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Tradução e política cultural
na América Latina
Marta
Spagnuolo
Antes
de tudo, agradeço aos nossos amáveis anfitriões neste paraíso pernambucano,
em especial a poeta Lucila Nogueira que, com responsabilidade, entusiasmo e
carinho aqui nos reúne a todos.
Creio que todos os
presentes estarão de acordo em que o tradutor literário não é alguém que
“estude para tradutor”. Não é alguém que faz uma carreira de tradutorado,
para depois aplica-la à tradução de textos literários. O caminho que
percorre é o inverso. Primeiramente é um leitor, desde muito pequeno.
Depois, quase sem que se dê conta, começa a escrever e, com o tempo, vai se
convertendo em escritor (ao menos acredita nisto). Em algum momento de sua
aventura leitora – que, certamente incluiu livros de autores estrangeiros
traduzidos – encontrou-se, por exemplo, com metido com Narizinho e Pedrinho
na fazenda de Dona Benta, tratando desesperadamente de imaginar que gosto
teriam as famosas jabuticabas do Picapau Amarelo. Cresce um pouco e se
encontra com Brás Cubas ou com Dom Casmurro, e não há maneira de resignar-se
a perder o resto desse maravilhoso antigo testamento fluminense que, como o
outro, o assombrou por sua modernidade. Outro dia lhe cai à cabeça o raio de
uns versos de Drummond de Andrade e quer mais desse fulgor… Bem, chegado a
tal ponto, este leitor já sabe que está perdidamente apaixonado pela
literatura brasileira.
Imaginem vocês que o
leitor de lhe lhes falo é argentino – ou argentina, como eu. Que em seu país
há mais algumas outras traduções de autores brasileiros. Não são muitas nem
poucas. Sobretudo são esporádicas. Livros traduzidos no século XIX e a
maioria dos traduzidos no XX não foram jamais reeditados, de modo que há que
buscá-los com lupa em bibliotecas. Então essa leitora, que não suporta mais
ficar à margem de uma literatura magnífica, que está ocorrendo ali, tão
próximo, em um país limítrofe, arranja-se como pode para conseguir livros
publicados no Brasil e, diretamente, os lê em português; primeiramente mal,
com a ajuda de dicionários e gramáticas; em seguida, muito melhor; e
finalmente – considerando que a essa altura ela é também uma escritora (ao
menos crê nisto) – começa a traduzir os autores que mais lhe agradam, por
puro prazer. Porém chega outro momento em que tampouco se conforma com
traduzi-los para seu próprio gozo. Quer que este gozo seja compartilhado
pela maior quantidade de gente possível. E ali se encontra com o obstáculo
que todos conhecemos: a publicação de traduções é um assunto muito complexo,
que depende de uma quantidade de mediações, desde instituições e políticas
de Estado até o mercado e a política das editoras e subsídios… Encontra-se,
afinal, com uma questão de poder, mais ainda, de redes internacionais de
poder que, após anos de tentativas inúteis, compreende somente possível
atravessar se integrasse a equipe de tecelões que decidem o que se traduz.
Por isto é que me
considero com sorte por haver alcançado no tempo a presença da máquina de
escrever a Internet. Isto porque devo a abertura definitiva à literatura
brasileira à revista digital Agulha, que dirigem Claudio Willer e
Floriano Martins. E este, meu caso particular, é o que quero contar a vocês,
porque acredito que pode ser útil a este encontro.
Através da revista, eu
comecei a atualizar-me sobre literatura atual no Brasil e também a conhecer
importantíssimas obras do passado. E, entrando no Jornal de Poesia,
do Soares Feitosa, que acolhe em seu sítio a Agulha, comecei a
desfrutar da leitura de poetas brasileiros estupendos que jamais foram
traduzidos para o espanhol. Mas também me chamou a atenção que através de
uma publicação brasileira eu não somente descobrir novos autores brasileiros
como também hispano-americanos. Isto através de alguns textos da Agulha
e, em especial, da Banda Hispânica que criou Floriano Martins para o
Jornal de Poesia. Não quero ser injusta com ninguém. Porém, com
franqueza, não vi outra publicação de semelhante alcance em que se promova
de tal maneira a atividade de intercâmbio literário entre Brasil e mundo
hispano-americano.
