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revista de cultura # 63 |
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artista convidada |
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Mayte Bayon ou as radiografias da vida Nicolau Saião
Era um dia de muito calor e uma triste tarefa ali me levava: acompanhar os funerais do poeta J.O.Travanca-Rego, que uma súbita e infausta morte fulminara. Finalizada a soturna cerimónia que num outro texto evoquei por extenso, para me animar rumei a Badajoz visando embrenhar-me no quotidiano dessa cidade movimentada e alegre - que aprecio não só por ela mesma mas também porque me deixa entrever o halo de aventura que sempre sinto ao cruzá-la na direcção da Andaluzia onde com frequencia me perco e me encontro - e, ainda, porque através dos anos criei nela alguns confrades e certos amigos que me é grato contactar fraternalmente. Instintivamente, como um animal acossado, busquei a gárrula cidade como que para afastar de mim as sombras da morte que o passamento me deixara coladas. E foi no lar dum desses amigos, após um reconfortante jantar, que um rebento do casal, rapazola de primeiros estudos, me suscitou para ir à Net vistoriar certas coisas interesantes que ali achara. Em resumo: pus-me consequentemente a navegar um pouco, como intemerato descendente dos descobridores de outrora, ainda que o meu veleiro não estivesse, como os deles estavam, sujeito a mares de calmaria excessiva e imobilizadora ou a borrascas súbitas e atordoantes. Sem que me lembre bem como, fui dar a um site de pintura e pintores. E correndo por ali fora no encalço dos nomes deles, achei e vi dois que me fizeram ganhar a tarde: o americano do Oeste Lyle Carbajal e a espanholíssima, mas com um timbre universal, Mayte Bayon. Fiquei tão impressionado com a pintura destes dois – que ainda mais se destacavam num mar de relativa impessoalidade e de convencional imitação que se arrastavam no site em causa – que depois do regresso a Portalegre, logo no dia seguinte, fiz dois poemas que os celebravam e à excelência da pintura deles. Pouco tempo depois publiquei-os, de juntura com outros dois dedicados a Hundertwasser e Morandi, numa conceituada revista ibérica por solicitação estimável dum dos seus mantenedores. Foram os primeiros do bloco a que depois chamaria “Poemas desenhados”.
*** É possível fotografar a alma? Parece que, no mundo da Ciência, as opiniões se dividem: uns asseguram-nos que isso de alma é só mera convenção para comparticipativas efabulações simbólicas, ao passo que outros, mais desempoeirados no que diz parte a afirmativas religações, navegando pelos mares onde as ilhas fabulosas têm a obstinação de gostar de aparecer, nos dizem com soma de pormenores que essa substância etérea é mais consistente que a realidade real dos séculos. Pode, portanto, fotografar-se a alma? Não o iria jurar. No entanto tenho para mim que, embora duma forma muito própria, inconvencional e matérica, há frequentações pelo menos aproximativas. No continente, está de ver, onde cobram existência civil os mitos, as lendas, as deambulações comezinhas de gente com uma forma muito peculiar e espiritual de se deslocar através do espaço e do tempo – aqueles que, sendo pintores e poetas das mais desvairadas congeminações, exercem no quotidiano o seu múnus inquietante ou sedutor. Mayte Bayon, através das obras onde se inscreve, até mediante as cores com que as constrói, uma aparente estranheza que, no fundo, aponta para os dias e as horas de quem se interroga sob o firmamento do quotidiano mais habitual, se não nos dá a foto reconhecível da alma, das almas do mundo, patenteia-nos indubitavelmente as radiografias de seres inventados, de seres inteiramente fantasiados - ou seja: mais reais que as figuras fortuitas que passam por nós numa megalópole ou num terrain vague e, em questão de horas, desaparecem para sempre e apenas deixam um resíduo nos nossos olhos interiores, lugares onde os símbolos e as realidades se encontram como num universo absoluta e simplesmente imaginário. ***
Nesta pintora, o recurso ao simbólico e a efectivação do desejo íntimo partem sempre de algo que vai dar, como numa imaginária linha recta, às memórias da espécie – mas da espécie universal: é perceptível a linha que, nela e numa linguagem bem moderna, vai contudo encontrar-se e entroncar com as pinturas dos aborígenes australianos e os quadros de areia dos navajos e dos lakotas (ambos seres de serenidade e de ligação ao solo que sabiam entender-se com os plainos desérticos e com os horizontes boscosos, ainda que existindo a milhares de quilómetros de distancia). Mayte Bayon é como que a terceira linha, o terceiro lado, o terceiro ângulo deste triângulo universal que liga antiguidade plena e plena modernidade através duma linguagem comum, salubre e fundacional em que o conhecimento e a possível sabedoria, para nosso bem e nossa salvação íntegra, acabarão por se encontrar e, assim, permanecer salutarmente. O que leremos a seguir é uma "conferência", texto inserido na performance "Extravagancias y aciertos de la Drª Bayón" - dada pela própria artista e que consistiu ainda na projecção de imagens de uma operação cirúrgica e "entrevista" - na qual Mayte desempenhou todos os papéis." [Casa do Atalaião de Portalegre, em 25 de Abril de 2008]
