revista de cultura # 61
fortaleza, são paulo -
janeiro/fevereiro de 2008






 

Literatura e jornalismo: Marcos Faerman

Claudio Willer

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Marcos FaermanJá coloquei à disposição em Agulha textos publicados apenas na versão impressa, em livros esgotados há tempos: meu prefácio para Os Subterrâneos de Kerouac, o posfácio para Sagarana de Guimarães Rosa. Resgates. A seguir, mais um, bem antigo, de 1979: o prefácio da coletânea de reportagens Com as Mãos Sujas de Sangue de Marcos Faerman, o repórter do Jornal da Tarde e criador de Versus e Singular e Plural.

O tom de cultura de resistência desse prefácio talvez pareça datado. Mas nada teria a modificar nas observações sobre a relação entre jornalismo e literatura, exemplificada por reportagens como as de Faerman, escritas com estilo, na primeira pessoa. Quanto aos temas, ao conteúdo das reportagens publicadas em Com as Mãos Sujas de Sangue, é desolador constatar que tanta coisa não mudou em décadas: a favela sobre o mangue na enseada dos Tainheiros em Salvador continua um antro da insalubridade; até hoje não resolveram o caso dos tupiniquins e guaranis desalojados pela Aracruz no Espírito Santo (nem dos pataxós do Monte Pascoal, tema de reportagem em Singular e Plural); o relato do incêndio em uma favela poderia ser recortada e colada, sem tirar nem pôr, em algum jornal de hoje. Lidas agora, algumas das matérias de Faerman são prenúncios, avisos de que ainda viria coisa pior.

Além de Com as Mãos Sujas de Sangue, foram publicadas em livro reportagens de Faerman, em companhia de Fernando Portela e Percival de Souza, em Violência e Repressão (da Editora Símbolo); e seu capítulo sobre jornalismo e literatura em Repórteres, preparado por Audálio Dantas, da editora Senac (1998). E agora ele reaparece em mais uma coletânea, Versus – Páginas da Utopia, publicada pela Azougue, organizada por Omar de Barros Filho, o Matico. Foi sincronia: havia resolvido republicar meu prefácio de Com as Mãos Sujas de Sangue quando soube desse importante lançamento.

Sobre Versus – Páginas da Utopia, pouco teria a acrescentar ao que foi observado por Adelto Gonçalves – outro dos amigos de Faerman e colaborador daquele periódico independente que circulou entre 1975 e 1979 – no Observatório da Imprensa, disponível em www.observatoriodaimprensa.com.br. Destacaria apenas o quanto ficou bonita a edição, graficamente a cargo de Toninho Mendes, o primeiro dos editores de arte de Versus. Abre com um depoimento sobre terror na Argentina de ninguém menos que Tomáz Eloy Martinez e a entrevista de Michel Foucault, ambas do número 1 de Versus. De Faerman, traz mais uma reflexão sobre a linguagem no jornalismo, As palavras aprisionadas, e a investigação sobre Segredos atômicos do Brasil. A diversidade é a marca de Versus – Páginas da Utopia: tem depoimentos, de Lívio Xavier a Hiroito Joanides, de Eduardo Galeano a Arnaldo Jabor; matérias literárias como o Jack London de Paulo Ramos; bastante entrevistas; documentos como A ética da conquista de José Martí; um texto de Rodolfo Walsh, autor emblemático para Faerman, A Carta da Morte; e pelo menos duas reportagens especialmente representativas de um jornalismo com tratamento literário, A perseguição, por Caco Barcelos, e Os mortos de setembro, sobre os túmulos chilenos, por Wagner Carelli. É interessante como, tendo sido Versus um jornal pioneiramente voltado para a América Latina, os parâmetros dessa literariedade parecerem provir dos mestres do assim-chamado realismo fantástico mágico: reportagem de qualidade literária seria aquela na qual se reconhecesse algo de um Rulfo, Fuentes, Marques, Roa Bastos, Asturias ou Carpentier.

