revista de cultura # 61
fortaleza, são paulo -
janeiro/fevereiro de 2008

discos da agulha

Kill Hollywood me, de Britta Persson1. Kill Hollywood me, de Britta Persson. Selo Bonnier Amigo. Janeiro de 2008. Visite: www.brittapersson.com.

Britta Persson é mais um talento promissor oriundo da Suécia, o país do pop perfeito. Com sua aparência de nerd universitária, Britta decidiu empunhar seu violão folk e soltar a voz para cantar todas as suas amarguras. Apresentou-se ao lado de Kristofer Åström e gravou, em 2004, dois CD's caseiros para registrar e divulgar suas composições, marcadas pela extrema melancolia. Começou distribuindo-os a quem se interessasse. E o resultado foi a venda de duas mil cópias.

Em 2005, é a vez do lançamento do EP Found At Home. Essencialmente acústico, com discretas pitadas de percussão e alguns backing vocals quase imperceptíveis. Cinco canções curtas e dolorosas (destaque para a clássica “Defrag My Heart”, gravada anteriormente no 1º CD caseiro) que ela interpreta quase chorando, como em “When You Leave” e “Stockholm-Amsterdam”. Legítimos lamentos folk que nos remetem a outras divas do estilo, como Joni Mitchell e Suzanne Vega.

No ano seguinte, o 1º CD propriamente dito. Sem perder sua habitual melancolia e a voz sempre chorosa, Britta acrescenta a algumas músicas de Top Quality Bones And A Little Terrorist outros instrumentos, como teclados (“Winter Tour”, “Low or Wine” ), violino (“This Spring”), acordeon (“Bellamy Straat Straat”), discretos ruídos (“Train Song”) e a participação de outros artistas  (Åström divide os vocais em “Bummer Summer”). O destaque fica para “You Are Not My Boyfriend”, com sua levada ironicamente dançante.

Em janeiro de 2008, Britta surpreende com o novo álbum Kill Hollywood Me, uma agradável e deliciosa surpresa. Com raro talento para compor belas melodias, preferiu economizar nos violões folk para abusar das guitarras e teclados. Provável incômodo para os fãs mais puristas de sua fase acústica.

Cliffhanger abre caminho para mostrar essa nova fase. Um rock feito com capricho, recheado de guitarra, piano e bateria, pronto para grudar nos seus ouvidos por tempo indeterminado. Logo a seguir temos “At 7”, com sua batida contagiante e o refrão entoado em coro, um exemplo do esmero dedicado às vozes em suas novas composições.  E o velho e bom violãozinho também comparece, embora nunca sozinho, nas faixas “In Or Out”, “Kill Hollywood Me”, “Can I Touch” e “Car Song”.

Kill Hollywood Me é, de longe, o melhor trabalho da musa nerd que já foi anunciada como uma das próximas atrações do heróico projeto Invasão Sueca para 2008. Enquanto o boato não se concretiza, aproveite para conhecê-la melhor. Só não me venha, depois, reclamar que apaixonou-se também por ela perdidamente.

[André Assis]

 

Jukebox, de Cat Power2. Jukebox, de Cat Power. Matador Records. 2008. Visite: www.catpowerthegreatest.com.

Desde o lançamento de The Greatest, em 2006, Chan “Cat Power” Marshall tem dividido opiniões entre os fãs. Após passar por um tratamento de desintoxicação devido ao consumo excessivo de álcool, há quem a acuse de tornar-se uma cantora mais comercial. Quem acompanha seu trabalho, lembra muito bem daquela menina de camiseta e calças jeans, com o cabelo no rosto, empunhando guitarras distorcidas e berrando a plenos pulmões. Era a típica cantora maldita, tímida nos palcos, que esquecia as letras, cantava de costas e tocava nas piores espeluncas.

O fato é que a moça, agora, tem experimentado uma nova fase em sua carreira, compondo músicas mais elaboradas, acompanhada por excelentes músicos e sua voz nunca soou tão bem.

