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revista de cultura # 60 |
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Tomas Tranströmer ou a fascinação da inanidade Luís Costa
Tranströmer inicia-se na poesia com 23 anos de idade. O seu primeiro livro traz o título 17 dikter (17 poemas). A maior parte da obra é escrita em verso livre, embora também tenha experimentado com a linguagem métrica. Na sua escrita nota-se, por vezes, uma certa disciplina horaciana. Como podemos ler no livro de memórias, Minnena ser mig (as recordações vêm-me): Horácio era para mim como um contemporâneo; era como um René Char, um Oskar Loerke ou um Einar Malm. Em 1990 foi vítima de um derrame cerebral que lhe afectou a capacidade de falar. No entanto recuperou a saúde de novo. Anos depois sofre uma série de derrames cerebrais. Desde então escreve sob grandes dificuldades. Impedido de escrever por mão própria, é a sua esposa que vai apontando os seus poemas (isto por meio de um processo muito complicado, pois Tranströmer só consegue dizer sim e não), cada vez mais raros e lacónicos, mas nem por isso de menor qualidade. A sua originalidade e magia residem exactamente nessa fantástica capacidade de, num punhado de vocábulos, ser capaz de exprimir aquilo para o qual muitos escritores precisam de cem:
E o que era “eu” No poema “Em Março de 79”, que sublinha esta sua tendência para o laconismo, podemos ler o seguinte:
Farto de todos aqueles
que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;
Tranströmer aposta, assim, sobretudo, na intensidade e, a partir desta linguagem de imagens concentradas, fulgurante, a qual não precisa de muitas palavras, provoca no leitor uma sensação de deslumbramento e surpresa, que, em muitos casos, pode ser considerada fantástica e até mágica. Esta linguagem simples e clara, mas carregada de metáforas audazes, de uma imaginação fantástica e de uma imensa variedade de associações, possui, de facto, uma intensidade e uma força ao mesmo tempo telúricas e surreais. Vejamos um exemplo:
Encontro-me de pé sob
um céu estrelado Ainda que a lírica de Tomas Tranströmer possa, por vezes, à primeira vista, levar o leitor mais desprevenido a considerá-la uma lírica da natureza, dado que são constantes as referências a animais, objectos e fenómenos da natureza (a formiga vermelha, as tempestades, o mar, a floresta, as estações do ano, os campos etc. ) ela é, porém, muito mais do que isso. Ela não se constrói a partir de certos “acontecimentos“ que se efectuam na natureza, e que por isso são considerados, como acontece na Naturlyrik dos alemães, uma primeira base do ser, nem pretende descrever simples fenómenos da natureza. Através da observação do mundo físico o poeta vai-nos revelando a inanidade existencial: o invisível torna-se-nos acessível porquanto nos sentimos seduzidos pela magia das verdades ocultas e pelos segredos impenetráveis e por isso vazios. Este universo poético mantém-se sempre muito próximo da realidade do dia a dia, no entanto, como nos diz Harald Hartung no ensaio “Tomas Trantrömer: Der Kampf um den Namen”: ele não é deste mundo, ele é antes um espaço imaginário que projecta uma luz fresca, mas intensa, sobre os objectos e os homens.
Fim de
estação. Eu continuei a viagem
Quantos
eram? Quatro,
Casas, caminhos,
nuvens,
Quieta, a formiga
acorda, espreita para dentro do Nestes quatro versos encontramo-nos perante uma atmosfera própria do Budismo Zen, ou seja, aqui tudo é silêncio e inanidade, aqui toda a vontade e cobiça foram abolidas, tudo comunga do nada, tudo se encontra imerso nesse nada. O próprio EU lírico abdicou da sua identidade e de toda a vontade. Ele já não é apenas um observador, ele é parte integrante deste momento-nada. Frente à intensidade deste universo poético, o leitor não coloca questões. Ele vive a sensação do momento, a sensação electrizante desta linguagem, a sua magia toda poderosa, que se movimenta entre a frase lacónica, simples e clara e uma metafísica irracional. E o poeta, sabendo isto melhor do que ninguém, leva-nos a a participar deste momento único - momento em que natureza, homem e cosmos, se unem sob a aliança do indizível, do silêncio do vazio-essência:
grande e vagaroso
vento
FUNCHAL
O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos. Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atlântida, pequenas explosões de alho. O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas. Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada servíamos ( por exemplo, quando esperávamos na bicha para doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram! Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado. E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o mosaico nasce. Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas. Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia ilha jaz, expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados amigavelmente, suaves controlos, todos falam, fervorosos, na língua estranha. “um homem não é uma ilha”. Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula contra a boa escuridão. Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que propaga o silêncio. Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um livro que só no escuro se consegue ler. |
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Luís Costa (Portugal, 1964). Poeta e ensaísta. Inédito em livro. A tradução do poema de Tomas Tranströmer, feita por Luís Costa, tomou por base a versão alemã, realizada por Hans Grössel e incluída em Der Mond und die Eiszeit (1992), antologia do poeta sueco. Contacto: l.costa@web.de. Página ilustrada com obras do artista Julio (Portugal). |
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