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revista de cultura # 57 |
livros da agulha
Queste parole fatte di acqua – Palabras de agua – che ci offre Silvia Favaretto, mettono subito il lettore in contatto, e fin dalla significativa epigrafe, con il simbolismo di uno dei quattro elementi fondamentali, che è appunto l'acqua. Questo simbolismo rimanda a tre temi possibili, isolati o combinati: l'acqua come sorgente di vita, come mezzo di purificazione o come centro di rigenerazione. In questa raccolta intensa e originale, i tre temi sono presenti, ma soprattutto il primo: l'acqua è il mare e il mare è la madre. E questo mare delle origini acquista via via forme e dimensioni diverse lungo la raccolta, mentre disegna ad una ad una le molte varianti geografiche da cui emerge o acquista forma tangibile: dalla laguna di Venezia, ambito originario dell'autrice, al fiume sdoppiato nell'Arno e nel Rio de la Plata, alla pioggia associata al Guatemala, alle cascate, nello specifico quelle dell'Iguazù, ai ghiacciai che evocano la Patagonia, e infine all'Oceano che è senz'altro l'Atlantico. Esso, in effetti, unisce i due mondi dell'autrice, l'Europa e l'America, ma anche le sue due lingue, l'italiano e lo spagnolo-argentino, ed è anche – e perché no – il mare dei Caraibi, quindi Cuba. Dopo la sezione dell'oceano ci sono altre due sezioni, quella sul Cenote (Messico) e quella sullo Ionio (Sicilia). L'impressione è che queste due sezioni finali siano, precisamente, una nuova partenza. Forse dietro questi testi – come è normale che sia – c'è una vicenda personale, e sicuramente una vicenda di intenso dolore, una dura prova iniziatica. Ma l'autrice non si lascia mai andare alla scrittura confessionale: il dolore rimane legato a un "segreto", a un mistero che potenzia il dolore stesso e trasforma l'individuale in essenziale, l'esperienza in formula esistenziale. Ecco: forse il segno più caratteristico di questa poesia si trova proprio in questa congiunzione fra astratto e familiare, racconto e mistero, spagnolo e italiano, madre e non-madre (madre biologica, madre cosmica, madre lingua, madre vita, madre morte). Il libro, in effetti, può essere letto attraverso l'immagine chiave della madre, oppure attraverso il simbolo portante dell'acqua, che la racchiude e la moltiplica. La poesia di Silvia Favaretto – contrariamente a quello che io stessa ho affermato più volte rispetto a una tendenza generale nella poesia giovane attuale – non è espressione di una voce androgina, anzi in lei l'elemento femminile emerge costantemente e in modo indubbio. Ma la sua femminilità è carica di un vigore e di una rabbia altrettanto eccezionali. Lei ha visto la violenza del mondo, non quella contingente, storica, "attuale"; ma quella originaria, determinante, sostanziale e quindi inevitabile. E ha la forza di non mascherarla. E il coraggio di denunciarla, di contestarla, di rivoltarsi contro, anche nella certezza dell'inutilità di tale contestazione: “Nacqui viva e furiosa / mordendo il latte avvelenato / di seni che non volli / mai / lasciare”. La poesia di Silvia Favaretto nasce da una profonda lacerazione; e la sua voce non si propone di lenire le ferite, anzi. Essa graffia e colpisce. Ci costringe ad aprire gli occhi e a sopportare. Ma proprio per questo la sua poesia, non soltanto non potrebbe mai risultare indifferente, ma alla fine ci trasmette quell'incredibile energia che l'ha fatta nascere e che la sostiene, ci rende più lucidi e più forti”. [Martha Canfield]
E lá estava o rapaz, orgulhoso do conto que acabara de escrever, na redação do Correio do Povo, em Porto Alegre. Chegara com a convicção própria da juventude, ao menos a daquela época (início dos anos 60), a de que era incrivelmente brilhante. Queria publicar o escrito, uma história macabra sobre a mãe louca que estrangula a filha. O editor olhou o jovem e orientou: “Está vendo aquele velho magrinho ali? Se ele disser que é bom, eu publico”. O rapaz olhou o senhor, que nem era tão velho assim, entre a pilha de papéis, e pensou com certo menosprezo: “Mas será que ele vai entender o meu conto maravilhoso?”. O senhor ajeitou os óculos, juntou as folhas, leu, pegou um lápis, enquanto o garoto pensava: “Será que ele vai ter a ousadia suprema de pretender corrigir alguma coisa?”. Com uma voz cantante, um pouco esganiçada e alta, ele finalmente opinou: “Que visão a tua!”. E convidou: “Vamos tomar um café”. O garoto com ar de quem sabe tudo, ao olhar o balcão alto, sem cadeiras, aproveitou para usar uma expressão de Mário Quintana: “Ah, um café de ribanceira”. O senhor ouviu, mas não disse nada. Enquanto tomavam o café, o velhinho era cumprimentado com deferência aqui e ali. “Olá, Quintana.” O garoto ficou surpreso, mudo e envergonhado. “Quintana de Mário Quintana?”. Era o próprio. Talvez o poeta, na sua sabedoria e humor, tenha percebido que o rapaz atrevido tinha lá o seu talento. A publicação do conto incentivou o garoto a escrever. E ao longo dos anos ele escreveu sem parar, tornando-se o crítico da maior produção de livros de arte do mundo. Jacob Klintowitz lança o seu 102º livro pela LaserPrint Editorial, Histórias brasileiras de arte e artistas. Uma edição que difere de todas as outras que pontuam a trajetória do crítico. Ele se dá o direito de uma prosa poética. Conta a história de Ivald Granato, Cirton Genaro, José Roberto Aguilar, Henrique Léo Fuhro, César Romero, apresentando o jeito de ser e ver de cada um. Também destaca momentos importantes na história da arte brasileira em dois capítulos especiais: “Amici”, que lembra a contribuição dos artistas italianos, e “Uma relação tão delicada”, mostrando a importância da França na formação de artistas como Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, Candido Portinari, Anita Malfatti, Wilson Tibério, Antonio Bandeira e