Jukebox, o mais recente trabalho, teve seu lançamento anunciado pela Matador Records para o dia 22 de janeiro de 2008. A relação e a ordem das músicas, no entanto, sofreram algumas alterações, ao contrário do que havia sido divulgado pelo site da gravadora. Há, inclusive, uma edição limitada contendo um CD bônus com mais cinco músicas. O CD, em sua versão alterada, já circulava livremente pela internet desde o início do ano.  Parte desse repertório foi apresentado em suas últimas turnês, inclusive na última edição do Tim Festival em 2007.

A exemplo de Cover Records (2000), Jukebox é um disco de covers. O que também se assemelha entre ambos é a capacidade de Chan para recriar músicas alheias a ponto de, praticamente, tornar-se sua co-autora (quem já ouviu “(I Can't Get No) Satisfaction” dos Rolling Stones no CD de 2000, sabe muito bem do que estou falando).

Mas, ao contrário do trabalho anterior, cujos arranjos eram mais econômicos - limitados à presença discreta de violões, guitarras e piano -, em Jukebox Cat Power vem acompanhada por uma banda completa (a Dirty Delta Blues, formada por músicos de primeira). São 12 faixas com músicas do repertório de Frank Sinatra, Hank Williams, James Brown, Bob Dylan, Joni Mitchell, Billie Holiday, Janis Joplin, entre outros, além de composições da própria (“Metal Heart”, presente no CD Moon Pix de 1998, e “Song To Bobby”, dedicada a seu mestre Bob Dylan).

Logo de início, somos surpreendidos por “Theme From 'New York, New York'”, imortalizada por Frank Sinatra e a qual você reconhecerá apenas com o encarte das letras nas mãos. Esqueça o famoso musical de uma New York repleta de luzes. Sob o comando de Chan, ela transformou-se num pungente blues.

O mesmo acontece com um antigo sucesso do lendário cantor country americano Hank Williams (que, ironicamente, morreu em decorrência de coma alcoólico). “Ramblin' (Wo)man” é resgatado de um baú empoeirado do Alabama para adquirir o status de um dos mais belos e comoventes blues das últimas décadas.

Chan Marshall também não se intimidou ao interpretar “Don’t Explain” eternizada pela diva do blues Billie Holiday. Manteve a mesma melancolia, com a inconfundível marca “Cat Power”. O mesmo não se pode dizer de “Woman Left Lonely”. Insuperável na voz de Janis Joplin, Chan Marshall optou por uma interpretação mais discreta.

Um dos pontos altos de Jukebox fica com a regravação de uma de suas próprias músicas: “Metal Heart” soa mais visceral do que nunca.

Seus fãs, certamente, irão se dividir. Mas o fato é que Jukebox é um de seus melhores trabalhos. Um concorrente de peso ao título de Melhor Álbum de 2008.

[André Assis]

 

Momentos, de Gerardo Alfonso3. Momentos, de Gerardo Alfonso. Unicornio Producciones Abdala. 2002. Contacto: unicornio.abdala@cimex.com.cu. Visite: www.abdala.cu.

- He aprendido que integrar elementos disímiles que tengan relación hace el producto más fuerte. No creo en la pureza ni de las razas, ni de los géneros musicales, ni de las literaturas, ni de los lenguajes. Es como si la diversificación y la mixtura de los elementos hiciera los troncos más sólidos y los resultados más poderosos. El instinto universal es a mezclarse. En cuanto a la música es lo mismo… los irlandeses con un violín, los otros por aquí con un charango, los africanos con unos tambores y al final las músicas vuelven a mezclarse y surge el jazz, el spiritual y se mezcla con el country, que es un derivado de las sonoridades celtas.

Instintivamente -como me gusta tanto lo que produce el hombre para bien- voy asimilando y trato de reproducir todo lo que asimilo en forma diferente. A veces hago los géneros tal y como están concebidos; a veces los mezclo y produzco mi propio género que es, por ejemplo, el guayasón… Mi naturaleza está vinculada al criterio de juntar, de coleccionar.

[Gerardo Alfonso, fragmento de uma entrevista a Estrella Díaz, 2005]

 

Pura Chonta, de Grupo Bahía Trio4. Pura Chonta, de Grupo Bahía Trio. Estúdios Takeshima. Cali, Colombia. Contacto: grupobahia@uniweb.net.co.

