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revista de cultura # 61 |
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Moacir Amâncio: desafios da poesia [entrevista] Álvaro Alves de Faria
Moacir Amâncio reuniu toda sua obra poética em “Ata”, juntando no volume os livros “Do objeto útil” (1992), “Figuras na sala” (1996), “O olho do canário” (1998), “Colores siguientes” (em espanhol, 1999), “Contar a romã” (2001), “Óbvio” (2004), “At” (em inglês) e “Abrolhos” (em português e hebraico), que eram inéditos. Palavras medidas. Tudo no seu devido lugar. O poema de Moacir Amâncio é contido. Como se a palavra estivesse presa a se debater para saltar. Mas o poeta, no caso, não lhe dá essa permissão, se é que isso de fato existe. Num de seus poemas Moacir Amâncio afirma que “ao tentar dizer/ desdigo o não dito”. Talvez esses dois versos possam dizer essa poesia que é colhida das coisas animadas ou não que existem em torno da poesia. Três outros versos podem explicar melhor, levando o poema para a própria construção do poema, com uma matéria-prima especial: “Esta paisagem, quem sabe,/ só de janelas perfeitas/ na simetria dos ângulos”. É como se Moacir Amâncio estivesse a falar sobre a elaboração de sua poesia. Por que escrever poemas em inglês, espanhol e hebraico? Professor de Língua e Literatura Hebraica da USP, Moacir Amâncio responde: “Talvez pelo mesmo motivo que se escreve em português. Modos de dizer diferentes e que também procuram sua expressão, apenas isso. Acho que as experiências lingüísticas são insubstituíveis, embora a tradução seja sempre possível. Mas aqui, acho desnecessário. Se a pessoa não compreende esta ou aquela língua, tudo bem, o que conta, como numa colagem onde aparecem palavras russas, por exemplo, é a tensão provocada”. “Ata” é uma afirmação poética de fina elaboração, o poema construído palavra por palavra, trabalho meticuloso de um poeta que tem na poesia um olhar especial. Moacir Amâncio parece deixar claro que não se envolve em emoções poéticas. O poema deve existir dentro de seu limite. E esse limite indica a contenção de si mesmo como poeta dentro do poema, da literatura. O poema é uma peça literária. É resultado de trabalho, de exercício. É a observação. [AAF]
MA Bem, deve ser normal que depois de uma série de livros publicados os textos sejam reunidos num volume só. Você sabe, os livros de poemas são geralmente curtos, por diversos motivos. A poesia hoje, hoje, eu digo, diferente da prosa, não suporta menos o ritmo industrial. É uma outra relação com as palavras e com a vida – não vejo diferença nisso. Quando alguém diz que devemos procurar a poesia nos dicionários, entendo dicionário como vida bruta, a vida bruta nas palavras soltas e ao mesmo tempo em toda sua potência. As coisas ocorrem de modo mais lento e breve, portanto. No meu caso, a reunião dos volumes publicados, mais inéditos, etc., pode ser a conseqüência de uma intenção dos textos que, como já foi observado, formam um conjunto só, ou seja, um livro só, com as implicâncias que isso representa, correspondências entre as partes. AAF Você é um poeta econômico. Palavras medidas. Bem medidas. Exaustivamente medidas. Você tem receio de se expor como poeta dentro do poema, evitando, por exemplo, qualquer sentimento de emoção? MA Como fino conhecedor da matéria, você sabe que essas coisas dão muito trabalho. Eu não vejo diferença com o trabalho de um musicista ou de um compositor. Nada mais rigoroso, nada mais medido do que a música de própria autoria ou não. Nada mais técnico do que uma estrutura musical. Ela pode ser reflexiva, pode ser irônica, pode ser sentimental, pouco importa, sem as notas e todo aquele aparato, não será música. Poesia é igual, no verso e na prosa. Existem, além disso, diversos tipos de sentimentos, como você sugere na pergunta. Assim como existem diversos tipos de música e de poesia, ligados à época, por exemplo. O sentimento do Álvares de Azevedo era um. O sentimento do Bilac era outro. O sentimento do Augusto dos Anjos, do Mário de Andrade, do Mário Quintana – o grande Mário Quintana – e assim por diante. Não estou me comparando a eles, claro, é apenas para ilustrar um pouco. Há poetas, como o Quintana, que expressam a emoção de um modo imediato. Mas veja que coisa, o Quintana não é um poeta assim tão simples. É ardiloso, engana quem pensa que ele está dizendo algo, quando sua intenção se revela outra. Uma estratégia. Além disso, não podemos nos esquecer que as palavras dizem além da intenção do autor. Um texto de exaltação à vida pode se revelar um canto de morte, pelo contrário. Quer dizer, todo texto representa sempre um desafio tanto para quem escreve quanto para quem lê. Sempre tenho uma pergunta: e se as emoções acabaram, e se elas eram pura invenção?