ADVERTENCIA
A LOS CEREBROS MENORES
La mente enferma o vacía sólo tiene pensamientos como torbellinos que giran en redondo y no conducen a ninguna parte, sólo absorben energía y la trituran como una máquina poderosa, para transformar los pensamientos en algo repetitivo que enloquece. ¿Cómo prescindir de los propios sentimientos, cómo generar ideas diferentes y discurrir por otros derroteros? El transplante de cerebro ayudaría a descansar de uno mismo y ser otro, pero ¿qué sabemos de los pensamientos atroces que puede tener otra persona, emociones inconfesables que atormentan, obsesiones ridículas y que ante una aparente tranquilidad esconden un desasosiego maligno? De todas formas siempre hay seres excepcionales que parecen emanar una serenidad increíble, de hecho son gente extraordinaria, donde un cerebro benevolente les deja pensar y vivir sin tormento; o quizás posean una claridad bienhechora, que hace que estas personas sean razonablemente sabias y vivan sin disturbios ni contradicciones. Pero ¿que puede suceder cuándo un cerebro diminuto y exhausto se ve sometido a una prueba de máxima tensión? Puede suceder que las terminales nerviosas, todas al unísono, provoquen una descarga y realmente se produzca la pataleta, o lo que es igual, que te dé un ataque de nervios. En este caso lo mejor es entregarse sin reservas, dejar que todas las emociones dislocadas se liberen. Y ahí siempre deberá imperar la estética, todos hemos visto estados lamentables y hasta ridículos; pero ¿no es acaso esa experiencia ridícula algo apoteósico, donde las emociones exacerbadas, exceden con mucho lo que el pequeño cerebro mediocre está preparado a soportar? Quizás por ello, debemos, los que por desgracia disponemos de cerebros y químicas menores, debemos, digo, dar rienda suelta a estos furores, ya que no disponemos de recursos para experimentar excelsas o serenas experiencias, o hermosos arrebatos que cambian en su profundidad de pensamiento, la trayectoria de la persona en cuestión, que a partir de semejante revelación, adquiere una clarividencia que más de uno quisiera para sí. Pero debido a la pobreza de espíritu, es decir al pequeño campo de acción de que dispone el pánfilo, ha de aprovechar al máximo las posibilidades que tiene o que el azar regala, que no son muchas.
Cuando la acción va a palo seco, siempre obra con brutalidad, pero también es cierto que cuando esto sucede, así, al desnudo, ya sea una desgracia o la convulsión de un desaforado, tiene siempre una repercusión perpleja de incredulidad, tanto en el que actúa como en el espectador, y es frecuente la transformación del lugar que ejerce como decorado, adquiriendo unos matices de irrealidad que, a veces, incluso hasta quedan retenidos en la memoria para siempre como una tragedia grandiosa. Por estas razones, cuando una mente ordinaria presienta que algún hecho o circunstancia va a trastocar su cerebro mediocre, debe dejarse arrastrar por esta convulsión y experimentar emociones que rayan con lo divino, pues el sentimiento obnubilado encuentra sensaciones de grandeza, y ahí es donde el cerebro debe sacar partido, aprovechando las ocasiones singulares, para disfrutar lo que en la vida corriente le está vetado, por falta de ocasiones y sobre todo por su insignificancia. Es aconsejable que estas personas ordinarias no se devanen los sesos pues esto no les conduce más que a un ir y venir por los mismos senderos transitados, siendo peligroso, por lo estúpido y porque estos seres no tienen recursos y caen en trampas absortas, donde además se ven privados de los arrebatos circunstanciales, tan necesarios para ellos. |
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Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e ensaísta. Autor de livros como Passagem de nível (1992), Flauta de Pan (1998) e Os olhares perdidos (2000). Contato: nicolau19@yahoo.com. Página ilustrada com obras da artista Mayte Bayon (Espanha). |
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