Cícero Dias, entre tantos outros. Depois de uma vida dedicada à crítica de arte, Jacob Klintowitz vê o seu trabalho sob outras luzes. “Crítica de arte é literatura”, define. “Uma forma ensaística, às vezes poética, às vezes prosa, mas forma literária que trata de obras ou obra de outros artistas. A crítica considera a sua significação no mundo, o que a obra representa, qual o seu papel, o que ela formula. É uma decifração. Um estudo. E um ato amoroso, uma maneira de conhecer e amar, o que é a mesma coisa.” O jornalista lembra o mestre Wassily Kandinsky: “Ele dizia que o crítico de arte ideal seria aquele que tentasse sentir como esta ou aquela forma age e que, em seguida, comunicasse ao público aquilo que ele experimentou. Para isso, o crítico deveria possuir alma de poeta, já que o poeta deve sentir as coisas de maneira objetiva para traduzir de maneira subjetiva o seu sentimento. O crítico, numa palavra, deveria ser dotado de uma força criadora”. Klintowitz elaborou seus livros na contra-corrente de muitos pesquisadores. “O conceito de que a crítica de arte tem um caráter técnico e científico é completamente estranho ao meu ser”, observa. “Senti prazer e felicidade em escrever estes textos. E acho que esses devem ser outros atributos da atividade crítica. Que outros sentimentos deve ter alguém que entra em contato com a energia da criação artística?” Desde o primeiro livro, lançado em 1973 pela Léo Christiano Editorial, Jacob Klintowitz procurou aliar a divulgação do trabalho dos artistas e a reflexão sobre a trajetória da arte contemporânea brasileira. “Na época, eu trabalhava em jornal, revista, agência de publicidade, e decidi elaborar um livro para esclarecer as minhas próprias dúvidas”, explica. “Era composto de três ensaios: ‘Arte e comunicação’, ‘Apontamentos sobre a estrutura da obra de arte’ e ‘Para uma política cultural’. Aproveitei uma licença e escrevi o livro em cinco dias, o prefácio foi do extraordinário Alberto Dines.” O ritmo agitado dos jornais – em São Paulo, Klintowitz foi o pioneiro das matérias especiais de arte no Jornal da Tarde, onde trabalhou durante 17 anos – acabou influenciando no tempo do pesquisador. Ele desenvolveu a capacidade de escrever um livro, com sensibilidade e síntese, em poucos dias. Daí ter feito, como lembrou o jornalista Maurício Kubrusly, o mapa do Brasil com seus 102 livros. Ou seja, já escreveu sobre a história e o trabalho de artistas de todo o País. “Quando releio os livros, fico muito inquieto. Há sempre coisas novas para observar e acrescentar. Eu gostaria de reescrever praticamente todos. A absoluta maioria mistura artistas famosos a outros quase desconhecidos.” Para o crítico, a condição essencial para escrever sobre um pintor é o que a sua obra tem a dizer, ensinar, emocionar. “Eu peço à obra de arte que me dê critérios para observá-la. Não chego diante dela inteiramente pronto. Observo com humildade, perguntando e faço uma revisão permanente dos meus juízos de valor. Só escrevo quando a obra me diz alguma coisa.” Klintowitz lamenta o fato de o Brasil ter poucos críticos na mídia. “Os meios de comunicação desistiram inteiramente de ter alguém que fale em arte e saiba do que está falando”, observa. “Tem crítico de comida, vida noturna, vinho, cinema, política, economia, vida social, vida sexual, mas sobre arte há poucos. E o crítico é fundamental para o desenvolvimento de uma grande arte.” Na avaliação do jornalista, o artista precisa da interlocução e a arte necessita ser dimensionada social e culturalmente. “Esse é o papel do crítico. E, no nosso país, ele se refugiou em instituições, com todas as suas óbvias restrições, porque foram expulsos dos meios de comunicação. Acho também que mais escritores deveriam escrever sobre arte. Sinto falta de textos de alta elaboração, requintados, como os de Geraldo Ferraz, Antonio Bento, Ferreira Gullar, Walmir Ayala, Antonio Callado, entre outros.” Klintowitz lembra que o Brasil, apesar da extrema fragilidade institucional, tem uma arte de alto nível. “Os museus são de dar pena, por absoluta falta de verbas. A política pública, nos vários níveis, é frágil em relação à cultura e o mercado de arte é pequeno em relação ao número de artistas e a potencialidade do País. E, mesmo com esse panorama, nós temos extraordinários artistas em todas as áreas.” Em Histórias brasileiras de arte e artistas, o jornalista Jacob Klintowitz revela as emoções do crítico diante da paisagem da arte contemporânea. Depois de quase cinco décadas dedicadas à pesquisa e à divulgação da arte brasileira, o crítico abre espaço para a observação do poeta. “Este livro é um passo em minha libertação individual”, explica. “Junto o meu aprendizado de literatura e a minha percepção de arte.” Sob a liberdade de ser e sentir do paulistano José Roberto Aguilar, o crítico/poeta se deixa envolver pelas cores da obra e pela luz do ateliê. E deixa o texto fluir em sensações. “O ar estava impregnado de palavras não ditas, pensamentos inconclusos, gestos contidos. Também a poeira suspensa que a luz filtrada nos vidros sujos da janela revelava era uma presença sonhadora e opressiva.” Faz uma comparação “não idêntica, mas irresistível”, do artista pop com os mestres chineses e japoneses. “A extraordinária gravura japonesa, que tanto influenciou na invenção do impressionismo, tratava do cotidiano, da vida das pessoas comuns, das pontes e das paisagens. A crônica do homem no planeta. Desde o cubismo a arte utiliza os objetos cotidianos como assunto e, com a pop art, chegamos numa espécie de entronização da banalidade. Não se pode esquecer que estamos tratando de manifestações estéticas diferentes, mas há em comum esse interesse pela simples existência.” Nesta observação do cotidiano, Klintowitz lembra o haiku de Bashô: Belo ainda na manhã o velho cavalo sobre a neve. No