MA Essa pergunta é terrível. Evidentemente, você repete a pergunta porque nenhuma resposta foi satisfatória. E o que eu disser também não será. Mas talvez a poesia seja simplesmente necessária à vida. Não falo só da poesia escrita, convencional, cantada, declamada, mas da poesia que está presente em todas as manifestações artísticas – e não podemos esquecer que nossa vida cotidiana também é representação. Há pessoas que dizem não gostar de poesia, não precisam disso, acham poesia uma coisa chata, etc. Mas consomem poesia da música popular, de alguma cena de novela na televisão, uma frase captada na rua enquanto caminhava até o estacionamento, no bar, num filme, num quadro, num pára-choque de caminhão, vai saber. Num sorriso. Tudo isso vai lá ou vem de lá e para qualquer pessoa, analfabeto ou letrado, busca sua correspondência nas palavras, no grito, no gesto, num assobio. AAF Você já tem bagagem poética e literária suficiente para me falar alguma coisa sobre a poesia brasileira hoje. Ou não há nada para falar? MA O grande perigo neste caso é a auto-referência. O cara começa a ditar regra a partir de sua própria ação. Ou então recorre a dois ou três críticos – uma superstição, pior ainda do que o caso anterior, porque pode ocultar até mesmo certa ou muita má fé. E mais, há um tipo de leitor e de crítica que recorre a teorias achando que aquilo tem peso de verdade absoluta, quando tudo fica num campo relativo, condicionado histórica e socialmente. Enquanto a leitura direta, o contato com o texto fica afastado, higienicamente afastado. Existem análises de textos pífios que nada mudariam se no lugar dos textos pífios colocassem uma notícia de jornal, da primeira página, e de repente até ganhariam em matéria de poesia. O pior é que com isso formam grupos, etc. Outro golpe mortal na poesia, os grupinhos, movimentos repetitivos, essas coisas. Então, eu não dispenso a leitura do que é escrito no país, na medida do possível, corro atrás, procuro, escrevo para os autores quando não consigo seus livros. Não me interessam correntes nem nada, apenas os textos. Sou pela inclusão, não pela exclusão. Há casos de embuste óbvio, mas sempre podemos encontrar algo que vale a pena. Mesmo que não seja o que a gente escreveria ou gostaria de escrever. Sou contrário a opiniões taxativas. De repente Drummond, daqui a cinqüenta anos, continuará um autor importantíssimo, mas não será mais o maior poeta brasileiro do século 20. Sei que é história, mas acho que “A Luta Corporal”, do Ferreira Gullar, deveria ser mais lido e considerado como uma obra-prima contemporânea. Veja, o Piva já vem sendo discutido e pensado como um autor importante na expressão e no comportamento – ele mistura as duas coisas. Ao mesmo tempo há uma tendência de voltar ao primeiro modernismo. Outros vão ao pré-modernismo. Outros procuram a música, a declamação, etc. Quer dizer, para mim, é uma salada saudável, ou pelo menos é o que temos à disposição e se nada mais há, isso significa alguma coisa, não há como dispensar. Para mim, tudo faz parte. Falo com quem escreve, não como leitor idiossincrático e este com certeza tem a sua totalidade de razão. Agora, acho que devo acrescentar o seguinte. Durante o tempo em que trabalhei diretamente em jornais e revistas, eu sempre mantive a mesma posição. Minhas idiossincrasias eram deixadas de lado. Sempre procurei publicar, entrevistar, divulgar o que chegava, sem discriminação. Quando na edição, escrevia muito pouco, de propósito. Uma vez cheguei a passar o livro de um poeta para quatro ou cinco resenhistas e todos me disseram que não valia a pena, a não ser que fosse para baixar a lenha. Se é assim, vamos deixar de lado, acabei desistindo. O poeta achou que eu estava jogando o livro dele no lixo. Não era verdade, na verdade eu o estava protegendo de uma traulitada que talvez fosse despropositada.
MA Sempre dei ênfase à literatura brasileira. Certa vez, num jornal, levei a maior bronca por ter dado uma primeira página de caderno de variedades com romancistas brasileiros, pois achavam aquilo sem importância. Você vê, em todo lugar do mundo o que conta é o autor do país, o fato local. Não deixo de estranhar que um autor mediano tem primeira página e até chamada na primeira página do jornal porque nasceu no Afeganistão ou no Bronx, e um autor brasileiro de qualidade equivalente ou muitíssimo melhor, corre sempre o risco de nem ser percebido. No entanto é esse autor que está participando de modo efetivo da vida cultural, política, social do país. A cultura, a literatura não é feita para a posteridade nem para ser traduzida. Ela é feita para o vizinho da frente. Já reparou? Quando a gente elogia um autor brasileiro alguém sempre pergunta: mas você gostou mesmo do livro? Se você critica de forma negativa um borra-botas londrino alguém aparece e comenta: puxa, mas todo mundo fala bem… AAF Nos anos 70 nós andávamos pela cidade discutindo sobre jornalismo, literatura e outras coisas inúteis da vida. Mas me lembro bem que você pouco falava sobre poesia. De repente você começou a escrever poesia. Como é que você se descobriu poeta e como é que você lida com isso? Como e quando ocorre o poema?
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Álvaro Alves de Faria (Brasil, 1942). Poeta, ensaísta e jornalista. Autor de livros como Motivos alheios (1983), O azul irremediável (1992) e À noite, os cavalos (2003). Entrevista originalmente publicada no Rascunho # 93 (Curitiba, janeiro de 2008). O crédito da foto de Moacir Amâncio é de Pérola Wajnstejn. Contato: poetalves1@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Felipe Ehrenberg (México). |
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