editorial
Para que o futuro creia em si mesmo
Um
dos editores da Agulha acaba de regressar de uma temporada de 50
dias na Austrália, retorno que coincide com a entrada da revista em seu
oitavo ano de ininterrupta aventura editorial. Preciosa condição a de
livre observador de realidades, que permite comparações não manchadas
por vícios maniqueístas. Os leitores da revista percebem este valor ao
acompanhar o elenco de matérias e colaboradores até aqui publicados. De
igual nascente as manifestações da revista através de seus editoriais.
Há muito mais do que cangurus e coalas na Austrália, da mesma maneira
como Brasil não se limita a carnaval e futebol.
A grave sintonia
existente no Brasil entre corrupção e administração pública sugere
pensar que nossa forma de governo é o anarquismo. A maneira como está
organizada a sociedade australiana sugere alguma forma de autoritarismo.
A rigor, se observado em seus meandros, a sociedade brasileira é
essencialmente corrupta, assim como na Austrália se pode falar em uma
quase obsessão pela organização. Seria quando menos constrangedor para
os brasileiros pensarem que não conseguem sobreviver sem a corrupção.
Então não cabe pensar que a organização seja uma forma insubornável de
se manter o padrão social que se verifica na Austrália.
Os dois modelos
são bastante funcionais nos dois países. Será bastante pensar em um
pequeno suborno ou em uma mínima regra de comportamento social. É bem
simples: a organização soma, enquanto que a corrupção subtrai. A
organização leva a Austrália a ter um zelo por sua história, a cuidar de
seu passado com uma atenção que para muitos pode parecer exagerada. A
corrupção nos leva a perder a dimensão da história, anulando uma
indispensável visão crítica do mundo. É como aquele princípio da guerra,
onde não há vencedores. A corrupção nos torna a todos vítimas de sua
ilusão. Evidente que tanto pode haver uma corrupção organizada quanto
uma organização corrupta. Porém não chegamos até aqui para encerrar o
tema sob efeito de um sofisma. Há um vultoso dicionário de eufemismos
que define a precariedade existencial que tem configurado o mapa das
sociedades contemporâneas. Tampouco adianta buscar evidências no aspecto
religioso. Ao longo da história as religiões acumulam tantos saldos
violentos quanto as ideologias. Há um ambíguo sentido organizacional e
corrupto nas duas vertentes.
A filosofia aqui
pode complicar a leitura. Um exemplo bem concreto facilita o tema: um
bairro em Sidney, na Austrália, possui um museu dedicado à memória
daquela região. Museu de bairro: The Rocks Discovery Museum:
www.rocksdiscoverymuseum.com, para os que quiserem
visitá-lo pela Internet. Ali notamos o carinhoso apreço por uma torneira
velha. No Brasil facilmente isto seria entendido como bairrismo. A
história de um país está configurada a partir de seus bairros, de suas
pequenas células sociais. De seu sentido de organização e preservação.
Evidente que podemos elevar a torneira velha à categoria de um estrelato
kitsch. Tudo aquilo que entendemos por cultura de massas já
revelou seu espírito corrosivo da essencialidade cultural intrínseca de
cada pequena região, o conceito poético da aldeia. Não há como curar-se
da ação das grandes redes de mercado internacional. Qualquer reação
implica em atividade terrorista. A sociedade de consumo sabe proteger-se
e estabeleceu suas regras de tal maneira a definir-se como uma nova
moral mundial. O mundo tornou-se perigosamente igual sob muitos
aspectos. Porém os conceitos de organização e corrupção permitem ainda
uma leitura eficaz de nossos destinos.
Talvez a equação
mais complexa a ser proposta a uma mesa de excelências seja: organizar a
sociedade brasileira. Como convencer a uma sociedade que é insuficiente
gostar de si mesma se não age em tal sentido; que é indispensável criar
uma fortuna crítica de seus valores, conhecer e reconhecer o outro,
misturar-se à multidão cultural sem perder o apreço por seus sinais
ulteriores? Não adianta ecoar outdoors e jingles
institucionais como se o tema fosse assunto unicamente da área das
campanhas publicitárias. Cabe recordar que a Austrália foi originalmente
uma colônia penal e o Brasil uma rota de fuga. Antípodas que se tocam em
algum momento. Porém distinguidos por este duplo conceito aqui evocado:
organização e corrupção. É fundamental observar qual o comportamento do
Estado diante disto. No Brasil, o Estado é alheio à história, adepto
irresponsável da teoria do caos lida em gibis ordinários, e se digladia
entre si (os menos corruptos contra os mais corruptos), tatuado pela
cultura fashion que sabe com astúcia eliminar a potencialidade do
trivial, do cotidiano, da expressão espontânea.
Por efeito
perverso de um jogo de linguagem, podemos dizer que organização e
corrupção são indissociáveis. Contudo, a despeito de qualquer artifício,
Agulha entra em seu oitavo ano bem organizada e livre de qualquer
vestígio de corrupção. Por seu acervo de matérias há passado um elenco
valioso de leituras de temas vinculados aos aspectos aqui referidos.
Obrigado a todos, reforçando nossa cumplicidade e acreditando (ainda) em
um futuro melhor.
Os editores |