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revista de cultura # 60 |
discos da agulha
Contínua
No
O
Da
Certamente,
Simplesmente [Érico Baymma]
Dona de uma voz bela e suave, a cantora e também atriz, Thalma de Freitas, esbanja talento de sobra por aqui. Nesse, que é o seu primeiro disco solo, a artista flerta acertadamente com o samba e outros gêneros. Nascida em berço musical, Thalma, que desde os 17 anos fazia shows em barzinhos, se mostra uma intérprete muito bem firmada em sua musicalidade. Com um repertório diferenciado e mesclando uma linha que vai do clássico ao contemporâneo, a cantora passeia por compositores como Jacob do Bandolim (Doce de coco) e Kassin (Tranqüilo). Faixas como Cordeiro de Nanã, O Samba Taí e Beija-me abrilhantam ainda mais a grande interpretação da artista. Thalma e sua preciosa voz também fazem parte da Orquestra Imperial, grupo formado por integrantes de peso da nossa cena musical. Revelando muito bem os caminhos que pretendia alcançar, a própria cantora assina a direção artística do seu trabalho, além de ter escolhido sozinha todas as canções do disco. O álbum se traduz numa mistura de bom gosto e sensibilidade, equilibrando, na medida certa, o clássico e o moderno da MPB. [Fabrício Brandão]
O disco de estréia desse pernambucano de Caruaru revela uma outra forma de se trabalhar o samba, acoplando elementos diversos, dentre eles, batidas de candomblé, rock, bossa nova, soul, maracatu e outros, além de alguns suaves percursos eletrônicos que emprestam vigor ao seu trabalho. Junio Barreto opta por letras que se despem de maiores rigores, tratando de temas cotidianos revelados em gestos simples e populares. A faixa Qualé Mago é de cara uma das presenças fortes desse disco. Uma vibrante percussão incrementa os arranjos de Se vê que vai cair deita de vez, banhada ao ritmo do candomblé. Outro momento destacado do álbum é a instrumental Passeio, com uma pegada bossanovista precisa. Ao contrário de alguns discos que estão por aí afora, Junio Barreto consegue preservar a raiz essencial desse tipo de música, o samba, utilizando-se dos recursos eletrônicos apenas como um equilibrado pano de fundo. Pelo visto, a estrada é longa para o artista, que já tem sido reconhecido por nomes importantes de nossa MPB. [Fabrício Brandão]
O azul que reflete temáticas sublimes e cheias de vida ganha corpo e invade os sentidos de quem descansa nas paragens sonoras conduzidas pelo trabalho dessa pernambucana. Azul Claro, carro-chefe do primeiro disco solo de Isaar, espalha seus matizes em torno de um sentimento que parece querer abraçar um mundo de coisas ao redor, reinventando uma atmosfera na qual traços simples da vida ganham corpo. Num disco cujos arranjos captam os mais diversos ritmos populares, dentre eles o coco e o maracatu, a cantora faz uso de letras que estabelecem estreitas relações com elementos do imaginário nordestino. Canções como Borboleta Amarelinha e Flor de Capim exalam uma perfeita mistura entre a singularidade regional e os sentimentos pertencentes a todos nós. Em Ciranda da Madrugada vemos a beleza de um coro de cantiga encerrando os signos da canção. Além de ter integrado a banda Comadre Fulozinha, com a qual gravou dois discos, Isaar guarda em sua carreira parcerias com Antonio Nóbrega, Mundo Livre S/A e Dj Dolores. Azul Claro é um disco em que os sons não são apenas meramente audíveis, pois estes conseguem sugerir imagens, plásticas próprias e outras tantas capazes de serem inventadas pelo nosso universo pessoal de signos. [Fabrício Brandão]
O CD Arranca-Toco é resultado do encontro de quatro dos maiores instrumentistas brasileiros da atualidade: Jorginho do Pandeiro, Mauricio Carrilho, Nailor Azevedo (Proveta) e Pedro Amorim. Jorginho Silva, mais conhecido como Jorginho do Pandeiro, é um dos grandes mestres brasileiros do instrumento. Integra o legendário Conjunto Época de Ouro criado por Jacob do Bandolim, e atua há mais de 40 anos com os maiores artistas da música brasileira. Mauricio Carrilho vem de família de chorões (é sobrinho de Altamiro e filho de Alvaro) e desde os doze anos faz história na música popular brasileira. Violonista dos mais requisitados, destaca-se também por seu trabalho de arranjador e compositor. Nailor Azevedo (Proveta) é um dos principais instrumentistas brasileiros de sopro da atualidade. Músico de rara versatilidade, toca além do clarinete, os saxofones soprano, alto e tenor. Desde 1991 está à frente, como regente e diretor musical, da Banda Mantiqueira, indicada para o Grammy de 1999. Pedro Amorim, multi-instrumentista (bandolim, violão-tenor, cavaquinho, banjo, violão e pandeiro) e compositor, é um dos grandes intérpretes de choro do nosso tempo. Domina como poucos esta linguagem e é um dos mais importantes continuadores do trabalho dos mestres Joel, Jacob, Luperce Miranda e Garoto. Neste CD, além de belas interpretações, estão registrados deliciosos momentos de improvisação da mais rica e genuína música instrumental do Brasil, o choro.
