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revista de cultura # 58 |
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Friedrich Hölderlin ou a reconciliação dos contrários Luís Costa
Was bleibet aber, stiften die Dichter Hölderlin
Hölderlin poderá ser assim considerado um dos pioneiros da modernidade. Como vamos poder ver, a sua poesia é também uma poesia da vidência. Vidência essa que mais tarde se virá a realizar, plenamente, na obra poética de Arthur Rimbaud. Na poesia de Hölderlin podemos encontrar traços umas vezes de influência romântica outras de influência clássica grega. Por isso a obra de Hölderlin (bem como Kleist, este dramaturgo e contista e também Jean Paul, romancista) tem um “sonderstatus” na história da literatura alemã, dado que não consegue ser integrada nem no estilo Romântico nem no Clássico de Weimar, então em voga. Talvez tenha sido precisamente devido a este “sonderstatus”, ou seja, à impossibilidade por parte dos literatos especializados de a conseguirem integrar dentro de um dado estilo, que a poesia de Hölderlin tenha permanecido, dentro do panorama da poesia alemã, durante anos e anos, praticamente marginalizada e até esquecida. Para além de Friedrich Nietzsche, que o chamava o seu liebling Dichter, poucos ou nenhuns lhe reconheceram o seu valor poético. Só mais tarde, já em pleno século XX, a poesia de Hölderlin recebe o reconhecimento que lhe é mercido. Hoje, Hölderlin é considerado, por todos, ou pelo menos pela maior parte, como um dos poetas maiores da poesia universal.
A poesia de Hölderlin vai desde o extremo mais apolíneo do ser até ao extremo mais dionisíaco. Umas vezes fala-nos o homem racional, o homem da medida, o homem consciente dos seus limites, sóbrio; outra vezes fala-nos o próprio Diónisos, a energia brutal, o lado sombrio da existência, a transcendência de todos os limites humanos, o Wanderer que não tem receio de olhar para as profundezas dos seus próprios precipícios, que está pronto para se atirar nos braços do Etna tal como o terá feito Empédocles. E isto acontece, a maior parte das vezes, dentro do mesmo poema. Num dos muitos poemas em que se pode constatar isto é o caso da ode, “Natur und Kunst oder Saturn und Jupiter” (Natureza e Arte ou Saturno e Júpiter), que aqui transcrevemos na integra: Tu governas sobre o dia e a tua lei floresce! Tu seguras a balança, oh filho de Saturno! E repartes os destinos e descansas, alegre, Na glória da imortal arte de reinar.
Porém, os cantores dizem, para si, que outrora Desterraste o santo pai, o teu próprio pai, para O fundo do precipício, e lá em baixo, lá, onde Reconheces todos os direitos aos selvagens,
O deus da idade do ouro lamenta-se, há tanto tempo: Outrora, quando ainda não proferia mandamentos, Nem nenhum dos mortais o tratava por nome, Ele era, sem qualquer esforço, tão poderoso como tu.
Para baixo então! Ou não te envergonhes de agradecer! Se queres ficar, serve o ancião, e concede-lhe, de boa Vontade, que seja nomeado pelos cantores Diante de deuses e homens!
Abre os olhos! Pois assim como o teu relâmpago Vem das nuvens, também dele vem tudo quanto é teu. E assim testemunha perante ele tudo quanto lhe roubaste, E que da paz de Saturno todo o poder cresceu.