capítulo “O silêncio na arte”, Klintowitz se vê diante das figuras nítidas e precisas do gaúcho Henrique Léo Fuhro. “Essas figuras multiplicadas, desdobradas, refletidas em um universo de ocultos espelhos estratégicos e que habitam como superfícies referenciais no universo mental do artista. E, no entanto, desse contexto estridente da mídia contemporânea, desprende-se uma atmosfera de quietude, uma construção feita de silêncio.” Em “O encantador de pipas”, o crítico fala sobre a arte do baiano César Romero e a sua capacidade de incorporar os símbolos da religiosidade e da criatividade popular num sistema visual erudito. “Jamais saberemos se voavam mais altas as pipas do menino. Mas eram famosas naquele interior ensolarado da Bahia as faixas de cor, o gosto feérico das combinações, a delicadeza do acabamento. No ar, a pipa, amante do vento, obscurecida pelo sol intenso, já com vida própria, provocava orgulho e a oculta dor da separação. Memória rediviva do artista, emblema cromático a portar os signos e símbolos da vida baiana.” A inquietude de Ivald Granato é homenageada no capítulo “O gênio inventor do granatês”. Klintowitz afirma que através do trabalho desse pintor carioca é possível entender muito da história da arte e da cultura brasileira. “Ele cria situações, fatos e acontecimentos que se desmancham no ar. É um demiurgo ao tirar do nada uma cadeia de existências.” O universo pictórico de Cirton Genaro, paulista de Martinópolis, é apresentado por Klintowitz com cuidado e sensibilidade. “O pintor trabalha sob a égide da história da arte. A sua pintura tem citações dos artistas que admira: Leonardo da Vinci, Hieronymus Bosch, Candido Portinari, Milton Dacosta, Alfredo Volpi. E as homenagens são freqüentes”, observa. “O artista escolheu o seu ofício e foi possuído por seus temas. Trata-se de pintura e do mundo dos homens.” Quando se fala em histórias brasileiras da arte, o primeiro nome que surge é o de Pietro Maria Bardi. Com a admiração e respeito de crítico e amigo, Klintowitz dedica a ele um capítulo especial. “Conhecido como professor Bardi, ele foi fundamental na criação da Escola Superior de Propaganda e Marketing, na divulgação da moda, do desenho industrial, do desenho de humor, da comunicação em massa, edições de livros de arte, orquestras juvenis, do curso de museologia, entre tantas outras atividades culturais. Mas, apesar de tantos títulos recebidos, Bardi era um autodidata.” [Leila Kiyomura]
Fale com Ela é um consultório sentimental, modalidade jornalística que já deu margem a pelo menos uma narrativa importante, Miss Lonelihearts de Nathanael West. No Brasil, tem um precursor notável, Nelson Rodrigues, como bem observa a autora no prefácio. É dividido em 75 pares de cartas – consultas de leitores da Revista da Folha, do jornal Folha de São Paulo, que compuseram a seção com esse nome, e que agora se transferiu para a versão on-line da revista Veja, em www.veja.com.br/bettymilan – e de respostas da autora, psicanalista e escritora com extensa obra publicada. Com uma edição rapidamente esgotada na época de seu lançamento, em abril de 2007, Fale com Ela talvez apareça em listas de mais vendidos. Nesse caso, em qual categoria vai figurar? De não-ficção? Desse ramo colateral da não-ficção, a auto-ajuda? Ou, hipótese menos provável, como literatura? A editora Record parece acreditar nessa terceira possibilidade, pois sugere a catalogação do livro como Crônicas Brasileiras; portanto, como gênero literário, embora não necessariamente ficcional. Classificar como auto-ajuda, por sua vez, não seria incorreto: afinal, os consulentes, aqueles que possibilitaram a existência dessa seção, enviam mensagens movidos pela inquietação, insatisfação, sofrimento: por necessitarem de respostas. No entanto, há uma diferença fundamental entre Fale com Ela e a caudalosa produção editorial de auto-ajuda: cada obra dessa modalidade pretende-se universal. Mesmo partindo de experiências pessoais do autor, e freqüentemente escrita no modo auto-biográfico, apresenta algum método ou conjunto de regras aplicáveis a todos os seus leitores – ou a alguma grande categoria de leitores: profissionais de alguma coisa (público-alvo aparentemente majoritário), os infelizes, os que anseiam pelo encontro com Deus... (haverá categoria mais universal, ou mais pretensamente universal que Deus?) Já em Fale com Ela temos o reino do particular: cada caso é um caso, embora se destaquem, do conjunto de consultas, aquelas de alguém perturbado por sua identidade sexual (como os hétero que se descobrem ou suspeitam homossexuais), dos que não alcançam o prazer sexual ou só o alcançam em condições especiais e atípicas, as uniões que, por alguma dentre muitas razões estão terminando ou se esvaziando; e, contribuindo para que o todo tenha uma tonalidade mais sombria, as traumatizadas por abusos sexuais. Esses consulentes, os leitores-interlocutores de Fale com Ela, encontram o que buscavam? O que recebem de volta? Em alguns casos, ganham uma interpretação ou hipótese de interpretação, sempre feita com cuidado, por uma especialista que sabe muito bem qual é a distância entre o consultório e o espaço na imprensa. Com freqüência, recebem a sugestão de fazerem uma terapia analítica. Ouvem, ou melhor, lêem variantes – e essa seria a regra mais geral que pode ser discernida em Fale com Ela – do conhece-te a ti mesmo socrático e freudiano. E, ainda, ganham implícitas recomendações de leitura, toda vez que Betty Milan faz o paralelo entre o que é exposto e algum personagem, tipo ou situação de obras literárias, ou ao tema de um bom ensaio. Tais remissões à literatura são amplas e diversificadas: vão dos clássicos aos contemporâneos, incluem poesia e prosa, e abrangem Platão, Sêneca, Camões, Wilde, Sartre, Saramago, Oswald, Octavio Paz, Caio Fernando de