a poesia de Ernest Wichner
Viviane
de Santana Paulo
Ernest
Wichner é completamente
desconhecido no Brasil e, na Alemanha, seu cargo de diretor da Literaturhaus,
em Berlim, uma das
instituições
literárias mais
bem
conceituadas, deixou-o mais conhecido do que
seus livros.
Talvez seja esta uma boa oportunidade de apresentá-lo ao
público
brasileiro, além
de alguns
poemas
traduzidos na revista Inimigo Rumor
# 17. Pois temos aqui
um tradutor,
crítico
literário e um
poeta alemão dono de uma linguagem
que envolve o
leitor
através da
inocência
e suavidade do
romantismo
para ser, por fim,
despertado por
um
bruto realismo
-, fragmentos de um cotidiano
desmistificado e medíocre, como contemplar a frágil e lenta cena de uma alcoólatra
na rua, no
poema
Domingo de
um
vilarejo (Kleinstadtsonntag),
descobrir um certo charme, inadequado, enrustido
no gesto de
levar
o gargalo da
garrafa
à boca, o
movimento
imperceptível das pernas
abrindo-se eroticamente, o corpo
perdendo o equilíbrio e a súbita vontade
de jogar-se em
cima
em um
ato sexual.
Ou trata-se de um
passante
incógnito
encontrando outro
passante
desconhecido em
que a indiferença
do encontro é dirimida pela capacidade
que cada
um possui de trair
o outro pelas
costas, a certeza
e a fatalidade
dessa descoberta revelada na simplicidade da palavra
“casual”.
Aquele
que se aproxima, passos
curtos
“como se marchasse”,
não é isso,
passará e
não te
olhará
nem sequer
uma vez
não
contrairá a face
não
deixará nada
ser percebido
e
simplesmente passará
de
forma que
tu pensarás na
palavra
“casual”
pouco
antes apenas
do
golpe
atrás
da cabeça
[Sopa de pedra]
Begegnung 2
der da kommt
kurze Schritte
"wie
abgehackt" , der
meint es
nicht so
wird
vorbeigehen und dich
nicht einmal
ansehen
sein Gesicht
nicht verziehen
sich nichts
anmerken lassen
und einfach
vorbeigehn
so daß du
das Wort "Zufall"
denken
wirst, kurz nur
vor dem
Schlag
auf den
Hinterkopf
Ernest Wichner nasceu
na Romênia, em 1952, em uma
aldeia colonizada
por
alemães, chamada
Guttenbrunn - que
quer
dizer algo como boa água, pois são muito ricas as fontes
de água
mineral
da região Banat.
Sua
língua materna
é a alemã, a romena aprendeu na escola. No Brasil, os autores
romenos que
conhecemos são
Paul
Celan, Eugene Ionesco, Emile Cioran, Lucian Blaga e Mihai Eminescu. Apesar do romeno
ser uma língua
latina, o
intercâmbio
literário entre
os dois países
permanece ainda limitado, e se não fosse o belo
trabalho de tradução
de Luciano Maia dos
poemas
de Eminescu - um dos mais ilustres poetas da Romênia; nosso
conhecimento estaria ainda mais
reduzido. Pertencente à geração pós-guerra, a chamada
"geração dos culpados" pelas atrocidades contra
os judeus, Wichner
não
se considera um
poeta
romeno, pois
escreve em alemão,
e apesar de ter
crescido em ambas as culturas, a predominante ficou sendo a germânica, em virtude da família
e dos costumes do
vilarejo
povoado por alemães. Contudo,
os poetas
romenos
fazem parte de
sua
formação
literária,
aquele que
mais o impressionou foi o conterrâneo Paul
Celan com
Fuga sobre a
Morte (Todesfuge), cujos
versos delatam os
horrores
dos campos de
concentração
alemães na II
Guerra
Mundial. Foi lendo esse poema que o sentimento de culpa
veio à tona:
"nós nos
consideramos os descendentes dos supostos assassinos
e dos verdadeiros". Wichner tinha
dezessete anos
quando
Paul Celan atirou-se da ponte Mirabeau nas águas
geladas do Senna, em 1970,
em
Paris. Mas não só as conseqüências do regime nacional-socialista impregnaram a vida do poeta, em 1965, o ditador
comunista Nicolae Ceausescu chega ao poder e o país vive mais
de duas décadas de
censura
e horror que
culminaram na Revolução de 1989. Logo em seguida, em novembro, deste mesmo
ano, ocorreu a queda
do muro, em
Berlim.
Wichner foi
um
dos fundadores do
grupo
literário Aktionsgruppe Banat, no
início
dos anos setenta,
cujos
jovens almejavam uma fuga das amarras
da censura de Ceausescu. Com as crescentes
dificuldades, deixou a Romênia em 1975 e foi estudar literatura e ciências
políticas em
Berlim ocidental,
como
faziam muitos dos
amigos
descendentes de
alemães:
imigrar para o “paraíso” que era considerada a Alemanha
Ocidental.