Teria apenas uma observação sobre o que está em Versus – Páginas da Utopia, relativamente à saída de Faerman e outros colaboradores, por causa da transformação do jornal em veículo da Convergência Socialista. É certo que aquilo – a associação à tendência morenista do trotskismo – aconteceu por iniciativa do próprio Faerman. Outros participantes de primeira hora já se haviam afastado, descontentes com isso. E Versus acabaria de um modo ou de outro, quer fosse ao definhar como jornal de uma facção, como ocorreu, ou por qualquer outra das múltiplas causas que provocaram o encerramento do ciclo da imprensa independente no Brasil – e, concomitantemente e a seguir, também de jornais da grande imprensa (imagino o desalento de Marcão, se visse em que se transformou o Jornal da Tarde). Talvez, sem os militantes trotskistas a trabalharem na redação, passarem a noite na gráfica e venderem jornais nas ruas, tivesse acabado antes, financeiramente exaurido: basta lembrar que Versus pagava editores e colaborações, coisa que hoje muitos órgãos da “grande imprensa” se dispensam de fazer (eu mesmo recebia algo pela página dupla de poesia que preparei, das edições 16 a 23). Minha relação com os que ficaram em Versus após a ruptura é cordial – participei inclusive como jurado de um produzidíssimo concurso literário promovido por Omar de Barrosa Filho, o Matico em 1987. Mas não dá para aceitar as afirmações de Matico no prefácio, sobre o racha e suas conseqüências, as divergências do passado, que hoje soam pueris, dizendo que o tempo, como sempre, tratou dos ressentimentos. Coisa nenhuma. Houve traição. Marcão não engoliu o episódio e nunca quis saber de reaproximação com os que ficaram. E, convencido de que, da militância de orientação marxista, em suas várias facções, do estalinismo, do maoísmo ou da ortodoxia soviética aos grupos trotskistas, nada viria a não ser autoritarismo, o antigo quadro de organizações clandestinas abraçou desde então o ideário social-democrata. Uma das conseqüências, um episódio memorável, logo a seguir, na redação de Singular e Plural, quando propôs o exame da invasão do Camboja pelo Vietnã, justificando a pauta com a observação de que, pela teoria, seria impossível um país socialista entrar em guerra com outro. Rodolfo Konder, Paulo Markun e Marco Antonio Rocha, entre outros presentes, devem lembrar-se do ambiente naquela reunião. Em 1979, Marcão antevia o 1989 berlinense e o 1991 soviético.

Complementando meu prefácio de Com as Mãos Sujas de Sangue, republico também, para agregar informação biográfica, o que escrevi quando Faerman morreu em 1999, e que na ocasião saiu no Zero Hora de Porto Alegre.

 

Felipe Ehrenberg1. MARCOS FAERMAN, REPÓRTER DO NOSSO TEMPO (prefácio)

Há momentos nos quais tudo se torna denúncia e chamado à conscientização, pelo simples fato de mostrar o que está aí, as coisas que estão acontecendo. Contrariando as proclamações saudosistas da morte ou decadência do gênero, estamos vivendo um tempo de reportagens. Nunca a produção jornalística brasileira foi tão diversificada, criativa e instigante como nos últimos anos. E também nunca se mostrou tão importante como instrumento de crítica e transformação da realidade. Nossa história recente tem sido escrita por e a partir de reportagens, algumas delas antológicas pela contribuição decisiva para romper a dicotomia entre os dois Brasis, o país oficial impingido pela propaganda oficial coadjuvada por todas as formas de arbítrio, censura e mistificação, e o país real, nossa verdadeira realidade.

Na medida em que as pessoas têm algo a dizer, reportagens e textos que se apresentam como especificamente literários tendem a coincidir na mesma dimensão de reivindicação e testemunho. Nosso jornalismo tem permeado as demais formas da criação literária, com a conseqüente floração de romances-reportagem e de reportagens editadas em forma de livro. Estes anos recentes de repressão deixaram, entre outras coisas, um saldo de grandes textos de ficção que são descrições ou representações alegóricas da nossa realidade social e institucional, e de reportagens detentoras das melhores qualidades da criação literária. Nomes como Loyola, Konder, Jordão, Pompeu, Louzeiro, Ângelo, entre outros, figuram ao mesmo tempo como expoentes do jornalismo e autores de denúncias corajosas das manifestações do arbítrio, e de contribuições definitivas ao acervo da nossa cultura literária.