Abreu, Graciliano Ramos, Ginsberg... Se, através dessas recomendações e referências, Betty Milan contribuir para formar alguns leitores, estimulando buscas da própria identidade em obras literárias, então já terá dado uma grande ajuda. Haveria mais a comentar, a propósito da literariedade de Fale com Ela, inseparável da diversidade dos casos que são apresentados. Alguns, de modo evidente, dariam margem a um enredo e tanto de narrativa ficcional, pelo que têm de insólito. Ou, melhor ainda, a combinação e interação de vários dos casos poderia resultar em um só enredo, de maior fôlego. Ao mesmo tempo, esses casos reais remetem à literatura, têm espelhos ou correlatos ficcionais. A arte imita a vida, ou é a vida que imita a arte? Ambos, evidentemente: e essa implícita dialética entre os acontecimentos do dia-a-dia e a produção simbólica confere interesse adicional a Fale com Ela, tornando estimulante sua leitura. [Claudio Willer]
La Fundación Común Presencia, se ha dedicado desde 1989 a la difusión, apoyo y exaltación de la educación y de los valores universales de la cultura, a través de la edición de su revista que ha alcanzado ya su número 19 y de la publicación de diversos libros en los géneros de poesía, cuento, testimonio y ensayo, de los cuales han aparecido 42 títulos. Sus aportes a la cultura hispanoamericana van desde los tres tomos de los Discursos de los autores galardonados con los Premios Nobel de Literatura, cuyos derechos nos fueron cedidos exclusivamente por la Academia Sueca (Fundación Nobel) para su edición en español, hasta la publicación de poetas tan importantes como Adonis, Antonio Gamoneda, António Ramos Rosa, Arthur Rimbaud, Roberto Juarroz, Georg Trakl, Giuseppe Ungaretti, Rodolfo Alonso, Calude Miche Cluny... y de algunas antologías universales de literatura de gran reconocimiento. Es notorio el cuidadoso nivel gráfico asumido por el enriquecedor vínculo con prestigiosos pintores del continente que ilustran estas ediciones. Sus directores han efectuado además en forma personal cuarenta reportajes a importantes escritores y artistas plásticos de nuestro tiempo –algunos reproducidos en diversos países e idiomas– entre quienes se encuentran: E.M. Cioran, Octavio Paz, José Saramago, Lawrence Durrell, Mario Vargas Llosa, Antonio Gamoneda, Juan Goytisolo, António Ramos Rosa, Jean Baudrillard, André Chedid, José Ángel Valente, Juan García Ponce, Roberto Juarroz, Antonio Gamoneda, Carlos Fuentes, Roberto Matta, Eugenio Montejo, Olga Orozco, Omar Rayo, Oswaldo Guayasamín, Pedro Alcánta Herrán, Edgar Negret, Fernando del Paso, Jacobo Borges... Creadores universales que se fueron constituyendo en colaboradores permanentes de sus publicaciones. La Fundación realiza además en alianza con la Unesco el Día Mundial de la Poesía versión Colombia (21 de marzo). La revista y los libros de la Colección Los Conjurados se distribuyen actualmente en cinco países (Puerto Rico, Perú, Ecuador, Venezuela y Colombia). Nuestros sitios web para visitación: http://comunpresencia.blogspot.com/ y http://coleccionlosconjurados.blogspot.com/.
Luis Alejandro Contreras (Venezuela, 1955). La mayor parte de su obra, una decena de libros, permanece inédita. Fue asistente de la Dirección de Literatura del Consejo Nacional de la Cultura (CONAC) y Jefe de la Unidad de Educación del Museo Alejandro Otero. Textos suyos fueron publicados en la revista Papel Abierto y en la antología de los talleres literarios del Centro de Estudios Latinoamericanos Rómulo Gallegos (CELARG, 2000). Colaborador de las revistas digitales Letralia, El Meollo y Remolinos. Igualmente, tuvo a su cargo la sección “Letras contra Letras” en el quincenario Letras. Contracorrientes, Sentencias en incertidumbre, cuaderno de memorias que entrevera muy al propósito vivencias, sueños y meditaciones literarias ha sido recientemente publicado por la editorial Bid & Co. Y, aparte de esta edición de Cuadernario, se ocupa en la publicación de un poemario con el sello Editorial Memorias de Altagracia, colección Celacanto.
Jorge Nájar (Perú, 1946). Estudió en Lima Educación y Ciencias Humanas en la Universidad Nacional “Federico Villarreal”. Trabajó de profesor en su ciudad natal. Ejerció en Lima el periodismo hasta 1976, cuando viajó a Francia donde prosiguió sus estudios de antropología en el Institut de Hautes Etudes de l’Amerique Latine, París III. En 1972 publicó su primer poemario Malas maneras. Obtuvo el Primer premio de la Bienal del Poesía del Perú (1984), Premio Copé de Oro; y el Premio Juan Rulfo de Poesía (Radio France Internationale, 2001). En 2002, la Editorial de la Unesco publicó su antología Poesía contemporánea de expresión francesa y, en 2003, la U. Católica de Lima lo reeditó. Toda su obra poética ha sido reunida en Formas del delirio (Ediciones San Marcos, Lima, 1999). Gran parte de su obra narrativa y poética ha sido traducida al francés: Le dire du malappris (Correcaminos, 1988); Pérou, contes populaires (Syros-Alternatives, 1989); Le diables rient (Syros-Alternatives, 1990); Toile Écrite (La Différence, 1992); Gravures sur maté (Folle Avoine, 1999); Figure de proue (Folle Avoine, 2006). Vive en París desde 1977 donde enseña y traduce poesía.
Hernando Guerra (Colombia, 1954). Poeta y abogado. Fue presidente por varios años de una organización de trabajadores del sector financiero. Es autor de los poemarios Pájaro azul (Linotipia Bolívar 1994); La noche del árbol (Sociedad de la Imaginación 1998); Ciega luz (Común Presencia 2004). Hace parte de la Colección Internacional Los Conjurados, de la Muestra Siglo XXI de Poesía en Español y de la antología arquetípica de Poesía en Español de la Asociación Prometeo, Madrid. Aparece en Portales y antologías de literatura del país y del exterior. Su poesía se publica en periódicos y revistas de Colombia e Hispanoamérica.