Además del trío andino de tiple, guitarra y bandola, o del trío vallenato de acordeón, caja y guacharaca, en el Pacífico colombiano ha surgido un conjunto instrumental integrado por la marimba de chonta, los cununos y el bombo o tambora, que mantiene el sabor autóctono de la música que interpreta y la polirritmia que le es propia.

Originado en la parte sur del Litoral, debutó con gran acogida en el V Festival de Música Petronio Álvarez, de la mano de Hugo Candelario González, el director del Grupo Bahía. Sorprendió por su sonoridad, el armonioso complemento entre percusión y melodía, y la variedad de aires y géneros musicales que puede ejecutar. Resultó un descubrimiento musical muy interesante que propone libertad en el uso de los instrumentos, siendo ésta una característica de las músicas tradicionales.

La verdad es que, si bien lo usual en un currulao es la integración del conjunto con dos o tres cununos, dos bombos, una marimba, cantadoras y guasás, también es frecuente que se produzcan combinaciones diversas, que sorprenden por su variedad y riqueza musical. Pueden apreciarse, en Guapi, Timbiquí y otras poblaciones, grupos callejeros en los que varias cantadoras con Guasás se acompañan de uno o dos bombos y uno o dos cununos, recorriendo la población desde la madrugada y entonando bundes, jugas, currelaos, bambucos viejos, arrullos etc. También es común ver la participación de una o dos flautas en el conjunto de marimba. A veces, jóvenes que cantan y se acompañan con las palmas, desfilan en bailes callejeros acompañados de un bombo y un palo de guadua que se percute con baquetas, en remembranza del tradicional carángano.

El trío del Pacífico es una de esas combinaciones especialmente afortunada, porque está al alcance tanto del músico autóctono como del académico. Al ser de carácter ocasional, y al no formar parte de los conjuntos “reconocidos folkloricamente” se rige por la improvisación, en especial de la marimba, lo que requiere de ejecutantes con especial capacidad, y tiene el potencial de sorprender en cada interpretación. Esa cualidad le permite incursionar en modalidades musicales con características similares, populares y modernas como el jazz, o también combinarse con otras músicas tradicionales.

El trío de marimba, cununos y bombo, es una de las riquezas menos conocida de la música colombiana, pese a que está enraizado en una antigua tradición.

[Germán Patiño]

 

Though, I'm Just Me, de Maia Hirasawa5. Though, I'm Just Me, de Maia Hirasawa. Razzia Records. 2007. Visite: www.maiahirasawa.com.

Ela já esteve no Brasil em 2007 participando, com outras bandas, da 3ª edição do projeto Invasão Sueca (projeto que iniciou em 2006 e que contempla algumas capitais do País com novidades musicais da terra do pop perfeito). Mesmo ano em que lançou seu primeiro disco solo, Though, I'm Just Me.

Apesar do nome, Maia Hirasawa é mesmo da Suécia (nasceu por lá no dia 5 de maio de 1980) e tornou-se conhecida através da banda Hello Saferide, de Annika Norlin. A princípio, contribuiu com alguns backing vocals no primeiro disco da banda (Introducing..., de 2007) até ser considerada, mais tarde, como a “outra metade” do Hello Saferide com a gravação do EP Would You Let Me Play This EP 10 Times a Day em 2006. Alguns EP's e singles depois – muito bem recebidos pelas rádios de seu país – Maia, finalmente, investiu num CD inteirinho só dela, recheado de delícias folk e indie pop.

Em Though, I'm Just Me, sua voz extremamente adocicada e cristalina (lembrando bastante The Concretes, também sueca) está presente em onze músicas cujas letras revelam um pouco de sua vida pessoal e sentimental e ressaltam o valor da amizade.

“Still June”, uma das melhores faixas, abre o CD delicadamente: apenas ela, violões e alguns backing vocals dão o tom para belos versos como “deveria ser inverno agora, mas meu coração ainda está em junho”.

Mas logo o clima melancólico dá lugar à alegrinha “Crackers”, com a participação da conterrânea Miss Li, arranjos de metais e pianinhos. E por falar em piano, os teclados - uma especialidade de Maia - são presença constante na maioria das músicas.

