
|
Um diálogo com Ná Ozzetti
[entrevista]
Erico
Baymma
Por
vezes
pergunto-me se minha emoção se exubera pela
superação da
técnica
(mas
técnicas
não alienadas em
si, emocionadas).
Mas
tantas vezes sou surpreendido muito mais. E me desligo do que
seja um
aparato
de conhecimentos
que
construíram determinada técnica de expressão
e visão,
que
fluo, apenas.
“A
vida é feita de encontros, embora haja tantos
desencontros na
vida”,
assim definiu o poetinha, Vinícius de Moraes. Hoje em dia - no que não me detenho em datar nenhuma concepção
de comportamento
humano
senão a própria
explosão de
informações
e suas fontes,
que nos
deixam cegos – encontro-me
encantadamente envolvido na capacidade
de encontro e da simbiose
entre linguagens
diversas, em quaisquer planos da vida.
Não
buscando um
didatismo, mas
ilustrando, a linguagem é a caça e o caçador de referenciais. Neste arsenal minuciosamente
articulado dentro das capacidades da linguagem
em si
e seus referenciais
afora
é que imagino
que
se faça a arte.
A
música contemporânea comercial,
é certo, está recheada de equívocos, mas não é dos equívocos
que desejo
regar “as minhas
plantas”.
Redundante
é fincar pés
em solo
movediço e
estéril, no que
não
se deve alienar, também.
E “sobre
todas as coisas” volto ao encontro.
Por
volta de 2005, Ná Ozzetti e André Mehmari tiveram a
oportunidade
de se encontrar em
projetos soltos e observaram tal identidade entre si que vieram a construir e lançar o espetacular
CD
Piano e
Voz,
cuja apresentação
em Fortaleza
se deu em 2006,
com
Theatro José de Alencar cheio e completamente ligado no
magnífico
repertório e
performances
simbióticas de Ná e André, tal
dissessem “como acontecem as
coisas”.
Não são
únicos, mas
eles são
únicos neste “recital”
onde passeiam por
um repertório
significativo da canção
brasileira, incluindo as infinitas referências multi-nacionais que André armou e
harmonizou no piano
para
que Ná dançasse
livremente.
Sóbria, mas
livre, a ponto
de mostrar a versão
de Cry Me
a River (Artur Hamilton) – Chora um Rio (versão de Arthur Nestrovsky) – numa postura sutilmente
irônica, proposta
na versão, um
blues relido, o
que
dá à música
um
“tom contemporâneo”,
já que
o romantismo desbragado
das interpretações registradas anteriormente sempre
tratou o amor
como
drama. Será tão
dramático assim?
A
construção harmônica do André Mehmari é uma
pletora
de referências
em
que se dialogam as
presenças
claras de Ernesto Nazareth, Thelonius
Monk, Oscar Peterson e Egberto Gismonti (principalmente)
entre muitos
outros grandes
compositores e
instrumentistas
que marcaram a
história
com uma
identidade
inconfundível.
Tudo
possui seu
tom
certo e é
minuciosamente
pesquisado e explorado para a valorização ímpar da voz/interpretação de Ná Ozzetti. No
entanto,
apesar de tantas
referências
é incrível
seu
personalíssimo piano, que viaja e volta
à sua
linguagem,
perfeito domínio
confirmado pelo Prêmio
Carlos Gomes, pela
Fundação
Padre Anchieta, de
Revelação do Ano.
Ná está
em seu auge. As canções estão perfeitas em
sua voz
e na composição dos
arranjos
junto ao André.
Voz
límpida, emissão
com alguns
sinais de lirismo
– no que não
perde a elegância e
simplicidade
–, torna tudo
em uma bela
paisagem
nada inútil.
Ao
terminar este recital, no
Theatro José de Alencar, já
perguntava aos dois se já
estavam preparando outro
trabalho
juntos, pois
vieram, no show,
com
duas músicas a
mais:
Clube da
Esquina
I e Os Povos, ambas de
autoria de Milton Nascimento e Márcio Borges. A
resposta,
claro, não
foi objetiva: “Quem
sabe?”, como se
não
houvesse passado na
mente
dos dois esta continuação
do belo
projeto, lançado agora
em
DVD e CD, gravados em 2006, em bela edição pela MCD.