Veintinueve escritores vivos de Venezuela de diferentes vertientes literarias y corrientes poéticas, confluyen en un libro de pequeño formato organizado por Monte Ávila Editores Latinoamericana y publicado en La Habana por el Instituto Cubano del Libro (2005). Presentada con timidez hace dos años en la Feria Internacional de la capital caribeña, la antología Poesía contemporánea venezolana fue lacerada desde un principio por la opinión “bien pensante” de una minoría que, no obstante, se ha ido imponiendo en contra del libro y sin que en apariencia nadie objete nada. Al silencio tutelar de ese ambiente y, a la hasta el momento ninguna distribución del ejemplar en Venezuela, habría que agregar ahora, la interpretación impugnante publicada por la Internet del escritor Virgilio López Lemus, sobre la cual me referiré con poco ánimo de polemizar a ciegas, pero sí con el de exponer un punto de vista diferente. En vez de tratar de entender y leer sin prejuicio la selección propuesta por Monte Ávila, el articulista impone sus propias razones calificadoras para oponerse por un lado a la supuesta carencia de poesía política de la muestra y por otra a la ausencia de algunos nombres, la mayoría de poetas fallecidos, en una selección de poetas vivos para el momento, como señala concluyente, la breve nota de contraportada. Lizcano (sic), Juan Liscano, Andrés Eloy Blanco, Caupolicán Ovalles, Arnaldo Acosta Bello, Gilberto Ríos, por razones obvias, no entran en el grupo escogido. Por otra parte y, desde una perspectiva en la que la obra poética sea lo único vivo, existen a mi entender, 50 nombres más que van desde Enriqueta Arvelo Larriva, María Calcaño, Rafael José Muñoz, Vicente Garbasi, Juan Sánchez Peláez, Teófilo Tortolero, Gelindo Casasola, Víctor Valera Mora, Villarroél París, Lydda Franco Farías, Pepe Barroeta, hasta otros como, Elmer Zsabo, Rafael José Álvarez, Hanny Ossott, o Hugo Fernández Oviol, para sólo nombrar algunos, que pudieran integrar esa otra antología. Los poetas Rafael Cadenas y Eugenio Montejo, sobre los que reclama López Lemus deberían aparecer poemas suyos, hasta donde tengo entendido, rechazaron personalmente la posibilidad de ser incluidos. En cuanto a otros importantes creadores a los que hace mención como Francisco Pérez Perdomo, Márgara Russoto, Teódulo López Menéndez, Javier Lasarte, ¿por qué no pueden pertenecer al enorme grupo olvidado siempre justa o injustamente en cualquier antología? ¿Es que, por ejemplo, en la amplísima muestra que el autor del artículo tiene en la Internet (100 Poetas Cubanos), no se omiten nombres que para muchos pudieran ser ineludibles tales como los de Raúl Rivero, Heberto Padilla, Jorge Iglesia, Norberto Codina, o Mercedes García Ferrer? Tengo la sospecha que esta humilde pero vigorosa antología venezolana hecha con las mejores intenciones y logros por Monte Ávila para Cuba (es la primera que allí se edita una de estas características), continuará recibiendo muestras de los comunes prejuicios de los inconmovibles de la isla caribeña martiana y el de los de la patria bolivariana. Poesía contemporánea venezolana, continuará dando de qué hablar allá y aquí, precisamente, porque pese a su brevedad y sencillez, testimonia un aliento, una determinación de la que carecen muchas obras más amplias. Pienso con firme convicción que la labor creadora de Ramón Palomares, Ana Enriqueta Terán, Juan Calzadilla, Gustavo Pereira, Enrique Mujica, Alfredo Silva Estrada, Enrique Hernández D´Jesús, Beverly Pérez Rego, Reynaldo Pérez Só, Ely Galindo, Armando Rojas Guardia, Luis Alberto Crespo, William Osuna, Miguel Márquez, Santos López, Luis Enrique Belmonte, Ángel Eduardo Acevedo, Cecilia Ortiz, Luis Camilo Guevara, Elizabeth Shön, Eleazar León, María Auxiliadora Álvarez, Leonardo Ruiz, Adhely Rivero, Carmen Verde, Tarek William Saab, Gabriela Kizer, Farruco Sesto, Luis Alberto Angulo, merecen un tratamiento crítico no sometido a la presión circunstancial y a los criterios libérrimos de las antologías, inevitablemente examinadas por sus omisiones injustas para tantos. El conjunto de estos nombres, en el que aparecen grandes figuras consagradas y otras de creadores menos conocidos, es una apuesta crítica respetable y digna. No puede juzgar la obra de un autor y menos la de un país a partir de una antología que por muy aguda sea, sólo refleja una mirada y una perspectiva. Mucho menos la opinión fundamentada de quien ensaya evaluar para otros, que es la función básica del crítico, puede dejarse llevar por sus gustos y afinidades personales. En todo caso, se sabe, una lectura de este tipo exige asumir el texto sin subestimar el contexto, pero aceptando ante todo que su función es aferente al de la creación. Tenemos aquí, sin embargo, una muestra de la poesía venezolana hecha con amplitud y conocimiento del hecho literario nacional del momento y que a nuestro parecer, es inobjetable en el propósito de promocionar la excelencia de una producción que desafía tradiciones mejor conocidas y promocionadas, pero nunca más importantes, hermosas o actuales. Es recomendable en definitiva, la edición nacional de este libro con un formato más amplio y con todas las correcciones posibles. En todo caso, la excelencia y riqueza de la poesía venezolana permite cualquier número de compilaciones desde diferentes enfoques. Particularmente yo agregaría otros nombres a ésta de Monte Ávila, pero agradezco altamente y sin reservas me hayan incluido en ella y defiendo irrebatiblemente mi derecho a esa inclusión. En cuanto a lo verdaderamente rescatable y trascendente que surge a partir de la opinión del articulista, más allá de concebir la existencia o no de una poesía política, es la posibilidad de estudiar con absoluta franqueza si es verdad que la poesía venezolana o la misma que se hace en este momento en Cuba, están de espaldas a la realidades profundas de ellas mismas, de su propio gran decir en el tiempo y el espacio que le corresponde. Nada, en este sentido, sustituirá la poderosa energía de la poesía que está viva toda en la multiplicidad de formas como logra expresarse. De lo contrario, lo que se pretende presentar como tal, sólo es una cáscara que hace aguas por cuenta propia y sin ayuda alguna para redimirla. [Luis Alberto Angulo]