Mas agentes
do serviço
secreto
romeno farejavam
por
todos os cantos,
ademais o outro
lado de Berlim mantinha o
regime
comunista e
ditador.
Mesmo sendo ameaçado
pelo
serviço secreto,
Ernest Wichner continuou dedicando-se à tradução
e publicação de poetas romenos nas revistas
literárias e editoras alemãs, como os nomes
de Norman Manea, Marcel Blecher e Stefan Banulescu.
Sopa
de pedra e (Steinsuppe, Edition Suhrkamp, 1988)
e O reverso do gesto
(Rückseite der Gesten, zu Klampen, 2003) são
as duas coletâneas de poemas mais
destacadas do autor. A primeira publicação data
de 1887, com Elegien Weiss (Elegias
brancas), posteriormente surgiram
os
títulos: Alte Bilder (Imagens
antigas, 2001), e Die Einzahl der Wolken (A
soma das nuvens, 2003).
Em Münster, no oeste da Alemanha, onde
ganhou o prêmio da cidade
(Europäische Poesie der Stadt Münster), surgiu
mais
um ciclo
de poemas em
prosa na
coletânea
Preis für Europäische Poesie 2005.
Com
isso tudo
dissipado e minguado
algo
como um espremer a fruta e sem mais nada a querer
do
que sentir
cada agulhada
no ouvido em
que tu
chegas de repente
no
reverso
de
todos os gestos
poder contrabalançar o mundo com um canudinho
o
que tentamos tanto tempo até vergar
[O
reverso
do gesto]
DABEI WAR
ALLES eingedampft worden zusammengeschrumpft
auf eine art
fruchtaustreibung und man hatte nichts anderes im sinn
als jedes
nadelöhr aufzuspüren wo man plötzlich auf der rückseite
aller gesten
angelangt die welt mit einem strohhalm aufwiegen
konnte was
wir so lange probierten bis er knickte
PASSOS PROVÁVEIS
Poucos
gestos
Que
alguém
poderia chamar
De
descartáveis ou
Pelo
menos algo
assim
Uma
ponta
de fo-
lha
branca entre
o azul
Fugidio
dos lábios
que
Se abrem ao
vermelho, deixando
flutuar
o branco
com
a mancha rosa
da
carne
[Sopa de pedra]
SCHRITTE
VERMUTLICH
wenige
Gesten
die ein
anderer vielleicht
wegwerfend
nennt, oder
zumindest
ungefähr so
ein Zipfel
weißen Blat-
tes
zwischen den blau
angelaufenen
Lippen, die
sich öffnen
zur Röte hin, ab-
segeln
lassen das Weiße
mit
rosa Fleisch-
Fleck
Vilarejo de Banat
com suor no poema
Hoje
é domingo
inteiro
em
cima
do dia além
dos trens das
cinco
Não
param nos
passantes
Passam e ficam no
campo
Do
olhar as notícias
do último
Verão
reviram-se na
Grama
metálica
torres de igreja
por onde
Se
anda apito
de impedimento
Válido
para as bicicletas da tarde
Nos
telhados
cantando passarinhos
Na
cabeça e um
centroavante ganha
Vermelho
precisa
sair e entra
Completamente
suado no poema
[Sopa de pedra]
Banater Dorf
mit Schweiß im Gedicht
heut ist
Sonntag den ganzen
Tag über
fünf Uhr die Züge
halten nicht
an Spaziergänger
gehen vorbei
und bleiben im Blick
Feld die
Nachrichten vom letzen
Sommer
wälzen sich über die
Wiesen
blecherne Kirchtürme wohin
man sich
wendet Abseitspfiffe
die dem
Nachmittag gelten Radfahrer
über den
Dächern Singvögel im
Kopf und ein
Mittelstürmer sieht
rot
muß hinaus kommt herein
völlig
verschwitzt ins Gesicht
A
linguagem
de Wichner não se perde no emaranhado
da
erudição, encontramos em seu universo a identificação
com a imagem
cotidiana, a
retratação
de gestos
aleatórios,
como segurar
a ponta de uma
folha
em branco
com a carne
dos lábios
rosa
de batom ou
as paisagens de
um
vilarejo na Romênia adquirem contorno poético. Seu
mundo é real,
ambíguo e efêmero,
resvalando na falta de sentido, onde talvez se encontra
o sentido de
tudo; os poemas
são, às vezes,
fragmentos,
observações de uma
realidade
fortuita,
diminuta,
sem ponto e vírgula mesclando uma impressão
na outra, uma ação
na outra, em
uma simbiose na
qual
cada elemento
não perde a
autonomia, e desembocam em
um
novo significado,
em outro
mundo perceptivo
e interrupto. Como no verso verschwitzt ins Gedicht,
que quer dizer suado no poema, mas rosto em alemão é Gesicht, muito parecido com
Gedicht, aludindo à frase comum
suado no rosto. A imbricação é
usada para criar
imagens ambíguas
que
se estendem em
quase
todos os versos
caracterizando o estilo wichneriano, cada sentido
adentra-se no significado do próximo verso,
configurando um
novo
conteúdo
semântico.