Depois começou a me
chamar a atenção algo mais: os poemas de Floriano Martins. Desejava
traduzi-los. Decidi-me a escrever ao autor e pouco depois tínhamos
traduzidos já alguns poemas soltos e em série; os primeiros foram publicados
na rede. O trabalho se tornou tão apaixonante que passei a traduzir obras
integrais do poeta. Difíceis! Dificílimas para mim! Pois a poesia de
Floriano, sem deixar de ser comunicável, com entendo que deva ser a poesia,
alcança uma altura de elaboração estética da linguagem que faz suar o
tradutor mais corajoso. Porém eu contava com uma vantagem, com a qual podem
contar também todos os colegas hispano-americanos e brasileiros
contemporâneos: trabalhar em comunicação com o autor. A aprendizagem que
incorpora desse modo o tradutor é inestimável. E quanto ao resultado,
pareceria ser o melhor que se pode obter. Pois o poema traduzido já não é
produto individual do tradutor, que sempre recria à sua maneira o original,
mas sim de ambos.
Enquanto isto,
Floriano seguia avançando em sua carreira diplomática, ou seja, na de
embaixador individual pan-latino-americano, cada vez mais obstinado na
difusão da literatura da América Hispânica no Brasil e vice-versa. Assim,
não podia deixar de encontrar-se com outros obstinados como ele. No México,
por exemplo, está José Ángel Leyva (também aqui presente na
FLIPORTO,
juntamente com Floriano), com sua revista de poesia Alforja. E foi no
México onde a editora Alforja publicou, em 2006, minha primeira versão de um
livro de Floriano Martins, Tres estudios para un amor loco, com
prefácio do próprio Ángel Leyva. Pouco depois, na Venezuela, foi publicado
La noche impresa en tu piel, pelo selo editorial El Pez Soluble. E
agora mesmo, também na Venezuela, acaba de ser publicado o terceiro livro do
poeta em tradução minha, Teatro imposible, pela Fundación Editorial El Perro y la
Rana.
Pois bem, eu quero
muito o cearense da boina, que se converteu em um entranhável amigo, porém
isto aqui não é uma apologia de sua poesia nem de minhas traduções de sua
poesia. O que pretendo destacar não são as conquistas individuais de uma
relação literária. O que quero esclarecer, na maneira de um humilde exemplo,
é o resultado multiplicador desta comunicação entre uma tradutora argentina,
que trabalhava isoladamente, e um multi-relacionado promotor de traduções,
em corrente de ida e volta, que é o que necessitamos intensificar em nossa
América Latina. Este contato com uma pessoa cujo trabalho de difusão
literária entre Brasil e América Hispânica não depende de nenhuma política
de Estado, me permitiu somar-me aos tradutores de literatura brasileira para
o espanhol de uma maneira efetiva e cada vez mais abrangente. Graças aos
encargos feitos por Floriano para diferentes trabalhos antológicos com
destino ao mundo de fala hispânica, realizei uma considerável experiência de
tradução, em diferentes gêneros – poesia, narrativa, ensaio, entrevistas – e
tive a honra de traduzir alguns textos de grandes autores brasileiros
contemporâneos.
A moral da história –
nós que damos aulas por muitos anos somos insuportáveis, sempre acabamos
encontrando uma moral da história – é que se pode difundir a tradução fora
das regras geopolíticas de mercado. Todos os que experimentamos a escritura
literária em espanhol podemos ler literatura em português. O mesmo vale para
os brasileiros e relação ao espanhol. Este é um fato. Não há verdadeira
barreira lingüística entre duas línguas românicas, ao menos em se tratando
de leitura. Pois outro fato – cuja afirmação pode parecer herética em uma
escola de tradutores, porém não para o tradutor literário, que o sabe muito
bem – é que, para efeitos da tradução de um poema, de um texto de ficção
etc., não falar fluidamente a língua que se traduz é secundário para um
escritor-tradutor. Necessitamos somente conhecer um pouco mais nossas
literaturas, até que o apreço mútuo nos inspire a necessidade de fazer um
esforço por lê-las em sua língua original, e lançarmo-nos à empresa de
traduzir, ao menos um poema, ao menos um conto que nos tenha impressionado
muito, e difundi-lo pelo meio que tivermos ao alcance. Um mais um são dois,
e assim até o inumerável. Espero que esta FLIPORTO, precisamente destinada a
nos conhecermos e apreciarmo-nos, faça de nós uma multidão. |