revista de cultura # 54
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2006






 

a poesia de Ernest Wichner

Viviane de Santana Paulo

.

Ernest WichnerErnest Wichner é completamente desconhecido no Brasil e, na Alemanha, seu cargo de diretor da Literaturhaus, em Berlim, uma das instituições literárias mais bem conceituadas, deixou-o mais conhecido do que seus livros. Talvez seja esta uma boa oportunidade de apresentá-lo ao público brasileiro, além de alguns poemas traduzidos na revista Inimigo Rumor # 17. Pois temos aqui um tradutor, crítico literário e um poeta alemão dono de uma linguagem que envolve o leitor através da inocência e suavidade do romantismo para ser, por fim, despertado por um bruto realismo -, fragmentos de um cotidiano desmistificado e medíocre, como contemplar a frágil e lenta cena de uma alcoólatra na rua, no poema Domingo de um vilarejo (Kleinstadtsonntag), descobrir um certo charme, inadequado, enrustido no gesto de levar o gargalo da garrafa à boca, o movimento imperceptível das pernas abrindo-se eroticamente, o corpo perdendo o equilíbrio e a súbita vontade de jogar-se em cima em um ato sexual. Ou trata-se de um passante incógnito encontrando outro passante desconhecido em que a indiferença do encontro é dirimida pela capacidade que cada um possui de trair o outro pelas costas, a certeza e a fatalidade dessa descoberta revelada na simplicidade da palavracasual”.

 

Aquele que se aproxima, passos curtos

“como se marchasse”, não é isso,

passará e não te

olhará nem sequer uma vez

não contrairá a face

não deixará nada ser percebido

e simplesmente passará

 

de forma que tu pensarás na palavracasual

pouco antes apenas

do golpe

atrás da cabeça

[Sopa de pedra]

 

Begegnung 2

 

der da kommt kurze Schritte

"wie abgehackt" , der

meint es nicht so

wird vorbeigehen und dich

nicht einmal ansehen

sein Gesicht nicht verziehen

sich nichts anmerken lassen

und einfach vorbeigehn

 

so daß du das Wort "Zufall"

denken wirst, kurz nur

vor dem Schlag

auf den Hinterkopf

 

Fernando MaldonadoErnest Wichner nasceu na Romênia, em 1952, em uma aldeia colonizada por alemães, chamada Guttenbrunn - que quer dizer algo como boa água, pois são muito ricas as fontes de água mineral da região Banat. Sua língua materna é a alemã, a romena aprendeu na escola. No Brasil, os autores romenos que conhecemos são Paul Celan, Eugene Ionesco, Emile Cioran, Lucian Blaga e Mihai Eminescu. Apesar do romeno ser uma língua latina, o intercâmbio literário entre os dois países permanece ainda limitado, e se não fosse o belo trabalho de tradução de Luciano Maia dos poemas de Eminescu - um dos mais ilustres poetas da Romênia; nosso conhecimento estaria ainda mais reduzido. Pertencente à geração pós-guerra, a chamada "geração dos culpados" pelas atrocidades contra os judeus, Wichner não se considera um poeta romeno, pois escreve em alemão, e apesar de ter crescido em ambas as culturas, a predominante ficou sendo a germânica, em virtude da família e dos costumes do vilarejo povoado por alemães. Contudo, os poetas romenos fazem parte de sua formação literária, aquele que mais o impressionou foi o conterrâneo Paul Celan com Fuga sobre a Morte (Todesfuge), cujos versos delatam os horrores dos campos de concentração alemães na II Guerra Mundial. Foi lendo esse poema que o sentimento de culpa veio à tona: "nós nos consideramos os descendentes dos supostos assassinos e dos verdadeiros". Wichner tinha dezessete anos quando Paul Celan atirou-se da ponte Mirabeau nas águas geladas do Senna, em 1970, em Paris. Mas não as conseqüências do regime nacional-socialista impregnaram a vida do poeta, em 1965, o ditador comunista Nicolae Ceausescu chega ao poder e o país vive mais de duas décadas de censura e horror que culminaram na Revolução de 1989. Logo em seguida, em novembro, deste mesmo ano, ocorreu a queda do muro, em Berlim.