O DVD alia
repertório
dos dois CDs, num
contínuo
que mostra
ainda mais
aprendizado na
ourivesaria
que já
tratavam com
tamanho
apuro. No novo
trabalho há a inclusão de
mais duas canções
de Caetano Veloso, duas do Tom Jobim,
a maravilhosa Maracatu,
de Egberto Gismonti, que é
“envolvida” pelas belas Asturiana (Manoel de Falla) e Copla de
Ordeño, do folclore
Colombiano,
Clara (À flor
da idade) de Robert Schumann, com versão de
Arthur Nestrovsky, além de Nelson Cavaquinho, Dante Ozzetti, Luiz Tatit, André Mehmari (em sua composição Eternamente, que ganhou bela
letra de Rita
Altério), Lennon e MacCartney, na valiosa
Because, que
ganha um
arranjo especialíssimo, entre outros.
Como
o lançamento
deste trabalho é bem recente, e tem uma vida
própria, poesia
que não
se explica, nos voltamos
para
conversar com
a Ná Ozzetti, que
nos
fala de seu
trabalho e da parceria
com André Mehmari. [EB]
EB Qual a sua visão entre a época em que firmou uma identidade
de performance "fora dos padrões" de
sua postura
hoje? Há alguma
diferença, no que diz
respeito
à sua postura
autoral de intérprete, compositora,
na concepção do som
que você deseja e o que você conseguiu realizar? (Também em termos de pressão de mercado, identidade
artística,
parceiros
de trabalho etc.)?
NO
"Fora
dos padrões" você
se refere a que
fase?
Quando eu
integrava o Rumo? A estética do Rumo eu
considero muito
singular,
não há nada
até hoje
que soe parecido com o que o Rumo fazia na época.
Quanto
à carreira-solo, no início eu
trazia na interpretação uma influência mais
declarada do trabalho com
o Rumo no que
diz respeito ao
canto
falado, e que
foi muito
importante
para o que
faço hoje. Esta
influência continua
presente, mas
já foi incorporada e houve uma fusão com as experiências que
tive posteriormente no
próprio
desenvolvimento do
meu
trabalho.
Acho que o trabalho sofreu, a exemplo
do que ocorre
com
todos os artistas,
transformações ao longo do tempo, mas vejo
uma linha bem
clara e definida
nessa trajetória, na maneira de entender e me manifestar na música.
O
trabalho de intérprete está presente desde o início
e é ainda a
minha
maior forma
de expressão,
mas
essa expressão
já
vinha com
um traço
de compositora, que se manifestou posteriormente.
Todas as faces
do trabalho estão ligadas
umas às outras, são
parte
de um todo.
EB Como você se coloca frente à Música
Brasileira, como
mercado e como
artista? Como
artista, há alguma "pressão
interna", algo
que você
busque atingir?
NO
O
meu
trabalho está em
constante diálogo
com produção
musical brasileira, de todos os tempos.
Sempre
foi importante,
para mim, entender minha personalidade nesse contexto
tão amplo
da música
brasileira, e dar
vazão a
ela, buscar um desenvolvimento
dentro dessa
linha
pessoal. Acredito ser
esta a melhor forma
de contribuir, já
que as melhores
referências já
foram criadas por
tantos
grandes artistas
de toda nossa
história.
EB Eu havia conhecido
o livro Três
canções
de Tom Jobim (Lorenzo
Mammi, Arthur Nestrovski e Luiz Tatit) em que você e o André gravaram
juntos e fiquei encantado com a interpretação
dos dois. Até
pensei, intimamente, que seria ótimo um disco todo com vocês, que logo veio a se realizar. Foi uma
surpresa conhecer
o trabalho do André, com
aquelas dissonantes e as releituras harmônicas
dele, ímpar. Como
se deu essa simbiose Ná Ozzetti e
André Mehmari? (Dois
ímpares!!) Vocês se conheciam há muito
tempo? No que
as características artísticas individuais levaram à escolha
do repertório dos
dois
discos? Há alguma "mensagem" através
do trabalho de vocês? Você avaliaria que este projeto
seria um
desenvolvimento claro do seu cd
Show?
NO
Nós
já
havíamos trabalhado em
dois
projetos que
envolveram outros
músicos,
mas esta foi a
primeira
vez que
trabalhamos nesse formato em duo, onde pudemos aprofundar
uma relação musical. O resultado deste encontro
nos surpreendeu,
por
este motivo
demos continuidade e acabamos gravando o
CD.
Desde
a escolha
do repertório sentimos uma afinidade muito
grande.