Este é, portanto, o momento oportuno para avaliar o verdadeiro alcance de um trabalho como o de Marcos Faerman. O enriquecimento da produção jornalística, já consubstanciado em uma bibliografia considerável de obras de profissionais do setor e de antologias de reportagens, é o contexto apropriado para uma reflexão mais atenta sobre a natureza da linguagem jornalística e sua verdadeira função crítica.

Ao longo de seus quase vinte anos de carreira na imprensa, Faerman teve ocasião de abordar em primeira mão temas que subsequentemente viriam a comover a opinião pública. Como repórter, trouxe para as páginas do Jornal da Tarde – onde trabalha desde 1968 – histórias como a do absurdo internamento do líder messiânico Aparecido Galdino dos Santos; o assassinato da senhora Bensandon por policiais por causa de uma briga de vizinhos; [1] a farsa do julgamento dos autores do massacre dos índios Cintas-Largas; [2] as tentativas de expulsão pela força dos caiçaras moradores da praia de Trindade por um empreendimento imobiliário; o envenenamento da Enseada dos Tainheiros e as várias modalidades de pressão para expulsar os favelados que ali viviam; a expropriação das terras dos Guaranis e Tupiniquins por uma multinacional de celulose; e tantas outras histórias, algumas delas, nesta altura, contribuições definitivas à memória nacional, outras, temas atuais e que continuam em andamento.

Marcos Faerman dedicou-se também à imprensa dita “alternativa”.

E o texto mais pessoal, dentre aqueles que compõem a presente coletânea, foi originariamente publicado no Jornal Versus, do qual foi fundador e que durante anos esteve sob sua direção. Aqueles Antigos Chetás, Agora Sombras, é uma seqüência de interrogações: afinal, quem e quantos foram os Chetás? A dúvida cresce ao longo desse belo texto, no qual se fundem a crônica, a narrativa e o poema, até chegar às questões essenciais: Será que tudo isto é verdade? Como distinguir o real apenas entrevisto, os tênues indícios de um grupo de índios aniquilados, objetos rituais e naturalistas estrangeiros, de uma fantasia delirante do narrador?

Essa questão fundamental, sobre a realidade do que está sendo descrito, ou sobre a articulação entre o conteúdo da reportagem e aquilo que seria o “real”, permanece implícita nos demais textos, subjazendo à narrativa e orientando-a. Com efeito, todas elas poderiam não ser verdadeiras: poderiam pertencer ao campo do imaginário e ser tomadas por obras de ficção, exercícios de imaginação criadora, não estivessem avalizadas pela chancela de um órgão de comunicação e secundadas por outros dados e referências como garantia de sua credibilidade. Histórias como a do vigia morto, do suicida da Baixada do Glicério, do rapaz gratuitamente assassinado por policiais, podiam ter saído das páginas de Hammett, Chandler ou algum outro mestre do gênero. A descrição da seca de Irecê, da perseguição aos trindadeiros, da vida nas palafitas da Enseada dos Tainheiros, poderiam ser subscritas por um Rulfo, um García Marques ou outro expoente do “realismo fantástico”.

Estamos, portanto, diante de uma obra que, ao apontar para a fragilidade da fronteira entre fato e ficção, entre o imaginário e o real, abre-se para vários níveis de leitura: como fruição do “prazer do texto”; como conjunto de documentos históricos e sociológicos; como alegoria e reflexão mais ampla sobre a condição humana; e como criação de códigos e metalinguagem. Uma das conseqüências desse jornalismo mais solto e “subjetivo”, desvinculado de critérios formais e restritivos de como seria um modo academicamente “certo” de fazer reportagem, sem pudor de ser “literário”, ou seja, honesto, belo e sensível como texto, é a existência de um estilo pessoal, diferenciado do restante da produção do gênero. O texto vivo e pulsante, explícita ou implicitamente formulado na primeira pessoa, expressa acima de tudo um compromisso com o real, e com a necessidade de representá-lo da forma mais fiel, conferindo-lhe um sentido. Para citar Derrida, “entre a carne demasiado viva do acontecimento literal e a pele fria do conceito corre o sentido”. [3]