Entre os pontos altos do disco, estão a encantadora “You and Me and Everyone We Know”, com a presença de um grupo de crianças cantando e batendo palmas, seguidas por comoventes acordes de violoncelo e piano. E na alegríssima “And I Found This Boy”, que contagia tudo como um super animado musical (ou como se os Concretes resolvessem brincar de The Go! Team).

Mas, infelizmente, o disco tem que acabar. Sentamo-nos, então, à sua volta. Ela dirige-se ao piano e, sob uma tênue luz, sussurra-nos os sensíveis versos de “Roselin”. De uma forma tão frágil e delicada quanto uma caixinha de música.

[André Assis]

 

Brincos do mar e o infinito…, de Mário Montaut & Floriano Martins6. Brincos do mar e o infinito, de Mário Montaut & Floriano Martins. Participação especial: Ana Lee. Produção dos Autores. Contato: mario_montaut@hotmail.com. Visite: www.mariomontaut.com.

O mar não usava brincos nem era o Mário infinito ainda (rs). O Claudio Willer me apresentou ao Floriano Martins, ali no Conjunto Nacional da Av. Paulista. Lançamento do livro Cinzas do Sol, no ano de 2001. Nesse encontro estavam também Graco Braz Peixoto, Mona Gadelha e Contador Borges, todos recitando poemas de Floriano. Foi o início de nossa amizade e de nossas parcerias, que logo engendraram sete composições inspiradas nos temas da peça Sombras Raptadas, quatro delas incluídas neste disco. Vieram outras canções, novas parcerias e amizades. Ana Lee, sempre presente e cada vez mais envolvida na trama, cantou grande parte das músicas, fez vários duos comigo. Juntos, Ana e eu musicamos a letra  "De todo coração", que o Floriano escreveu para nós. E tantas aventuras acontecendo nesse tempo. A feitura das canções, as infinitas horas de estúdio, as ilustrações e colagens do encarte, a constante troca de idéias, por e-mails, sempre, e na cidade de São Paulo, onde Floriano, Ana e eu tivemos a alegria de nos perder em horas de papo, reflexões, cinemas, teatros, tudo regado com bom vinho e excelente humor. Por intermédio do Floriano, tive a felicidade de compor com a Maria Estela Guedes, a Rosa Alice Branco e a Helena Vasconcelos, essas poetas portuguesas que me deram tanto prazer. Por ora não conseguiria mesmo falar num outro tom, que não o da amizade, cumplicidade e paixão, que resultaram neste álbum. 2, 3 Brincos do mar e o infinito … Em ciranda emergiram as jóias brincando na superfície d’água, marinha, e no horizonte o mar… e o infinito. Roberto Gava, Regina Hasegawa, Maria Estela Guedes, Rosa Alice Branco, Helena Vasconcelos, Brau Mendonça, Ozias Stafuzza e muitos, muitos se juntaram ao trio que assina a obra. Delicada tal o buraquinho que a menina faz na orelha para estrear o primeiro brinco. Impetuosa qual o mar. Cristalina aqui, obscura ali. Política e esteticamente incorreta, às vezes. Cânticos. Da paixão e outras graças. Por tudo isso e muito mais um disco quase genial (rs). E a razão é toda do Ozias ao dizer que só acredita no Mário infinito quando eu der um show de brincos. Brinco de beijos!!!

[Mário Montaut]

 

Doce boleros míos, de Marta Valdés7. Doce boleros míos, de Marta Valdés. Con Rey Ugarte. Unicornio Producciones Abdala. 2003. Contacto: unicornio.abdala@cimex.com.cu. Visite: www.abdala.cu.

Como anuncia el título del disco, Martha Valdés nos regala en esta ocasión doce boleros propios, obras que gozan de gran popularidad entre los amantes del género e incluso se han convertido en clásicos del repertorio bolerístico cubano e internacional. A su lado, el inconfundible guitarrista Rey Ugarte.

