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revista de cultura # 58 |
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Uma leitura da poesia de Gérard Calandre Ruy Ventura
O título é a meu ver uma autêntica descrição da poesia a que serve de continente. O que na minha opinião a define é uma ironia magoada, entre a vigília e o sonho; a certeza ou a suspeita, pelo menos, de que o quotidiano é feito de rastos, de vestígios, de representações muito reais de fragmentos que não podemos dominar mas que importa tentar se nos ofereçam coerentes e organizando dess’arte um mundo habitável e inteligível. Sente-se nesta poesia, se bem a entendo, uma indisfarçável amargura pelo tempo perdido ou que não é dado alcançar-se mas, ao mesmo tempo, um fio de alegria - diria mesmo de esperança – cifrada na possibilidade de através das palavras se atingir uma reconciliação entre o ser humano e o universo que lhe caiu em sorte. É em consequência, nessa medida, uma poesia profundamente religiosa - não de religião revelada e sim de religação. No aspecto formal, diria discursivo, revela-se uma assunção de imagens através das frases que a configuram que, mais do que fotografias ou apontamentos visuais, são como que pequenos flashes ou iluminuras retiradas, corajosa e persistentemente, da vida breve a que o autor esteve ligado e que salvou dum desaparecimento inevitável, inscrito no seio da espécie ou, mesmo, perceptível na memória dos deuses simbólicos. [Nicolau Saião] ***
Vestígios são fragmentos. Restos de um corpo disperso pelo vento. Um corpo que escreve, que se escreve, que se deixa escrever. Como a pedra – suporte, agente, matéria de escrita – que a erosão vai desgastando, dispersando, esculpindo. Não nos esqueçamos: “Escrever é traçar linhas de fuga”, “Partir, evadir-se, é traçar uma linha. A linha de fuga é uma desterritorialização” (Deleuze & Parnet). Depois do caminho percorrido, ficam apenas vestígios, indícios: pequenos objectos (ou fragmentos de um objecto) deixados perante as esquinas do espaço, a pequeníssima imagem da face dos segundos, o enorme vazio deixado no tempo interior pela ausência, “resíduos de amargura / dolorosa presença”. Dos poemas de Gérard Calandre, escolho apenas dois, ou talvez três: aqueles que se fixam no olhar e na memória, como pontos luminosos, como utensílios cuja surpreendente presença perante a vista nos faz entender a inquietante voz da incerteza. “Flagstaff”, espaço e geografia do mistério, linha de sentido a meio caminho entre a música e a “obra dos tempos”. A obra como mistério, o mistério como palavra; a palavra como segredo; o mistério fotografado na voz, residente na construção do tempo. Tudo elementos que, pelo caminho, nos vão abrindo a porta. A porta que “esconde, mostra retoma”. É o mistério que nos constrói e, logo de seguida, nos desfaz, integrando, dentro das nossas estruturas, a dor, os limites do segredo, “Uma parede ao longe / branca e preta, preta // e branca”. A voz que se cala, porque só no silêncio, incorporando o indizível, revelará o seu corpo profundo, inteiro.
A memória inscrita no texto, de que restam apenas “vestígios” que ele resguarda, é, como o corpo e o ser, uma memória em dissolução. Ligada ao espaço, muito mais do que ao tempo, desaparece, transforma-se em “linguagem secreta”, como no poema “Jitterbug”: “Perdi uma das casas / da minha infância”. O próprio texto, na elipse de algumas frases, reflecte o espaço interior deixado incompleto com a substituição: “Pombos por sobre as árvores / onde é agora um hipermercado”. A memória é inseparável da sua dimensão de morte, de imagem longínqua; luta contra o indistinto, substantiva o espaço e o ser, individualiza; partilha, no entanto, da dimensão flutuante dos fragmentos – “A mãe […] ausentou-se / […] / e a sua memória flutua” –, é ela própria uma reunião caótica de fragmentos, de vestígios.
VESTÍGIOS
Na Rua do Touro, ao pé das escadinhas que antecedem a grande descida da praça do Tribunal entrei por uns minutos no livreiro-antiquário Às vezes vejo-me ali como que em séculos passados Palaciano se calhar aproximo-me com a boca aberta Restos de sono vontade louca de ler comichão E diz-me o proprietário nos seus tempos um belo compincha E ao dizer-me, não vou repeti-lo, mostra-me uma folha de papel não de árvore verbena teixo das Índias eucalipto Era um manuscrito de Manzonni Só deus sabe como lhe teria ido parar às mãos A letra muito firme as ideias límpidas um ar de quem lavava as mãos simpaticamente depois de obrar Tudo se conjuga Tudo se irmana mesmo em casos particulares linhas interseccionando-se quebradas abatidas de rostos de passos que se perderam de motivos Uma escrita articulada entre si e rigorosa obedecendo bem a leis exactas e ao eventual aparo
Pouco depois no Café olho algumas folhas onde tracei afirmações, ou dúvidas, ou restos de música retórica piolhenta perdão um solfejo de palavras que afinal me dizem muito letra mal acabada que pena um pouco rasca emendas riscos agudos e graves e o papel amarfanhado
Por vezes seremos obrigados a escrever dissonâncias mas faz favor não tenho o jeito dos séculos o amplexo mesmo a lisura e isso me custa Neste debate gramatical a que eu mesmo presido.
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Ruy Ventura (Portugal, 1973). Poeta e ensaísta. Autor de Arquitectura do silêncio (2000), Sete capítulos do mundo (2003) e O lugar, a imagem (2006). Contato: ventura.1973@gmail.com. A tradução do poema é de Nicolau Saião, que também redigiu a nota introdutória. Página ilustrada com obras do artista Siegbert Franklin (Brasil). |
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