Felipe EhrenbergUma das características do estilo de Faerman é a não-linearidade, o discurso por vezes fragmentário e descontínuo, em alguns casos resultando em uma colagem ou montagem de fragmentos do texto e de impressões. Essa não-linearidade deve-se ao autor assumir plenamente suas interrogações e dúvidas, seus sentimentos de inquietação, hesitação e perplexidade diante da complexidade dos temas tratados. Há uma suspeita sempre presente nas entrelinhas de que a história não termina por aí, que vai além e não se esgota nos fatos aparentes, e que sempre sobrará alguma coisa para ser dita. Nota-se uma estratégia no percurso para chegar ao fundamental, aos fatos que efetivamente interessam: o texto dá voltas, tem uma trajetória, como que movendo-se em um itinerário complexo em busca de seus sujeitos, abrindo parênteses que são novas narrativas, mostrando que cada história, por sua vez, contém outras histórias.

Embora isso aconteça em todas as narrativas, o caso mais flagrante de inclusão, de um texto desdobrando-se em outros, é Os Últimos Tupiniquins, que se abre para, por sua vez, relatar a desgraça dos Guaranis. Traço distintivo do autor e signo da sua inquietação, a reportagem é aberta com uma série de perguntas: como eram os Tupiniquins, o que aconteceu antes da chegada do repórter? “São histórias que o sertão esconde”, lembrando-nos que reportagens, bem como as demais formas da linguagem e do registro dos fatos apenas levantam a ponta do véu, selecionando e privilegiando algum fragmento de um todo. O verdadeiramente inquietante, para Faerman, não é o que está relatando, porém o restante, o não-dito, o escamoteado, o indizível. Não estamos diante de um jornalista empenhado em garantir a boa consciência e a paz de espírito dos leitores, deixando-os repousar na crença de que estão sendo informados de alguma coisa. Faerman é o repórter do não-fato, da anti-reportagem, das dúvidas e vazios no texto. Esse questionamento do alcance da reportagem faz que o texto cumpra ao mesmo tempo uma função metalingüística, de crítica do jornalismo, e, em termos mais gerais, de crítica e relativização das nossas categorias de conhecimento.

A história dos Últimos Tupiniquins começa com a descrição do “homem baixo, com a calça esfarrapada e a cara curtida”, que “não se parece com os tupiniquins dos bancos escolares, com suas penas, com suas flechas”. Um caboclo como qualquer outro, chamado Alexandre – mas não é um caboclo como outro qualquer, e sim o chefe dos Tupiniquins. Um índio que não é um índio, um chefe com cara de homem comum, advertindo-nos de que as coisas não são o que parecem, de que o aparente é mistificador quando visto pela ótica dos “bancos escolares” e demais fontes e veículos de um conhecimento estereotipado.

 A narrativa do caboclo/chefe é interrompida pela chegada de outro. Só que este é um Guarani, remanescente do grupo dizimado no Sul do país e que partiu em busca da Terra sem Males, território mítico situado “depois do litoral” onde não sofreriam mais perseguições. A reportagem abre-se para o relato da busca da Terra sem Males, contando como os Guaranis, após séculos de peregrinação, chegaram a um lugar inóspito e frio de Minas Gerais, sob a tutela da Funai, para então desistirem e passarem a viver com os Tupiniquins. O contato com esses Guaranis guiados por uma crença mítica em um território adâmico reativou nos Tupiniquins, já completamente aculturados, “o amor pela condição de índio. E iria lhes ensinar que índio é um índio e branco é um branco”, levando-os a retomar seus costumes e tradições. Atualmente, ambos os grupos, Guaranis e Tupiniquins, compartilham a tragédia adicional de estarem sendo expulsos das poucas terras que ocupavam por uma multinacional da celulose, a Aracruz.