Wichner foi um dos fundadores do grupo literário Aktionsgruppe Banat, no início dos anos setenta, cujos jovens almejavam uma fuga das amarras da censura de Ceausescu. Com as crescentes dificuldades, deixou a Romênia em 1975 e foi estudar literatura e ciências políticas em Berlim ocidental, como faziam muitos dos amigos descendentes de alemães: imigrar para o “paraísoque era considerada a Alemanha Ocidental. Mas agentes do serviço secreto romeno farejavam por todos os cantos, ademais o outro lado de Berlim mantinha o regime comunista e ditador. Mesmo sendo ameaçado pelo serviço secreto, Ernest Wichner continuou dedicando-se à tradução e publicação de poetas romenos nas revistas literárias e editoras alemãs, como os nomes de Norman Manea, Marcel Blecher e Stefan Banulescu.

 Sopa de pedra e (Steinsuppe, Edition Suhrkamp, 1988) e O reverso do gesto (Rückseite der Gesten, zu Klampen, 2003) são as duas coletâneas de poemas mais destacadas do autor. A primeira publicação data de 1887, com Elegien Weiss (Elegias brancas), posteriormente surgiram os títulos: Alte Bilder (Imagens antigas, 2001), e Die Einzahl der Wolken (A soma das nuvens, 2003). Em Münster, no oeste da Alemanha, onde ganhou o prêmio da cidade (Europäische Poesie der Stadt Münster), surgiu mais um ciclo de poemas em prosa na coletânea Preis für Europäische Poesie 2005.

 

Com isso tudo dissipado e minguado

algo como um espremer a fruta e sem mais nada a querer

do que sentir cada agulhada no ouvido em que tu chegas de repente

                                                     no reverso

de todos os gestos poder contrabalançar o mundo com um canudinho

o que tentamos tanto tempo até vergar

[O reverso do gesto]

 

DABEI WAR ALLES eingedampft worden zusammengeschrumpft

auf eine art fruchtaustreibung und man hatte nichts anderes im sinn

als jedes nadelöhr aufzuspüren wo man plötzlich auf der rückseite

aller gesten angelangt die welt mit einem strohhalm aufwiegen

konnte was wir so lange probierten bis er knickte

 

PASSOS PROVÁVEIS

Poucos gestos

Que alguém poderia chamar

De descartáveis ou

Pelo menos algo assim

Uma ponta de fo-

lha branca entre o azul

Fugidio dos lábios que

Se abrem ao vermelho, deixando

flutuar o branco

com a mancha rosa

da carne

[Sopa de pedra]

 

SCHRITTE VERMUTLICH

wenige Gesten

die ein anderer vielleicht

wegwerfend nennt, oder

zumindest ungefähr so

ein Zipfel weißen Blat-

tes zwischen den blau

angelaufenen Lippen, die

sich öffnen zur Röte hin, ab-

segeln lassen das Weiße

mit rosa Fleisch-

Fleck

 

Vilarejo de Banat com suor no poema

 

Hoje é domingo inteiro

em cima do dia além dos trens das cinco

Não param nos passantes

 

Passam e ficam no campo

Do olhar as notícias do último

Verão reviram-se na

 

Grama metálica torres de igreja por onde

Se anda apito de impedimento

Válido para as bicicletas da tarde

 

Nos telhados cantando passarinhos

Na cabeça e um centroavante ganha

Vermelho precisa sair e entra

 

Completamente suado no poema

[Sopa de pedra]

Fernando Maldonado 

Banater Dorf mit Schweiß im Gedicht

 

heut ist Sonntag den ganzen

Tag über fünf Uhr die Züge

halten nicht an Spaziergänger

 

gehen vorbei und bleiben im Blick

Feld die Nachrichten vom letzen

Sommer wälzen sich über die

 

Wiesen blecherne Kirchtürme wohin

man sich wendet Abseitspfiffe

die dem Nachmittag gelten Radfahrer

 

über den Dächern Singvögel im

Kopf und ein Mittelstürmer sieht

rot muß hinaus kommt herein

 

völlig verschwitzt ins Gesicht

 

A linguagem de Wichner não se perde no emaranhado da erudição, encontramos em seu universo a identificação com a imagem cotidiana, a retratação de gestos aleatórios, como segurar a ponta de uma folha em branco com a carne dos lábios rosa de batom ou as paisagens de um vilarejo na Romênia adquirem contorno poético. Seu mundo é real, ambíguo e efêmero, resvalando na falta de sentido, onde talvez se encontra o sentido de tudo; os poemas são, às vezes, fragmentos, observações de uma realidade fortuita, diminuta, sem ponto e vírgula mesclando uma impressão na outra, uma ação na outra, em uma simbiose na qual cada elemento não perde a autonomia, e desembocam em um novo significado, em outro mundo perceptivo e interrupto. Como no verso verschwitzt ins Gedicht, que quer dizer suado no poema, mas rosto em alemão é Gesicht, muito parecido com Gedicht, aludindo à frase comum suado no rosto. A imbricação é usada para criar imagens ambíguas que se estendem em quase todos os versos caracterizando o estilo wichneriano, cada sentido adentra-se no significado do próximo verso, configurando um novo conteúdo semântico.