Depois
de os arranjos
e interpretações concebidos, o André
costuma pensar a ordem
das canções, para
o show, o CD e
agora
no DVD + o CD inédito (que
acompanha o DVD). Em todas essas situações há uma série
de mensagens musicais onde uma canção
dialoga com a
outra, seja pelo
tema,
pela harmonia,
pelas tonalidades,
época,
autores, etc. Eu
acho tão
genial
(além de tudo
o que ele
propõe) que prefiro
não
interferir, só
concordar, pois o resultado é maravilhoso.
EB
Ao vê-los no
palco, você
e o André, fiquei pensando em todo o processo para a concretização deste projeto.
E me chamou a
atenção
esta espécie de "duelo", muito
bem articulado, quase
um tango,
em que
vocês sempre
saem ganhando. Houve algum desafio específico de
uma ou outra
parte, já
que ambos
têm uma cultura musical incrível, mas
estão prontos a
este
embate em um show? Há
algum caso
em que
esta articulação
não
funcionou, na montagem do repertório, por
exemplo?
NO Quanto
ao desafio, senti mais
no início
do nosso trabalho,
mais precisamente
na nossa
primeira
apresentação em
público, quando
ainda estávamos
nos
conhecendo musicalmente. Depois desse entendimento tudo
sempre fluiu com
uma rapidez
incrível.
Algumas poucas vezes não chegamos a um
resultado
satisfatório
em uma canção
ou outra,
então esta é
imediatamente
substituída por
outra,
sem problemas.
EB Algo
que
já fiz
brincadeira
com você, sobre a "cantora maldita"…
risos… Vi um
depoimento
seu, na TV Cultura, falando sobre
esta sua postura, mais ou menos: "do jeito
que eu
gosto, eu
canto o que
eu gosto"?
Onde você
achou essa cantora, com essa voz e interpretação?
É ou foi
difícil colocar esta sua linguagem em um mercado tão opressor, como o da música?
NO Pois
é “cantora maldita”, acho este termo
meio “joga pedra na Geni”, bem desrespeitoso. Acho que
o artista tem
que
ser visto pelo trabalho que ele
apresenta (com
tanta
dedicação), e não
pelos “modelos”
mercadológicos em
questão,
pois estes também passam e correm o risco
de ficarem caducos
em
algum momento.
Um trabalho artístico
exige desprendimento, transcendência, tempo.
Pode ter uma assimilação
imediata ou
não.
Mas independentemente disso, temos
que
olhar para os meios de comunicação
que temos à disposição
da produção artística
nesses últimos
anos, o público é
aberto
e receptivo
sempre
que tem acesso
ao trabalho de um
artista.
Esse conceito de que
só existe o que
está na mídia, é equivocado a meu ver, é “a ditadura na cultura”
como já
dizia o Itamar Assumpção, ou como diz Luiz Tatit “tem mais
país, muito
além da TV” (na
canção
“Pra lá”, parceria com Dante Ozzetti).
EB
"A cantora
maldita" sempre foi marcada por
um repertório
todo próprio,
específico e inédito, na
maioria de seus
discos (exceto
o Lovelee Rita,
Show
e os atuais -
que
não deixam de ter
sua identidade
forte impressa).
Houve alguma transformação artística para incluir, em seu repertório, compositores "mais conhecidos"
e uma "melodia
mais
popular"? Você pensou: quero
gravar
Tom Jobim ou
Caetano Veloso? Mesmo que em seu cd "Show",
logo após ganhar o Festival da
Globo, tenha havido
tantos
clássicos no
disco, houve alguma pressão
ou
modificação de "status" no quesito
"estética Ná Ozzetti"?
NO
Costumo
pensar cada
CD como um
projeto
específico,
como se fosse um
filme diferente,
com novo roteiro, personagens,
paisagens, etc.,
mesmo
nos trabalhos
mais autorais.
Então
gosto de mergulhar
nesse universo e
extrair
o melhor que
posso dessa experiência, sem procurar estabelecer uma ponte
com os trabalhos
anteriores, pois
esta naturalmente se estabelece e é isso que eu gosto de ver acontecer.
EB Você
cantava quando
era criança,
sempre gostou de cantar?
Fez aulas? Há
músicos
em sua
família, além
do Dante?
NO Minhas
lembranças
mais remotas são
todas musicais. A música está na vida de minha família desde sempre, todos
somos músicos
desde
criança.