La dentellada del mastín; la mordiente del gato con la paloma en sus fauces; el tránsito del autobús suburbano de la barriada popular al downtown de la capital; el amanecer entre anturios, azucenas, claveles y la fragancia escarlata de una piel femenina; la responsabilidad del poeta sin protocolo y con audacia; todo eso y más acarrea el último libro del poeta tico-nica Carlos Calero, Paradojas de la mandíbula. Y la memoria, mejor dicho, la cabanga, ese hilo conductor de la conciencia del poeta desde la infancia hasta el exilio voluntario donde acecha el mercado de la muerte. Sobreviviente de los talleres literarios de la otrora revolución sandinista, hoy acartonada en el gobierno nicaragüense como una perífrasis tragicómica, Calero rehusó la forma que perseguía su estilo, para refugiarse en el estudio y la lectura de los clásicos y las poéticas renovadoras, sin borrar, claro está, la valiosa experiencia de aquéllos balbuceos exterioristas. Por eso nos entrega una poesía trascendente pero con garra, lírica más cotidiana, intimista pero conversacional, culta y sin embargo popular. Como profesor que es, en el sentido más amplio y pedagógico del término, el poeta evita la grandilocuencia, no pontifica sino que busca, describe, interpela, opone y propone. Tributario de su doble vertiente sociocultural y lingüística, su poesía es fronteriza: desde el ceremonial de Monimbó hasta la acidez urbana de una metrópoli que se muerde la cola como San José (la ciudad más grande de Nicaragua, según la percibe el poeta Alfonso Chase), surca esos montes, esas llanuras, ese río donde asoma la boina de su mayor prestidigitador y mediador (JCU), pero sin perder la frescura que nos convoca a todos a un territorio compartido y, como el poeta, el otro, el mayor, el paisano, inevitable. Porque la división, en esta época, es asunto de cínicos, oportunistas y politicastros. Paradojas de la mandíbula es testimonio lúcido del oficio. Por eso Calero convoca a sus poetas precursores y predilectos, los reúne alrededor de su buró de trabajo y les platica. Conversa largamente con ellos, les narra sus imágenes, los reclama en sus reflexiones. Y se interna en ese monologo profundo con la voz ajena, que no es más que la bullaranga de las plazas, parques, mercados y ferias de su pueblo, ese de la Nicaragua natal, éste de su Costa Rica neoliberal. O se ensimisma en su voz interior para retrotraer a sus antepasados, a su amante esposa difunta, a sus camaradas de viaje, quienes hacen posible la construcción de un mundo que se nos cae, como en la guerra de todas las cosas, en un caos y una anomia que amenazan al planeta entero. Carlos Calero nos entrega una obra largamente meditada, elaborada, digerida, distribuida en su argamasa originaria. Todo ello en el silencio de la labor del orfebre, silencio que, sin las poses y aspavientos de muchos vates posmodernos, es condición sine qua nom de todo verdadero artista. Así es su postura vertical de hombre comprometido con la vida, de ciudadano oficiante de la poesía. Por eso el poemario mastica, masculla, aúlla, susurra, acaricia y supura, con la lucidez del artesano que pule las palabras y las imágenes, tal vez en exceso a veces, pero con la convicción barroca de los hechiceros y los amanuenses de la palabra historiada, es decir, amasada colectivamente, multiplicada, compartida. [Adriano Corrales Arias]
No que tange a Literatura o idioma turco é uma raridade em nosso país. Se perguntássemos aos poucos leitores deste país qual seu autor preferido da Turquia? isso pareceria piada. A que devemos isso? Desconhecimento dos idiomas mais distantes do nosso? Vício do mercado capitalista livresco? Ou mera falta de cultura? Difícil saber. De todo modo, exceções há. Uma dessas é a tradução, pela primeira vez no Brasil, do poeta Fazıl Hüsnü Dağlarca. Nascido em Istambul, em 1914, Dağlarca é um dos mais traduzidos poetas turcos contemporâneos de expressiva consideração nacional (e, diga-se de passagem, antiditatorial). Sua poesia há décadas já entrou no coração da velha Europa, mas só agora nos chega aqui, e numa antiga forma, a de uma plaqueta. A forma gráfica da plaqueta é a de um pequeno volume cujo conteúdo é algo que se assemelha a uma amostra; comparada com o cinema, é como se fosse um curta. No presente caso, a plaqueta apresenta um conjunto completo de poemas, bilíngües, chamado Poemas do Mediterrâneo, pertencente ao livro A Agonia do Ocidente, de 1958. A tradução, ao cargo de Miguel Sulis e Marcelo Jolkesky, contou com o contato direto com o autor, desde Istambul, de sua velha e conhecida livraria (pois Dağlarca, com mais de noventa anos, segue sendo livreiro). Bir kocaman yeşil bir kocaman boz Yellerde Çarpar birbirine çarpar enginlere dek.
Dalgaların ucunda yıldızların ucu Her köpük bir fırtına Her köpük bir evren.
Şu deniz şu gök gizlenebilir Seni sevdiğim Gizlenemez. ................................................................................ Um verde colossal, um cinza colossal Nos ventos Colidem, defrontam-se até o mar aberto.
Nas cristas das ondas a ponta das estrelas Cada espuma uma tempestade Cada espuma um universo.