O relato da Terra sem Males faz parte desse imenso acervo “das muitas histórias sem historiador que se descobrem no interior do Brasil”, as “histórias, histórias do sertão que o sertão esconde”, ou seja, a verdadeira história desse país. Também é uma parábola, e como tal das mais terríveis, colocando em questão o sentido do mundo, o devir humano em nossa civilização e a inutilidade de um fazer que não leva a nada, guiado por crenças ilusórias. Há uma tensão, um sinistro contraponto, neste episódio e em outros narrados em Com as mãos sujas de sangue, entre histórias de pessoas que vagam pela superfície do planeta sem chegar a lugar algum, e aquelas que estão em algum lugar, que dispõem de um espaço mínimo para viver, e são obrigadas a sair e retomar a errância planetária: tupiniquins, trindadeiros, habitantes da favela expulsos por um incêndio.

O tema da errância é retomado na história da Madeira-Mamoré, a fantasmagórica ferrovia que deveria unir dois países e dois oceanos, e que na verdade acabou levando do nada ao lugar nenhum, cuja construção foi levada a termo à custa de milhares de vidas e uma horda de destroços humanos vagando pela Amazônia. E há também o tema dos lugares impossíveis, a saga dos seres humanos sediados no não-lugar, onde a miséria e degradação são absolutas. Como esse anverso da nossa civilização e de todos os seus valores aparentemente professados, a fantástica cidade das palafitas no alagado de Tainheiros na Bahia, casas suspensas sobre a lama em um lugar que não é água nem terra, ainda por cima bombardeado por venenosos resíduos industriais. “Nos Alagados nenhuma das nossas referências funciona”, pois estamos “no mundo irreal dos homens-peixes equilibrados sobre as pernas bambas das casas que o vento e o mar derrubam”, surpreendendo os habitantes do “mundo normal”. Também do rol de lugares impossíveis, a favela periodicamente incendiada e sempre reconstruída de Gênesis, cujos moradores demonstram que “a vida é mais forte que qualquer coisa”. E a favela do Sapo, onde mora um “poeta que guarda seus escritos em uma caixa de biscoitos”, personagem tratado com particular carinho, talvez por simbolizar, com sua crônica inútil e obsessiva do que se passa ao redor, a própria condição do jornalista em nossa sociedade.

E há lugares que não existem mais, acabaram de vez: contrapondo-se a Gênesis, a reconstrução do espaço, Irecê, “que não existe mais, acabou”, durante a seca que assolou o sertão da Bahia. Em Irecê, a reportagem explode: a violência dos fatos, as cenas dantescas proporcionadas por esse povoado de pessoas no limite da sobrevivência, o lugar invadido pelas cobras, os sobreviventes perguntando ao repórter, “o senhor é da chuva?”, tudo isso faz com que o texto se desmonte e se desestruture. Uma das partes da matéria, “vozes da feira”, consiste em uma sucessão delirante de falas, verdadeiro teatro do absurdo; em outra, as frases se contorcem e vão se empilhando e formando poemas: a épica dessas pessoas para as quais “a felicidade é uma refeição por dia”.

Felipe EhrenbergA inquietação que pulsa no texto de Faerman, levando-o a transpor a fronteira de um jornalismo tomado em seu sentido mais estrito, confere-lhe grandeza literária pelo exercício da “interrogação radical”, na acepção dada ao termo por Maurice Blanchot: “Será o homem capaz de uma interrogação radical, isto é, afinal de contas será o homem capaz de literatura?” [4] Os textos que compõem Com as Mãos Sujas de Sangue partilham com a literatura, entre outros atributos, aquele que Roland Barthes denomina “valor interrogativo”:

Pode-se conceder à literatura um valor essencialmente interrogativo: a literatura torna-se então o signo (e talvez o único signo possível) desta opacidade histórica na qual vivemos subjetivamente: admiravelmente servido por aquele sistema decepcionante que, a meu ver, constitui a literatura, o escritor pode, então, engajar profundamente sua obra no mundo, nas perguntas do mundo, mas suspender esse engajamento precisamente ali onde os partidos, as doutrinas, os grupos, lhe sopram uma resposta. A interrogação da literatura é então, num único e mesmo movimento, ínfima (com relação á necessidade do mundo) e essencial (já que é essa interrogação que a constitui). Essa interrogação não é: qual o sentido do mundo? nem mesmo, talvez: o mundo tem um sentido? mas somente: eis o mundo: existe um sentido nele? [5]