Notas Discográficas:

A quien pueda interesar:

A finales del año 2004, puse en manos del amigo y colega Lázaro García una copia hecha en casa, de este disco cuya grabación yo me había costeado el año anterior y cuyos horizontes deseaba ensanchar por los caminos de un sello discográfico como Unicornio, al cual me unían experiencias anteriores. Esa copia estaba acompañada de una carta que pretendía conducir la audición de mi amigo a partir de mi propia visión del trabajo que habíamos desarrollado durante un año el guitarrista Rey Ugarte y yo. La noticia feliz de que mis deseos se verían coronados por el éxito al hacerse realidad el disco, venía acompañada de una invitación, por parte de Lázaro, a incorporar mi breve carta como nota introductoria a esta producción y llegó de esta forma:

- Marta: ahí te va tu carta tal como me la enviaste: es, sin dudas, un excelente disco. (Lázaro).
En mi disco verás que la guitarra está en un plano parejo a la voz. Eso es lo que quise. Lo grabamos en directo, salvo alguna palabrita o frase que hubiera que mejorar. No se cantar mejor, así que lo he dejado como vas a escucharlo. Lo que más vale es el haber grabado las melodías tal como las pensé, el haberlas fraseado (a veces queriendo hacer feeling, vamos, más allá de lo coloquial, a lo conversado).

Rey Ugarte ha partido literalmente de mi armonía para hacer lo suyo. Es un guitarrista así y a mi me gusta su manera de enfocar mis cosas. Puede que a algún otro guitarrista - de hecho ha ocurrido - le parezca que hay mucho protagonismo del instrumento en este trabajo y no es así. Es que la proporción, en la idea misma, entre la guitarra y la voz, es - como diría Tata Güines - "fifty-fifty".

Quiero que tengas presente esta óptica mía, que no es algo casual sino que se trata de un tejido contrapuntístico que bien puede someterse a análisis.

Gracias otra vez por acoger con cariño a esta criatura mía.

Besos,

[Marta Valdés]

 

Por La Habana, de Miriam Ramos8. Por La Habana, de Miriam Ramos. BIS Music. 2000. Contacto: bismusic@artexcm.colombus.cu. Visite: www.discuba.com.

Una ciudad no son sólo sus edificios y monumentos o el trazado de sus calles sino el espíritu de sus habitantes, el genio o el carácter que haya podido marcarlos. La Habana es La Habana no sólo por el Prado, el Malecón o la Plaza de la Catedral sino por el legendario mito que su ser y su ánimo han ido creando en nuestra identidad. Y en ese mito –atravesado por una manera de ser intransferible, inimitable- alienta un poderoso mundo interior como el que se expresa aquí, ahora, en este bello universo habanero que nos regala Miriam Ramos, habanera ella misma, enamorada de los misterios de esta ciudad cantada por trovadores y rumberos; dibujada en sones y guarachas pero que llega hasta aquí de la mano de un grupo muy especial de músicos jóvenes que recrean esa mítica Habana revivida en los ensueños de Silvio Rodríguez, Marta Valdés, Amaury Pérez, Carlos Varela y Liuba María Hevia pasando por la visión de compositores –de generaciones precedentes- como son los maestros César Portillo de la Luz, Julio Gutiérrez y Fernando Mulens. Una Habana que no es sólo pátina sino energía incalculablemente fértil, porosa y, por ello mismo mestiza de alma y piel. La cubana que recorre todas las composiciones pertenece al imaginario nocturno de esta ciudad abatida físicamente tal vez pero triunfante en su historia y, sobre todo, en su porvenir. Una Habana que necesitamos todos: los que nacimos en ella, los que la vienen a conocer por vez primera o los que luchan por permanecer a su sombra para siempre. Esa Habana intangible es la que necesitamos y la que podemos paladear en la obra de arte que este disco es.

[Nancy Morejón]

 

Cantar la trova, de Miriam Ramos9. Cantar la trova, de Miriam Ramos. Con Pancho Amat. Egrem. 2005. Contacto: expert@egrem.co.cu. Visite: www.egrem.com.cu.

Desde que tengo memoria de mi relación con la música, estas canciones están a mi alrededor. Algunas de las que aparecen en este CD las he cantado ante el público en innumerables ocasiones, otras las ofrezco al oyente por primera vez. Pero cada una forma parte inseparable de mi vida personal –como cubana que soy al fin y al cabo- y de estos años en los que me he dedicado profesionalmente a la canción.

