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revista de cultura # 60 |
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Leonilson: eis o meu coração Jacob Klintowitz
A sua presença física poderia nos levar ao entendimento de sua obra, pois tinha qualquer coisa de evanescente, de timidez, de introversão. Presente, sentíamos a sua ausência. Mas os olhos devoravam o mundo, o seu olhar era atento, perspicaz, direto e, vez por outra, nos comovia, pois se nublava de sombras. Assim eu o vi inúmeras vezes, macio, discreto, etéreo e paradoxal, ausente e atento simultaneamente. E envolto em véus, oculto em sombras fugazes; não sombrio, mas iluminado de melancolia.
Leonilson é um artista do mundo futuro, criando pequenos poemas esparsos. Sons orientais, recortados em silêncio, a tal ponto que não sabemos se a linguagem era feita de pressentimentos, eventualmente pontuada de materialidade, ou se a matéria se impregnava de pausas porque, entre o gesto e a concretude, se interpunha a energia do sentimento. Como é comum na arte brasileira desde o advento da Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, o seu trabalho incorporava a literatura, com textos inscritos no suporte e com o título, como definição poética e conceitual, também fazendo parte da obra. Este é um procedimento que acompanha a obra de arte desde a metade do século vinte. No Brasil, a quantidade de artistas que trabalharam com o texto em sua obra, seja como mensagem, seja como valor gráfico, é imenso. Apenas para lembrar alguns, Antonio Dias, Rubens Gerchman, Waldemar Cordeiro, Ivald Granato, José Antonio da Silva, Artur Bispo do Rosário, Mira Schendel, Wesley Duke Lee, Ubirajara Ribeiro, Zorávia Bettiol, Cláudio Tozzi, Henrique Léo Fuhro, Gilberto Salvador, Antonio Manuel, Cildo Meireles, José Roberto Aguilar, Nélson Leirner, Mauricio Nougueira Lima, Artur Alípio Barrio, Hélio Oiticica, Lygia Pape.
Títulos de obras, como uma balada autobiográfica: “Agora e as oportunidades”, “Águas divididas”, “Bad Boy”, “Fragile Soul”, “Cheio, Vazio”, “Converso no seio de Cristo”, “Da pouca paciência”, “O desejo é um lago azul”, “El desierto”, “O Dia do herói”, “O encontro em maio passado”, “Fertilidade, coerência, silêncio”, “Empty man”, “O gigante com flores”, “Os homens com as suas próprias atenções”, “O Ilha”, “Os inevitáveis”, “Léo não consegue mudar o mundo”, “O perigoso”, “Para quem comprou a realidade”, “Os rapazes, as poesias”, “Os rios por meu fluido entrego meu coração”, “São tantas as verdades”, “Sou seu homem”, “Voilá mon coeur”, “Você não escapa”, “Sua montanha interior protetora”, “O que você desejar, o que você quiser, eu estou aqui, pronto para servi-lo”.
Leonilson pertence a uma família espiritual cujos sinais pontuam a nossa época. À falta de um sistema ideológico crível, diante dos sucessivos desastres causados pelo domínio de doutrinas únicas, no rastro sangrento da história, a arte tem respondido seguidamente com uma linguagem feita de fragmentos. Juntássemos estas manifestações fragmentárias, talvez tivéssemos a narração de uma odisséia contemporânea. Ou, talvez, tivéssemos apenas um patchwork, colcha de retalhos. Uma imagem literária que possivelmente agradaria ao artista Leonilson. No Brasil, Ismael Nery, que parece tão distante dele, também é um artista de anotações. Os dois morreram cedo e não podemos saber se as anotações se transformariam em imensos murais ou se, ao contrário, o mural seria apenas o espaço no qual se depositariam estes breves testemunhos visuais e no qual caberia a nós descobrir o sentido último destas emanações do sentimento. O outro extremo da expressão feita de fragmentos é o ícone Arthur Bispo do Rosário, um xamã enlouquecido que, à falta de outra coisa, teceu a si mesmo, inventando rituais e entradas nos portais do céu, do inferno e da natureza humana. Provavelmente em nenhum deles ele penetrou, mas entrou em si mesmo, o que pode ser a mesma coisa. No caso de Artur Bispo do Rosário, os seus fragmentos almejavam uma concepção holística da natureza espiritual e da correspondência humana ao reino do espírito.
Em Leonilson, estes traços de fragmentação e desintegração e ausência de estrutura de identidade, esta busca desesperada de dar realidade à vida prosaica, a noção de que o cotidiano é histórico em oposição à noção de que a história é feita de epopéias, torna o seu trabalho exemplar de um período histórico. Aqui não se trata de exaltar o sofrimento e a vida breve, mas de apreender esta poética manifestação como uma referência artística e um sinal da linguagem da nossa época, um momento de transição. |
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Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Atualmente dirige o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonilson (Brasil). |
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