No
poema
O ar
da primavera a primavera parece soprar os varredores de rua,
e mais
adiante
quem é que
grita uma entrada
para o mar? as
crianças ou
as ruas? Ou
no poema
Vilarejo de Banat com
suor na poesia,
nos
versos
“hoje
é domingo
inteiro/em cima do dia além dos trens das cinco/não param nos passantes/Passam e ficam no
campo/Do
olhar as notícias
do último/Verão
reviram-se na”, o campo passa a ser o campo do olhar no próximo verso e não o campo de flores ou plantio. Os versos são suspensos e mediante
outro sentido
continuam no próximo, as
rimas
interrompidas, resultando em imagens distorcidas que
se transformam em uma outra também dúbia.
O
ar da primavera
sopra na próxima
pequena cidade
os varredores de rua
com
suas carretas cheias
de moleques inquietos pelas ruas que
gritam uma
entrada para
o mar com
certeza sentem
necessidade
de aberturas
por entre
as grades dos
bueiros
dos subterrâneos
aguados pois
a
única estofa
de água corrente
fedia por si
só insuportável
levemente
dilatando à noite
e pela manhã
e não se perdendo
além
disso
longe
da cidade
nos campos
[O reverso do gesto]
Frühlingsluft trieb in der nächsten kleinstadt die straßenfeger
mit ihren
kippkarren voll nervöser kinder durch die straßen die nach
einem zugang
zum meer schrien gewiß sie verspürten ein
verlangen
nach kanalrosten zugängen zu wässrigem untergrund denn
das einzig
fließende gewässer stank schnurgerade vor sich hin es
schwoll
abends und morgens leicht an und verlor sich ansonsten nicht
weit vor der
stadt auf den feldern
Claro
e iluminado
e enterrado no
interior do crepúsculo cinza
As
janelas espessas, a veneziana descida
os
corpos nus
no couro negro
farejam-se - uma
parte do ombro
prende o
olhar
em uma boca
escancarada
O
que continua acontecendo do lado de fora
diz
imaginação, aquecido pelo acaso
do
florescer tão
perfumado, como
nesta
estação do ano, que
enganando a si
mesma
lança-se na
frente do verão
Em
seguida,
dedos levantam a
veneziana,
débeis da
luta de amor
por
uma idéia
de luz.
e
por um
momento tudo
brilha, abandona
o
lugar entumecido
e pousa
de
volta como
pura exasperação
nos olhos
pelas
velas
dos castanheiros
[O reverso do gesto]
Hell und
Klar
und
vergraben im Graudämmer innen.
Die Fenster
dicht, unten die Jalousie
die Leiber
nackt auf schwarzem Laken
die sich
beschnuppern - ein Stück Schulter
fängt der
Blick in einem rachenweiten Mund.
Was sich
nach draußen fortsetzt
sagt
Imagination, erhitzt vom Zufall
von
Erblühtem jäh genährt, wie stets
zu dieser
Jahreszeit, die sich in Selbst-
betörung vor
den Sommer stürzt.
Dann heben
Finger, matt vom Liebeskampf
für einen
Lichteinfall Lamellen an
und alles
strahlt kurz auf, verlässt
sich
aufladend den Raum und fällt
zurück als
schiere Netzhautreizung
von den
Kerzen im Kastanienbaum.
Em
uma conversa descontraída, no jardim
da Literaturhaus, à sombra de uma fagácea, Ernest Wichner revelou-me que o ato de escrever surge repentino, no meio de uma viagem
de trem ou
em casa
tranqüilo, são
esboços de um
sentimento, um
encontro com
algum momento
peculiar do dia,
uma impressão
súbita
e especial
que
demanda ser
preservada
através das
palavras.
Como se o poema
fosse autônomo e o
poeta
apenas observasse o
que
quer dizer. Ele explica
essa
sensação como
se fossem os versos
quem
o escrevessem: “preciso
ver
o que o poema
quer de mim”.
A poesia o possibilita de
escrever
a qualquer
momento,
não é o caso
do conto que
exige maior
concentração
e duração. O
poema
desponta naturalmente, mostrando a
romântica paisagem desestruturada por um cotidiano em que se intercalam diversas
cenas
corriqueiras, breves e traiçoeiras, com a imprevisibilidade do
brusco
realismo, como
um golpe
atrás da cabeça.
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