Recuerdo que cuando daba mis primeros pasos en la Televisión –allá por los años 60- y a pesar de algunos defensores a ultranza de “lo más moderno” (generalmente foráneo) insistía yo en cantar estas canciones rebosantes de belleza, candor y cubana. Lo he seguido haciendo a lo largo de mis más de cuarenta años de carrera. El público cubano lo sabe bien: la Vieja Trova no es para mí “algo” a lo que echar mano para verme favorecida por las veleidades de la moda.

Para abordar este trabajo he contado con el apoyo de Pancho Amat y sus músicos. Ha sido un verdadero placer grabar este disco con profesionales como ellos, que fundamentan su conocimiento de esta zona de nuestro cancionero en una auténtica veneración por eso que intentamos definir como lo “cubano”.

Que usted disfrute estas canciones al escucharlas como nosotros al haberlas grabado, hará realidad el milagro de la música: compartirla. Si es así, entonces podremos ser –usted y nosotros- felices protagonistas de lo que alguien dijo alguna vez: “lo mejor que tienen los milagros es que suceden”.

[Miriam Ramos]

 

The shapes we make, de Mary Timony10. The shapes we make, de Mary Timony. Kill Rock Stars. 2007. Visite: www.marytimony.com.

Se existe uma cantora a quem podemos chamar de ilustre desconhecida, ela atende pelo nome de Mary Timony. Ex-integrante das extintas Autoclave (banda feminina de indie rock formada em 1990 que lançou apenas um disco em 1991 e desfez-se no mesmo ano) e Helium (banda que surgiu em 1992 e sobreviveu até 1998, na qual substituiu Mary Lou Lord, mudando em muito a personalidade do grupo, com três CD's lançados pela Matador Records), Mary poderia muito bem figurar no rol das queridinhas indie rock dos anos 90, como Juliana Hatfield e Liz Phair.

Em 2000, a cantora, guitarrista e tecladista americana estreou em carreira solo com o surpreendente CD Mountains. Repleto de arranjos que nos remetem a melodias medievais, com uma infinidade de teclados, violoncelos, flautas, delicados solos de guitarra e vocais suaves, em nada lembrava suas atuações como guitarrista riot-grrrl-lolita-blasé na barulhenta Helium.

Os álbuns que vieram a seguir foram The Golden Dove (2002), que ainda mantinha resquícios do 1º trabalho solo, e Ex Hex (2005), em que a cantora passou a investir novamente no formato guitarra-baixo-bateria, numa sonoridade mais indie rock, sem perder seu estilo próprio e o vocal inconfundível.

Em 2007, ela retorna como banda propriamente dita. Sob o nome de Mary Timony Band e acompanhada por integrantes da banda Medications (Devin – ex-namorado de Mary - na bateria e Chad no baixo), lança seu 4º CD, The Shapes We Make, em que são revisitados alguns elementos de seus trabalhos anteriores, de forma mais experimental. Nele, sobressaem-se as guitarras inspiradas de Mary, com solos e acordes inusitados, mesclando distorções com momentos introspectivos.

Os destaques do álbum ficam por conta da inspirada  e radiofônica “Each Day”, com um gracioso arranjo de teclados e versos reflexivos como “All we are is/The dust of stars/And a million molecules of things/We will never know...”. “Killed by the Telephone” e “Summer's Fawn”, com seus acordes e solos dissonantes. A hipnótica “Pink Clouds”, que lembra os experimentalismos guitarrísticos da banda Television. E a melodiosa  e pianística “Window”, cujo lirismo, dominante em seu trabalho de estréia, se faz presente. 

Ilustre desconhecida que é, Mary Timony dificilmente será ouvida em rádios, comentada em resenhas ou agraciada com MTV Awards. De qualquer forma, fica o registro: é uma das melhores, ousadas, maduras e talentosas vocalistas/guitarristas/tecladistas da atualidade. E a prova disto está em The Shapes We Make, um de seus melhores trabalhos. Merece cinco estrelinhas.

[André Assis]


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