revista de cultura # 57
fortaleza, são paulo - maio/junho de 2007






 

Beatriz Doria: a arte como forma natural

Jacob Klintowitz

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Beatriz Doria1.

A principal inspiração de Beatriz Dória é a sua intuição da harmonia universal e o estímulo externo para a concretização de sua obra é o convívio com a variedade de formas da natureza. O seu trabalho incorpora a experiência atual da arte com o objeto como representação autônoma e a preocupação da cultura contemporânea com o entendimento holístico da realidade. A sua obra, ainda que uma criação individual de formas, é uma glorificação da vida e do sentimento amoroso da harmonia com o planeta.

A convivência com o escultor Frans Krajcberg consolidou na artista este caminho em direção à uma arte atenta a necessidade de evolução do homem. É uma escultura sensível que busca a expansão da consciência. Uma invenção espacial a partir das formas da natureza. Beatriz Doria, em um demorado processo de elaboração, recria o que a sua imaginação identifica como as formas ideais.

Beatriz Doria

A convicção do século XXI é que o homem é um ser em sistema. Ele não se diferencia essencialmente de seu meio e é dependente dele. O ar que guarda em seus pulmões é o próprio homem e é o entorno. Existe um forte movimento da arte contemporânea em favor da natureza, na análise da harmonia entre o homem e o planeta, e no resgate de imagens e formas naturais. Esta corrente – a arte como consciência total – é marcante no Brasil, onde estão presentes artistas, entre tantos, como Frans Krajcberg, José Zanine, Ernestina Karman, Shirley Paes Leme, Lourdes Cedran, Tereza D’Amico, Berenice Gorini, Otávio Roth, Elvio Benito Damo, Marlene de Almeida, Zorávia Bettiol, Manfredo de Souzaneto, Alcindo Moreira Jr., Edson Luz, Ione Saldanha, Claudio Tozzi, Carybé, João Rossi, Mario Cravo Jr., Bené Fonteles, Juarez Paraíso, José Patrício, Gilberto Salvador, José Bento.

Beatriz Doria

A escultura de Beatriz Doria é uma elaboração espacial a partir das formas da natureza. A escultura da artista, como queria Aristóteles, não copia a natureza, mas trabalha a partir da identificação com o seu processo de criação. Desta maneira, Beatriz Doria pesquisa há muitos anos as formas e as características da vegetação brasileira. Com estes elementos – formatos e qualidades especificas da natureza – Beatriz constrói esculturas que se apropriam do espaço e nos remetem ao universo que imaginamos ser o das formas originais, no qual gostaríamos de sermos capazes de reconhecer a memória do Paraíso.

 

Beatriz Doria2.

A escultora Beatriz Doria nasceu em Pinhalzinho, Santa Catarina, em 8.5.1960, segunda filha de nove, de uma família de imigrantes italianos. Criada no Rio Grande do Sul, onde a família se instalou posteriormente e o pai transformou uma muda trazida da Itália em uma vinícola. Nesta época de menina, Beatriz Doria, durante a colheita da uva, pintava os caules da vinha com a casca da uva madura e contemplava o seu jardim de esculturas vivas que se apagaria com a primeira chuva.

Em 1985 retorna de Milão, Itália, onde estudou Design de Moda e, associada ao estilista Gregório Faganello, abre uma loja em São Paulo onde, por 12 anos, dedica-se a criação e comercialização de moda. Em 1997 estuda e dedica-se a ourivesaria, com  a criação de jóias com pedras brasileiras.

A partir de 2002, dedica-se ao estudo das formas naturais e da flora brasileira, criando um conjunto expressivo de esculturas a partir de árvores nativas resgatadas da destruição natural ou de queimadas. No dia 16 de maio de 2007 abre a sua primeira exposição de esculturas no Museu Brasileiro da Escultura, com a presença de seu mestre, o escultor Frans Krajcberg.

Beatriz Doria

Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Fotos de Celine Germer. Agradecimentos a Eduardo Guimarães. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras de Beatriz Doria (Brasil).

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