O próprio Faerman, em estudos já publicados, tem apontado para a sobreposição do jornalismo e criação literária. Seus textos sobre correspondentes de guerra, uma dos temas de sua predileção, mostram como as coisas se confundem nas situações-limite. A Guerra Civil da Espanha teve como correspondentes Malraux, Orwell, Dos Passos, Hemingway e Koestler. Em outros momentos, a verdade histórica, deformada pela censura, pelo facciosismo dos narradores ou dos editores de jornais, é subsequentemente resgatada pelo romance, como nas duas guerras mundiais: “Retratos desses dias vão aparecer depois em livros como “Uma Arma para Johnny” de Dalton Trumbo ou “Os Nus e os Mortos” de Norma Mailer. A ficção é um espaço que busca, então, reencontrar o real – quando o real é jogado para o círculo restrito da vivência individual dos fatos, pelos seus autores”. [6]

Na mesma linha de raciocínio, Faerman tem chamado a atenção para a raiz comum ao jornalismo e à narrativa de ficção: a poesia épica de transmissão oral, com sua função de preservar a memória e a identidade dos povos, e o relato histórico. A paternidade nem sempre assumida do jornalismo passa por Homero e Heródoto. Faerman também situa entre suas referências e influências mais imediatas um romancista documental como John dos Passos, e James Agee, jornalista genial que teve seu primeiro trabalho de reportagem, agora antológico, recusado por ser “literário”.

O interesse e fascinação pelos correspondentes de guerra deriva de não se tratar de uma situação atípica, mas de um caso-limite, que simboliza a própria condição do repórter autêntico: em pleno front, em uma luta constante para captar uma realidade dinâmica e fluida, às voltas com os mais complexos impasses e dilemas épicos, buscando preservar a integridade da sua narrativa e do seu compromisso com a verdade diante das mais variadas formas de censura e manipulação da informação. Outro personagem arquetípico para o repórter é representado pelo detetive das histórias policiais, com sua busca obsessiva e incansável da solução de algum mistério.

Os papéis de sobrepõem facilmente: Faerman em certa ocasião exerceu concretamente essa função de detetive, descobrindo os culpados por um assassinato, e mostrando que o crime da família Besandon havia sido cometido por policiais. E um de seus personagens-referência, objeto de um detalhado estudo publicado no Jornal Versus, é Rodolfo Walsh, o argentino cuja biografia fascinante inclui as funções de escritor policial, brilhante jornalista e detetive, empenhado em desvendar crimes políticos na Argentina, até ser ele mesmo assassinado pelos agentes daquelas forças sinistras cujo funcionamento tentava expor.

Para Aníbal Ford, estudioso da obra de Walsh, seu trabalho “faz cambalear a linha divisória que separa literatura e jornalismo, recordando a superficialidade dessa divisão desde que vista a partir dos níveis mais profundos onde opera a cultura, e particularmente a partir da perspectiva histórica de uma cultura dependente”. [7] O jornalismo autêntico, tal como praticado por um Walsh, um Faerman, e todos aqueles empenhados em um “resgate dramático, interrogativo e afetivo, replicando fatos e personagens”, passa a ser “uma forma de mostrar os fatos e de refletir sobre o real que no fundo pode ser chamado de literatura se aceitarmos que esta não é necessariamente ficção”. A biografia de Walsh, e de tantos outros jornalistas assassinados por ditaduras, mostra o quanto este resgate pode ser dramático e arriscado nos países colonizados, dependentes e oprimidos por regimes autoritários.

E é exatamente em tais condições que a função crítica do textos e torna mais importante. Jornalistas e escritores compartilham a mesma trincheira no mesmo front, nessa tarefa de descolonização a partir do texto tão bem definida por Silviano Santiago: “O escritor latino-americano nos ensina que é preciso liberar a imagem de uma América Latina sorridente e feliz, o carnaval e a fiesta, colônia de férias para turismo cultural”. Nessas condições, “o silêncio seria a resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda o eco sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do poder conquistador. Falar, escrever, significa: falar contra, escrever contra.” [8] O silêncio, e também, acrescentaria, a submissão aos estereótipos e convenções de um jornalismo “certo” e “objetivo”, ou seja, emasculado e submisso à linguagem do poder, atualmente correndo o risco de ser circunscrito à posse de um diploma universitário, muito mais que a este tipo de compromisso moral tão bem exemplificado por Com as Mãos Sujas de Sangue, e que, em sua essência, consiste em um ato de amor e de engajamento na causa de todos os oprimidos e explorados sobre a face deste planeta.