Esse mar, esse céu podem esconder-se Que te amo Não podem esconder. [Camilo Prado]
Vai louca vai, / desentranha, / ato penúltimo, / santo seio, / cacos, / que se guarde aqui as penas, / eu te compreendo. Os versos destacados são algumas das poesias da psicanalista Lílian Gattaz no seu primeiro livro, mar de dentro, lançado pela Editora Limiar, com o apoio da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, premiado como revelação de autor inédito. Mar de dentro é uma teia que lhe consome e devora, sua leitura provoca uma busca incessante no ponderável claroobscuro que habita cada um de nós. Posto que é mar é infinito, quanto mais se lê, menos se sabe, a busca já é o fim. A releitura, um novo começo e assim essa viagem que nunca termina nos põe a gozar por alegria ou sofrimento. Lílian não põe antagônicos nenhum sentimento ou situação, tudo celebra a vida numa ilha submersa que de tão improvável e discutível existência, torna-se real, exata, cópia fiel do que vai na alma humana. Além da beleza e da harmonia contida em cada verso e em todo o livro, há um brilhante prefácio de Claudio Willer e considerações sobre a autora e sua obra por Renata Pallottini. No poema abaixo, bem… por si só ele já mostra do que é capaz captar a inteligência e a sutileza do olhar, que Lílian põe sobre cada momento. TRISTEZA sobre a mancha da camisa o ferro quente desfazia rugas e o meu pranto provocava outras [Eliana de Freitas]
Há livros que não se organizam. Ou antes, não carecem de organização. Organização? Antes lhe chamaria simples arrolamento, simples juntura – como se os textos tivessem caído da cauda de um cometa, a nós chegassem projectados por um impulso tão natural como um aceno, um relancear de cabeça, uma expressão do rosto. Assim sendo, apenas me coube o papel de receptor. De receptor após mínima sugestão de companhia. E, pronunciando esta palavra, chega até mim como eco dum vento salutar a frase de António Maria Lisboa “Aqui já ninguém procura um séquito; quer-se companhia”. Companhia feita de um simples assentimento – que é o que melhor quadra nesta antologia que agora se deixa aqui proposta a uma viagem sem fronteiras. Um puro lugar de afectos? Também, claramente. Mas afectos cifrados numa qualidade sem jaça – diria da sua alma própria, que é o espírito absoluto de quem os articulou em palavras, em frases, em poemas criados mediante o apelo do sonho, da realidade que intimamente a ele se liga e que já não é norte, nem sul, nem inverno, nem verão – mas a figura absoluta de quem através deles nega a morte que tantos desejam para a Poesia, aquela entidade que visa a plenitude. “Sobre os telhados da casa cresce uma excrescência carnosa”… A frase contém ainda a sua verdade amaldiçoada, mas cabe aos poetas iluminar a cena e, dessa maneira, possibilitar moradias mais livres, mais salubres, um ambiente de logradouro, de jardim ou de palácio encantado onde os monstros não tenham efectivo poder. Estes poemas, esta junção de poemas na surrealidade, vindos de autores vogando expressa ou impressamente na imanência surrealista, não são uma celebração. Apenas propõem um íntimo, um pequeno fulgor. Uma pequena pedra brilhando na escuridão de um tempo a que alguns, sem que jamais o consigam, querem retirar a dignidade que lhe é própria, que lhes é íntegra pertença – e que de algum modo será o seu seguro perfil nos anos que pelos tempos irão chegar. [Nicolau Saião]
Chega um momento na vida em que o ato de ler é alimentar-se de si mesmo e a si mesmo. Assim, alguns se alimentam de idiotices (nenhuma referência a O idiota de Dostoievski) e, quando muito, de dogmas que são a base e a fundamentação dos medíocres. Outros se alimentam da inquietude. Num certo sentido, incluo-me entre esses outros. Daí conheci Michel Houellebecq que, diga-se de passagem, a mim me foi elogiosamente apresentado por Fernando Arrabal, quando de sua recente e honrosa visita ao Brasil, como palestrante convidado no II Festival Nacional de Teatro “Cidade de Vitória”, no Espírito Santo. A idéia de entender se resume naquilo que convencionalmente tem-se aceito em nossa subjetividade cultural como um entendimento que se basta a si mesmo, engessado pelo nosso paideuma. Decidir por algo que não se entende é uma possibilidade de romper com as camisas-de-força da lógica clássica, novas tentativas de emprestar significado ao mundo ou, pelo menos, transitar pelo não-sentido como um exercício do devir, pois – de certa maneira – essa herança colonizadora do pensamento ocidental se divide em princípios e finalidades. De um lado, afirma-se uma espécie de essência originária que a tudo sustenta como garantia daquilo a que se tem acordado como o significado da existência e, por outro, tudo se justifica pelas finalidades ou, conforme Voltaire, “tudo vai da melhor forma para um determinado fim”. Michel Houellebecq, em sua obra A possibilidade de uma ilha, estabelece um divisor de águas, ou seja, tanto o princípio quanto o fim são determinados pelo meio que – na medida em que se movimenta – instala os valores do início e do fim que somente são início e fim em detrimento daquilo a que até então se tem compreendido como mundo no momento mesmo em que vivemos o meio e no meio, não como mero mediador de dois pólos, mas como condição sine qua non para se ratificar a opinião (doxa) de que apenas podemos dizer de alguma coisa a partir do lugar de onde dizemos. Se, em A possibilidade de uma ilha, Houellebecq propõe a sobrevivência como a única forma de engajamento para o homem, implica dizer que sobreviver não passa de uma possibilidade de dizermos sobre o viver. Aqui se assevera que a ficção e a realidade não passam de aspectos diferentes do mesmo e, do ponto de vista literário, não é por acaso que Houllebecq – na obra em questão – apesar de ter optado pelo gênero romance como estrutura da obra, transita como cronista do tempo através da filosofia, da poesia e do ensaio. Uma mirada fenomenológica que coloca sob várias perspectivas uma reflexão sobre o homem e suas tentativas utilitaristas para se inserir no mundo das paixões inúteis. Com um pé na ficção científica e outro traçando rastros numa realidade repleta de buscas de soluções mitificadoras, o autor revela seus personagens marcados pela necessidade de inventar atalhos para amenizar o sentimento de paraíso perdido. Reina a nostalgia