E tenha eu no coração um sensação viva E escureça tudo quanto tu moldaste E que o tempo de mudança haja adormecido, Para meu belo prazer, no berço dela:
Então reconheço-te, filho de Cronos! Então escuto-te, Sábio mestre, que tal como nós, filho do tempo, Decretas leis, e , ao mesmo tempo, anuncias O que o santo crepúsculo esconde. (2)
É que Hölderlin procurou, por meio de uma filosofia dialéctica tríadica (des dialektischen Dreischritts): Tese, antítese e síntese, encontrar a unidade entre os contrários. No caso do poema atrás citado, há a tentativa de se conjugar as duas forças inerentes ao homem: o ímpeto inicial, a força bruta, a unidade natural, o momento uterino, a idade do ouro simbolizada por Saturno (natureza); e a medida, a consciência individual, o racionalismo, a divisão e as leis, simbolizadas por Júpiter (Arte). Só por meio da reconciliação entre estas duas forças, o homem se poderá, realmente, encontrar consigo mesmo. Hölderlin exige a Jupiter que reconheça as suas origens. Pois tudo quanto este possui lhe advém de seu pai, Cronos. E para que o homem consiga viver em harmonia, é necessário que Júpiter liberte Cronos do seu exílio. Ou seja, é necessário que o racionalismo e o espiritualismo se deêm as mãos, é necessário que a arte e a natureza se reconciliem, é necessário que haja um equilíbrio entre o ser e o ter, que o eu e o outro se reconheçam como duas partes da mesma moeda. Só assim o “sanfter Schlumer” pode penetrar no coração dos homens, unindo tudo aquilo quanto estava cindido. Numa carta dirigida a Friedrich Niethammer, na altura professor de Filosofia e Teologia, em Jena, Hölderlin escreve, a 24.02.1756, que se encontra à procura de um princípio estético capaz de “esclarecer a divisão em que nos pensamos e existimos, mas que seja, ao mesmo tempo, capaz de fazer desaparecer a contradição existente entre sujeito e objecto, entre nós mesmos e o mundo e, igualmente, entre a razão e a revelação”. (3) Hölderlin vê que a “substância” (Stoff) do mundo vivo ou da matéria de que o homem se apercebe e o desejo do espírito idealista se encontram em oposição. Entre estes dois mundos existe ou parece existir uma ruptura intransponível.
O poema “A canção de Hyperion”, que passamos a transcrever, é um perfeito exemplo daquilo que acabamos de afirmar. Repare-se na cisão lancinante que se opera entre as duas primeiras estrofes e a última. Cisão essa introduzida pela conjunção porém. Na primeira e na segunda estrofes o poeta apresenta-nos o mundo divino. Os santos génios caminham lá por cima, felizes, pois os deuses etéreos tocam-nos levemente. Aqui, neste mundo divino, tudo é luz, paz e harmonia, tudo é eterna claridade; aqui ainda não existe o principium individuacionis, tudo é um e um é todos. Repare-se também na linguagem; repare-se como ela flui ao longo destes versos serena e segura de si mesma. A partir da terceira estrofe, porém, ela torna-se dissonante e insegura. Agora deparemos com o mundo terrestre. Neste mundo, por sua vez, reina a desarmonia e a dissonância. O homem perdeu todo o contacto consigo mesmo e assim com o uno fundamental, ou seja, o mundo divino. Agora ele descobre-se um estranho num mundo estranho, entregue, tal qual um Édipo, às garras do destino; agora ele vê-se condenado a errar pelo mundo fora, “ao acaso de uma hora para a outra/ como a água atirada de recife para recife”. Pois a existência perdeu todo o seu carácter sacral e assim, igualmente, todo o seu sentido. A rotura entre o mundo dos homens e o mundo divino, é total: Oh santos génios! Vós caminhais, lá por cima, em luz, sobre terra suave. Brilhantes deuses etéreos Tocam-vos levemente, Qual os dedos da artista nas cordas santas
Sem destino, como a criança Adormecida, os anjos respiram; Castamente guardado Em discretos botões, O espírito floresce-lhes, Eterno, E os santos olhos Vêem em silenciosa E eterna claridade.