Felipe Ehrenberg 

NOTAS

1. O “caso Bensandon” já foi publicado em livro, em Violência e Repressão, coletânea de reprotagens de Percival de Souza, Marcos Faerman e Fernando Portela, ed. Símbolo, 1978.

2. Também publicado em Violência e Repressão.

3. Jacques Derrida, A Escritura e a Diferença, ed. Perspectiva, 1971.

4. A citação é do livro de Derrida.

5. Roland Barthes, em Crítica e Verdade, coletânea de textos da Perspectiva, 1969.

6. “As Aventuras e Desventuras de uma Tribo sem Sorte”, no Jornal da Tarde de 19/8/78 – também “Correspondente de Guerra”, Jornal da Tarde de 30/6/79.

7. “Walsh, la reconstrucción de los hechos”, por A. Ford, em “Nueva Novela Latino Americana”, org. por J. Lafforgue, ed. Paidós, 1972.

8. Silviano Santiago, Uma Literatura nos Trópicos, ed. Perspectiva, 1978.

 

 

2. ARS LONGA, VITA BREVIS (depoimento)

Ars longa, vita brevis, é o que dizem dos criadores que morrem cedo. Aplica-se a Marcos Faerman, cuja vida intensa e produtiva, por suas realizações como repórter, criador e editor de periódicos, professor de jornalismo, escritor e administrador cultural, encerrou-se a 12 de fevereiro de 1999, aos 55 anos. Mas, se houvesse chegado aos 70, sua quantidade de idéias e projetos também sobraria. Era daqueles cuja criatividade e talento não se ajustavam ao limite dos ponteiros de relógios. Regido pela paixão, transmitia sempre a impressão de iniciar uma insurreição libertária, no jornalismo, na política, na administração cultural e no dia-a-dia.

Gaúcho (gremista fanático), depois de militar na imprensa estudantil e trabalhar no Zero Hora, veio em 1968 para São Paulo e o Jornal da Tarde, onde permaneceu até os anos 90. Dispondo de liberdade de atuação, fazia reportagem geral, inclusive policial, e, ao mesmo tempo, matérias no Caderno de Leituras sobre Herman Melville, Jack London ou Malraux, sobre Baudelaire ou Rimbaud, autores aventureiros ou transgressivos.

Levado por outra figura anárquica do jornalismo, seu conterrâneo Tarso de Castro, colaborou no Pasquim. Integrou a equipe dos inovadores Bondinho e Ex. Em 1975, deu sua grande contribuição à florescente imprensa alternativa daquela década, com Versus, jornal-ponte, encontro de diferentes vozes, tendências e preocupações, reduto da resistência interessado em tudo o que fosse revolucionário e instigante, a ponto de publicar, em primeira mão, o Van Gogh de Artaud. Propunha-se ao diálogo latino-americano, à aproximação com o restante do continente, pelo concurso de Eduardo Galeano (cuja Crisis tomava como modelo), Diane Belessi e outros. De modo pioneiro, abriu uma editoria para movimentos afro-brasileiros, e acompanhou de perto grupos e movimentos feministas.

Foi uma realização da sincronicidade encontrar Faerman em 1977, e este imediatamente convidar-me para fazer uma seção dedicada à poesia em um jornal que, desde o primeiro número, me pareceu, de toda a imprensa alternativa, aquele onde gostaria de escrever. Cito o episódio como um dos inumeráveis exemplos de seu generoso empenho em publicar e divulgar todos aqueles em quem vislumbrasse competência para alguma coisa.

Descontente com o alinhamento de Versus, deixou-o em 1978, para criar a revista Singular e Plural. Eclética, fervilhante, durou apenas seis números; certamente, não por falta de assunto e substância, mas por excesso. A ecumênica redação, com Audálio Dantas como editor, Cláudio Abramo e Rodolfo Konder, em parceria, na editoria de Internacional, e outros jornalistas de primeira linha, abria-se para então estreantes como Miguel de Almeida e Leão Serva (assim como, em Versus, havia-se feito notar Wagner Carelli, entre tantos outros em evidência que começaram ou se projetaram nas publicações de Faerman).