Fernando MaldonadoNo poema O ar da primavera a primavera parece soprar os varredores de rua, e mais adiante quem é que grita uma entrada para o mar? as crianças ou as ruas? Ou no poema Vilarejo de Banat com suor na poesia, nos versos hoje é domingo inteiro/em cima do dia além dos trens das cinco/não param nos passantes/Passam e ficam no campo/Do olhar as notícias do último/Verão reviram-se na”, o campo passa a ser o campo do olhar no próximo verso e não o campo de flores ou plantio. Os versos são suspensos e mediante outro sentido continuam no próximo, as rimas interrompidas, resultando em imagens distorcidas que se transformam em uma outra também dúbia.

 

O ar da primavera sopra na próxima pequena cidade os varredores de rua

com suas carretas cheias de moleques inquietos pelas ruas que

gritam uma entrada para o mar com certeza sentem

necessidade de aberturas por entre as grades dos bueiros dos subterrâneos

 aguados pois

a única estofa de água corrente fedia por si insuportável

levemente dilatando à noite e pela manhã e não se perdendo além disso

longe da cidade nos campos

[O reverso do gesto]

 

Frühlingsluft trieb in der nächsten kleinstadt die straßenfeger

mit ihren kippkarren voll nervöser kinder durch die straßen die nach

einem zugang zum meer schrien gewiß sie verspürten ein

verlangen nach kanalrosten zugängen zu wässrigem untergrund denn

das einzig fließende gewässer stank schnurgerade vor sich hin es

schwoll abends und morgens leicht an und verlor sich ansonsten nicht

weit vor der stadt auf den feldern

 

Claro e iluminado

 

e enterrado no interior do crepúsculo cinza

As janelas espessas, a veneziana descida

os corpos nus no couro negro

farejam-se - uma parte do ombro

prende o olhar em uma boca escancarada

O que continua acontecendo do lado de fora

diz imaginação, aquecido pelo acaso

do florescer tão perfumado, como

nesta estação do ano, que enganando a si mesma

lança-se na frente do verão

Em seguida, dedos levantam a veneziana,

débeis da luta de amor

por uma idéia de luz.

e por um momento tudo brilha, abandona

o lugar entumecido e pousa

de volta como pura exasperação nos olhos

pelas velas dos castanheiros

[O reverso do gesto]

 

Fernando MaldonadoHell und Klar

 

und vergraben im Graudämmer innen.

Die Fenster dicht, unten die Jalousie

die Leiber nackt auf schwarzem Laken

die sich beschnuppern - ein Stück Schulter

fängt der Blick in einem rachenweiten Mund.

Was sich nach draußen fortsetzt

sagt Imagination, erhitzt vom Zufall

von Erblühtem jäh genährt, wie stets

zu dieser Jahreszeit, die sich in Selbst-

betörung vor den Sommer stürzt.

Dann heben Finger, matt vom Liebeskampf

für einen Lichteinfall Lamellen an

und alles strahlt kurz auf, verlässt

sich aufladend den Raum und fällt

zurück als schiere Netzhautreizung

von den Kerzen im Kastanienbaum.

 

Em uma conversa descontraída, no jardim da Literaturhaus, à sombra de uma fagácea, Ernest Wichner revelou-me que o ato de escrever surge repentino, no meio de uma viagem de trem ou em casa tranqüilo, são esboços de um sentimento, um encontro com algum momento peculiar do dia, uma impressão súbita e especial que demanda ser preservada através das palavras. Como se o poema fosse autônomo e o poeta apenas observasse o que quer dizer. Ele explica essa sensação como se fossem os versos quem o escrevessem: “preciso ver o que o poema quer de mim”. A poesia o possibilita de escrever a qualquer momento, não é o caso do conto que exige maior concentração e duração. O poema desponta naturalmente, mostrando a romântica paisagem desestruturada por um cotidiano em que se intercalam diversas cenas corriqueiras, breves e traiçoeiras, com a imprevisibilidade do brusco realismo, como um golpe atrás da cabeça.  

Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta e ensaísta, residente na Alemanha. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002) e Estrangeiro de mim (2005). Contato: vsantanapaulo@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia).

RETORNO À CAPA ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA

procurar textos