Nós, porém, fomos condenados a errar, Sem descanso, p’la terra fora. Ao acaso, de uma Hora para a outra, Os homens sofredores Somem-se e caiem, Como a água atirada de Recife para recife, Ano após ano, na incerteza. (4)
(Há que dizer que hölderlin acabou por evoluir para essa trindade que me atrevo a chamar de quântica poética. Pode dizer-se que os últimos 36 anos da sua vida foram vividos sob o signo dessa quântica poética. Durante esses anos, o poeta, enlouquecido, ou antes, membro de uma comunidade superior, passa os dias na sua torre de Jena, junto ao Neckar, em plena osmose com deus, com os homens e com a natureza.) Para Hölderlin a poesia é uma verdadeira religião, a religião por excelência, religião primeira, sem quaisquer género de dogmas. Para ela todos os homens são homens, ou seja, fazem parte da unidade do princípio divino e cósmico. A poesia é de facto a única disciplina que, como Força estética, (Ästhetische Kraft) consegue sobreviver a todas artes e ciências - é o seu substrato (musical), indestrutível ou imortal. Deste modo, ela é capaz de encontrar o ponto de fusão, ou diga-se, a harmonia da unidade original entre Deus e o homem. Por isso Hölderlin vê o poeta como um xamane, profeta e visionário, capaz de falar com o outro lado da realidade, capaz de realizar a santa síntese entre a consciência individual e o uno cósmico ou universal. Na poesia de Hölderlin já se nos revela aquele lado da palavra, sobretudo nos seus poemas a partir de 1806, que vamos encontrar mais tarde num Rimbaud e num Baudelaire, que alude sem se desmascarar, ou seja, que é determinada pelas suas propriedades expressivas e sonoras, e que por isso exalta no leitor sensações desconhecidas, sensações que ultrapassam as fronteiras da compreensão inteligível do poema, sensações que poderemos nomear de musicais. Pois elas brotam das regiões mais recônditas do homem, são como Schopenhauer nos diz acerca da música, a própria vontade tornando-se mundo. Mas se essas sensações têm a sua origem na música e a música é a expressão da própria vontade, como nos diz Schopenhauer, então, perguntará agora o leitor, e com razão: Não é a vontade exactamente o contrário ou o inverso do sentimento estético (arte) que é puramente comtemplativo e destituído de vontade? Então se é assim e se Hölderlin é considerado um verdadeiro artista, como é que se pode dizer que a sua poesia (como a de todos os poetas líricos) tenha as suas origens e raízes na música? Quanto a isto diz-nos Nietzsche o seguinte: (O poeta lírico) “quando interpreta a música por meio das suas imagens, já ele se tranquiliza no mar calmo da contemplação apolínia, por maiores que sejam a tempestade e a agitação do que ele sinta por intermédio da música”. (5) e mais à frente “tal é o fenómeno do poeta lírico: como génio apolíneo, interpreta a música pela imagem da vontade, enquanto ele próprio, inteiramente liberto da apetência de vontade , não é mais do que o puro olhar contemplativo, imperturbável e radiante como o olhar do sol”. (6) Ora, como vemos, o poeta lírico funciona como um medium, liberto de toda e qualquer vontade e por isso é um verdadeiro artista; por meio dele, dá-se uma osmose total entre o eu e o outro, entre a terra e o céu, entre as alturas e os precipícios, entre a natureza e o homem, ou seja, o homem retorna à sua condição primordial, liberto dos jugo de uma cultura que o artificializa e falsifica. Assim, a poesia de Hölderlin, como um todo, realiza já aquilo a que toda a poesia moderna aspira: o retorno à idade do ouro, a purificação do homem e a abolição de todas as dualidades. Ela é sobretudo palavra-palavra, palavra-chave, palavra redentora, eixo ou axioma capaz de unificar o céu e terra, a noite e o dia. Nela realiza-se o retorno ao verbo original, ela é ritmo, côr e vibração que despertam no coração dos homens todas aquelas sensações adormecidas, ou seja, o seu verdadeiro ser.
(O poeta funciona aqui como o grande evocador, o elo purificador entre o ser e a consciência individual, ou como já também atrás tivemos ocasião de dizer - o Priester.) - Nela Deus e o homem repõem a sagrada aliança: o barro faz- se carne, o verbo faz-se luz; nela Diónisos e Apolo cantam em uníssono, lado a lado, verdadeiros irmãos, purificando, tal como acontece na Tragédia Grega, ou no momento da comunhão cristã, a alma do homem.
NOTAS 1. “O que fica, porém, é doado pelos poetas”, in: Andenken, Friedrich Hölderlin, Gedichte, Reihe Reclam, Philipp Reclam jun., Germany 2000. 2. In: Friedrich Hölderlin, Sämtliche Werke und Briefe, hrsg. Von Günter Mieth, 2 Bde., München (4. Aufl.) 1982. 3. In: Friedrich Hölderlin, Gedichte, Reihe Reclam, Philipp Reclam jun., Germany 2000. 4. In: Ibidem. 5. In: Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia. Guimarães & C.a, Editores 3.a Edição, 1982. 6. In: Ibidem. |
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Luís Costa (Portugal, 1964). Poeta e ensaísta. Inédito em livro. Contacto: l.costa@web.de. Página ilustrada com obras do artista Siegbert Franklin (Brasil). |
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