Dedicou-se, também, à comunidade judaica, editando Shalom e a revista da Hebraica. Esteve à frente da tentativa de uma edição brasileira de Crisis, que durou dois números. Lecionou jornalismo na PUC de Santos e, ultimamente, na Cásper Líbero, responsável por um arrojado jornal-laboratório, Esquinas. Depois de organizar eventos culturais em outros lugares, como o SESC, dirigiu, de 1993 a 95, o Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura. Pode ter surpreendido, ao escolher o patrimônio histórico, e não uma assessoria de comunicações. Mas, jornalista-historiador, repórter-arqueólogo, para ele vanguardismo e resgate da memória eram faces da mesma moeda. Saber enxergar o passado conferia solidez a suas inovações. Em 1994, comemorou os 440 anos do IV Centenário de São Paulo a seu modo: ao mesmo tempo, no Solar da Marquesa, a exposição fotográfica sobre os anos 50; no andar de cima do casarão histórico, a instalação de Guto Lacaz, alegoria do período; lançou a revista Cidade, toda de depoimentos; durante o Carnaval, em pleno marco zero da cidade, promoveu um festival de teatro ao ar livre incluindo a ousada encenação dos Mistérios Gozosos por Zé Celso.

Evocar mortos faz sentido quando deixam algo a ser apontado como modelo, lição de vida. No caso de Faerman, principalmente a valorização da cultura literária, em seus cursos, palestras e artigos sobre história da reportagem. Condensado, seu ideário jornalístico está no que escreveu para a coletânea Repórteres, preparada por Audálio Dantas (Editora Senac, 1998). Novamente, traçou uma história do jornalismo e da reportagem indissociável daquela da literatura, ao começar em Heródoto e passar por Daniel Defoe e todos os escritores que foram cronistas de seu tempo. Reiterou a equiparação de John Reed, James Agee e Tom Wolfe, e John dos Passos, André Malraux e Steinbeck. Insistiu em que o jornalista tem que ler muito, pesquisar, vasculhar bibliotecas, sebos, livrarias, bancas. Jamais deixou de praticar essa recomendação: leitor voraz, quantas vezes não me telefonou, entusiasmado pela descoberta, em alguma loja de livros baratos, dessa ou daquela obra que, por algum motivo, merecia interesse.

Marcão, como o chamavam, foi o inimigo da burocratização do jornalismo, da edição segundo fórmulas e modelos. O defensor da grande reportagem, do jornalismo-aventura, no qual é preciso ir lá, envolver-se; o oposto do que é feito nas mesas da redação, recebendo informações passivamente das agências, quando muito checando-as pelo telefone. Chegou, por isso, como repórter, a desvendar crimes. O estilo literário nunca o impediu de obedecer ao requisito fundamental da precisão e clareza nos quando, onde e o que. A capacidade de aliar criatividade à informação factual fez que recebesse tantos prêmios, inclusive o Esso. A eloqüência e cultura o levaram a ser convidado a dar cursos e palestras.

Será lembrado, creio, como o mais radicalmente literário dos nossos repórteres. Sua coletânea Com as mãos sujas de sangue (Editora Global, 1980) merece releitura pelas ousadias até hoje insuperadas, as reportagens na primeira pessoa, em tom de crônica, monólogo interior e prosa poética. Não-linear, encaixava histórias dentro de histórias; metalingüístico, interrogava-se sobre o que estava acontecendo; procurava, especialmente em dramáticas matérias sobre grupos indígenas extintos ou em desaparição, apontar para a informação perdida, o não-dito, os silêncios irreversíveis. Deixou textos que se sustentariam fora do âmbito jornalístico, e seriam lidos com prazer e atenção se apresentados como ficção. Nada tenho a retificar ao que escrevi sobre ele, na ocasião, em dez páginas de prefácio. E teria muito, muito mesmo, a acrescentar.

Claudio Willer (Brasil, 1940). Um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Felipe Ehrenberg (México).

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