revista de cultura # 60
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2007






 

Tradução e política cultural na América Latina

Marta Spagnuolo

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Marta SpagnuoloAntes de tudo, agradeço aos nossos amáveis anfitriões neste paraíso pernambucano, em especial a poeta Lucila Nogueira que, com responsabilidade, entusiasmo e carinho aqui nos reúne a todos.

Creio que todos os presentes estarão de acordo em que o tradutor literário não é alguém que “estude para tradutor”. Não é alguém que faz uma carreira de tradutorado, para depois aplica-la à tradução de textos literários. O caminho que percorre é o inverso. Primeiramente é um leitor, desde muito pequeno. Depois, quase sem que se dê conta, começa a escrever e, com o tempo, vai se convertendo em escritor (ao menos acredita nisto). Em algum momento de sua aventura leitora – que, certamente incluiu livros de autores estrangeiros traduzidos – encontrou-se, por exemplo, com metido com Narizinho e Pedrinho na fazenda de Dona Benta, tratando desesperadamente de imaginar que gosto teriam as famosas jabuticabas do Picapau Amarelo. Cresce um pouco e se encontra com Brás Cubas ou com Dom Casmurro, e não há maneira de resignar-se a perder o resto desse maravilhoso antigo testamento fluminense que, como o outro, o assombrou por sua modernidade. Outro dia lhe cai à cabeça o raio de uns versos de Drummond de Andrade e quer mais desse fulgor… Bem, chegado a tal ponto, este leitor já sabe que está perdidamente apaixonado pela literatura brasileira.

JulioImaginem vocês que o leitor de lhe lhes falo é argentino – ou argentina, como eu. Que em seu país há mais algumas outras traduções de autores brasileiros. Não são muitas nem poucas. Sobretudo são esporádicas. Livros traduzidos no século XIX e a maioria dos traduzidos no XX não foram jamais reeditados, de modo que há que buscá-los com lupa em bibliotecas. Então essa leitora, que não suporta mais ficar à margem de uma literatura magnífica, que está ocorrendo ali, tão próximo, em um país limítrofe, arranja-se como pode para conseguir livros publicados no Brasil e, diretamente, os lê em português; primeiramente mal, com a ajuda de dicionários e gramáticas; em seguida, muito melhor; e finalmente – considerando que a essa altura ela é também uma escritora (ao menos crê nisto) – começa a traduzir os autores que mais lhe agradam, por puro prazer. Porém chega outro momento em que tampouco se conforma com traduzi-los para seu próprio gozo. Quer que este gozo seja compartilhado pela maior quantidade de gente possível. E ali se encontra com o obstáculo que todos conhecemos: a publicação de traduções é um assunto muito complexo, que depende de uma quantidade de mediações, desde instituições e políticas de Estado até o mercado e a política das editoras e subsídios… Encontra-se, afinal, com uma questão de poder, mais ainda, de redes internacionais de poder que, após anos de tentativas inúteis, compreende somente possível atravessar se integrasse a equipe de tecelões que decidem o que se traduz.

Por isto é que me considero com sorte por haver alcançado no tempo a presença da máquina de escrever a Internet. Isto porque devo a abertura definitiva à literatura brasileira à revista digital Agulha, que dirigem Claudio Willer e Floriano Martins. E este, meu caso particular, é o que quero contar a vocês, porque acredito que pode ser útil a este encontro.

JulioAtravés da revista, eu comecei a atualizar-me sobre literatura atual no Brasil e também a conhecer importantíssimas obras do passado. E, entrando no Jornal de Poesia, do Soares Feitosa, que acolhe em seu sítio a Agulha, comecei a desfrutar da leitura de poetas brasileiros estupendos que jamais foram traduzidos para o espanhol. Mas também me chamou a atenção que através de uma publicação brasileira eu não somente descobrir novos autores brasileiros como também hispano-americanos. Isto através de alguns textos da Agulha e, em especial, da Banda Hispânica que criou Floriano Martins para o Jornal de Poesia. Não quero ser injusta com ninguém. Porém, com franqueza, não vi outra publicação de semelhante alcance em que se promova de tal maneira a atividade de intercâmbio literário entre Brasil e mundo hispano-americano.

