revista de cultura # 60
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2007






 

Leonilson: eis o meu coração

Jacob Klintowitz

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LeonilsonLeonilson é uma presença rara na arte brasileira. Ele deixou uma obra que parece de anotações, fragmentos, sempre com um forte acento na solidão, no sofrimento, no amor não correspondido, na identificação com a atividade feminina provinciana e periférica, com bordados, almofadas com fustão imitando seda, colcha de retalhos, tecidos pobres valorizados à mão e à ternura. Uma sensibilidade à toda prova, delicado, obsessivo no registro das pequenas coisas. Um diário minucioso de uma vida não heróica.

A sua presença física poderia nos levar ao entendimento de sua obra, pois tinha qualquer coisa de evanescente, de timidez, de introversão. Presente, sentíamos a sua ausência. Mas os olhos devoravam o mundo, o seu olhar era atento, perspicaz, direto e, vez por outra, nos comovia, pois se nublava de sombras. Assim eu o vi inúmeras vezes, macio, discreto, etéreo e paradoxal, ausente e atento simultaneamente. E envolto em véus, oculto em sombras fugazes; não sombrio, mas iluminado de melancolia.

Leonilson

Leonilson é um artista do mundo futuro, criando pequenos poemas esparsos. Sons orientais, recortados em silêncio, a tal ponto que não sabemos se a linguagem era feita de pressentimentos, eventualmente pontuada de materialidade, ou se a matéria se impregnava de pausas porque, entre o gesto e a concretude, se interpunha a energia do sentimento.

Como é comum na arte brasileira desde o advento da Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, o seu trabalho incorporava a literatura, com textos inscritos no suporte e com o título, como definição poética e conceitual, também fazendo parte da obra. Este é um procedimento que acompanha a obra de arte desde a metade do século vinte. No Brasil, a quantidade de artistas que trabalharam com o texto em sua obra, seja como mensagem, seja como valor gráfico, é imenso. Apenas para lembrar alguns, Antonio Dias, Rubens Gerchman, Waldemar Cordeiro, Ivald Granato, José Antonio da Silva, Artur Bispo do Rosário, Mira Schendel, Wesley Duke Lee, Ubirajara Ribeiro, Zorávia Bettiol, Cláudio Tozzi, Henrique Léo Fuhro, Gilberto Salvador, Antonio Manuel, Cildo Meireles, José Roberto Aguilar, Nélson Leirner, Mauricio Nougueira Lima, Artur Alípio Barrio, Hélio Oiticica, Lygia Pape.

LeonilsonQual a particularidade dos textos de Leonilson? Estes títulos e textos tinham o acento no caráter declaratório: o artista declara de que se trata, cita os artistas, os escritores, os amigos, enuncia a realidade dos homens. E declara o seu estado de espírito, a depressão, a solidão, a sensação da morte que se aproxima. Os textos não fazem juízo de valor e nem procuram a poética da palavra, mas compõem o universo no qual o seu autor vive. Estes textos também são um tecido, um envoltório, uma bolha inflada dentro da qual vive o autor. Ainda que não tenham qualidade poética em si mesmo e na sua articulação, os textos se constituem, por vezes, em valores gráficos e, principalmente, em comoventes depoimentos por manifestarem sem reservas a condição humana.

Títulos de obras, como uma balada autobiográfica: “Agora e as oportunidades”, “Águas divididas”, “Bad Boy”, “Fragile Soul”, “Cheio, Vazio”, “Converso no seio de Cristo”, “Da pouca paciência”, “O desejo é um lago azul”, “El desierto”, “O Dia do herói”, “O encontro em maio passado”, “Fertilidade, coerência, silêncio”, “Empty man”, “O gigante com flores”, “Os homens com as suas próprias atenções”, “O Ilha”, “Os inevitáveis”, “Léo não consegue mudar o mundo”, “O perigoso”, “Para quem comprou a realidade”, “Os rapazes, as poesias”, “Os rios por meu fluido entrego meu coração”, “São tantas as verdades”, “Sou seu homem”, “Voilá mon coeur”, “Você não escapa”, “Sua montanha interior protetora”, “O que você desejar, o que você quiser, eu estou aqui, pronto para servi-lo”.

Leonilson

Leonilson pertence a uma família espiritual cujos sinais pontuam a nossa época. À falta de um sistema ideológico crível, diante dos sucessivos desastres causados pelo domínio de doutrinas únicas, no rastro sangrento da história, a arte tem respondido seguidamente com uma linguagem feita de fragmentos. Juntássemos estas manifestações fragmentárias, talvez tivéssemos a narração de uma odisséia contemporânea. Ou, talvez, tivéssemos apenas um patchwork, colcha de retalhos. Uma imagem literária que possivelmente agradaria ao artista Leonilson.

No Brasil, Ismael Nery, que parece tão distante dele, também é um artista de anotações. Os dois morreram cedo e não podemos saber se as anotações se transformariam em imensos murais ou se, ao contrário, o mural seria apenas o espaço no qual se depositariam estes breves testemunhos visuais e no qual caberia a nós descobrir o sentido último destas emanações do sentimento.

O outro extremo da expressão feita de fragmentos é o ícone Arthur Bispo do Rosário, um xamã enlouquecido que, à falta de outra coisa, teceu a si mesmo, inventando rituais e entradas nos portais do céu, do inferno e da natureza humana. Provavelmente em nenhum deles ele penetrou, mas entrou em si mesmo, o que pode ser a mesma coisa. No caso de Artur Bispo do Rosário, os seus fragmentos almejavam uma concepção holística da natureza espiritual e da correspondência humana ao reino do espírito.

LeonilsonMuitos artistas que trabalharam a partir de relações específicas, fragmentárias, por vezes ouvindo um som distante dificilmente traduzível em linguagem visual, terminaram por construir uma sólida personalidade artística. Armando Reverón, o excêntrico pintor venezuelano, construiu uma extraordinária obra a partir de percepções da luz, uma luz única e diáfana, curiosamente aliada a uma clara aversão ao social e a um sarcástico comentário da vida comunitária. As suas fotografias jantando num barraco, servido por macacos vestidos de fraque, são antológicas. O seu sarcasmo ainda fará época como comentário e charge, mas as pinturas que deixou fazem parte do que de melhor produziu o século vinte. Paul Klee, atento aos signos e impregnado de música, terminou por construir uma obra que é profética dos novos tempos. A sua famosa frase, a de que queria ser o selvagem da nova era, se realizou inteiramente. O russo Casimir Malevich, ao contrário, partiu de uma concepção estruturada da forma, para concluir em uma expressão de alta transcendência, onde justamente desaparecia a forma conhecida. Em carta, Malevich afirma que o contestam por achar que ele conduziu a arte ao nada, mas esse nada, diz ele, está impregnado do sentimento da ausência do objeto. O próprio Marcel Duchamp, do cubismo às boutades nas quais ironiza o circuito de arte, terminou por dedicar oito anos à confecção de uma obra, “Le Grand Vérre”, na qual utiliza como motivo essencial fragmentos de sua memória afetiva. É o espírito desta obra a expressão de uma tendência de nossa época.

Em Leonilson, estes traços de fragmentação e desintegração e ausência de estrutura de identidade, esta busca desesperada de dar realidade à vida prosaica, a noção de que o cotidiano é histórico em oposição à noção de que a história é feita de epopéias, torna o seu trabalho exemplar de um período histórico. Aqui não se trata de exaltar o sofrimento e a vida breve, mas de apreender esta poética manifestação como uma referência artística e um sinal da linguagem da nossa época, um momento de transição.

Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Atualmente dirige o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonilson (Brasil).

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