Nasci em Melbourne, na Austrália, bem longe do centro da atividade do choro, o Rio de Janeiro, e portanto é surpreendente para mim, como para qualquer outra pessoa, que eu tenha gravado um disco de choro no Rio, e que também o tenha feito com tantos mestres e guardiães dessa rica tradição. Como nasci nos anos 60, pertenço à geração dos baby-boomers cuja trilha sonora era o rock. Naquele tempo, me apaixonei pelo violão, e pouco mais tarde senti a necessidade de ir mais a fundo. Foi então que descobri o jazz e o blues, e vim a conhecer a música de um compositor que para mim tinha um nome intrigante: Baden Powell. Algo em sua música revelava uma conexão bastante profunda com esta rica tradição, o choro, que é, ainda hoje, fonte vital de inspiração musical. Isso foi para mim um longo processo de descoberta. Nos anos 80 fiz amizade com um fabuloso percusionista, Denis Close, que havia passado um tempo no Brasil e queria formar um grupo chamado Pipoca para tocar e desenvolver um repertório de choro. Tudo começava a fazer sentido: Baden havia construído seu estilo extraordinário de música para o violão inspirado por este vasto repertório, então eu tinha que pesquisar muito mais. Pouco a pouco, fui descobrindo mais artistas como Rafael Rabello, Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim e gravações raras de Pixinguinha e Garoto. Foi então que me dei conta que deveria viajar ao Brasil para ter um conhecimento verdadeiramente mais profundo. Como não conhecia ninguém no Rio, precisava me engajar com a cultura e a língua, além, é claro, de estudar português, e foi assim que tudo deu certo. Eu estava escutando o disco O Trio, com o Mauricio Carrilho, e comecei a perceber que ele estava em todos os lugares onde o choro estava, da Camerata Carioca ao disco de O Trio e Teca Calazans, ou a homenagem aos grandes sambistas O Samba dos Bambas. Eu ainda estava para perceber como era fundamental o vínculo de Mauricio com a tradição de Meira (que também foi professor de Baden e do Rafael) e que ali, na minha frente, estava um músico genial, de carne e osso, que havia transportado o choro para o século 21. Mauricio mostra uma grande sensibilidade, humor e humanidade na sua música e em sua relação com as pessoas. Além disso, a sua habilidade musical revela o mestre de verdade: humilde e inteligente. Apesar das dificuldades da língua, em pouco tempo desenvolvemos uma afinidade, falando sobre muitas coisas além da música, incluindo a fascinação dele pelo tigre da Tasmânia, agora extinto. Ele me encorajou e me mostrou que apesar de eu ter feito uma longa viagem, tinha valido a pena. Nunca vou esquecer daquele momento, o meu primeiro dia no estúdio, quando ouvi a combinação de Mauricio no violão, Luciana no cavaquinho e Celsinho no pandeiro saindo pelos microfones! Fiquei tão alegre e emocionado que tive que me conter para não perder o enfoque. Mas me senti muito bem, como se estivesse em casa e ao redor de amigos de muitos anos. É uma honra poder trabalhar com esses grandes músicos neste CD: Proveta, Paulo Aragão, Pedro Amorim, Jorginho do Pandeiro e Naomi Kumamoto. Fico grato pela hospitalidade e carinho dos amigos no Brasil: Yamandú Costa, Zé Paulo Becker, Edson Sete Cordas, Luiz e Suzanna em Salvador, Peter e Susan Heyward em Brasília, Rafael Velloso, Rui Alvim, Alfredo do Bip Bip, a família Carrilho, e todas as pessoas que encontrei nas rodas de choro, permitindo que eu compartilhasse desse intercâmbio social que é a essência do choro, a todos vocês um abraço. Também fico especialmente grato pelo amor e apoio de minha filha, Amanda, e pelo amor de minha companheira de vida, Diana, mil beijos. [Doug de Vries]