Estudei
piano
na infância,
depois
fiz outros
cursos
de formação musical. Quando entrei no Rumo,
comecei a estudar canto
lírico, o que
fiz por 10
anos
ininterruptos.
EB Em
seu show, uma das coisas
interessantíssimas que vi na interpretação é, por
exemplo, quando
você canta “Chora um rio” (Cry
me
a River), sua postura é sutilmente irônica,
ao invés do
anterior
"derramamento de sangue e ódio"
(lembrei-me da interpretação
da Barbra Streisand). Aliás, mesmo
sendo o único
show
seu que
assisti, e tendo este uma estrutura camerística, a
interpretação
tem sempre uma
carga
dramática identificável, mas muito sutil. Você faz trabalhos de pesquisa
de interpretação a
partir
de alguma linha
teatral?
NO Não.
O trabalho de interpretação é intuitivo. Fica
entre
a sonoridade da voz, a expressão musical (sempre
unida ao arranjo) e o universo poético de cada
canção. Mais
ou menos
isso que
me norteia, se é
que
me explico bem,
pois este é um assunto complexo e abstrato.
EB Mesmo
sendo possivelmente redundante,
como é dividir
o palco (e trabalho) com um instrumentista, inclusive
pelas características do André
Mehmari?
NO
É sempre maravilhoso
e surpreendente. Por
mais que
os arranjos estejam concebidos, nunca interpretamos da mesma
forma, e como
somos dois solistas,
dois interpretes, a dinâmica
é maior, pois
há a expressão
pessoal
e o diálogo, a
interferência
do outro, acontecendo ao mesmo tempo.
E
trabalhar
com o André é
realmente
o privilégio dos
privilégios, tenho vontade
de interpretar,
mas também
de assistir ao que
ele faz naquele
momento,
que é sempre
absolutamente
genial.
EB
Há algum(a) intérprete
na música
brasileira
que seja sua
inspiração?
NO
Milton Nascimento,
João Gilberto, Caetano Veloso, Elis Regina, Carmen Miranda, Maria Bethânia,
Mônica Salmaso…, e tantos outros.
EB
Assisti a
parte de um
show no programa
Bem Brasil, da Cultura,
em que
você e a Mônica Salmaso (outra
paixão) dividiram o
palco.
Você se sente mais
"protegida" pela diversidade de artistas
com
características
tão próprias, com
"mais
identidade"? Havia insegurança
em
seu começo
de carreira?
Aliás,
lidar com arte é ótimo, mas estabelecer linguagem é um desafio.
NO
Acho estimulante o contato
com a obra
de outros
artistas.
No
início
da carreira
com
o Rumo nunca
sentimos insegurança, pois
havia um
público
(e ainda há)
numeroso
e atento.
Além
disso, tinha os
colegas
de geração
como
Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, o
Premê, etc. que da
mesma
forma nos
estimulavam com
seus
trabalhos.
O
período
mais difícil
foi nos
primeiros
anos do meu
trabalho solo,
daí a coisa complicou, me
sentia realmente
só
e num mato
sem
cachorro, pois
o trabalho não
se sustentava. Mas a vontade de seguir em frente foi maior, então
esta fase felizmente
ficou para trás.
EB Você
poderia falar de alguns trabalhos brasileiros
em que
haja uma paixão sua, mesmo não sendo
da sua
identidade
artística? Quais
seriam as suas
escolhas?
NO São
tantas, tantas, tantas, e gosto realmente
de vários
estilos, de toda essa
diversidade
que nos
é peculiar.
Tem
alguns
trabalhos que
realmente aprecio,
como
o do Uakti, do Egberto, do Vitor Ramil, do Antonio Nóbrega, sim, e do Paulinho da Viola,
do Tom Jobim, Chico, Caetano, e por aí vai, sem falar em Tatit, Wisnik, Itamar, Dante, Mehmari, os quais tenho orgulho
de estar bem perto.
EB Você
teria interesse
em fazer trabalhos como
"só Wisnik", "só Itamar" ou"só Tatit"? Ou
outro compositor?
(Falo do Wisnik, Itamar e Tatit pela sua proximidade a eles e por serem paulistas
e possuírem mesmo esta linguagem diferenciada)
NO Nunca
pensei nisso, mas
não descarto a possibilidade, quem sabe?
EB Qual
um projeto acalentado para um futuro próximo? Há algum segredo a ser revelado, em termos de projeto e interpretação?
NO
Tenho um trabalho em andamento, com canções
inéditas.
|