Depois começou a me chamar a atenção algo mais: os poemas de Floriano Martins. Desejava traduzi-los. Decidi-me a escrever ao autor e pouco depois tínhamos traduzidos já alguns poemas soltos e em série; os primeiros foram publicados na rede. O trabalho se tornou tão apaixonante que passei a traduzir obras integrais do poeta. Difíceis! Dificílimas para mim! Pois a poesia de Floriano, sem deixar de ser comunicável, com entendo que deva ser a poesia, alcança uma altura de elaboração estética da linguagem que faz suar o tradutor mais corajoso. Porém eu contava com uma vantagem, com a qual podem contar também todos os colegas hispano-americanos e brasileiros contemporâneos: trabalhar em comunicação com o autor. A aprendizagem que incorpora desse modo o tradutor é inestimável. E quanto ao resultado, pareceria ser o melhor que se pode obter. Pois o poema traduzido já não é produto individual do tradutor, que sempre recria à sua maneira o original, mas sim de ambos.

Enquanto isto, Floriano seguia avançando em sua carreira diplomática, ou seja, na de embaixador individual pan-latino-americano, cada vez mais obstinado na difusão da literatura da América Hispânica no Brasil e vice-versa. Assim, não podia deixar de encontrar-se com outros obstinados como ele. No México, por exemplo, está José Ángel Leyva (também aqui presente na FLIPORTO, juntamente com Floriano), com sua revista de poesia Alforja. E foi no México onde a editora Alforja publicou, em 2006, minha primeira versão de um livro de Floriano Martins, Tres estudios para un amor loco, com prefácio do próprio Ángel Leyva. Pouco depois, na Venezuela, foi publicado La noche impresa en tu piel, pelo selo editorial El Pez Soluble. E agora mesmo, também na Venezuela, acaba de ser publicado o terceiro livro do poeta em tradução minha, Teatro imposible, pela Fundación Editorial El Perro y la Rana.

JulioPois bem, eu quero muito o cearense da boina, que se converteu em um entranhável amigo, porém isto aqui não é uma apologia de sua poesia nem de minhas traduções de sua poesia. O que pretendo destacar não são as conquistas individuais de uma relação literária. O que quero esclarecer, na maneira de um humilde exemplo, é o resultado multiplicador desta comunicação entre uma tradutora argentina, que trabalhava isoladamente, e um multi-relacionado promotor de traduções, em corrente de ida e volta, que é o que necessitamos intensificar em nossa América Latina. Este contato com uma pessoa cujo trabalho de difusão literária entre Brasil e América Hispânica não depende de nenhuma política de Estado, me permitiu somar-me aos tradutores de literatura brasileira para o espanhol de uma maneira efetiva e cada vez mais abrangente. Graças aos encargos feitos por Floriano para diferentes trabalhos antológicos com destino ao mundo de fala hispânica, realizei uma considerável experiência de tradução, em diferentes gêneros – poesia, narrativa, ensaio, entrevistas – e tive a honra de traduzir alguns textos de grandes autores brasileiros contemporâneos.

JulioA moral da história – nós que damos aulas por muitos anos somos insuportáveis, sempre acabamos encontrando uma moral da história – é que se pode difundir a tradução fora das regras geopolíticas de mercado. Todos os que experimentamos a escritura literária em espanhol podemos ler literatura em português. O mesmo vale para os brasileiros e relação ao espanhol. Este é um fato. Não há verdadeira barreira lingüística entre duas línguas românicas, ao menos em se tratando de leitura. Pois outro fato – cuja afirmação pode parecer herética em uma escola de tradutores, porém não para o tradutor literário, que o sabe muito bem – é que, para efeitos da tradução de um poema, de um texto de ficção etc., não falar fluidamente a língua que se traduz é secundário para um escritor-tradutor. Necessitamos somente conhecer um pouco mais nossas literaturas, até que o apreço mútuo nos inspire a necessidade de fazer um esforço por lê-las em sua língua original, e lançarmo-nos à empresa de traduzir, ao menos um poema, ao menos um conto que nos tenha impressionado muito, e difundi-lo pelo meio que tivermos ao alcance. Um mais um são dois, e assim até o inumerável. Espero que esta FLIPORTO, precisamente destinada a nos conhecermos e apreciarmo-nos, faça de nós uma multidão.

Marta Spagnuolo (Argentina, 1942). Palestra lida na FLIPORTO – Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Pernambuco, 27 a 30 de setembro de 2007). Tradução de Floriano Martins. Contato: martaspag@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Julio (Portugal).

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