de um mundo que foi sem nunca ter sido através de uma história que se passa ao mesmo tempo no passado e no futuro, uma espécie de eterno retorno ou, quem sabe, como afirmou Raul Seixas, “o hoje é apenas um furo no futuro por onde o passado começa a jorrar”. Numa ciranda de variações sobre o tema da existência e, com fina e bem humorada ironia, o autor destila suas doses de depressão, monotonia e tédio, numa crítica à mediocridade e o reconhecimento de toda a gama de acontecimentos que conferem ao homem a sua dor de estar no mundo (Weltschmerz). Não a dor meramente psicológica, mas a dor que perpassa o próprio significado do ser, uma questão ontológica. É dizer que o fato de estar no mundo já é terrível, pois é um estado de ser no oceano das cotidianidades, um lugar onde não há entradas ou saídas, embora a possibilidade de uma ilha seja a manifestação de que algo venha a acontecer para alterar o destino. Mas o destino como a consciência existencial e niilista da finitude. Uma consciência que corta o espírito com a afiada lâmina da carne que se destrói na própria tentativa de se superar. Uma consciência de que ser humano é ser vítima dessa condição, um corpo que se vê pouco a pouco deteriorado de si mesmo pelo envelhecimento. Nesse processo de envelhecimento ou experimentação do mundo, entra em cena o amor, na pele do personagem humorista que vive duas desastrosas paixões. A primeira dessas paixões é Isabelle, uma mulher cujo casamento se nutre de um amor mumificado e sem apetite sexual e, por isso mesmo, se exaure na tentativa mesma de se manter. A segunda é Esther que, assim como a outra, se assemelha no desastrado desfecho, embora se diferencie por ser daquelas em que o sexo está completamente dissociado do amor e, ainda, por ser uma dessas figuras que se recusaram a crescer, como os personagens do filme Kids, de Larry Clark, uma hóspede infantilizada do mundo em ruínas, “paralisada em uma bolha asséptica”, experimentando um alheamento e quase como privilégio a iludida sensação de estar fora ou não ter nenhum compromisso com o mundo. Se Nicolau Maquiavel escreve O Príncipe para demonstrar as peripécias que se fazem necessárias para que este se mantenha no poder e, ainda, Baldassari Castiglione, em O Cortesão, revela as estratégias da dissimulação para que a monarquia e a plebe se completem como uma unidade do sistema, Houellebecq coloca em xeque o próprio sentido do humano, a partir da idéia do neo-humano que se dá num processo de desumanização, onde os valores são travestidos na tentativa de garantir uma espécie de “ordem” para a sobrevivência. Como indagava Torquato Neto, “aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo... ou lá?” Sim, para Houllebecq, aqui é o fim do mundo. Aqui é o início e o fim deste mundo da forma como até então tem sido sustentado, mas também o início e o fim estão lá... na possibilidade de uma ilha inventada para este fim. Em A possibilidade de uma ilha, autor e personagem se confundem. Talvez, como em Rimbaud o “eu é um outro” pode-se dizer que Houellebecq, mais que um autor, além de um outro, é vários autores, considerando que o autor se reveza com seus personagens, cada um por sua vez, ou seja, há tantos autores quanto personagens atuando como sujeitos e objetos que de tanto inverterem seus papéis já se torna impossível distinguir quem é um e quem é o outro. E por falar em personagens, ninguém melhor para ironizar o mundo que um popular e bem sucedido humorista, um bufão especialista em piadas sujas. Não somente ironizar, como é perceptível em um de seus espetáculos cujo título é Chupe minha Faixa de Gaza, meu colono judeu gorducho, mas também colocar em questão a vida de um artista corroído pelo próprio gesto de analisar seu papel numa sociedade como a atual que, conforme ele mesmo diz, o “fez” construir a carreira e fortuna “em cima da exploração comercial dos maus instintos...” Ainda dos personagens, Daniel 24 e Daniel 25 são separados por dois milênios (seria o tempo de duração da era cristã?) e que, para se protegerem dos humanos, se isolam em condomínios tipo bunkers. Estes, por intermédio de cortantes monólogos, estabelecem uma espécie de diálogo sobre a vida de Daniel – ou Daniel 1 – um espécime da sociedade contemporânea. Daniel 1, como representante deste vazio de dois milênios que separam Daniel 24 de Daniel 25, é o retrato de um modelo de sociedade falida. A princípio, diante de todos os fracassos do mundo contemporâneo, mostra-se incrédulo, mas aos poucos acaba por compartilhar com a idéia de que o ser humano não passa de um resultado da visita de extraterrestres. Numa mescla de ciência e misticismo e, talvez, como o último estágio dos suicídios em massa e a liberalidade sexual, os seguidores de uma nova seita com pretensões redentoras, os Elohim, que acreditam na passagem para a vida eterna a partir da clonagem. Para os que têm consciência da vida num oceano, A possibilidade de uma ilha está em potência, abrindo as fronteiras como uma afirmação de que o limite da possibilidade é a impossibilidade frente ao mundo, pronto e acabado, onde tudo está por fazer e que não há mais como sustentar na mera esperança construída de velhos conceitos náufragos de humanidade. Desumanizemo-nos. Se, para alguns críticos, A possibilidade de uma ilha está fora de lugar ou, para outros, pelo seu caráter anedótico (sic) teria ficado no meio entre ficção e realidade, cabe-nos ressaltar que não existe um absoluto como o lugar dos lugares (nem no espaço nem no literário) e que o não-lugar é também um lugar, ou seja, reforçando a idéia anterior entre o início e o fim, é no meio que a realidade se realiza. Parafraseando o dito popular, Houellebecq parece nos afirmar que há males que vêm para pior e, ao mesmo tempo, coloca um dedo na ferida deste modelo de civilização em que se aposta em hecatombes e fracassos. Há um grito contra esse amontoado de códigos e signos e siglas que não passam de mentiras inventadas como saídas miraculosas para o nada, como um cachorro querendo morder o próprio rabo. Enfim, em A possibilidade de uma ilha, Houellebecq abre as portas do século XXI com um novo romance cuja linguagem é capaz de abrir crateras para preencher o vazio cavado pela pós-modernidade. [Wilson Coêlho] parceiros da agulha nesta seção
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