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revista de cultura # 55 |
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Antonio Ramos Rosa: nascente submersa Rosa Alice Branco
É também sabedoria que permite perceber o mundo tal como ele é, sem véus ou distorções. É por fim, a alegria de caminhar para a liberdade interior e a bondade afectuosa que irradia para os outros. Matthieu Ricard
Com esta citação não pretendo afirmar, ou mesmo sugerir, que a poética de Ramos Rosa tenha uma influência das filosofias do Oriente, mas que os seus poemas deixam transparecer uma sageza que encontra ressonância nessa postura de vida que não é comum entre nós, e que é praticada e tematizada pelo budismo, neste caso o budismo tibetano. Como escreve Matthieu Ricard, o termo shouka “é uma qualidade que contém e impregna cada experiência, cada comportamento, que abrange todas as alegrias e todas as penas”[1] e corresponde a um estado de plenitude de estar no mundo, em que se usufrui de bem-estar, apesar de razões para tristeza ocasional, ou grande exaltação dos sentires:
(…) Como uma chama de água
Podemos dizer que é, de algum modo, a suprema felicidade, já que independe das circunstâncias: é a vivência do sentido de pertencer ao mundo em pleno. Também a poética de Ramos Rosa é um universo de tal modo completo e aberto - e, por isso, infinito - que falarmos da poética rosiana à luz de qualquer outra poética, ou de uma metáfora, ou outro tropo como, por exemplo, metonímia, ou de um conceito como transparência, ou de uma montanha como se fosse cavalo, ou de uma cor como o branco, se revela, finalmente, impossível. Porque já estamos dentro do branco, da parte quando a parte é todo e o todo é parte, e nenhum destes elementos se opõe, ou mesmo completa.
O poema é
uma alvura que alvorece Dizem que há mestres que atingiram o conhecimento interior da natureza última do espírito: a não-dualidade. Ramos Rosa atingiu essa experiência interior na poesia e não há exterior que lhe seja exterior, tão só porque é inteira. Francisco Varela, especialista em Ciências Cognitivas e Director de Investigação no CNRS (entre muitas outras coisas) foi também, até à sua morte, conselheiro científico do Dalai-Lama. É uma constante preocupação de Francisco Varela saber e aperfeiçoar o modo como o homem comum faz face às várias situações quotidianas. Mas sempre a partir do pressuposto que não existe propriamente dualidade entre corpo e espírito: é o que quer dizer com a sua expressão “embodied mind”. [3] Assim, a poética de Ramos Rosa, como experiência interior, incarnaria e traduziria “a tomada de consciência poética da vacuidade do eu numa manifestação não dual do sujeito e do objecto”. [4]
Ela está
sossegada como uma ilha branca
“Tinha a impressão de ver seres que eram a própria imagem daquilo que ensinavam” (…) “Depois de uma viagem intelectual pelos livros podia agora empreender uma verdadeira viagem”: [5] é a paixão de um caminho errante e todavia imóvel Ramos Rosa é receptividade pura à exuberância da terra: da coisa criada e incriada e de tudo o que poderá vir a existir, ou não. E transmissibilidade exacerbada, porque já flúi na palavra e na não palavra que habita a superfície da palavra. Na verdade, tudo é superfície na poética de Ramos Rosa. Não há nada a esconder e há tudo a mostrar. Tudo o que está no fundo ascende à palavra e o trabalho da palavra é ser escada por onde ela própria lateja, cada vez mais exuberante, subindo até à vista, ao tacto, porque a palavra é tocável na poética de Ramos Rosa, na medida em que tudo, tudo, está impregnado de ser. Ainda que o poeta invoque “o inominado”, este aproxima-se do silêncio da nomeação, e não de qualquer abstracção, já que no universo rosiano não há lugar para universos abstractos. Neste sentido, a poesia de Ramos Rosa insere-se na ideia de Francisco Varela assim descrita: “O concreto não é uma etapa para uma outra coisa: é o modo de chegarmos e o lugar onde ficamos”. [6] Mas o lugar de chegada é pura espontaneidade, depois de desenvolver “a simpatia fundamental com respeito ao mundo que, dizem os praticantes, nasce da experiência absoluta”, [7] pois “todas as energias do universo ascendem à palavra”. [8] Esta euforia do mundo não contraria a serenidade do shouka, É que nunca se trata da exaltação do mero instante, de uma vivência discretizada, de um sujeito fragmentado. Trata-se, sim, de um estado de espírito perpetuado, de um fluxo de sentido que perpassa a totalidade em cada um dos seus elos até chegar à palavra:
Trabalho a
matéria do murmúrio
Mas a palavra em mutação continua a ser reconhecível: é tão rigorosa e vasta que não poderíamos sabê-la assim antes desta poesia. Surpreende-nos como em Ramos Rosa cada coisa só mantém a sua singularidade em virtude da sua constante morfogénese, segundo leis precisas e, no entanto, a palavra é imprevisível e assim deve ser pois como o poeta escreve: “A finalidade da poesia é estabelecer a integração imediata do homem no mundo através da combustão verbal”. [9] Esta urgência imediata de irradiação da poesia traduz a sua vocação para o outro: a compaixão e generosidade do Shouka. É a sabedoria que faz da palavra um ente humilde e prenhe de ser: as obstinadas, desamparadas palavras soterradas. Aqui reside também o maior erotismo da poética rosiana: a exuberância de ser e de devir, o excesso que faz a palavra pobre, porque o louvor do mundo fica aquém do mundo a louvar. Este esbanjamento de ser é eros, e também ele tudo integra: “Obscenamente pura”, cheia de formas orgânicas, ondulantes, marinhas, poderosas e inocentes, a terra é fertilizada porque
Das gárgulas
do peito Mas embora estejamos sempre diante do texto do mundo, não diremos que, na poética de Ramos Rosa, a palavra se confunde com a coisa, e a terra com o magma da palavra. Estamos sempre à beira dessa tentação, mas cientes da travessia infinita reconhecemos que toda a terra é aqui uma terra escrita, toda a mulher é carne da palavra.
