer mais tarde que ele fosse enterrado. A poesia de Frank O’Hara é constituída de muitos aspectos diferentes selecionados de sua vida e suas influências. Ele amava viver na cidade e achava que Nova Iorque era o mais magnífico lugar no mundo. Em um de seus poemas mais conhecidos, “Meditations on Emergency” (1954), O’Hara escreveu: “Não posso sequer apreciar uma lâmina de relva, a menos que eu saiba que há um túnel à mão, ou uma loja de discos ou algum outro sinal de que as pessoas não lamentam totalmente a vida”.[3] Em muitos casos é aquilo sobre o qual O’Hara não escreveu em seus poemas que nos conta algo sobre ele. Sempre que alguém escreve num estilo biográfico, você espera que ele inclua temas como religião, família, política e natureza. Não há nada disso na poesia de O’Hara, entretanto. Ele havia dado as costas para qualquer tema que envolvesse sua infância e, no lugar, se concentrou exclusivamente em sua vida cotidiana. Ele se recusou a participar de qualquer religião organizada após se afastar de sua família na década de 40. Ele se ressentiu de sua estrita formação católica por toda a sua vida. O fato de que ele foi educado pelos pais, pela igreja e pela comunidade para acreditar que a homossexualidade era um mal, o que não podia coincidir com o fato de que ele era gay. Ele raramente mencionava a família em seus poemas e, quando o fazia, raramente lhe punha boa luz. No poema “Essay on Style” (1961), ele exclama “você não saberia que tua mãe clamaria e lamentaria?”.[4] Ele nunca foi tampouco um escritor político ou orientado para a natureza. Ele foi muito mais interessado nos relacionamentos entre as pessoas em suas circunstâncias imediatas do que com os lugares delas no mundo. As únicas pessoas que mencionava em seus poemas que não eram seus amigos foram figuras e celebridades históricas ou literárias. O’Hara escrevia usando seu dialeto de todo dia e exibia uma grande habilidade para documentar os próprios pensamentos e ações. Ele também incorporava seu senso de humor e seus insights pessoais em relação ao mundo ao seu redor. Ele não sentia que havia algo como ser bastante tolo. As várias influências da arte de Nova Iorque também se mostravam em sua poesia. Seus poemas freqüentemente mencionam diferentes obras de arte que viu ou estudou. Ele era também muito interessado em cultura popular e freqüentemente incluía referências de filmes e celebridades em seus poemas. Sua obra faz a ponte para a fissura entre as escolas do expressionismo abstrato e da Arte Pop nesta maneira. Além disso, ele sempre se ateve à sua influência mais antiga do surrealismo europeu, que pode ser vista em seus poemas que incluem seqüências de imagens oníricas ou irracionais.
O’Hara declarou seus ideais poéticos muito claramente num manifesto de escárnio que ele escreveu chamado “Personism” (Personismo). Nele declarava que jamais quis que sua poesia fosse estúpida ou soasse pomposa. Considerava a poesia como sendo um território para a diversão dos leitores e esperava que seus poemas fossem tão magníficos quanto os filmes que ele amava ver, ao invés de que eles fossem tão bons quanto a obra dos vários poetas que vieram antes dele. A idéia para Personism veio até ele quando se deu conta de “que se eu quisesse poderia usar o telefone ao invés de escrever o poema”. Ele estava, apesar de tudo, apenas transmitindo os seus pensamentos para os amigos quando escrevia. Pois a poesia de O’Hara era uma forma de comunicação usada a fim de expressar a sua vida para o mundo, não algo para ser estudado ou decifrado como um enigma. Desde a sua morte, há 33 anos,[5] a poesia de Frank O’Hara tornou-se muito mais popular do que era durante o tempo em que estava vivo. Vários novos livros de sua poesia têm sido lançados, incluindo tanto um amplo volume que contém todos os seus poemas conhecidos publicados quanto, em outra via, um volume que contém todas as suas peças teatrais. Os livros que ele escreveu, incluindo The Art Chronicles and Today in American Drama, estão ainda em catálogo também. Sua irmã, Maureen O’Hara Granville-Smith, tornou-se a administradora de seu espólio e tem inspecionado a carreira póstuma do irmão para um grande sucesso. O livro The Collected Poems of Frank O’Hara foi o ganhador do The National Book Award for Poetry (Prêmio Nacional do Livro para Poesia) em seu lançamento em 1971. Em 1993, Brad Gooch lançou uma biografia completa de O’Hara chamada City Poet: The Life and Times of Frank O’Hara, para enfurecer as críticas. Devido à crescente disponibilidade da poesia de O’Hara, bem como às informações sobre a sua vida, ele está agora mais acessível para novos públicos do que já havia sido antes.
NOTAS [1] Sigla de Master of Arts (Mestre em Artes). [NT] [2] No original: “He falls; but even in falling/ he is higher than those who/ fly into the ordinary sun”. [3] No original: “I can’t even enjoy a blade of grass unless I know there’s a subway handy, or a record store or some other sign that people do not totally regret life”. [4] No original: “wouldn’t you know my mother would call up and complain”. [5] Hoje, em 2006, já são 40 anos da morte de O’Hara. [NT]
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Frank O’Hara (Estados Unidos, 1926-1966). Poeta e crítico de arte. Autor de livros como A City Winter, and Other Poems (1952), In Memory of My Feelings (1967), Love Poems (1965), Meditations in an Emergency (1956), e Second Avenue (1960). O presente ensaio, escrito em 1996, foi traduzido por Éclair Antonio Almeida Filho. Sugerimos visitar: www.laurahird.com/newreview/frankoharaselectedpoems.html. Página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia). |
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