Em seu mergulho profundo no universo do choro, Mauricio Carrilho busca, a cada novo trabalho, um caminho diferente. Os pontos de partida (os fundamentos da música brasileira) e de chegada (um resultado original e moderno) são os mesmos, mas os atalhos e desvios para ir de um a outro são, felizmente, múltiplos. Em 2005, quando compôs uma música por dia, em todos os dias do ano (o “Anuário do Choro”), Carrilho exercitou ao máximo a arte de desbravar caminhos. Deste trabalho nasceram séries menores, como as fantásticas “Moacirsantosianas” ou o conjunto de obras dedicadas aos times de futebol da cidade do Rio, que extrapola os conceitos de primeira e segunda divisão e presta belas homenagens como “São Cristóvão”, “Madureira” e “Canto do Rio”. Quando escreveu a “Suíte para Violão 7 Cordas e Orquestra”, Mauricio levou o choro a outras fronteiras, a outros palcos e outros públicos. Esta peça de concerto, que será apresentada pela OSB em 28 de abril (dois dias depois do 50º aniversário do compositor) tendo Yamandú Costa como solista, já foi tocada por outras grandes orquestras brasileiras, como a Osesp e a Petrobras Pro-Música, e até mesmo pela Orchestre National de France, em Paris, sob a regência de Kurt Masur, em março de 2007. Agora, quando lança um disco inteiro só de composições em compassos ímpares, ele mostra que não há limites para seu impulso criativo. E mostra também por que o choro, para além de um gênero musical, é também uma linguagem, e, como tal, passível de muitos dialetos. A música em compasso ímpar não é algo inédito. Os tratados musicais normalmente a citam no capítulo das curiosidades e exceções. Alguns compositores da tradição clássica se arriscaram em aventuras rítmicas ímpares. Na Venezuela e na Colômbia as formas e os compassos “quebrados” são freqüentes no repertório popular. Mesmo no ambiente do choro, não é propriamente uma novidade. Radamés Gnattali fez uso de ritmos quinários, e Cristóvão Bastos, com o choro ternário “Os Três Chorões”, acendeu a centelha da inspiração para este disco. E no entanto esta é a primeira vez que um compositor brasileiro se dedica a realizar um trabalho de fôlego como este. Mas cuidado ao tentar fazer isto em casa. Porque é preciso vivenciar muito o 2/4 característico do choro para poder transformá-lo em 5/4, 7/8 ou 11/8. Sabendo disso, Mauricio Carrilho escalou um elenco “sem par” para acompanhá-lo neste desafio. Luciana Rabello e Pedro Amorim, companheiros de tão longa data que são capazes de tocar choro até em 1/4, se Mauricio inventar de fazer. Rui Alvim, Pedro Paes e Marcelo Bernardes, os sopros do Sexteto Mauricio Carrilho, que já conhecem bem todas as entradas e saídas dos labirintos do choro. O conjunto assustador de feras formado por Cristóvão Bastos, Nailor Proveta, Arismar do Espírito Santo e Toninho Carrasqueira, sobre o qual não é preciso dizer nada, apenas ouvir. Naomi Kumamoto, a samurai do choro, que para nossa sorte corrigiu a tempo o equívoco do destino, que a fez nascer do outro lado do mundo. As percussões de Paulino e Thiaguinho, precisos no toque de guerra em 11/8. E a grata novidade de Marcus Thadeu dos Santos, o Thadeuzinho, saído da pequena cidade de Cordeiro para o mundo, formado pela Escola Portátil de Música, instituição que tem Mauricio Carrilho entre seus fundadores e coordenadores. “Choro Ímpar” pode parecer, à primeira vista, uma espécie de desafio, uma prova de virtuosismo na arte de compor. Nada mais falso. Acima da proposta ousada, está a música. Aqui, esses números primos, 3, 5, 7, 11, se tornam simples, dançantes como na polca “Maluquinha”, ancestrais como no “Afrochoro”, familiares como em “Saudosa”. Desta vez a valsa é em 5 e o choro é em 3, e isso é absolutamente lógico e natural. Porque, claro, nem sempre dois e dois são quatro. parceiros da agulha nesta seção |
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