Nunca nos diz que a palavra se basta a si, ou que basta ao mundo. A palavra é ainda confusa para dizer o mundo, quebrável, enferma de opacidade, ainda sopro de forma, mas é já horizonte e já esplende. Não há uma evidência clara, porque ainda não foi destruído “tudo o que na linguagem se interpõe entre nós e o real”.[10] A palavra sugere o mundo: tanto no silêncio onde respira, como no murmúrio e no sopro que geram um horizonte que é já forma, como no “grito azul”, no incêndio, na germinação. Mas possui uma fragilidade originária de argila, ou barro, que só lhe permite passar além de si através da sua destruição. A palavra não tem espessura onde se inscreva a incisão do mundo e ficam um diante do outro, esfera de influência sobre o outro, exaltando-se mutuamente. Porém a palavra não é ainda nua de ruído, e Ramos Rosa interroga-se sobre “Como descrever essa irradiação pura do vazio, a calma densidade do ar, a integridade do imo aberto ao mundo?”.[11] É uma ignorância produtiva e abençoada, pois só escrevendo se caminha no sentido de achar essa palavra que falta. “É urgente inventar a simplicidade extrema de uma palavra viva e nua, a palavra do silêncio”.[12]
Na boca ocre
da terra entre os acantos negros Nesse momento “o mundo deixar-se-á ver tal como ele é, e nós seremos outros”[13]. A experiência do shouka que atravessa toda a poética de Ramos Rosa diz-nos, a todo momento, que o mundo já é habitado pela serena volúpia da palavra. E o silêncio vem colmatar o que falta à palavra ou o que nela excede:
Balbucio as
pedras e as lâminas de luz
NOTAS [1] Matthieu Ricard, Plaidoyer pour le bonheur, ed. NIL, Paris, 2003, p.23. [2] Todos os exertos dos poemas de Ramos Rosa são retirados do livro Nascente Submersa. [3] Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch, The embodied mind, MIT Press, 1993. [4] Francisco Varela, Quel savoir pour l’Éthique ? ed. La Découverte, Paris, 2004, p.114. [5] Jean-François Revel e Matthieu Ricard, Le moine et le philosophe, ed. NIL, Paris, 1999, p.25. [6] Francisco Varela, Quel savoir pour l’Éthique ? ed. La Découverte, Paris, 2004, p.22. [7] Ibidem, p.115. [8] António Ramos Rosa, Poesia Liberdade Livre, ed. Ulmeiro, Lisboa, 1986, p.22. [9] Ibidem, p.22. [10] António Ramos Rosa, “Mais silêncio mais sombra”,in Revista Espacio / Espaço Escrito, nºs 23 e 24, 2004, p.137. [11] Ibidem, p.140. [12] Ibidem, p.137. [13] Ibidem, p.137.
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Rosa Alice Branco (Portugal, 1950). Poeta, ensaísta e tradutora. Autora de livros como Da Alma e dos Espíritos Animais (2001), Amor quanto baste (2005), e Soletrar o Dia (2005), este último publicado no Brasil. Organiza dois Encontros Internacionais de Poesia: “Em voz Alta” e “Encontros de Talábriga”, assim como Colóquios e publicações sobre literatura. Organizou (com Rodrigo Petronio) uma antologia de poemas de Ramos Rosa para Escrituras Editora (São Paulo, 2006). É presidente de Limiar - Associação de produções culturais. Ensaio originalmente publicado na revista Textos e Pretextos, número monográfico dedicado a Ramos Rosa (Portugal, 2006). Contato: r.a.branco@mail.telepac.pt. Página ilustrada com obras do artista Óscar Domínguez (Espanha). |
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